OS PATINHOS DELINQUENTES Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Paulo Tamburro, em 16-09-2008 15:00
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A vida familiar é o leito seguro por onde corre o caudaloso rio da segurança afetiva dos humanos. Ali eles procriam, comem pizza, vêem televisão, criam filhos e outros animais.
Os outros animais contentam-se com alimentação e demonstração de afeto. Alguns passam à vida dentro de gaiolas, outros miando, eventualmente em cima dos telhados. É o desesperado cio das fêmeas.

Cachorros dormem até ao pé da cama dos seus donos e, alguns mais atrevidos até, no lugar da cama, no qual, deveriam dormir os seus donos.Outros animais menos cotados são as tartarugas, hamster e coelhos que, por vezes, também, são convidados a compor a grande constelação familiar.Pulgas, baratas, ratos, formigas e cupins, além de insetos indesejáveis, são intrusos.

Os pais - pelo ao menos os de antigamente - esforçavam-se para educar e encaminhar os filhos na difícil tarefa de conquistar o mundo e com as suas sobrevivências.

Nesta tarefa nos deparamos com grandes contradições. Reparem bem: os filhos que "nunca deram o menor trabalho" - segundo celebre frase dos pais orgulhosos - seguem suas vidas. Aqueles que empacam nas primeiras páginas das lições, é que se transformam no ácido limão difícil de serem engolidos. E, aí o paradoxo: são os que, mais atenções recebem do pai e da mãe.

Quando o bem educado diz aos pais que conseguiu passar para a faculdade de medicina, são festejados por uns quinze minutos de beijos e abraços.Em seguida, o mal educado é acusado pelo vizinho de ter estuprado sua filha no galinheiro.

Neste caso passa receber atenção infinita dos pais, com conselhos, conselhos, conselhos e muita babação.

Quando o bem educado apresenta o diploma de médico os pais choram uma meia hora de fortes emoções. Mas lá vem o mal educado, sendo entregue em domicílio pela namorada, de passado sombrio e, futuro temeroso, completamente bêbedo e ainda, com fraturas generalizadas e o rosto desfigurado, conseqüência da última briga naquele maldito inferninho, no qual passa todas as noites.

Aí o filho médico fica com o canudo na mão - sem saber onde enfiá-lo - enquanto os pais passam a dar eternas atenções ao delinqüente de plantão, durantes dias seguidos.Até a cura completa!

É assim que a coisa funciona, ou seja: quem não funciona, e que atrai pela vida afora as atenções paternas. São os patinhos delinqüentes.

A mãe pata com suas asas aconchegantes está sempre pronta para acoitar aquele tremendo mau caráter, na desesperada tentativa de ressocializar aquele infortúnio.

É o mesmo que ficar enxugando gelo. Em todas as famílias, estes ou estas anomalias humanas, verdadeiros insetos intrusos, chamam para si todo aquele caudaloso rio de atenções e outras benesses maternas.

Enquanto o filho bem educado, comportado e responsável chega de carro novo zero quilometro na porta dos pais convidando-os para um passeio inaugural, o mal educado aparece com uma motocicleta roubada, acabando com a paz familiar e transformando a noite num bate boca interminável.O passeio inaugural fica para a próxima vez, se o mal educado deixar ou não roubar um ônibus da empresa de transporte local.

Enquanto o filho pródigo telefona para os pais comunicando que deixou de fumar, exatamente como seus pais tanto pediam, o outro, aquele estorvo consanguíneo está enfurnado em cima de uma cama quase em estado de coma, depois de fumar quilos de maconha, toneladas de pedras de crack e, com um cheiro de álcool exalando pela boca que só mãe extremada consegue aturar e ainda com aqueles aos insistentes, lamuriosos e irritantes pedidos de:
- acorda, meu queridinho, sua sopinha está pronta!

Estas incoerências no seio da vida familiar é que lhe trazem invulgar singularidade entre todas as outras instituições.

Militar desrespeitou a hierarquia: cadeia! Empregado faltou e não avisou: rua!E assim caminha a humanidade.Já deu até filme!

Mas a família e mais emoção do que razão. Pode não ser agradável para os filhos que aprenderam a lição da vida, e que seguiram retos e inarredáveis os preceitos maiores de civilidade, terem que conviver com estas explícitas cenas de injustiças afetivas.

No entanto, em que outro lugar do mundo estes patinhos delinquentes encontrariam uma asa amiga? Ao contrário do patinho feio da celebre estória infantil que, era sempre o último da fila, neste caso, eles são sempre os primeiros.

Publicado em : Crônicas, Crônicas
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