| Enfermidade e Existência: acenos antropológicos |
|
|
|
INTRODUÇÃO
Em cada época da história a praxe sacramental da Igreja sofreu influências condicionadas por certa mentalidade. Podemos observar atitudes unilaterais não só no nível da praxe mas também da doutrina e da interpretação teológica. Por sua vez, cada período histórico pode fazer emergir instâncias de fundo absolutamente autênticas. São estas instâncias que queremos aqui, neste primeiro capítulo, vislumbrar na relação que o ser humano trava e é com a enfermidade. Pois, ser humano é relação. A enfermidade não é apenas mais uma dentre as muitas realidades com a qual o ser humano se relaciona. É ele mesmo em sua totalidade. Se queremos compreender o Sacramento dos Enfermos, devemos refletir sobre uma situação típica da pessoa enferma, como hoje a entendemos. Que situação é esta? 1. A doença como situação de crise A partir de nossa observação geral, colocamos uma pergunta: em que situação corpóreo-espiritual se vê lançado o ser humano por sua condição de enfermidade? Para julgar essa situação de doença, é indispensável considerar o ser humano na sua unidade corpóreo-espiritual. Apenas uma concepção de tipo dualista pode observar o ser humano como uma sucessão, como uma ligação extrínseca de corpo e alma onde uma parte não está absolutamente implicada por aquilo que se verifica na outra. Por causa da unidade vigente entre corpo e alma, um acontecimento espiritual repercute também na esfera corporal humana, como é também verdade que a alma do ser humano sofre as influências de tudo aquilo que se verifica na área corporal. A doença é portanto um acontecimento que abrange o ser humano na sua integralidade. Pergunta-se: como é que um ser humano, atingido por uma doença corporal, é ferido também no seu espírito? Na doença, ele experimenta de modo todo particular a própria impotência, seus limites e finitude. Aquele corpo que nos dias de saúde se achava à perfeita disposição de sua vontade, agora não lhe obedece. Torna-se-lhe um empecilho, é percebido como objeto externo que lhe paralisa a atividade habitual. Enquanto no estado de saúde o ser humano costuma dispor autonomamente do próprio viver, agir, e não toma consciência daquilo que em sua vida não depende de sua disposição, com a doença apercebe-se1 de que outros dispõem dele e se vê envolvido em coisas que não escolheu. Agora experimenta o seu ser-entregue ao destino, o que limita e impede o pleno exercício da liberdade2. Enquanto antes podia auxiliar-se a si mesmo e aos outros, agora se vê abandonado e dependente do auxílio alheio. Enquanto na saúde podia participar livremente da vida da comunidade humana, agora se vê condenado à inatividade e ao isolamento e deve também pôr-se o problema do sentido que assume uma tal situação.3 A doença lembra ao ser humano o limitado e a caducidade de seu existir terreno, a mortalidade e a própria morte, pois já traz consigo aquela nota característica que, em toda radicalidade, se manifesta na morte. Aqui devemos reconhecer que toda doença revela, com a fragilidade da vida, a inevitabilidade da morte. A experiência da impotência, do ver-se confiado a outrem, da limitação e fragmentariedade da existência humana, essa experiência que até um indivíduo sadio pode fazer, se põe inevitavelmente no estado de doença grave, nesta situação-limite. A reação imediata do enfermo se traduz na sensação de isolamento, opressão e fracasso, e quanto mais grave o estado de doença, tanto mais grave a apreensão e a angústia4. Talvez surja também o problema de nossa responsabilidade em face da própria doença: um modo melhor de viver, um comportamento mais correto talvez não nos levariam, provavelmente, a tal estado. Mas talvez também se sinta a injustiça do destino, do fato de que tenhamos adoecido por servir ao próximo. Talvez o enfermo se pergunte: mas por que logo eu? Também a pessoa de fé se vê obrigada a colocar-se estas e outras perguntas parecidas. Bastam essas rápidas alusões para nos fazer compreender que para o ser humano a doença tem o significado de uma situação de crise. O doente sente que deve reagir contra esse estado de coisas, e todavia se acha diante de um paradoxo: fazer uma opção em circunstâncias nas quais suas forças psico-espirituais estão mais ou menos impedidas ou reduzidas. Mas dependerá justamente de sua livre tomada de posição o significado que se há de atribuir à doença em que agora padece: há de ser considerada uma desgraça ou antes um acontecimento de salvação? A resposta que o doente vai dar nessa crise vital poderá traduzir-se em diversas atitudes: pode revoltar-se contra Deus e desmoronar numa crise de fé; mas pode interpretar a sua situação também como apelo de Deus convidando-o a uma fé ainda mais profunda, a submeter-se à incompreensível vontade divina, a inserir-se no insondável e incompreensível mistério de Deus, que pode ser também mistério de amor, embora o ser humano não experimente o seu limite como fato positivo. Mas esse render-se a Deus não significa de modo algum que o doente deva agora renunciar a todo desejo e vontade de cura. Tal desejo e vontade devem ser no entanto sempre acompanhados da disponibilidade a aceitar a vontade divina, seja qual for o modo como se traduzir. Para o cristão, a doença - e de resto qualquer sofrimento - é uma possibilidade singular para seguir os passos de Jesus (cf. Mc 8,34), convite a unir a própria dor à Paixão de Jesus, como será aprofundado adiante no terceiro capítulo. 2. "Doença-enfermidade" como possibilidade a uma decisiva "virada" Inegável a ligação que há entre estas duas realidades: doença e morte. Ainda que a primeira não leve necessariamente, como desfecho, à segunda, tal ligação é logo feita pela pessoa que apresenta um quadro de enfermidade, sobretudo quando este oferece alguma ameaça à vida. Assim justifica-se a frase do filósofo belga, Philippe Druet, que serve aqui como abertura às considerações deste capítulo. Diz ele: "... é através da consciência da brevidade da vida que nós podemos gozar plenamente cada momento, sabendo que ele não é eterno."5 Ainda que esta consciência esteja aberta a todos, devemos reconhecer que ela se apresenta de modo mais direto àqueles que se sentem ameaçados em sua vida, seja por uma doença ou por qualquer outro perigo. E é justamente ela a condição para aquela "virada" que pode ser realizada (ou não!) na situação de doença-enfermidade: o acolhimento da vida de modo mais intenso e pleno. Somente a partir do momento que se reconhece com gratidão a finitude de nossa existência, é que o ser humano se liga à vida de modo mais pleno, vivendo com mais intensidade cada momento.6 A fuga da finitude, que pode ser traduzida como fuga da morte, é, isto sim, a própria morte: ideologização da vida. A possibilidade de se realizar uma transformação existencial na vida daqueles que atravessam uma situação dada de doença-enfermidade foi por nós já descrita na nota 1 deste trabalho. Dizíamos: Com a doença, opera-se uma abertura do campo de visão. Uma nova percepção começa a atuar, fazendo ver a vida de modo mais realista. Esta, no entanto, é uma possibilidade aberta ao ser humano. Como tal, em sua liberdade está também o ser humano lançado na aventura de fechar-se a essa nova maneira de ver a própria vida, desolando-se ainda mais em sua situação finita, radicalizada pela doença.7 Ora, "antropologia não é tanto uma doutrina quanto uma complementação. O homem se concebe a si mesmo como ‘existência', como um destino onde as elevações existenciais de sua vida se travam fortemente numa totalidade de sentido"8. E dentre estas "elevações existenciais" de que nos fala BOROS, nas quais atua uma totalidade de sentido, encontramos as situações de doença-enfermidade. Já a Introdução ao Novo Ritual da Unção dos Enfermos, em seu n° 1, apresenta o significado existencial da enfermidade para a vida humana. Diz: As dores e enfermidades sempre foram consideradas como os maiores problemas que afligem a consciência dos homens. Porém, os que professam a fé cristã, mesmo padecendo e experimentando tais sofrimentos, são ajudados, pela luz da mesma fé, a compreender de modo mais profundo o mistério da dor e a suportá-lo com maior coragem. Não só conhecem pela palavra do Cristo o valor e o sentido da doença, tanto para sua salvação como para a do mundo, como também não ignoram o amor do Cristo pelos doentes, que tantas vezes visitou e curou ao longo de sua vida.9 A respeito desta "virada" existencial, dom da fé, concluimos dizendo com BECKHÄUSER: A doença, aparentemente um mal, acaba transformando-se num bem. Nela o homem pode reconhecer sua pequenez, sua condição de criatura e que a vida e a saúde constituem um dom de Deus e não um direito. Por isso, a experiência da doença pode levar o homem a reconhecer o dom da vida e da saúde. Assim sendo, a experiência da enfermidade pode levá-lo também a celebrar os dons da vida, da saúde e do Autor destes bens tão apreciados pelo homem.10 Referências Bibliográficas 1. Com a doença, opera-se uma abertura do campo de visão. Uma nova percepção começa a atuar, fazendo ver a vida de modo mais realista. Esta, no entanto, é uma possibilidade aberta ao ser humano. Como tal, em sua liberdade está também o ser humano lançado na aventura de fechar-se a essa nova maneira de ver a própria vida, desolando-se ainda mais em sua situação finita, radicalizada pela doença. 2. Aqui entendendo-se a liberdade como exercício de independência diante da realidade circunstante. Por outro lado, e mais de acordo com o que é próprio ao ser humano, justamente em sua situação de finitude é o ser humano convocado ao pleno e mais radical exercício de sua liberdade. Liberdade é agora entendida como este "ter de ser", como este assumir livre a própria situação e, a partir daí, ainda viver. Assim, para o ser humano, liberdade e obediência dizem o mesmo, a saber: a escuta do sentido de cada situação. 3.O problema do sentido desta situação é um "problema" humano! 4. Sobre estas experiências humanas, cf.: BALTHASAR, Hans Urs von. O Cristão e a Angústia. Trad.: Antonio Alves Guerra. São Paulo:Novo Século, 2000, 87p.; SÖLLE, Dorothee. Sofrimento. Petrópolis:Vozes, 1996, 189p.; BOROS, Ladislau. Existência Redimida. São Paulo:Loyola, 1974, p. 87-106. 5. OLIVEIRA, Hermínio Bezerra de. A morte e os problemas da assistência aos enfermos e agonizantes. In: REB, vol. XLVIII, fasc. 189. Petrópolis:Vozes, 1988, p. 79. 6. Interessante observar que uma das primeiras compreensões da palavra eternidade estava diretamente ligada, na tradição grega, ao momento. O "tempo" eterno é o tempo vivido na intensidade do "aqui e agora". Tempo é, portanto, existência, modo de ser no mundo. Este foi o fruto de uma investigação realizada em torno do fragmento 52 de Heráclito que diz: ai)w\n pai=j e)sti pai/zwn, pesseu/wn! paido\j h( basilhi/h. Numa tradução ao final da pesquisa: Eternidade é o eclodir da jovialidade em situação: intensidade de vida que é tempo. Cf. a este respeito PINTO, Adriano Freixo. A expressão pré-socráticos e sua significação histórica para o Ocidente. Monografia de conclusão do curso de bacharel em Filosofia. Rondinha (PR)/São Paulo:1999/2001 (publicação interna), p. 64. Necessária também uma abordagem do tempo segundo a tradição semita, diretamente ligada à tradição cristã em suas origens. Aqui, apenas insinuo que o tempo para o semita talvez esteja ligado ao seu encontro pessoal com IAHWEH. 7. Cf. nota 2, ipsis litteris. 8. BOROS, Ladislau. O Homem Bom e seu Deus. São Paulo:Loyola, 1978, p. 21. 9. Cf. Ritual da Unção dos Enfermos e sua assistência pastoral. Trad.: CNBB. 7° ed. São Paulo:Paulus, 2000, p. 13. 10. BECKHÄUSER, Alberto. Celebrar a vida cristã - Formação litúrgica para agentes de pastoral, equipes de liturgia e grupos de reflexão. 8. ed. Petrópolis:Vozes, 1999, p. 158.
|
Nenhum comentário
| < Anterior | Próximo > |
|---|