Acaba-se de assinar um decreto-lei que introduz modificações nas regras de nossa Língua, com o manifesto motivo de uniformizar a língua portuguesa como usada onde é falada e escrita. Novamente os estudiosos se prendem a questiúnculas: eu não me incomodo com os acessórios que minha mulher use, desde que esteja vestida. Acentos são acessórios, tanto que circunflexo se chamava chapeuzinho. Defendo a língua que falamos como Português e não penso na necessidade de instituirmos uma Língua Brasileira, embora escreva pedindo que achemos as contribuições africanas que se perderam nos falares diversos em nosso país-continente. Existem no mundo Línguas que são faladas por um número pequeno de pessoas, uma percentagem da população dos países que as instituíram como línguas oficiais. O Português que. devido à colonização promovida por Portugal mundo afora, tem um número considerável de usuários, nunca chegará a ser uma língua universal. Se a questão fosse pelo número de usuários, o Chinês, Mandarim ou que nome se dê à língua falada na China, teria prioridade. O Inglês é uma língua universal, e não é porque os seus estudiosos e mandatários de regras e normas, assinadores de leis, ficaram preocupados com questiúnculas acentuais. O inglês, não tendo acento, consegue assentar-se como língua disponível para uso pela globalização. O processo está em andamento há muitos anos, quando se percebeu que haveria vantagens a se conseguir do outro lado do mar, não pela ambição de expandir a Língua para todos os lados em um big-bang lingüístico. Falo do inglês internacional, o inglês despido não de acentos - tirá-lo-iam para o internacionalizar se acento tivesse -, mas despido das contribuições idiossincráticas de cada indivíduo. O Inglês pasteurizado e, por isto mesmo, constante, uniforme e de fácil aprendizado. Sem expressões idiomáticas, sem gírias, sem modernismos, embora sempre atualizado. O Inglês usado pelo comércio, pela indústria, pelas ciências para comunicação mútua. Não fiz o levantamento de como se chegou a este Inglês internacional, mas as más línguas me ensinaram que houve a busca das "mil palavras" que representariam a Língua na comunidade mundial e houve o respeito à regra colocada: comunicações com o estrangeiro só dentro destes limites, pelo menos nestas áreas onde a falta de comunicação prejudica o ganho financeiro. Se há uma tentativa de uniformizar a Língua, é uma bobagem tirar os acentos, pois acento não é letra. Se estamos contra os acentos, tiremos todos eles. A única regra necessária não é pensada: use um acento quanto a palavra que escreve puder formar um sentido diferente daquele que expressa se não estiver acentuada, desde que não se exagere e se obrigue a todas as línguas serem escritas na grafia de pronuncia aceita quase já universalmente. Um exemplo: apelemos para a criatividade. "Ele disse ele", é uma frase que só será entendida se aceita a regra de usar-se o acento quando a sua falta faz falta. "Ele" (pronome) disse "ele" (pronome) não é a mesma coisa de "êle" disse "éle" (nome da letra).
Penso que a força que se faz para se ter uma "língua brasileira" faz parte da asneironomia, o estudo de cada um dos astros asnéiricos de que vive cheio o universo lingüístico. Se um dia houver uma língua brasileira não o será por atos administrativos, ou encantamento midiático, ou marketing de gramáticas que instituem pegadinhas como a forma correta de se ganhar dinheiro sendo professor de português. Se um dia houver uma língua brasileira diferenciada da língua portuguesa o será pelo mesmo motivo pelo qual o Latim gerou o Português, o Francês, o Espanhol, o Italiano, etc. (Alguém chamará isto de nomear as línguas com maiúsculas de anglicanismo?) Se houver uma língua brasileira diferenciada da língua portuguesa o será pelo uso, uso pelo povo, e nunca pela intervenção de gramaticólogos de passagem (aqueles que não serão lembrados como o são um Cândido de Figueiredo, um Laudelino Freire). Esta impertinência em dizer que isto é certo e isto é errado só gera a instituição de duas formas prevalentes no uso da Língua: é errado dizer "estadia" quando se esteve em Paris, o "correto" é "estada". Acontece que "estadia" prevalecerá ao lado de "estada", por ter mais xcharme, palavra em que o x deve significar o It, o que chama a atenção, o que prende. "Estada" quando neste uso é feio, até deselegante. Mas é o correto, por isto é o elegante, dirão os puristas. Retruco, não é elegante, é uma baita janotice!
Para que se unifique a língua portuguesa em todas as colônias que a usam é preciso um trabalho que hoje, com a computação e a Internet, não é difícil: a busca do vocabulário comum entre todos os países de língua portuguesa. Pode ser um esforço consciente, uma busca combinada entre pares, ou podemos deixar para o laissez-faire da natureza, que, nos inicialmentes, nos deu vários Camilos Castelo Branco, Eças de Queirós, Camões e Bocages, mas que agora nos Samaragoeiam ocasionalmente. Se quisermos uniformizar a língua portuguesa é preciso que busquemos o Português Internacional e deixemos cada país falar a sua língua portuguesa nacionalizada pelas idiossincrasias de seus cidadãos. Sendo uma língua riquissima, por certo um Português Internacional conterá termos para uso não apenas em cartas comerciais ou descobertas científicas, sobrará muita palavra com que romancear a vida.
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