| 10 de setembro de 2008 |
Houve um tempo que quando o fermento acabava era só ir à casa da vizinha pedir emprestado. Lá se encontra não só o que faltava para a receita como também um dedo de prosa e muita, imensa fraternidade.
O axioma que corria a boca miúda de outrora: "o vizinho é o parente mais próximo" era vivenciado em toda plenitude. A reciprocidade era fundamental entre os membros de uma coletividade.
O muro onde se passava o pratinho contendo o quitute parece que mudou e as relações da mesma forma.
Não há mais empréstimos; pratinhos cobertos com os guardanapos impecavelmente brancos e nem a preocupação de saber se a vizinha que teve pneumonia precisa de nossos préstimos.
Hoje cada um está vivendo por si e para si.
Na época da globalização alargaram os horizontes, em contrapartida o novo paradigma de convivência impõe, mesmo que de forma involuntária, é o de isolamento.
Pela Internet as pessoas conversam com outras que estão do outro lado do mundo, mas não conhece quem mora ao lado.
Temos medo de abrirmos a guarda para evitarmos dissabores.
Desejamos manter a privacidade como se do nosso armário viesse a saltar inesperadamente o esqueleto; como se houvesse (no lugar de destaque na sala de visitas) uma redoma contendo a língua velha fofoqueira que misteriosamente sumira ou se ao adentrarem em nossas casas pudessem ver o colchão colocado ao sol como a Mãe fazia quando fazíamos xixi na cama.
Necessitamos resgatar antigos valores e podemos estabelecer uma relação de troca, independente da idade, credo, posição social, mantendo certas fronteiras (limites) e, ao mesmo tempo, garantindo uma flexibilidade e todos serão beneficiados - crescendo juntos e qualitativamente.
Que tal terminar de ler e ir bater na porta ao lado levando não só o jornal do dia ou biscoitinhos de araruta comprados no supermercado, mas a disponibilidade novos relacionamentos?
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