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| A Paixão segundo uma puta - Memória da Pele (Parte 1ª) |
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I Não tenho memória. Não quero ter. Evito lembrar de algo mais além do vermelho da luz, a cama rota de uso, de mágoa e de prazer. Vestes perdidas, sem donos, sem os corpos uma ves nus, arrojadamente esquecidas à beira do gozo (que rompe-me até a incredulidade terrena). são matéria, madeira e papel e roupa para o fogo, que consumiu tudo. Junto minha memória plena. Os papéis poetas que recebi de uns infelizes (poetas fracos da cabeça e do pincel e da rima) e outras intimidades de mulheres e atrizes são como um trilho tênue e pálido da fina volúpia que segue a cavalo com meus olhos, como um apelo, por toda essa grande imensidão da lembrança: quero o que desejo. E se o tenho, mato. Até o fim dele, um outro desejo, para que não haja tempo ou folêgo de contá-los e de amá-los... de lembrá-los e desejá-los novamente. Disso não preciso, por isso paro. Incontáveis foram um disperdício duro, bruto e intragável no próprio ato. Consumiu-me, possuiu-me. Vício impuro esse de se amar e nada poder ter. Pois "és mulher do riso fácil, mulher de todos." "Verdade", digo eu. "Gosto de assim cometer meu pecados, mas choro para poucos. Por aqueles que fizeram-me arrancar as vestes e véus cerimoniosamente, num rito, numa dança animal, onde dei-me por inteira, num casamento sob o Céu, que julga-nos e chama-nos de gigantes imorais. Eu peco, você diz... Mas o que lhe digo é que nessa vezes tolas, você diz, Deus peca. E com um grande gosto. Porque espia minhas curvas e, não podendo tê-las, (não O quero tão santo) abusa de sua evanescência e alto posto para gritar sua inveja e injúrias incontidas". Isso é pouco, não é para agora. (o cheiro do último ainda encharca minha memória). II Nos dias em que tiro o dia para contemplar a janela, minha porta, saída para o que não é meu e particular, tento escrever (ou melhor, expiar) poemas. Eles são belos, mas carregados demais de mim mesma, da minha alma e descuido, da solidão claustrofóbica que optei por moradia. E quando saio, comprar cigarros ou encontrar outra atração além da janela, visto minha melhor máscara mundana, e sou outra, ou outro. Ou ninguém. Não importa. Estou comigo e isso já é grande demais. III (Notas de rodapé) Dispas-te, Aproxima-te, Venha, Entra, Volta, Goza, Afasta-te Vista-te E some. IV Minha alma é esse quarto vermelho e nele habitam todas as expiações do mundo. Isso tem que ser sabido, entendido num fôlego só, num rabisco só, pois é o tempo que tenho para pensar e estar só, comigo e com essas expiações do mundo que mais deseja-me do que nega. Meu quarto vermelho é um gueto da vida, uma ode à negação humana, uma fábrica do nada sentimental. E por mais incrível que se tome como real, de todo esse desamor que aprendi a não ter, eles ainda vêm, tomam-me como tola e imunda e pecam seus pecados do mundo e levam-me junto. V Hoje tentei conversar com Deus, esse mesmo que deu-me a Primeira Profissão, Dignação, e pôs-me fogo em piras de dor e terror ao longo da história do Tempo. Esse mesmo que responde por atos de guerra, que brinca tolamente com formigas. Mas a hora era propícia para ser teimosa, pois precisava ser: "O Senhor está comigo agora?" É claro que não. Não há respostas. Só que Deus, Ele, fez-me para ser o corpo do mundo, não fala, nem respira, mas sofrega e suspira em meus ouvidos quando trabalho, quando sou o que Ele me fez para ser (e sou por demais), a primeira das profissões, o mais antigo desejo, que Dele vêm. VI Meu corpo foi feito para eu viver minha vida, e nada mais. Não sou obrigada a viver mais do que eu possa desejar, pois minha obra é meu sorriso convidativo emoldurado e meu pagamento é a alma livre e o corpo leve. Meus poemas são escritos no mesmo lençol, úmido e vermelho e arrastado de luxúria. O que traduzo do meu desejo tem forma em meu atos. Não em palavras. Palavras essas são somente feitas para serem cantadas e serão eternamente somente feitas por serem cantadas.
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