UNÇÃO DOS ENFERMOS OU EXTREMA UNÇÃO? Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Profº Silvano Tenorio Félix, em 24-09-2008 12:50
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Nestes dias estamos novamente envolvidos com a questão da Extrema Unção ou Unção dos Enfermos. São os casos da Kerri Schiavo e do Senhor Papa João Paulo II. Foi-lhe dada a Extrema-Unção, diz Carlos Nascimento no noticiário da TV Bandeirantes, o Sacramento reservado pela Igreja Católica para os agonizantes. Conclusão: Vai morrer mesmo. No dia de sua morte, conforme o noticiário, foi-lhe administrada mais uma vez a Extrema-Unção.

Há tempos persegue-me o desejo de escrever algo sobre este assunto. Isso, porque na morte de confrades na Província, ouvem-se, com freqüência, colocações como esta: "O frade tal morreu, mas o Guardião ou outro frade, ainda lhe deu a Unção". Ele já recebeu a Unção dos Enfermos, sinal de que está às portas da morte. Ora, a primeira preocupação na hora da morte não é a de dar-lhe a Unção, mas a Eucaristia, como Viático, penhor de vida eterna.

Para Francisco a profissão da fé católica e a vida sacramental são condições para alguém ser admitido à Ordem dos Frades Menores:

"Os ministros, porém, os examinem diligentemente sobre a fé católica e os sacramentos da Igreja. E se crerem todas estas coisas e as quiserem professar ... a eles digam os ministros a palavra do Santo Evangelho ... " (Regra, Cap. II).

Entre os sacramentos na vida dos frades menores podemos situar sobretudo a Eucaristia, a Penitência e a Unção dos Enfermos. Os outros ele os viverá em comunhão com toda a Igreja.

Não foi sem razão que o Concílio Vaticano II mudou o nome desse sacramento: "A ‘Extrema-Unção', que também e melhor pode ser chamada ‘Unção dos Enfermos' não é um sacramento só daqueles que estão na última agonia. Portanto, tempo oportuno para receber a Unção dos Enfermos é certamente o momento em que o fiel começa a correr perigo de morte, por motivo de doença ou de idade avançada" (SC 73). Na expressão latina se diz: "tempus iam certe habetur". "Certe" ou "certo", em latim, significa: certamente, seguramente, sem dúvida. Com estas palavras o Concílio quis resgatar o sentido original deste sacramento, como sacramento dos enfermos, em vista da saúde, conforme a Carta de São Tiago, onde se vê que a iniciativa de chamar os presbíteros da Igreja é do enfermo e não de um agonizante ou de outra pessoa da Comunidade.

A Introdução Geral do Ritual da Unção dos Enfermos e sua Assistência Pastoral, reformado por decreto do Concílio, tem a seguinte colocação sobre o sentido e a importância do sacramento: "Este sacramento confere ao enfermo a graça do Espírito Santo, que contribui para o bem do homem todo, reanimado pela confiança em Deus e fortalecido contra as tentações do maligno e as aflições da morte, de modo que possa não somente suportar, mas combater o mal, e conseguir se for conveniente à sua salvação espiritual, a própria cura. Este sacramento proporciona também, em caso de necessidade, o perdão dos pecados e a consumação da penitência cristã. Na sagrada Unção, unida à oração da fé (cf. Tg 5,15), esta fé se exprime, e por isso deve ser despertada tanto no ministro do sacramento como sobretudo naquele que o recebe; o doente, com efeito, será salvo pela sua fé e pela fé da Igreja, que contemplam a morte e a ressurreição do Cristo de onde provém a eficácia do sacramento (cf. Tg 5,15), ao mesmo tempo que se voltam para o reino que há de vir, cujo penhor é dado pelos sacramentos" (Rit. n. 6-7).

Por isso, o novo Ritual recomenda: "Na catequese comum ou familiar os fiéis sejam instruídos a pedir eles próprios a Unção, de modo que possam, sendo-lhes dada sem demora e em tempo oportuno, recebê-la com toda a fé e devoção, sem descambar no péssimo costume de protelar o sacramento. Todos aqueles que prestam assistência a doentes devem também ser instruídos sobre a natureza da Unção dos Enfermos" (Rit. n. 13).

O cuidado pelos enfermos e toda a Pastoral dos enfermos que se distingue da Pastoral da saúde em geral, é chamado ‘ministério da consolação' (cf. Rit., n. 32). Para tanto teremos que mudar também nossa linguagem. Não se trata em primeiro lugar de receber a Unção e dar a Unção, mas de celebrar o Sacramento dos Enfermos, celebrar o mistério de Cristo que passou confortando, curando e perdoando os enfermos. Como diz a Instrução: contemplar a morte e a Ressurreição do Senhor.

O Espírito é dado aos enfermos para que sejam primeiramente bons doentes, para que na força do Espírito possam viver, na condição de enfermos, sua vocação e missão de batizados, dar testemunho do Senhor morto e ressuscitado. Trata-se do Espírito do conforto e do alívio, o Espírito da vida e da saúde, o Espírito do perdão. A unção com óleo sempre tem a ver com o Espírito Santo. Na Unção dos Enfermos, o óleo tem significado medicinal, de alívio e de cura. Toda esta orientação foi colocada no Devocionário da Família Franciscana, p. 423-425. Importa que cada Fraternidade possua à mão o Ritual renovado.

O sacramento dos agonizantes é a Eucaristia, na forma de Viático. Tanto assim que a Introdução Geral do novo Ritual insiste que na hora da morte a Comunhão eucarística tem preferência sobre a Unção:

"Para atender mais facilmente aos casos particulares, em que os fiéis, por doença repentina ou qualquer outro motivo, se vejam de repente em perigo de morte, recorra-se ao Rito Contínuo, pelo qual o enfermo recebe sucessivamente os sacramentos da Penitência, da Unção e da Eucaristia sob forma de viático. Porém, se há perigo de morte iminente e não houver tempo para ministrar todos os sacramentos do modo que foi estabelecido, dê-se primeiro ao doente a oportunidade de uma confissão sacramental, ainda que realizada genericamente em caso de necessidade; em seguida seja-lhe dado o viático, que todos os fiéis em perigo de morte têm a obrigação de receber. Finalmente, se ainda houver tempo, seja-lhe ministrada a sagrada unção. Se, por motivo de enfermidade, não puder receber a sagrada comunhão, seja-lhe conferida a unção dos enfermos" (Rit., n. 30).

Aqui se supõe que o Sacramento dos Enfermos já tenha sido celebrado anteriormente, mesmo várias vezes. Claro que o sacramento da Unção dos Enfermos também é de grande significado, quando se celebra a páscoa definitiva, para que o enfermo possa viver a passagem para o Pai, na força do Espírito Santo, possa unir-se a Cristo também na morte para com ele participar da glória na páscoa definitiva. Portanto, na hora da morte, não está em primeiro lugar a Unção dos Enfermos, mas a Reconciliação e o Viático. A Unção dos Enfermos situa-se em outro lugar no cuidado ou na Pastoral dos enfermos que inclui a visita ao enfermo, a reconciliação e a Unção.

Para que esta nova compreensão do sacramento dos Enfermos apresentada pelo Concílio e o novo Ritual se torne realidade temos que mudar de mentalidade e superar um longo tabu de mais de mil anos. Importante é que o enfermo, também o frade, tome a iniciativa de pedir a presença dos irmãos para juntos celebrarem o mistério da Páscoa, o Cristo Médico da humanidade, o Cristo que confortava os doentes, os curava e perdoava, na experiência da enfermidade, na esperança da saúde. Será de grande proveito realizar de vez em quando uma celebração comunitária fora do contexto da morte iminente, em que participe toda a Fraternidade com os confrades enfermos e idosos, como já se tem feito em algumas Fraternidades. Que apareça o caráter celebrativo do sacramento, fugindo de uma compreensão meio mágica de receber e administrar os sacramentos, pois somos chamados a celebrar e a viver os sacramentos.


Publicado em : Religiosos, Diversos
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