Indignado por seu filho não ter sequer conseguido passar para a 2ª fase do vestibular da Unicamp pelo terceiro ano consecutivo estava se sentindo deprimido e decidiu pegar uns troquinhos que Dolores guardava escondido (coitada, uma tola) e sorrateiramente foi fazer fezinha na banca do Ramiro.
Sonhou com cobra e que fez no jogo cercando-a de cabo a rabo quando viu no poste tratou de ir no Ramiro pegar a grana.
Logo veio à mente que necessitava mostrar aos professores, doutores e quem mais for da universidade que o seu "hijo" não era um Zé Qualquer.
Procurou em um brechó uma roupa que viesse a dar à sua pessoa um ar superior e pediu uma vestimenta para ocasiões especiais, de grande luxo. O balconista pensando na comissão mostrou-lhe um smoking, que caiu como uma luva.
Faltava-lhe a camisa e a gravata. Depois de revirar e jogar em cima do pequeno balcão sacolas e mais sacolas de roupas usadas, notaram uma camisa branca de cetim, contendo muitos babados, acompanhada de uma gravata borboleta que ele, de imediato se apaixonou.
Saiu da loja com o embrulho, sentindo-se que já estava ocorrendo dentro de si uma mudança enorme, como um verdadeiro Dom Quixote de La Mancha.
Tomou o ônibus e no dia seguinte, devidamente aparentado, tomou um taxi em Barão Geraldo, perto da UNICAMP.
O taxista encaminhou-o a uma das guaritas da universidade e disse que o doutor precisava falar com o Reitor.
Estava iniciando um evento e o encarregado dele era um professor emérito da, cientista, ex-presidente da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) e presidente do Laboratório Nacional de Luz Sincroton que tinha notoriamente a fama de esquecido. Temendo que o homem vestido de forma tão diferente fosse um excêntrico estudioso da Ciência o conduziram ao auditório no qual o evento estava iniciando.
As recepcionistas receberam da secretária do idealizador do encontro ordens expressas que ele fosse tratado com deferência uma vez que deveria ser representante de um dos países vizinhos, por observar que seu português não era bom. Nem as credenciais deveriam pedir.
Procuraram não demonstrar surpresa e sutilmente seu nome obtiveram, confeccionando um crachá.
Ele, com muito orgulho, passou a ostentá-lo, ciente de que o escrito "Professor e Doutor" que precedia o nome dava status de superioridade perante aos demais.
Lamentou não ter um celular ou máquina, para que quando contasse em casa, tivemos meios para provar.
Improvisaram um lugar à mesa, com seu nome, um copo de água, microfone, porém com o pequeno erro de ter uma bandeirinha do Chile e não a sua terra mater, mas nem tudo é perfeito, pensou o mesmo.
Começou o evento com o discurso do Magnífico Reitor, que para o homem metido no smoking era interminável e por mais esforço que fizesse nada entendida. Sentia que o suor escorria da testa e ia diretamente aos olhos, que ardia, além do flash disparado pela câmera de algum fotógrafo inoportuno.
Muitos outros doutores ficaram discursando e se não fosse pela deferência com que haviam presenteado, ele estaria no gramado da entrada, e de preferência com um sanduíche de mortadela nas mãos e sem os sapatos apertados que o Juvenci, da Igreja tinha emprestado e era um número menor.
Pensou ele que fazia bem mais de duas horas que estava sentado, só escutando um blábláblá que nenhuma palavra entendia, quando deu um cutucão no sujeito ao lado perguntando se não havia nada para forrar o estomago e o vizinho, que presumidamente estava com dor no ouvido, sorriu e nada respondeu.
Quando Deus quis notou que estavam se levantando e fez o mesmo.
Sua última boa alimentação foi feita em casa no dia anterior e no trem apenas comeu uns sanduíches que Dolores fez com lingüiça e "solamente" e ele saiu, como predador, para se garantir e forrar o estômago, embora soubesse que o seria o momento ideal para falar com o Reitor, que de Magnífico nada tinha e deveria ter um montão de puxa saco.
Plantou-se bem perto da boca de entrada das bandejas e cada uma que passava, tirava um número razoável para que sua boca estivesse ocupada até a próxima e quando não havia mãos para segurar todas, depositava em um enfeito a fim de não perder uma só rodada.
Tocou uma sirene e ele, viu-se em um dilema: sentia-se tão notado lá em cima, ao lado de figurões, mas aquelas coisinhas servidas o prendia.
Não podendo deixar os quitutes abandonados, tirou do bolso o lenço que, "dichoso" lembrou que Dolores colocara e foi se sentar.
A seguir uns homens iam ao palco, hablavam mucho e despois mostravam em uma tela umas coisas estranhas e cada um dos sentados dava notas de um a dez e aprendera desde cedo com o pai que, cuánto mais severidad - mejor y mais respeito os demais teriam e colocara em pratica, dando avaliando indiscriminadamente todos os trabalhos com percentagem inferiores a cinco.
Teve um momento no qual o "hombre" mostrou um camarada mostrou a fotografia de um homem louco, mostrando a língua e ele ficou passado (desde pequeno na sua cidadezinha tinha aprendido com "tu madre" que tal gesto não teria "permission" de fazer) e quando todos os demais levantaram a mão, ele, não o fez.
Os acontecimentos a seguir foram estranhos e como se estivessem lhe dado uma grande deferência, foi encaminhado a uma sala hermeticamente fechada; isolada e limpa (chamavam de laboratório) e ele, com muita astúcia e graças aos exercícios aprendidos no circo conseguiu fugir.
Ao que seu portunhol entendeu - quem concordasse com a tal "teoria da relatividad" carecia levantar a mão.
Sem saber do que se tratava e por convicção de discordar ou ferrar com notas baixas os projetos que eram apresentados e prazer deixou os braços caídos, não o fizera e esperavam que ele tivesse provas para refutar o louco mostrador de língua.
Conversar com o reitor argumentando que o filho teria que ser aprovado no vestibular ficou relegado a segundo plano.
Ao chegar a casa, tiraria a camisa cheia de babados, a gravata borboleta que apertava o pescoço e diria ao filho que ele mesmo tinha ido à Instituição e tinha visto que ninguém de lá sabia nada.
Se não estiver tocado (contaminad pelo "sincroalguma"coza) irá hablar para Dolores que os hijos não vão para a Universidade e que continuem aprendendo tocar bandoneón para que um sucessor à altura de Astor Piazzola e Gardel de su heredero saia de família.
A roupa que foi comprada com o dinheiro do jogo de bicho será abrasada juntamente com a decepção causada pelos cientistas.
" Adios muchachos, compañeros de Universidad, me toca a mi hoy emprender la retirada. Ya me voy y me resigno.
Contra el destino nadie la talla.
Ya no estoy acostumbrado su ley a respetar,
Adios."
Paródia de Adeus Muchachos,
Composição: Julio C. Sanders / Cezar Verdani
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