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| A COMPREENSÃO DO MISTÉRIO À LUZ DO APÓSTOLO PAULO |
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Mistério! Esta palavra nos faz pensar no oculto, no inatingível à razão humana, no inesgotável. Por outro lado, sugere uma realidade que vai além do sensível, do perceptível pelos sentidos. A Sagrada Escritura, a Liturgia e os Padres da Igreja usam a palavra mistério em sentidos diversos, mas está sempre presente a idéia fundamental de que no Mistério tem lugar o invisível e o visível, o celeste e o terreno, o divino e o humano, a virtude interior espiritual e a imagem exterior material. Realmente, na condição peregrina do ser humano o mistério continua sempre oculto sob o véu da fé e dos sinais sensíveis como os ritos. A compreensão do mistério é fundamental para a compreensão da Sagrada Liturgia como "mistério do culto de Cristo e da Igreja" e para toda a existência humana. Somos chamados a viver o mistério.
Nos Evangelhos a palavra mistério ocorre uma só vez, ou seja, nos sinóticos, significando o Reino de Deus (cf. Mc 4,11; Mt 13,11; Lc 8,10). O Reino de Deus é compreendido como a presença de Deus no mundo, através do Verbo Encarnado, Jesus Cristo presente em nosso meio. São Paulo, contudo, é o grande mestre da compreensão do mistério. Ele anuncia "o mistério de Deus" à comunidade de Corinto. É o próprio Jesus Cristo, e este, crucificado (cf. 1Cor 2, 1.2). O mistério é o Evangelho, é Jesus Cristo enquanto nele e por ele se revela e se realiza o plano de Deus do amor e da vida plena em Deus. Diríamos, então, que segundo São Paulo, o mistério é o plano que Deus tem em relação aos homens de fezê-los participantes de sua vida, de seu amor, de sua felicidade e de sua glória, plano este revelado e realizado em Cristo e nele e por ele em todos os que acolhem esse plano. O plano de Deus de comunhão e de vida com os seres humanos, Paulo o descreve como sendo "a realização da palavra de Deus, o mistério oculto desde os séculos e as gerações, mas agora revelado aos santos. Deus quis dar-lhes a conhecer a riqueza da glória deste mistério entre os pagãos, que é o próprio Cristo em vosso meio, a esperança da glória" (Cl 1,25-27; cf. Rm 16,25-26). O mesmo pensamento volta no fim da Carta aos Efésios: "Orai também unânimes por nós para que Deus nos abra uma porta à palavra, a fim de anunciarmos o mistério de Cristo, por quem estou preso" (Cl 4,3; cf. Ef 6,19). Na Carta aos Efésios lemos: "Deu-nos a conhecer o mistério da sua vontade, conforme o beneplácito que em Cristo se propôs, a fim de realizá-lo na plenitude dos tempos: unir sob uma cabeça todas as coisas em Cristo, tanto as que estão no céu como as que estão na terra" (Ef 1,9-10). Paulo continua explicando o que seja o mistério: "Foi por revelação que se me manifestou o mistério que acabo de expor brevemente. Lendo-me, podereis entender a compreensão que me foi concedida do mistério de Cristo, que em outras gerações não foi manifestado aos homens da maneira como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas. A saber: que os pagãos são também herdeiros conosco e membros de um mesmo corpo, co-participantes das promessas em Cristo Jesus mediante o Evangelho" (Ef 3,3-6). "A mim, o menor de todos os santos, foi-me dada a graça de anunciar aos pagãos a incalculável riqueza de Cristo e de manifestar a todos o desígnio salvador de Deus, o mistério oculto desde os séculos em Deus criador de todas as coisas. Assim, de ora em diante, as dominações e as potestades celestes podem conhecer pela Igreja a infinita diversidade da sabedoria de Deus, de acordo com o desígnio eterno que Deus realizou em Cristo Jesus, Senhor nosso. Pela fé que nele depositamos teremos plena confiança de aproximar-nos junto a Deus" (Ef 3,8-12). O mistério aparece como o desígnio de Deus revelado e realizado em Cristo Jesus. Assim, o mistério de Deus é Cristo: "Tudo sofro para que seus corações sejam reconfortados e que, estreitamente unidos pela caridade, sejam enriquecidos da plenitude de inteligência para conhecerem o mistério de Deus, Cristo, no qual estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e ciência" (Cl 2,2-3). Conforme Paulo, o mistério se realiza também onde se vive a comunhão no amor em Cristo Jesus, por exemplo, na união de amor dos esposos: "Grande é este mistério. Quero referir-me a Cristo e sua Igreja" (Ef 5,32). Onde Deus e o ser humano se encontram, onde convivem, onde se tornam um por Cristo e em Cristo, ali se realiza o mistério. Portanto, para Paulo o mistério consiste no desígnio de Deus de comunhão de amor e de vida divino-humana por Cristo e em Cristo Jesus. Resumindo, a essência do mistério não está no seu aspecto oculto, mas antes no aspecto revelado e realizado em Cristo Jesus e em todos que acolhem Jesus Cristo no seu modo de pensar e de agir. Compreendemos, então, por que Paulo identifica o mistério com Deus, com seu abraço amoroso a todo o criado, com a Palavra, com Jesus Cristo, a Boa-nova, o Evangelho. O Evangelho, a boa nova, para Paulo consiste essencialmente no que chamamos de mistério pascal, apresentado na Primeira Carta aos Coríntios: "Trago-vos à memória, irmãos, o evangelho que vos tenho anunciado, que recebestes e no qual estais firmes. Por ele sereis salvos, se o conservardes como eu vo-lo anunciei. De outra forma, em vão tereis abraçado a fé. Eu vos transmiti, em primeiro lugar, o que eu mesmo recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as escrituras; que foi sepultado; que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as escrituras; que apareceu a Cefas e depois aos Doze. Posteriormente apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais muitos ainda vivem, outros já morreram. Depois apareceu a Tiago, depois a todos os apóstolos. E por último apareceu também a mim com a um filho abortivo" (1Cor 15,1-8). Assim, o mistério em si certamente não é uma verdade que se descobre simplesmente, ou uma verdade oculta que se revela somente à inteligência humana; mistério é, antes, uma verdade que, revelando-se, se cumpre, um desígnio ou plano de Deus que se realiza. Mistério é a ação de Deus, pela qual ele entra em comunhão com o mundo e com os homens. Por um lado, Deus se revela e se comunica ao homem e, por outro, o homem entra em comunhão com Deus. Na Sagrada Liturgia se realiza sacramentalmente o mistério, pois somos atraídos para dentro do amor e da vida de Deus por Cristo e em Cristo. E toda a existência humana se torna uma vida teologal conforme as palavras do mesmo Apóstolo Paulo: "Portanto, irmãos, eu vos exorto, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais os vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus. Este é o vosso culto espiritual" (Rm 12,1).
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