Durante quatro anos lecionei Geografia em uma escola particular da cidade de São Paulo. A escola, localizada na Vila Olímpia, atendia uma clientela formada principalmente por alunos de classe média alta, vindos muitas vezes de algumas as melhores escolas paulistanas. Atualmente, sou professor da rede pública estadual. Não quero entrar no mérito da educação, quero falar de algo que considero muito mais grave. A perda da capacidade de se indignar perante as mazelas sociais e ambientais do mundo hoje. De uma geração, que fora um ou outro abnegado, parece não ter nenhuma preocupação maior do que ter um novo aparelho de celular ou coisa do gênero. E o pior. Isto não está ligado a um grupo social. A nova geração é egoísta, independente de sua origem.
No primeiro caso, com alunos vindos de famílias com uma situação financeira confortável, o episódio que mais me chamou a atenção foi quando ao falar sobre o processo de crescimento das favelas nas grandes cidades, um aluno veio com a idéia: "Joga uma bomba nas favelas... Acaba com o problema".E ele não disse em tom de brincadeira. Aquele aluno se tivesse os meios, seria bem capaz de tentar acabar com o problema da pobreza acabando com os pobres. Além disso, constantemente percebi pelos comentários dos alunos que grande parte era abertamente racista, e consideravam os pobres pouco mais que empregados. Um mal necessário. Lembro-me de um professor de química excepcional contando que um aluno disse a ele: "Caramba professor. Você não é sócio de clube nenhum? Você é pobre mesmo. Até minha empregada é sócia de clube". Tendo conhecido tão bem esse aluno, tenho pena da empregada da casa.
E aqueles jovens das classes mais humildes? Podemos esperar mais deles? Aqueles das classes C e D, que hoje estão se tornando consumidores, eles é que importam, pois são a maioria. Sobre os ombros desta geração repousa nossa esperança de um mundo mais justo. Sem guerras, sem fome, sem corrupção. Um mundo onde o meio ambiente e o direito a vida de outros seres humanos e de outros seres seja respeitado. Um mundo ambientalmente sustentável. Ah, do mesmo grupo de jovens ouvi o seguinte, sobre o conflito entre tutsis e Hutus na África: "E daí? Eu não moro lá. Eu moro no Brasil". A triste verdade, é que jovens e adolescentes parecem ter perdido a capacidade de se indignar. A dor e o sofrimento dos outros é problema dos outros. Tenho comida, roupas e um MP5. Que morram na Indonésia. Que morram no sertão.
Ah são tantos lindos sonhos que podemos ter sobre esse mundo. Imagine, me desculpem porque alguém muito melhor que eu já usou esse verbo para falar de seus sonhos de um mundo ideal, um mundo em que os judeus e palestinos, tutsis, hutus, crentes, ateus, budistas, americanos, iranianos, budistas, hindus, e qualquer outro rótulo desaparecesse. Seríamos simplesmente humanos, ou terráqueos. Que realizações maravilhosas nos esperam? Mas como? Como com uma geração que não quer mudanças? Como com uma geração criada para se preocupar com o próprio umbigo? Lembro-me que durante a Rio-92 tinha onze anos de idade. Sentia-me indignado ao saber das queimadas, caça ilegal e todo tipo de crime ambiental. E hoje?
Claro que estou me baseando em um grupo relativamente pequeno de jovens, mas que vem do mesmo caldo cultural que a maioria dos outros jovens do país e talvez do mundo. Como isso aconteceu? O que faltou, o que falta a esses jovens? Faltam-lhes ídolos? Não vivi a década de 1960, mas será que falta uma figura como Martin Luther King para lhes inspirar? Falta um Gandhi? Serpa que esta geração carece de um poeta como John Lennon, para cantar e pedir pela paz? Mas outros exemplos estão aí. O Dalai Lama e sua luta pacífica pela libertação do Tibet, os Médicos Sem Fronteira, tantas ONGs ambientalistas. Será que falta espaço na mídia para esses exemplos serem mais divulgados? Será que não é hora de termos menos espaço para funkeiros e Big Brothers na nossa TV e termos mais espaço para os visionários que lutam por um mundo melhor? Quem sabe algum deles não consegue inspirar alguns dos nossos jovens?
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