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| Risco de vida ou risco de Morte? Eis a questão! |
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Faço apenas uma análise sumária do assunto. Estas questiúnculas se modernizaram
com a imposição de um novo dialeto português que se pretendeu "o
correto" e foi vendido pela própria televisão: o pasqualês, em homenagem a
seu criador o Professor Pasquale. Nós médicos lidamos com a vida e sabemos
diferenciar o que é risco de vida e o que é risco de morte. O Dicionário Raphael
Bluteau assinala o verbete risco: perigo.
O Houaiss dá o significado do século XVI - perigo, inconveniente mais ou menos previsível - ao lado de
significados modernos, acrescentando - probabilidade
de perigo geralmente com ameaça física para o homem ou para o meio ambiente
- com exemplo risco de vida. Dá uma série de tipos de risco e usa ora
probabilidade ou possibilidade - risco de
roubo, r. de incêndio, r. bancário, r. da empresa, r. profissional,
etc. Dando exemplos práticos: - ser
doente cardíaco é estar em risco/perigo de vida, mas o risco/probabilidade de
morte aumenta muito quando se aposenta. Uma
pessoa que sofre das coronárias está em risco/perigo de vida, mas não de morte;
se enfartar-se corre risco/probabilidade de morte. Quem exerce trabalho com risco profissional está em risco de vida
permanente, mas só estará em risco de morte se não adotar comportamento
preventivo. Prova dos nove de que as locuções são diferentes: arrume um
atestado de que está em risco de morte e vá procurar emprego, fazer seguro,
arrumar namorada... Arranje um emprego com alto risco de vida e procure uma
namorada: casará logo, pois receberá junto ao salário um aditivo por
periculosidade. Se o emprego com alto risco de morte, pode até arrumar
casamento, mas a esposa sempre estará aguardando a viuvez para breve.
Risco de vida e risco de morte são, portanto, duas coisas distintas e agora, com o pasqualês, estão todos falando risco de morte quando deveriam usar risco de vida. Pesquisando pela Google Search Books, há 321 referencias com risco de vida, sendo em 55 textos referentes a Literatura, com uso consagrado por Clarice Lispector, Aloísio de Azevedo, Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Visconde de Taunay, Rui Barbosa, etc. Se o uso é consagrado, não se há que mexer mesmo que os argumentos acima fossem falhos. "Risco de morte" está em 496 textos, sendo apenas 10 referentes a literatura, em suas várias formas de expressão, a grande maioria se referindo a situações de doenças, pacientes, torturas, lesões. Os campos semânticos fora da Literatura se cruzam (medicina, saúde, direito, etc.), mas a análise sumária dos textos encontrados mostra que os autores, de antes da era do pasqualês, mantêm a diferenciação que se faz no terreno médico e atuarial. "Risco de vida", portanto, é a escolha literária que se deve fazer. Mesmo em literatura há que se ver o momento do uso de risco de vida ou risco de morte. Dois exemplos em que a primeira locução não tem lugar: A Ala dos Namorados: romance histórico Por Antonio de Campos Publicado por J.R. Torres, 1920 ... colocar em risco de morte os destinos de uma nação Os Gatos Por Fialho d' Almeida Publicado por A. Aranha & Ca., 1890 ... colocar em absoluto risco de morte o nosso prestigio e o nosso credito. Uma pessoa sofre um atropelamento, levanta-se e se recusa a ir ao pronto socorro afinal, nada sente, não aceita esperar o resgate. Pensa não estar em risco de vida, contudo, pode estar em risco de morte, pois os atropelamentos podem provocar lesões internas que só se manifestarão com risco de vida até horas após o acidente, e podem, logo que se manifestam, indicar elevado risco de morte. Um ônibus capota: todos os passageiros correm risco de vida, sofreram lesões. Chega o resgate. Os profissionais de saúde devem discernir de forma mais correta possível quais os acidentados, em risco de vida, estão em risco de morte: estes devem ser os primeiros a receber atendimento. Isto de apontar erros de Português não pode se transformar em fábrica de pegadinhas: em uma prova a respeito, um profissional de saúde, humana ou ambiental, um advogado, quem mexe com seguros, perde pontos, simplesmente por saber diferenciar entre um risco de vida e um risco de morte.
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