A Revolta dos Animais Imprimir Enviar para um amigo
Avaliação desta obra: / 0
RuimÓtimo 
 
Escrito por João Batista Drummond, em 08-09-2008 12:47
Avaliação média    (0 voto)
Visitas 2822    
Favoritos Nenhum

Para os desavisados Brejolândia dos Canfudós é uma região perdida entre as montanhas e serras das Gerais, lugar de rara beleza, ainda pouco tocada pelas mãos profanas do homem contemporâneo e suas inovações tecnológicas.

A região vinha sofrendo um surto desenvolvimentista depois que meu tio Arlindo, mandara instalar no centro do seu curral uma antena parabólica que passara a trazer para os habitantes do lugar, o mundo "lá de fora" com seus paradoxos, suas complexas organizações, seus stress, sua violência gratuita.

Para a população local que se acostumara toda à noite a freqüentar a casa do meu tio como se fosse um clube de serviços,, aquelas eram imagens de algum universo paralelo povoado por seres demoníacos e bestiais trazidas pela mágica da caixa eletrônica da TV.

Tio Arlindo vinha se perguntando se fizera bem em trazer para aquele inóspito e indevassado santuário aqueles equipamentos, símbolos do poder e a degradação do mundo moderno.

Reclamava ele que aquela cultura alienígena vinha alterando a vidinha pacata de Brejolândia, trazendo hábitos nefastos e negativos, produzindo pelo mal exemplo a destruição de seculares valores herdados dos antepassados, fundadores daquela comunidade rural.

Dizia ele que até os animais vinham tendo mudanças de comportamento, influenciados pela programação televisiva à qual como qualquer cidadão da região, tinham amplo e irrestrito acesso.

Achei que aquilo não passasse de um exagero do tio, por conta de sua natureza nervosa e ranzinza, mas depois da ultima vez que ali estive passei a cogitar que talvez o tio tivesse razão.

Logo que cheguei na porteira de entrada do sitio, vi o Tio Arlindo entrincheirado atrás de sacos de ração defronte à entrada da casa com um velho bacamarte em uma das mãos e me acenando freneticamente.

Não entendi de pronto o que o tio queria e continuei avançando devagar. O velho insistia para que eu chegasse mais rápido ou me afastasse dali.

Quando alcancei a varanda da casa, tio Arlindo foi logo gritando:

- Cara, você correu grande perigo, entrando assim desarmado no teatro de operações.

Pensei comigo que lá vinha mais uma bobagem do velho, e quando lhe perguntei o que se passava ele me puxou para trás de suas defesas e se explicou:

- Os porcos do sitio se rebelaram e me declararam guerra total, você chegou justo no inicio das operações bélicas.

Eu não entendia nada e ainda acreditava que aquilo era mais um surto de esquizofrenia do velho.

- Me explique esta historia direito tio.

- A culpa é toda do professor Astromar , aquele doido varrido. Depois que ele começou com aquele papo de que o porco é o elo perdido entre o macaco e o homem e que é o nosso mais próximo parente os porcos se rebelaram. Estão sendo comandados e incitados por Nandão, o porco do seu Divino, meu vizinho. Diz que o Nandão é um porco sociólogo e poliglota e pelo que pudemos perceber o objetivo dos revoltosos é tomar Brejolândia e implantar aqui a Republica dos Suínos tornando nós seres humanos em seus escravos.

O tio Arlindo estava mal e só pude dizer uma frase que ele interpretou erroneamente:

- A coisa da feia.

- Põe feia nisto, João, e o pior é que o Nandão esta atraindo todos os outros animais para a revolta em função de sua forte liderança e da sua habilidade lingüística. Cães , gatos, cavalos, galinhas estão aderindo ã revolta.

Quando eu me levantava para pedir uma ajuda psiquiátrica para o tio veio a primeira carga da cavalaria suína.

Os porcos montados nos pangarés do sitio tendo Nandão à frente tomaram a iniciativa do ataque e avançaram contra as defesas do tio Arlindo, que rechaçou este primeiro ataque a tiros de polveira.

- Me arruma uma arma aí tio.

Se eu achara num primeiro momento que o tio Arlindo havia pirado de vez, sua loucura então já me contaminara porque lá estava eu também de capacete e espingarda atrás de sacos de ração e preparado para responder com tudo a uma nova carga de ataques de suínos revoltosos num evento que colocaria Brejolândia mais uma vez na mídia internacional, com a chamada a Revolta dos Porcos. Isto vinha reforçar a tese do Professor Astromar Falcone de que os porcos são os nossos mais próximos parentes.


Publicado em : Literatura - Contos, Diversos
Quote this article in website Favoured Send to friend

Comentários (0)

Nenhum comentário

Adicionar comentário

< Anterior   Próximo >