No meio da noite o telefone toca e atendo sonolenta.
Pergunta-me se sou Dona Maria Lúcia Rangel Ferreira (engraçado que há tempos não sou assim chamada que acho estranho) e por pouco que não digo que é engano.
Afirma que o Laudelino da Silva Ferreira, ao sair embriagado de uma casa noturna bateu em dois carros e seu corpo encontra-se no IML para ser reconhecido, pois como esposa da minha presença é imprescindível.
Anoto em um papel o endereço, sinto uma espécie de tontura e me seguro para não cair.
Respiro fundo e digo pra mim mesma: Calma, Lu. Você sabia que um dia aconteceria.
O Lino nunca quis nada com emprego fixo e tinha mania de cantar, com o copo sempre nas mãos, varando madrugadas e inevitavelmente no meio da noite estava bêbado. Os donos das casas noturnas nem precisavam pagar ordenado, uma vez de descontando aquilo que ele ia consumindo ainda tinham prejuízo.
Que vida a minha agüentar por tantos anos um traste assim por marido.
Quando começamos a namorar e meus irmãos até chegaram me bater e Pai disse que deveria escolher entre a família e meu namorado.
Quando sai de casa, o Pai e meus irmãos disseram que nunca mais botasse os pés lá.
Nem quando meses depois telefonei avisando que nasceu minha filha o Pai disse que ele não me conhecia e que a filha dele tinha morrido.
Droga! Como machucou e não cicatrizou - cinda choro quando me lembro.
Sequer me deixaram ver o Pai morto.
Safado, ordinário do Lino!
Como farei se nem mesmo posso parcelar o caixão; o desinfeliz estava com o nome sujo e, se não fosse pela boa vontade da Dagmar que me empresta o nome, nem podia vender os produtos de beleza do catálogo e colocar comida em casa.
Enquanto penso vou procurando no guarda-roupa o vestido preto que usei na missa da mãe do Lino, a dona Esmeralda.
Encontro o vestido e está todo amarrotado. Pudera um guarda-roupa assim só pode amassar tudo que é roupa e o bom vivant com a desculpa de ser artista tem ternos para cada noite da semana (lavo e passo).
Pego o ferro e penso no doutor meu cunhado, sempre metido e com ar de pouco caso quando nos encontra, mas ele é irmão...
O ferro e o vestido ficam na taboa mesmo enquanto telefono para a casa do doutor e ninguém atende. Acho que ele e a nova ninfetinha estão por aí gastando tufos de grana.
Volto pro meu vestido e cogito que não posso deixar as crianças sozinhas - pedirei para Lia se ela fica com eles e quem sabe o Nato me leva até o local em que o Lino está?
Pela hora não deve ter metrô ou coletivo e não tenho a grana nem da passagem.
Ao reconhecer o corpo falo que caixão deverão dar como fazem com mendigos; que o Lino foi roubado e levaram tudo que era documento dele.
Recordo o quanto rimos, eu e ele, quando na semana passada ele veio contando do assalto. Demos boas gargalhadas imaginando a cara do meliante ao apresentar os documentos do Lino em alguma loja e o comerciante se negando a vender.
Até que nem foi tão ruim viver com o falecido, embora ele fosse uma droga como provedor da família.
Não posso negar que era bom de cama e me levava às alturas.
Era divertido e as crianças adoravam-no; vivia imitando o papagaio do vizinho (eu ralhava com medo que o homem escutasse e se ofendesse).
Era tão cara de pau que tinha coragem de surrupiar o pouco da graninha que eu tivesse e o faro dele para encontrar onde o dinheiro ficava escondido era melhor do que dos cachorros que a polícia treina para encontrar drogas... Foi um tempo divertido e sentirei saudade.
Coitada da Graice Lúcia, tão apegada ao papaizinho, nem sei o que ela fará quando souber que o ele morreu. Valei-me Maria Santíssima, porque numa hora assim só seu auxílio. Ajuda ela a suportar a dor.
Visto o vestido e o zíper não sobe. Engordei demais em 4 anos; não tenho outro e vou ter que usar a cinta que a Glórinha me emprestou quando nasceu o Juninho (até hoje não devolvi).
Novamente lembro que preciso contar para a Graice Lúcia e sinto um aperto por causa do sofrimento dela, pobrezinha.
Olho no espelho e vejo que estou com o cabelo que está uma droga.
Se tenho que me meter em repartição pública e coisa do governo o melhor é estar bem arrumada porque se já atendem mal quem demonstra posse imagine os molambentos?
Ligo a prancha para fazer chapinha e penso de novo na minha filhota.
A cada mecha que seguro para alisar vou pensando nas palavras que direi para amenizar o choque.
Preciso estudar também como vou chamar o Lino, que dorme tão pesado em nossa cama que nem ouviu o telefone e ronca feito um porco.
Não sei como dizer e qual método será o melhor: Com sutileza (sem falar a palavra morte) mas dando dicas para ele mesmo conclua que está morto ou dou um empurrão falando: Acorda Lino, telefonaram que você já morreu.
Oh, dúvida cruel!
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