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Uma análise antropológica sobre as estratégias de manutenção cultural entre as famílias japonesas... Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Francisco Rodrigues da Silva Neto, em 18-09-2008 15:28
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O dilema se instala sobre a vida dos imigrantes japoneses que aportaram no Pará a partir de 1929, pois, não se encontram nem do lado de "um" nem do lado do "outro" como escreve Bourdieu (In: SAYAD. 1998, p. 11). O imigrante se situa no lugar de ‘bastardo' não sendo nacional e nem totalmente estrangeiro, como se observa igualmente entre os japoneses no Brasil. E neste caso levam também as marcas físicas de outra etnia.

Com o intuito de compreender o deslocamento identitário que se dá por ocasião da migração, apresenta-se de fundamental relevância a relação ‘ser emigrante/imigrante' considerando-se como as pessoas são vistas pelos que ficam nos países emigrantes e pelas que as recebem no país de destino. P. Bourdieu, prefaciando o livro de Sayad (1988, p. 11)[1] observa que os imigrantes são "pessoas deslocadas", fato este, que é evidenciado na trajetória dessas pessoas no novo país, conforme estudado por Sayad na França, e que pode ser percebido, em qualquer contexto imigratório. Dessa forma, a situação do imigrante japonês que chega ao Brasil e particularmente ao Estado do Pará não é muito diferente e esta percepção em relação ao país receptor.

As narrativas das autobiografias que serviram de fonte documental, desde a apresentação das capas, a estruturação dos textos e, dei uma atenção especial aos arquivos pessoais das fotografias expostas ao longo dos próprios livros analisados. Estratégia esta importante no sentido de mostrar ao leitor os personagens, os parentes diretos e indiretos nascidos no Pará, outras pessoas que fazem e fizeram parte das trajetórias das famílias que são retratadas nos livros, assim como, os motivos de suas aparições ao longo das narrativas, entre outras especificidades. Muitas vezes as análises se tornam ricas em detalhes, outras vezes o texto aparece com um tom poético, no entanto, ao analisar dados autobiográficos temos que ter o cuidado de olhar o texto com objetividade.

Além da dificuldade de se trabalhar os textos que deixam de ter uma ordem cronológica dos acontecimentos, a todo momentos os autores se reportam em vários momentos, muitas vezes distintos entre si, para poder explicar um fato posterior, ou seja, trata-se de histórias escritas a posteriori. Porém, muitas vezes, esse exercício torna-se uma arma e somos envolvidos, em alguns momentos, nos relatos de nossos personagens.

O tempo foi "cruel"[2] com alguns e, muitos não voltaram a ver sua terra natal, deixada para trás em 1929, outros seguiram o destino que o imperador, deus supremo do Xintoísmo[3], traçou para eles. Tinham a incumbência de ser os representantes do Imperador aqui, do outro lado do mundo e, por isso, deveriam honrar o império, palavra esta muito cara aos japoneses como podemos ler no trabalho de Benedict (2002). Honra, lealdade e o espírito de vencer que se transformaram em ganbaré[4] foram palavras essenciais aos imigrantes que saíram do Japão e vieram imbuídos com o espírito guerreiro dos antigos samurais. Muitos estavam certos do sucesso que teriam, por isso, durante a viagem deixaram clara, em suas canções, a certeza da vitória.

Os japoneses que vieram para o Pará passaram pelas experiências de processos de construção de novos pertencimentos[5]. Alguns deixam escritas suas memórias com o intuito de deixar para a posteridade sua saga. Neste sentido a saga adquire característica dos textos épicos, nos quais, o narrador se distancia do objeto (mundo narrado) para narrar, registrar, apontar, enfim, apresentar, segundo Portella et al. (1979, p. 107), um fato pretérito. Dentro desse estilo presente nas obras analisadas, nos capítulos seguintes, podemos perceber que, os narradores apresentam seus relatos utilizando-se de uma sintaxe lógica e de uma forma de linguagem que cabe discutir acerca do tema abordado. Sendo essas, algumas das características que diferencia o texto épico.

A campanha de incentivo a vinda para o Brasil tomou grandes proporções pelas vantagens oferecidas, como por exemplo, o cartaz que circulava nos principais meios de comunicação no Japão, como veremos no próximo capítulo. Porém, no interior paulista, a idéia do retorno já começava a sumir do pensamento dos imigrantes desde a década de 1920, segundo Handa (1987). Mesmo assim, o motivo da vinda para o Estado do Pará era diferente dos que se dirigiram para o Estado de São Paulo. Daí a explicação da euforia por parte da maioria dos imigrantes, como poderemos ver nas memórias daqueles que deixaram sua trajetória escrita.

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[1] Abdelmalek Sayad é especialista em problemas de imigração e levanta questionamentos fundamentais para a discussão sobre o etnocentrismo inconsciente presente na retórica dos países que acolhem os imigrantes. O autor faz com que os personagens principais, os imigrantes, falem ao longo de seu texto. No livro intitulado: "A imigração e os paradoxos da alteridade" o autor utiliza uma análise muito mais sutil em relação ao inconsciente dos próprios argelinos imigrados para França quanto dos franceses em relação aos argelinos e com isso faz relação às análise de outros tipos de confronto entre culturas. Ver: Sayad (1990; 1998; 1999).
[2] Este termo é recorrente em várias passagens da vida dos imigrantes relatadas ao longo das narrativas mesmo que de forma indireta.
[3] Religião oficial do Japão que tem o Imperador como deus supremo. Essa visão foi superada no período da II Guerra quando o Imperador falou aos seus súditos que o Japão havia se rendido aos EUA. Para melhores esclarecimentos sobre esse período e as conseqüências entre os imigrantes que estavam no Brasil recomendo o livro de Fernando Morais, "Corações Sujos", São Paulo: Cia. das Letras, 2000.
[4] No capítulo 2 trato de forma mais específica sobre o ganbaré. Ver também Sakurai (1993, p. 59).
[5] É desta forma que entendo a reconstrução de identidades, a partir do pertencimento a novos coletivos Ver: Pollak (1990).


Publicado em : Diversos, Artigos Diversos
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