Paris alucina: o título de um velho filme, a Paris real, aos nossos olhos, a torre, o Quartier Latin, Louvre, tudo ali, o sonho depois do sufoco de vaga de hotel, bagagens, aviões, ônibus, suor, longas caminhadas, companheiros ansiosos, tudo a que tínhamos direito há trinta anos, eu, minha mulher e mais quarenta casais, quarenta ansiedades. Ao terceiro dia, o inusitado, o esquecido bilhete para o Moulin Rouge. Não quero, pensei, não vou, velho demais para isso, admiti. Pressão, incentivo, e ali estamos todos no velho cabaré, a esperar o longo desfile de canções, pernas e seios. Excitação adolescente do proibido, olhos miúdos vasculham cada detalhe, vibram a cada descoberta, respira-se o ar dos anos vinte do século vinte, imaginação fervilha. Expectativa. Soa o terceiro sinal para a encenação do pecado, o show proibido de nossa imaginação, moleques somos todos e vibramos. O som da orquestra corta o ar pesado e abre em minha cabeça um buraco, o buraco por onde entra o passado. Não sou mais dono de mim: são acordes que nunca mais ouvi, há mais de cinqüenta anos, mais, talvez, não sei, só sei que, antes mesmo de se abrirem as cortinas do Moulin Rouge, antes mesmo que pernas de alabastro e seios de silicone enchessem e preenchessem meus sentidos, foram meus olhos que se abriram para a perdida cidade do interior de Minas, o menino de calças curtas cruza as ruas barrentas da velha e perdida cidade para viver a aventura de sua vida, uma aventura esquecida num escaninho escuro de sua memória, um alumbramento nunca mais tido e sentido. Relembro detalhes sujos na memória e agora perfeitos, como um retrato de polaróide. Sonho. Tenho sete anos e calças curtas. Lembro o pai, a mãe, o casebre pobre da roça, a lida diária com bois, porcos, galinhas. O pai que conversa baixinho com a mãe, depois da janta, ao pé do fogo do velho fogão de lenha. O instinto de moleque levado diz: estão falando de mim. Tento ouvir. Palavras desconexas. Não entendo. Preocupo-me. Algo vai acontecer, meu pai está com o cenho franzido das grandes decisões, a mãe chora um pouco, mas logo o mistério se esclarece. Devo ir à escola. Na cidade. Um susto: escola? E a roça, as galinhas, o canteiro de verduras, quem vai cuidar? Meu pai não deixa dúvidas: escola, a partir de amanhã e vai já dormir que vamos acordar cedo. No colchão de palha, a noite insone, viro, reviro. A cidade me assusta. Só me lembro de ter ido lá poucas vezes, na Semana Santa, as procissões, as missas a que a mãe assistia com fervor; uma ou duas vezes com o pai, a comprar na casa do agricultor algum grão ou ferramenta; muito poucas vezes, para saber direito como funciona a cidade, com seus automóveis negros, suas casas grudadas umas nas outras, pessoas andando na rua, o bonde, bicho estranho a sacolejar lentamente, subindo e descendo, num trilho comprido, tocando sino, o povo dentro, gente de paletó e gravata, de vestidos longos, com sombrinhas e guarda-chuvas, gente orgulhosa, que não cumprimenta ninguém; a cidade povoa meus pensamentos e não me deixa dormir; o galo canta várias vezes e eu rolo ainda na cama quando o pai vem chamar. Levanto num susto, e ainda tonto pela noite mal dormida, coloco no embornal com prazer e receio os cadernos encapados e os lápis bem apontados que o pai já comprara, vesti o uniforme que a mãe fizera, calças azuis de brim e camisa branca, com um emblema no bolso esquerdo, o que me deixa orgulhoso, não sabia o que estava escrito ali, mas as letras bordadas me encantam, saio com meu pai, a pé, para o centro da cidade, caminhada de quase hora e meia. O grupo escolar. Imenso, assustador. Sentado num banco comprido, espero meu pai conversar com alguém numa sala, espio, os olhos compridos nos retratos pendurados, homens e mulheres sisudos, nos mapas coloridos, nas paredes pintadas, altas, no forro de madeira, e o cheiro, ah, o cheiro, estranho, inesquecível, indefinível. O assombro do primeiro dia de aula, os colegas de classe, a algazarra do recreio, a merenda de gosto diferente da comida da mãe, os dias difíceis do longo aprendizado das letras, o primeiro livro de leitura, as brigas no pátio, os amigos que fiz, os adversários que venci nos jogos de bola de meia, as professoras com suas réguas compridas que de vez em quando estalavam em nossas pernas, a qualquer indisciplina, as histórias que elas contavam e que povoavam nossas mentes, o cavalo com estrela na testa, o saci-pererê, os rios imensos e suas pororocas incompreensíveis, as festas cívicas, as paradas nos dias da independência, as provas difíceis, a tabuada, tudo passa como uma fita de cinema na minha cabeça, ali, naquele cabaré parisiense, que não existia mais, que era apenas o pano de fundo para lembranças esquecidas. A velha trilha da casa para a cidade: um caminho no mato, moldado no passo lento de cada passante, serpente a desembocar num fim de rua onde havia um sobrado velho, enorme, sempre fechado. Eu tinha muito medo daquele sobrado: diziam que era assombrado, que ali vivia a alma penada do antigo dono, um homem mau, muito mau, e então passei a contornar, numa longa curva, o caminho que por ali passava, temendo sempre encontrar o fantasma daquele homem, e isso aconteceu, acho, ali pelo segundo ano de escola, e durante muito tempo eu dava a volta para não passar perto do sobrado velho. E um dia, já no quarto ano de grupo, meu pai veio comigo até a cidade. Prático, o meu pai, sem assombro e assombrações, não teve dúvida: pegou o caminho reto, o que passava pelo sobrado assombrado, não tendo eu coragem para contrariá-lo, respirei fundo e fui em frente, e então, ao chegar perto do sobrado, eu vi: reluzente, novo, todo pintado de amarelo, portas azuis, um imenso letreiro, automóveis estacionados a seu redor, como se, num passe de mágica, todos os fantasmas tivessem sido expulsos e uma nova vida tivesse tomado conta do sobrado outrora tão decadente. Tentei perguntar ao pai o que era aquilo, o que havia acontecido, mas ele desconversou e, diante da minha insistência, acabou ameaçando me dar uma coça de vara de marmelo, se insistisse. Mesmo do alto de meus intrépidos onze anos, recuei, amuei e não mais mudei o caminho para a escola e todo dia passava à porta do tal sobrado, na ida e na volta. De manhã bem cedo, tudo fechado, alguns carros parados e o silêncio. De tardinha, na volta, algumas mulheres, a porta aberta para o que parecia um bar, roupas estendidas no quintal dos fundos, roupas muito coloridas, vestidos imensos e peças que eu não sabia bem o que eram, enfim, um movimento estranho, de poucas pessoas, mas pessoas e não fantasmas. Passava rápido, ainda temeroso, aquela gente estranha, bem vestida, rica, homens e mulheres elegantes, ar desenvolto, e eu tímido, franzino ainda, não ousava parar ou passar mais perto. E a curiosidade corroía meu pensamento, povoava minha imaginação de ouros, pratas, dinheiro, muito dinheiro, músicas, danças, aventuras, romances e beijos furtivos, festas, um mundo que eu não entendia, um mundo sobre o qual não ousava perguntar a ninguém, um mundo tão misterioso que escondia seus tesouros sob uma palavra misteriosa, cabalística, escrita no grande letreiro, cabaret, assim mesmo, que eu lia "cabareti" e que fizera o pai ficar tão bravo, quando lhe perguntei o que era. Sonhos, lembranças e eu me vejo numa sexta-feira, voltando tarde para casa, quase noite, tinha ido fazer umas compras para o pai e demorara um pouco mais na cidade, o embornal pesado, o olho curioso e lá estava ele, o sobrado, já todo iluminado, uma entidade pulsante ao som de um piano, as janelas abertas eram olhos imensos de luz e pecado, vozes, risos, cantos. Passei rápido, mais rápido ainda, pela rua do cabaré, a curiosidade pesando no embornal de compras. Cheguei a casa, jantei e fui dormir. De madrugada, ali pela meia-noite, acordei a tempo de ouvir o primeiro canto do galo, levantei, passei pelo quarto de pai e mãe e ouvi o ronco de pai, o ressonar de mãe, cheguei ao quintal, lua cheia, um clarão só, não tive dúvida, peguei meu casaco velho, que estava um pouco frio, e tomei o caminho da cidade, a velha trilha que me levava à rua do casarão. Já de longe ouvia o som da música, alta, as vozes indistintas, as risadas, alarido bom, de festa, de gente feliz. Aproximei-me pelo meio do mato, até um barranco onde havia uma árvore. Subi como um gato até o galho mais alto, de onde pude ver o interior do segundo andar do sobrado, através das janelas abertas. Meus olhos aos poucos transformavam os vultos em pessoas, em homens e mulheres, a dançar, a conversar, a beber, e meus sentidos se aguçavam para tentar entender o que era aquilo e eu fiquei ali, transido de frio, feliz com a felicidade daquela gente. Foi então que ouvi distintamente a música que nunca mais ia me sair da memória, a música que só ouvi naquele dia tão distante e hoje, nesse cabaré de Paris, quando se abria a cortina do Moulin Rouge para mais um espetáculo de luzes e mulheres inefáveis. E ao som daquela música, do pequeno palco escondido por uma cortina vermelha que se abriu lentamente, surgiu uma mulher deslumbrante, num longo vestido azul, quase diáfano, a dançar lentamente, em gestos medidos e precisos, ao compasso daquela música, a esconder e mostrar o rosto por detrás de um grande leque, e então ela joga longe o leque e começa a se despir, lentamente, numa dança sensual, mágica, e fica apenas de roupas de baixo, a música num compasso instigante, em agudos e trêmulos que entravam pela minha cabeça, e ela tira a peça de cima e seus seios são duas luas trêmulas a competir com a lua lá de cima, brancos e belos, linhas sutis de fruto e flor, e então meus olhos não entendem como ela tira a última peça de roupa e dança nua e loira, nua, as pernas longas, a bunda perfeita, a barriga reta, o monte de pêlos loiros no encontro das coxas brancas e fortes, e ela dança como uma deusa e eu deliro e eu entorpeço e eu sonho e não entendo o que está acontecendo com meu corpo que treme todo num espasmo profundo, quase perco os sentidos, e o galho da árvore onde estou encarapitado balança e estala e eu sinto um jorro quente escorrer por entre minhas pernas e eu estou voando, voando para as nuvens, para a lua, para aquelas pernas longas e aquele monte loiro e misterioso e eu só sinto o baque surdo de meu corpo sobre a terra fofa do barranco, amortecido pelo mato cheio de espinhos, molhado pelo sereno da madrugada, e eu só tenho tempo de me levantar como um cabrito assustado e correr, correr muito, campo afora, segundos depois de ouvir vozes perguntando que barulho é esse, quem está aí, e eu corri tanto que em poucos minutos estava de novo em meu colchão de palha, tremendo de medo e de frio, sem entender direito por que estava tão molhada a minha calça, com aquele líquido pegajoso e agora frio, frio... E eu acordo com os aplausos do público e o toque de minha mulher em meu braço, você gostou, sim, sim, gostei muito, maravilhoso o espetáculo, maravilhoso, e eu pensava, sim, o maior espetáculo de minha vida, um alumbramento, o primeiro, naquele cabaré, o cabaré mineiro de minhas lembranças de menino da roça, aguçadas por uma música que nunca mais ouvira na vida, até aquela noite no Moulin Rouge...
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