| O MUNDO ESQUECIDO |
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Nesse dia, eu sentia-me particularmente feliz. Tinha sido um dia maravilhoso de Outono,
em que o sol radioso transformara tudo em luz e ouro: as árvores, com as suas tonalidades quentes, deixando cair na relva as folhas avermelhadas, provocando um contraste de cores fantástico. As últimas flores de tonalidades vibrantes, como que a despedirem-se do sol antes que ele partisse nos dias de inverno frios e chuvosos que se aproximavam. Tinhamos resolvido juntarmo-nos todos para um último piquenique; uma familia pequena mas feliz, onde havia sempre lugar para a música, para as histórias e para a brincadeira. Abrimos o cesto que levaramos e tirámos fruta, sandes, bolinhos secos feitos pela minha mãe, apenas o essencial. Sentámo-nos na relva húmida e algo me chamou a atenção: Foi o riso alegre da minha prima Sara, de quatro anos. Olhei-a e vi uma extrema felicidade atrás da mansidão dos seus grandes olhos castanhos e adivinhava nela esse Deus bondoso e paternal, que eu nunca vira nem ouvira, mas com quem me ensinaram a falar, desde pequenino. Como era maravilhosa a vida, que feliz eu era! Que mais poderia desejar senão este paraiso em que crescia, em que me tornaria homem, esta paz, este amor que me rodeava como una névoa, que era tão mágica e agradável que me dava vontade de nunca mais sair desse casulo aconchegante, protector e incomparável... Começou a chover e tivemos de acabar o piquenique a meio. Corremos para o carro e enquanto andávamos, observava as rugas da minha avó, que transmitiam a sabedoria e a coragem duma vida inteira, e do meu avô que transbordava felicidade. Chegámos a casa, despachámos o que tínhamos a despachar e fomos jantar. Aí o tema de conversa foi sobre esse dia tão bem passado. O sono atacava-me e despedi-me de todos com um abraço forte e ternurento. Quando chegou a vez da minha mãe olhei para ela e dei-lhe um beijo. A minha mãe era sensivel como uma rosa, mas tinha a força de uma leoa. Orgulhava-me muito dela. Enfiei-me na cama, deliciado com a macieza dos lençóis tépidos e perfumados.Agradeci mais uma vez a Deus (tal como fazia desde que me lembrava) pela vida que me proporcionava, tão cheia de momentos felizes e inesquecíveis. Pensei no meu dia e na imagem que vi no telejornal, numa fracção de segundos, duma mãe que perdera uma filha. Por sorte, a Sara quis ver desenhos animados e mudou de canal, cortando as energias negativas que começava a captar devido a tal notícia e a outras, também extremamente desagradáveis. Os meus olhos pesavam como chumbo, e adormeci de imediato. Não sei quanto tempo se passou. Quando acordei, uma cor lívida e azulada inundava o quarto, que estava frio, um frio glaciar e estranho, que me fazia bater os dentes duma forma incontrolável. -Que se passa? - interroguei-me-. Num momento, estava no meu quarto quente e confortável, noutro, neste mundo desconhecido e impalpável que me deixava extremamente assustado. O medo começou a apoderar-se do meu corpo, tornando a minha pele mais pálida e os meus olhos, sombrios e brilhantes. Estava escuro e apenas ouvia a minha respiração, deixando-me numa situação ainda mais desconfortável. Sentia-me desesperado e sem forças. De repente, vi uma aura branca que me atraía, perto mas longe, como se fosse uma luz no fundo dum túnel, enquanto uma voz rouca e dura chamava-me insistentemente. Avancei, hesitante, e como que por magia, encontrei-me num sítio sombrio, algo de muito diferente, como se tivesse passado duma dimensão para outra. Estava nevoeiro e apenas ouvia gritos de crianças perdidas das suas mães. O estrondo dos tiros sobrepunha-se a qualquer outro tipo de ruídos. Esfreguei os olhos com força. -Estou a sonhar - pensei - . Vi então que estava no meio duma guerra. Embora ninguém me visse, eu estava lá, como se fosse um fantasma. Ao ver o que me rodeava, não consegui controlar-me e comecei a chorar, porque assistia à morte de famílias iguais à minha, crianças a serem espancadas até à morte, mulheres a serem violadas e queimadas e homens indefesos a serem fuzilados. Embora tentasse fazer algo, nada conseguia! Era um inútil! Caí de joelhos e agarrei num punhado de terra queimada. A tristeza enlouquecia-me. Adormeci... Um sono profundo, sem fim. O despertador tocou e acordei, ainda cansado, como se tivesse lutado toda a noite. Tudo não passara dum pesadelo. Quando desci para a cozinha quente e perfumada com o bom cheiro do pão acabado de cozer, abracei a minha família, tentando transmitir-lhes todo o amor que tinha para lhes dar naquele momento. Apercebi-me de como sou tão injusto e chego até a ser ridí- culo quando me deixo dominar pelo aborrecimento e por coisas insignificantes. Pensei no meu sonho e senti um arrepio constrangedor. Nessa manhã, os meus pensamentos direccionavam-se apenas num sentido: Aproveitar a vida ao máximo! Deus é a fonte de toda a felicidade e todo o amor que, infelizmente, não é aproveitado por alguns homens que em vez disso, irradiam e espalham o ódio e a violência num mundo, que poderia ser harmonioso e belo. Ao contrário! Transformam-no numa terra de fome, miséria, tristeza, dor e sofrimento. Por momentos tive a oportunidade de ver a realidade que existe em tantos lugares do mundo.
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