| Dialeto sertanejo |
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Aprecio, por óbvias razões, o falar do Norte-mineiro. Longe da região por muito tempo, sinto falta do sotaque cantado, manemolente e da fala sincopada que caracterizam meus conterrâneos. Por isso, volta e meia retorno à terra, para acostumar novamente os ouvidos com velhas palavras que remontam à minha infância.
Nessa reciclagem, alguns vocábulos funcionam como detonadores de um processo de reminiscência, trazendo a lume acontecimentos que teimam em não se perderem nos labirintos da minha memória. Um exemplo vivo disso é que, sempre que ouço falar em romaria, lembro-me de Bom Jesus da Lapa e do meu pai brincando comigo, quando menino, dizendo que eu iria para aquela cidade baiana "cunsqueficam". Já ele iria "cunsquevão". Aquela diferença sonora me intrigava muito, nos meus quatro/cinco anos de idade. Somente no dia seguinte, quando acordava, percebia que haviam se "esquecido" de mim. Era a maneira sutil que os adultos se utilizavam - e meu pai em particular - para se verem livres de meninos que insistiam em querem fazer parte da viagem, sem poder. Como diriam as gentis atendentes de empresas aéreas, a situação era de "overbooking". Em outras palavras, eu iria "com os que ficam" porque a lista de passageiros do seu caminhão "International" era maior que a capacidade das desconfortáveis bancadas de madeira instaladas na carroceria. A propósito, as carrocerias dos caminhões serviam para tudo nessas ocasiões. Cobertas por lonas, ali mesmo os romeiros dormiam embolados, numa certa promiscuidade. Contam que numa dessas viagens, bolinada altas horas, na escuridão reinante sob a lona, uma mulher manteve um sunsurrado diálogo com o seu marido: - Zé? - Huummm.... - Tutanimim? - Não, Maria! - Intão, tão... Foi o bastante para que o Zé se despertasse de vez, uma mão na inseparável lanterna de pilha e a outra na "peixeira", para identificar, sem sucesso, o autor da - digamos assim - "indelicadeza" com a sua Maria. Afora o aspecto pitoresco do episódio, com iminente desfecho trágico, o colóquio noturno do casal revelou um quase dialeto Norte-mineiro. Nesse contexto, há palavras que somente são compreendidas pelos iniciados nas coisas dos gerais, onde floresce e abunda o pequi. Exemplo disso é a sonora "cunzonzôto", traduzível por "conosco" e que talvez tenha origem no "conosotros", do espanhol... Assim, amigo leitor, quando ouvir um matuto dizer que "Pêdo disquivai cunzonzôto", certamente já estará apto para entender a frase. Há um outro vocábulo similar em sonoridade a "cunzonzôto", que é "unzonzôto", traduzível no vernáculo por "uns aos outros". Numa frase, normalmente vem assim: "Nóis temo qui ajudá unzonzôto, qui a cris tá feia". Interessante notar a fantástica capacidade de aglutinação de palavras, mostrando que o mineiro do Norte é econômico até no falar. Para que fazer uso de três palavras se se pode juntá-las numa só, falando tudo de uma só vez e ficando mais tempo no silêncio meditativo? "Isturdia", digo, por esses dias, ouvi relato de diálogo típico mantido por dois geraiseiros, agachados em torno de uma pequena fogueira, entretidos na tarefa de fazer uma "chuculateira" de café. Enquanto Popota retirava a cônica vasilha de zinco do fogo, com água fervente, Regonguel, solícito, com uma colher cheia de pó de café, perguntava: - Pó pô pó, Popota? - Pó pô... - aceitou Popota. (A estória poderia terminar aqui, não fosse o complemento culinário assaz interessante) Imediatamente após, Regonguel apanhou um tição em brasa da fogueira, deu uma suave soprapa para retirar as cinzas e o atochou na chocolateira. Seguindo-se a uma chiadeira que apagara as brasas, o pó do café decantou incontinenti. Estava pronto o café do tropeiro. Feito sem o uso do coador. Servido em canequinhas esmaltadas - que costumam queimar os lábios - e adoçado com rapadura, tem um sabor inigualável. De carvão...
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