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Escrito por Roberto J. Fraga Moreira, em 24-09-2008 12:50
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Ele passava em frente a casa dela quase todos os dias em sua longas caminhadas, mas até então nunca havia notado a sua presença. A sua concentração era toda para o ritmo que imprimia em seus passos cadenciado à procura do padrão ideal que resultasse em benefícios futuros ao seu corpo, já meio desgastado pela idade.

Não que se sentisse um velho, na verdadeira concepção da palavra, mas já tinha superado os sessenta e se aproximava rapidamente dos setenta, tão rápido como o caminhar de sua rotina de exercícios diários, já há algum tempo.

Foi quando num belo dia teve sua atenção despertada pela presença de uma mulher ainda relativamente jovem, de quarenta e poucos anos, que inesperadamente surgiu à sua frente varrendo a calçada da casa em que morava, fazendo com que modificasse rapidamente o seu curso, evitando assim que se esbarrassem.

Embora tivessem se cruzado rapidamente, pode notar que ela era bem interessante. Nada exuberante, mas detentora de um rosto de traços suaves, gostoso de se olhar, e um corpo de dar inveja a muita mulher mais jovem. Uma Gata Borralheira suburbana de meia idade, perdida em sua tarefa rotineira de dona de casa.

Naquele exato e fugaz momento, haviam se olhado bem nos olhos, por apenas um ou dois segundos, se tanto, tendo ela em seguida logo os abaixado, desviando a atenção para a tarefa que exercia: a de remover os vestígios das folhas papeis e areia trazidos pelo vento em intermináveis redemoinhos que tinham depositado aqui e ali vestígios da sujeira de outras calçadas.

E a partir daquele dia passou a notá-la em sua beleza cativante, mesmo no curto lapso de tempo que levava para cruzar o espaço que lhe permitia visualizar aquela graciosa e desconhecida personagem que, de repente, passara a ser o centro de suas atenções.

Havia períodos em que, mesmo circulando por diversas vezes, não conseguia divisar a sua imagem. Talvez ela estivesse cozinhando, lavando, passando, ou mesmo andando na rua fazendo compras no supermercado, ou olhando algumas vitrines no shopping.

Sabia que era casada, pois já vira o seu marido e o filho algumas vezes na varanda, ou no portão, mas isso não lhe importava. O que contava realmente era que, de repente, passara a notar a sua presença, ou mesmo ausência, estimulando-o a perseverar ainda mais em seus exercícios, antes tão monótonos.

Havia recebido uma nova motivação, mesmo que respeitosa e meramente platônica: enxergar ocasionalmente o seu rosto luminoso ainda que por transitórios instantes, suficientes para deixá-lo feliz somente pelo prazer que isso lhe proporcionava.

Nunca teve maiores ambições. Simplesmente gostava de vê-la, ainda que em roupas de uso caseiro, às vezes até com os cabelos meio despenteados e aparentando certo ar de cansaço com as tarefas domesticas que exercia. Uma preciosidade perdida no anonimato de uma ruazinha localizada em um subúrbio distante, bem longe do glamour das áreas mais nobres da cidade, sem que isso a fizesse perder, no entanto, a sua merecida majestade.

E durante meses, ludicamente ele andou por aquela rua sempre com o coração aos pulos devido à intensa ansiedade ante a expectativa de encontrá-la mesmo que nunca o houvesse cumprimentado, nem por cortesia, o que poderia ter acontecido já que se conheciam pelo menos de vista.

Mas isso ainda não ocorrera para sua decepção. Talvez devesse ter tomado a iniciativa e passado a cumprimentá-la sempre que fosse possível, mas tinha medo de se tornar inconveniente e acabar quebrando todo o encanto que aquelas cenas diárias lhe proporcionavam.

E essa situação perdurou até que um belo dia a sua rotina mudou inesperadamente:

Ao se aproximar mais uma vez da sua casa, pode notar angustiado que havia um caminhão de mudanças parado bem na porta. Não acreditou no que estava vendo. Por que estaria ela se mudando? Indagou-se mentalmente. O que faria doravante sem a sua presença? Por que não o avisara antes?

Este último pensamento fez com que sorrisse amargamente Como o avisaria? Ele era apenas um estranho na sua presença.

Naquele dia, pela primeira vez, interrompeu os seus exercícios alguns metros mais adiante, e disfarçando estar amarrando os cadarços de seu tênis, ficou observando desolado enquanto o caminhão ia recebendo, peça por peça, os pertences daquela quase estranha que agora fazia parte da sua rotina de vida.

Resolveu então dar mais algumas voltas no quarteirão para despistar, aproveitando em cada uma delas lançar um olhar mais demorado, ansioso para ver o andamento da mudança que acontecia sob seu tristonho olhar, fazendo com que o coração disparasse, não pelo exercício em si, mas sim pela aflição de estar assistindo o fim de uma fantástica experiência pessoal que o havia transformado por completo sua até então insípida existência.

Quando finalmente terminou a colocação de toda mobília e utensílios no caminhão, assistiu amargurado o mesmo iniciar a sua marcha rumo ao novo destino que ele desconhecia totalmente, seguido que ia, bem de perto, pelo carro contendo os membros da família, todos expressando em seus rostos a imensa alegria pela expectativa de vida em um novo lar que os abrigaria doravante.

E foi naquele exato instante, em que o carro passava perto dele em marcha ainda reduzida, que pode perceber que ela havia voltado o rosto em sua direção e esboçado o sorriso mais lindo que já tinha visto em sua vida, ao tempo em que lhe acenava discretamente com uma das mãos do lado de fora da janela, num último e derradeiro adeus.

Teve então a certeza de que ela também sentira o mesmo que ele na primeira vez em que seus olhares haviam se cruzado naquele dia inesquecível. E isso foi o suficiente para que também esboçasse um sorriso que, apesar de meio amargo, confirmava a interação que tivera com uma desconhecida durante longos e inesquecíveis meses, ainda que jamais houvessem trocado uma única palavra.

Naquela noite não conseguiu conciliar o sono. Sempre que fechava os olhos ela aparecia em sua mente fazendo com que sentisse uma enorme amargura que dilacerava o seu coração solitário. Nunca mais a veria novamente,

No dia seguinte, após refletir bastante sobre o ocorrido, resolveu que tornaria a passar pela rua em que ela residira, só que não mais olharia para aquela casa em questão. Não suportaria assistir outras pessoas habitando o lugar que pertencera a uma doce criatura que tivera o dom de devolver novamente o seu amor próprio, mesmo á custa da perda de algo que nunca lhe pertencera realmente.

Mas fora o suficiente para lhe dar novas e motivadoras esperanças de um dia, quem sabe, voltar a encontrar novas e gratas surpresas em seu solitário caminhar.



Amor Indeciso


Ele passava em frente a casa dela quase todos os dias em sua longas caminhadas, mas até então nunca havia notado a sua presença. A sua concentração era toda para o ritmo que imprimia em seus passos cadenciado à procura do padrão ideal que resultasse em benefícios futuros ao seu corpo, já meio desgastado pela idade.

Não que se sentisse um velho, na verdadeira concepção da palavra, mas já tinha superado os sessenta e se aproximava rapidamente dos setenta, tão rápido como o caminhar de sua rotina de exercícios diários, já há algum tempo.

Foi quando num belo dia teve sua atenção despertada pela presença de uma mulher ainda relativamente jovem, de quarenta e poucos anos, que inesperadamente surgiu à sua frente varrendo a calçada da casa em que morava, fazendo com que modificasse rapidamente o seu curso, evitando assim que se esbarrassem.

Embora tivessem se cruzado rapidamente, pode notar que ela era bem interessante. Nada exuberante, mas detentora de um rosto de traços suaves, gostoso de se olhar, e um corpo de dar inveja a muita mulher mais jovem. Uma Gata Borralheira suburbana de meia idade, perdida em sua tarefa rotineira de dona de casa.

Naquele exato e fugaz momento, haviam se olhado bem nos olhos, por apenas um ou dois segundos, se tanto, tendo ela em seguida logo os abaixado, desviando a atenção para a tarefa que exercia: a de remover os vestígios das folhas papeis e areia trazidos pelo vento em intermináveis redemoinhos que tinham depositado aqui e ali vestígios da sujeira de outras calçadas.

E a partir daquele dia passou a notá-la em sua beleza cativante, mesmo no curto lapso de tempo que levava para cruzar o espaço que lhe permitia visualizar aquela graciosa e desconhecida personagem que, de repente, passara a ser o centro de suas atenções.

Havia períodos em que, mesmo circulando por diversas vezes, não conseguia divisar a sua imagem. Talvez ela estivesse cozinhando, lavando, passando, ou mesmo andando na rua fazendo compras no supermercado, ou olhando algumas vitrines no shopping.

Sabia que era casada, pois já vira o seu marido e o filho algumas vezes na varanda, ou no portão, mas isso não lhe importava. O que contava realmente era que, de repente, passara a notar a sua presença, ou mesmo ausência, estimulando-o a perseverar ainda mais em seus exercícios, antes tão monótonos.

Havia recebido uma nova motivação, mesmo que respeitosa e meramente platônica: enxergar ocasionalmente o seu rosto luminoso ainda que por transitórios instantes, suficientes para deixá-lo feliz somente pelo prazer que isso lhe proporcionava.

Nunca teve maiores ambições. Simplesmente gostava de vê-la, ainda que em roupas de uso caseiro, às vezes até com os cabelos meio despenteados e aparentando certo ar de cansaço com as tarefas domesticas que exercia. Uma preciosidade perdida no anonimato de uma ruazinha localizada em um subúrbio distante, bem longe do glamour das áreas mais nobres da cidade, sem que isso a fizesse perder, no entanto, a sua merecida majestade.

E durante meses, ludicamente ele andou por aquela rua sempre com o coração aos pulos devido à intensa ansiedade ante a expectativa de encontrá-la mesmo que nunca o houvesse cumprimentado, nem por cortesia, o que poderia ter acontecido já que se conheciam pelo menos de vista.

Mas isso ainda não ocorrera para sua decepção. Talvez devesse ter tomado a iniciativa e passado a cumprimentá-la sempre que fosse possível, mas tinha medo de se tornar inconveniente e acabar quebrando todo o encanto que aquelas cenas diárias lhe proporcionavam.

E essa situação perdurou até que um belo dia a sua rotina mudou inesperadamente:

Ao se aproximar mais uma vez da sua casa, pode notar angustiado que havia um caminhão de mudanças parado bem na porta. Não acreditou no que estava vendo. Por que estaria ela se mudando? Indagou-se mentalmente. O que faria doravante sem a sua presença? Por que não o avisara antes?

Este último pensamento fez com que sorrisse amargamente Como o avisaria? Ele era apenas um estranho na sua presença.

Naquele dia, pela primeira vez, interrompeu os seus exercícios alguns metros mais adiante, e disfarçando estar amarrando os cadarços de seu tênis, ficou observando desolado enquanto o caminhão ia recebendo, peça por peça, os pertences daquela quase estranha que agora fazia parte da sua rotina de vida.

Resolveu então dar mais algumas voltas no quarteirão para despistar, aproveitando em cada uma delas lançar um olhar mais demorado, ansioso para ver o andamento da mudança que acontecia sob seu tristonho olhar, fazendo com que o coração disparasse, não pelo exercício em si, mas sim pela aflição de estar assistindo o fim de uma fantástica experiência pessoal que o havia transformado por completo sua até então insípida existência.

Quando finalmente terminou a colocação de toda mobília e utensílios no caminhão, assistiu amargurado o mesmo iniciar a sua marcha rumo ao novo destino que ele desconhecia totalmente, seguido que ia, bem de perto, pelo carro contendo os membros da família, todos expressando em seus rostos a imensa alegria pela expectativa de vida em um novo lar que os abrigaria doravante.

E foi naquele exato instante, em que o carro passava perto dele em marcha ainda reduzida, que pode perceber que ela havia voltado o rosto em sua direção e esboçado o sorriso mais lindo que já tinha visto em sua vida, ao tempo em que lhe acenava discretamente com uma das mãos do lado de fora da janela, num último e derradeiro adeus.

Teve então a certeza de que ela também sentira o mesmo que ele na primeira vez em que seus olhares haviam se cruzado naquele dia inesquecível. E isso foi o suficiente para que também esboçasse um sorriso que, apesar de meio amargo, confirmava a interação que tivera com uma desconhecida durante longos e inesquecíveis meses, ainda que jamais houvessem trocado uma única palavra.

Naquela noite não conseguiu conciliar o sono. Sempre que fechava os olhos ela aparecia em sua mente fazendo com que sentisse uma enorme amargura que dilacerava o seu coração solitário. Nunca mais a veria novamente,

No dia seguinte, após refletir bastante sobre o ocorrido, resolveu que tornaria a passar pela rua em que ela residira, só que não mais olharia para aquela casa em questão. Não suportaria assistir outras pessoas habitando o lugar que pertencera a uma doce criatura que tivera o dom de devolver novamente o seu amor próprio, mesmo á custa da perda de algo que nunca lhe pertencera realmente.

Mas fora o suficiente para lhe dar novas e motivadoras esperanças de um dia, quem sabe, voltar a encontrar novas e gratas surpresas em seu solitário caminhar.


Publicado em : Literatura - Contos, Ficção
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