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KARATE: A ARTE DE TRANSFORMAR VIDAS Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por RENATO FROSSARD CARDOSO, em 06-09-2008 19:33
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Para conhecermos os amigos é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça. No sucesso, verificamos a quantidade e, na desgraça, a qualidade...
(Confúcio)

PREFÁCIO

Karate, uma arte marcial milenar com adeptos em quase todos os confins do mundo, centenas de milhares de atletas, professores e mestres espalhados por todo o globo, um número sem fim de praticantes e simpatizantes, promete tornar-se, em breve, uma das modalidades olímpicas, e o número de praticantes aumenta a cada dia. Apesar disto, pouca coisa digna de nota foi escrita a respeito do Karate até nossos dias. De fato, existe uma grande quantidade de materia em cuja capa encontra-se impresso o nome Karate, mas que em seu interior encontra-se um conteúdo de origem duvidosa, sensacionalista e que, na maioria das vezes, não tem nada a ver com o verdadeiro Karate, sua história, sua filosofia e objetivos.

Impulsionado por este fato e pelo meu desejo de relatar as experiências vividas em cerca de 20 anos de prática do Karate, decidi empenhar-me na difícil tarefa de escrever um livro. Estou conciente do desafio que isto representa, mas acho que vale a pena me dedicar a este trabalho, uma vez que esta será uma forma de fazer por esta maravilhosa arte um pouco em gratidão a tudo que ela tem feito por mim durante toda a minha vida.

Neste livro, procurarei contar sobre o incrível poder transformador de vidas contido na prática do Karate, a prática que vai muito além de um mero exercício físico, as amizades construidas através da arte, as lições recebidas de vários mestres, o apoio recebido nas horas difíceis, e tantos outros eventos que me levaram a tornar-me hoje uma pessoa bem sucedida e realizada.
Assim, espero que todos aqueles que desejam ter nas mãos um trabalho sério, não sensacionalista e que não seja do tipo "aprenda Karate sem mestre" possam se beneficiar da leitura deste livro, e possam compreender um pouco mais a respeito desta Arte Marcial, arte de transformar vidas!!!

CAPÍTULO I

BREVE RELATO

COMO TUDO COMEÇOU

Nasci em uma cidadizinha do interior de Minas Gerais e cresci em outra cidade, igualmente pequena no mesmo estado. Meus pais tiveram problemas em seu casamento, e por isso eu cresci em um ambiente tumultuado e violento, apanhando quase todos os dias de meus irmãos mais velhos. No entanto, sempre me dediquei de forma exemplar aos estudos, o que me tornou uma pessoa consciente e crítica e me levou a buscar uma solução para meus problemas. Sabia que precisava aprender a me defender, de forma a sobreviver às agressões que sofria diariamente, e poder prosseguir em meus estudos e em minha vida pessoal. Além disto, eu precisava encontrar uma razão, um sentido para minha existência, até então completamente vazia e sem perspectiva de mudança.

O Karate, ou a idéia que se tinha deste, sempre esteve presente na mídia e nos meios televisivos. Nas telas dos cinemas, o herói sempre surgia dando incríveis golpes nos adversários e destruindo a todos sem medo e sem piedade. Alguns até chegavam ao extremo de arrancar órgãos internos com a introdução de um Nukite no estômago do inimigo. Tudo extremamente exagerado e sangrento, mas para um jovem adolescente, aquilo era certamente algo atraente, uma vez que significava a promessa de libertação das surras e de muitos outros problemas. Assim, resolvi procurar uma academia e iniciei meu aprendizado do Karate, por volta dos doze anos de idade.

É evidente que logo percebi a diferença enorme entre as telas de cinema e o mundo real, mas a verdade é que o Karate me deu auto-confiança e tornou-me uma pessoa mais forte. As surras cessaram, já que eu havia aprendido a me defender, e também porque todos acreditavam que eu já não era a mesma pessoa fraca e subjulgável de antes. Com o passar dos anos, a prática do Karate foi naturalmente evoluindo de uma forma de fugir de agressões para um modo de vida, um hábito saudável, um esporte, uma atividade física, uma filosofia, um aprendizado, uma humanização, etc. Passei a compreender que o Karate, embora passasse longe de ser aquilo que os filmes mostravam, era sim uma prática capaz de transformar vidas, devolver a esperança àqueles que a perderam, criar laços duradouros de amizade e apontar caminhos alternativos de vida.

Hoje, 25 anos depois, posso olhar pra traz e perceber o quanto eu devo ao Karate e a todos os meus mestres que me legaram esta maravilhosa arte. Sinto uma imensa responsabilidade agora de transmitir estes conhecimentos recebidos durante tantos anos àqueles que desejem aprender e colocar em prática em sua vida. Não se trata de um conhecimento marcial apenas, não se trata de nenhuma religião ou magia, mesmo porque, durante todo o tempo da prática do Karate eu jamais me esqueci de Deus, nem jamais coloquei o Karate no lugar Dele. O Karate é algo que só pode ser compreendido por aqueles que o praticam com o coração aberto e por tempo suficiente para que os efeitos se façam sentir em sua vida. Aqueles que chegam a este estágio, praticarão o Karate como se nunca o houvessem praticado, como se a cada vez fosse a primeira, ouvindo as palavras do mestre como se nada soubessem e crescendo a cada dia, tornando-se melhores, mas mantendo a humildade como se fossem crianças aprendendo a dar os primeiros passos.


CAPÍTULO II
MESTRES E AMIGOS

SHIHAN AKIO YOKOYAMA
Pioneiro do estilo Kenyu-Ryu no Brasil

Shihan Akio Yokoyama veio para o Brasil no ano de 1965, com o objetivo de divulgar o estilo Kenyu-Ryu de Karate. Nesta época, através de demonstrações, exibições públicas, divulgações, promoção de competições, entre outros eventos, Yokoyama conseguiu estabelecer uma grande rede de praticantes de Karate em todo o Brasil, mais especificamente no estado de Minas Gerais, onde se fixou. Seu trabalho granjeou muitos adeptos ao Karate, além de lhe dar muitos alunos e associados.

MATIAS ALBERTO OLGUIN
Meu primeiro mestre

Meu primeiro professor de Karate e ex aluno de Shihan Yokoyama, o Argentino naturalizado brasileiro, Sensei Matias Olguin foi uma personalidade incrível. Sensei Matias Ensinava Karate em Ipatinga, cidade de sua residência, e também na cidade de Coronel Fabriciano, ambas cidades mineiras. Por notar mimha dedicação aos treinos, Sensei Matias concedeu-me a honra de tornar-me aluno bolsista em seu Dojo, o que veio a solucionar outro problema que eu enfrentava: a falta de recursos financeiros para custear meus treinamentos. Por esta razão, devo a ele grande parte de meu aprendizado e de meu sucesso no Karate.

JÚLIO GUILHEME OLGUIN
Um Verdadeiro Guerreiro
Após alguns anos treinando com o Sensei Matias, passei a treinar com seu filho e sucessor direto, Sensei Julio Olguin. Foi Sensei Júlio quem realmente me ensinou a essência do Karate. Ele me ajudou a perceber as nuâncias existentes nos movimentos, os pequenos detalhes que fazem a diferença no momento de combate. Sensei Júlio também me ensinou muitas coisas relativas à vida em sociedade e relativas à boa formação do caráter. Ele sempre foi uma pessoa amiga e encorajadora. Graças à sua dedicação como professor e ao seu empreendedorismo, fui capaz de continuar treinando até chegar à Shodan (Faixa Preta) em 1993. De fato, Sensei Júlio não desanimou diante das imensas dificuldade para estabelecer o Karate em sua região. Enfrentou a falta de recursos financeiros, a falta de apoio ao esporte na região do Vale do Aço, Buscou incentivos quando estes não existiam, conseguiu patrocínios e parcerias quando estas pareciam impossíveis e improváveis. Através de seu trabalho, o segundo Sensei Olguim mostrou ser tão grande quanto o primeiro, e revelou-se um verdadeiro guerreiro. Sensei Julio hoje é professor de Karate e Educação Física em Ipatinga, e continua treinando jovens e crianças nos caminhos do Karate, além de preparar atletas de todas as idades para a participação em competições na modalidade Shiai Kumite (luta competitiva) e Kata (forma), onde sempre conquistam muitas medalhas. Sensei Júlio, ele mesmo, também foi um grande competidor e conquistou vários títulos no importantes no Karate.

SENSEI NEWETON ADAS
Grande mestre e amigo
Início da maturidade - mudança de estilo

Em 1995 mudei-me definitivamente para Belo Horizonte, com o objetivo de conseguir trabalho. Após chegar à capital mineira, e conseguir trabalho em uma rede de fastfood, decidi retomar os treinos no Karate. Naquela época, Shihan Yokoyama ainda ensinava Karate nesta cidade e eu treinei com ele por alguns anos.
Devido a dificuldades financeiras, não pude continuar treinando na escola de Akyo, a Tenri Dojo. Após ficar algum tempo sem treinar, senti a necessidade de me filiar, novamente, a uma escola de Karate. Mas onde encontrar um professor à altura de Shihan Yokoyama?

Certo dia, ao caminhar pelas ruas do centro de BH, encontrei-me com o Presidente da FMK, Sensei João Carlos de Godoi, Faixa Preta 5º Dan. Cumprimentei-o, e disse que era aluno de Sensei Júlio. Ele deu-me seu cartão e sugeriu que eu visitasse a sede da federação. Naquele mesmo dia, resolvi aceitar o convite e fui até a FMK. Durante a visita, tive a honra de conhecer melhor as pessoas responsáveis pelo funcionamento da Federação Mineira de Karate e pela administração de todos os eventos oficiais do esporte em todo o estado de Minas Gerais. Durante a visita, recebi outro convite que trouxe uma grande mudança em minha vida e trouxe novas perspectivas, até então inimaginadas.

Como já mencionei, enfrentava dificuldades financeiras e por isto não podia pagar uma academia para treinar. Na ocasião em que fui até a federação, reencontrei o Sensei Neweton Adas, que eu havia conhecido a muitos anos atrás, mas com o qual eu não tinha um relacionamento próximo. Em conversa informal com Sensei Neweton, fui convidado para treinar em sua academia como aluno bolsista. Aceitei com muita alegria o convite e compareci no dia seguinte à academia de Sensei Neweton. Fiquei impressionado com a dedicação e com a sabedoria daquele professor, que demonstrava preocupar-se com seus alunos, não apenas superficialmente, mas de forma completa, comprometendo-se com a formação física, moral e intelectual destes. De fato, Sensei Neweton Adas sempre demonstrou preocupar-se com o bem estar dos aluno tanto dentro, quanto fora da academia, e foi Sensei Adas quem me ajudou a reerguer-me profissionalmente e a reencontrar meu caminho rumo à realização pessoal tanto em relação ao Karate, com a conquista de medalhas até então inéditas para mim, quanto em relação aos meus estudos e trabalho. Com efeito, após conhecer Sensei Adas, conquistei vários títulos no esporte, estabeleci-me como professor de Karate, e finalmente criei coragem para submeter-me ao vestibular na UFMG, onde graduei-me em Letras em 2006, e onde estudo até hoje.

Fiquei tão impressionado com os treinos e com todas as coisas novas que estava aprendendo sobre o Karate que decidi mudar o meu estilo de Karate para o Estilo de Sensei Adas, o Goju-Ryu do mestre Shogun Miyagy. Já completamente "convertido" ao novo estilo, conquistei o grau de NIDAN em 2002 e o grau de SANDAN em 2007. Hoje, estabelecido profissionalmente, sinto que tenho uma dívida enorme para com o Karate e para com todas estas pessoas fantásticas que Deus colocou em meu caminho e que me mostraram que era possível mudar a direção de minha vida e que eu podia realizar coisas incríveis se eu acreditasse nisto. Por isso eu compreendo que o Karate é muito mais que uma arte marcial, muito mais que um esporte, e que não se trata de uma combinação de movimentos. Acima de tudo, o Karate é um ambiente de convívio social e uma escola de disciplina, respeito e dedicação à construção do caráter.

CAPÍTULO III

O KARATE EM FASES

FAIXA BRANCA

O início no Karate é algo muito excitante para o estudante. Geralmente o aluno está cheio de expectativas e não sabe muito bem o que esperar pela frente. Muitas vezes, ele chega com alguma idéia preconcebida a respeito do Karate e cultiva pensamentos dos mais variados sobre a arte. Muitos estudantes pensam, por exemplo, que logo serão capazes de quebrar tábuas e tijolos, que serão capazes de executar saltos mirabolantes e acrobacias fantásticas, que adquirirão força para destruir dezenas de adversários de uma só vez e se tornarão invencíveis. Muitos até mesmo imaginam que serão capazes de desarmar um oponente. Bem, a maioria destas coisas está bem longe de ser verdade, pelo menos na maioria dos estilos de Karate. Quebrar tábuas e tijolos pode até ser uma forma de treinamento em algumas escolas, mas não é o objetivo maior do Karate. Acrobacias e saltos também podem estar presentes, mas não são usados pela maior parte dos professores e mestres em suas aulas. Finalmente, poucos professores encorajariam um estudante a tentar desarmar alguém que portasse uma arma de fogo, a não ser que não houvesse nenhuma outra esperança de solução para o impasse. Todas estas pré-concepções trazidas pelo principiante que perceberá, pouco a pouco, que "as coisas não são bem assim" fazem com que esta fase do aprendizado seja uma das mais delicadas.

Como fazer para que o aluno continue entusiasmado, apesar de descobrir que a maioria de suas idéias sobre o Karate eram equivocadas? Ou melhor, como mostrar a ele que estas pré-concepções não passam de folclore, de lendas, mas que o Karate tem sim muito a lhe ensinar? Acredito que a resposta para estas perguntas não é muito difícil de ser encontrada. Na verdade, basta que o professor mostre ao aluno o verdadeiro Karate, e o amor do aluno por esta verdadeira arte tenderá a crescer cada vez mais.

FAIXA AMARELA

Embora esteja muito próximo do estágio anterior, no segundo estágio, ou faixa amarela na maioria das escolas, o aluno já tem alguma compreensão do Karate como ciência marcial. Nesta fase, o aluno já não pode mais ser considerado uma folha em branco, pois já domina conceitos básicos da arte. O aluno já sabe, por exemplo, a diferença entre um soco ou um chute executado de forma espontânea e um soco ou chute realizado com ciência, como ocorre no Karate. Assim, devemos ter sempre em mente que, a partir da faixa amarela, o aluno deve ser visto como um verdadeiro Karateca, e não mais como um possível candidato às faixas maiores. Na verdade, mesmo na faixa branca o bom professor terá olhos para perceber se o aluno é um bom prospecto para o sucesso na arte pois, ao longo dos anos, o professor desenvolve um certo "olhar clínico" capaz de descobrir novos talentos. Mas, de qualquer forma, o aluno faixa amarela dever ser respeitado pela sua conquista pois, por menor que possa parecer, ela é a mais difícil. Como assim, a mais difícil? Você pode estar se perguntando. O que eu quero dizer é que não é fácil transpor o primeiro momento, onde tudo é novo e estranho, onde termos nunca antes vistos são introduzidos, e onde uma rotina rígida de treinamento e disciplina precisa ser seguida. Portanto, chegar ao nível seguinte, já pode sem dúvida ser considerado uma grande vitória, pois, a partir daí, o aluno já estará ambientado no novo meio, e se sentirá à vontade para aprender qualquer nova técnica ou conceito que venha a ser ensinado.

ATÉ FAIXA VERDE

A partir do segundo nível, até a faixa verde (5º nível), o aluno estará construindo sua base técnica e teórica no Karate. Nesta fase, é importante que o professor preste atenção a detalhes. Um soco mal executado, um chute mal balanceado, todos os pequenos detalhes que passam imperceptíveis aos olhos do leigo, mas que não escapam à percepção do professor, devem ser trabalhados e corrigidos para evitar que estes defeitos cristalizem e ser tornem impossíveis de corrigir mais tarde, quando o aluno já os terá assimilado à sua constituição física e mental. De fato, ao chegar à faixa verde, o aluno deverá estar tecnicamente completo, ou seja, o aluno já deve ser capaz de executar, com perfeição, todas as técnicas básicas do Karate, sem a necessidade de esforço excessivo. Além disso, o aluno faixa verde deve ser capaz de combinar movimentos mais complexos, além de poder participar de combates (shiai kumite) sem grandes dificuldades.

Para o aluno, esta deveria ser uma das fases mais produtivas e prazerosas de seu aprendizado. O aluno deve ser incentivado a aprender e imediatamente colocar em prática aquilo que aprendeu nos treinamentos de Kata e Kumite. Por exemplo, se o aluno aprende a controlar e explosão do golpe e o giro do quadril em um determinado Kihon, ele deve ser encorajado a usar este mesmo controle e giro ao executar o Kata. Se ele aprende uma técnica de esquiva e contra-ataque em outro Kihon, deve ser incentivado a tentar o movimento ao fazer Kumite. Um aprendizado direcionado desta forma fará muito mais sentido para o aluno e, consequentemente, será muito mais prazeroso para ele.

Específicamente para o aluno leitor, devo dizer que ele precisa ter muita humildade nesta fase. Ele precisará compreender que o professor nunca dirá algo buscando diminuir o valor de seu esforço ou ridicularizar sua dedicação ao Karate. Ao contrário, o aluno deve acreditar que o professor quer que ele alcance o máximo de seu potencial e, portanto, exigirá o máximo dele.
O aluno também precisa ser paciente, pois terá que repetir a mesma coisa milhares de vezes de forma a aproximar-se o máximo possível da perfeição. Terá que fazer Kata diversas vezes até que compreenda o sentido do que está fazendo, e a cada vez terá que se esforçar mais para que não fique desmotivado e não perca a vontade de prosseguir treinando. Na verdade, o aluno muitas vezes terá que lutar contra a própria vontade de parar tudo e desistir, pois o treinamento à vezes pode parecer repetitivo e sem sentido. No entanto, ao conquistar sua primeira medalha ou ao ser aprovado em um exame de faixas ou simplesmente ao se sair bem em uma situação real de combate, o aluno compreenderá o porquê de ter tido que treinar tanto e repetir tantas vezes o mesmo movimento.

A paciência, a perseverança e a humildade, são valores essenciais para o karateca. De fato, é impossível aprender Karate sem estas três virtudes. O karateca impaciente eventualmente desistirá de treinar, pois será incapaz de aguardar o tempo necessário para que os efeitos dos treinamentos possam ser sentidos. Se não for perseverante também desistirá, pois achará os esforços necessários muito grandes para que ele os enfrente. Enfim, se não tiver humildade, o karateca tenderá a achar que já sabe o bastante, e mesmo que continue treinando, não renderá o máximo por não levar os ensinamentos do mestre a sério. Chego até a afirmar que, destas três virtudes, a humildade é a mais importante, uma vez que engloba, de certa forma, as outras duas. Aprender uma arte marcial é aprender a ser humilde e a reconhecer que há sempre mais para se aprender. O aluno precisa esvaziar-se de toda soberba ou sentimento de superioriade nos treinamentos, para que possa verdadeiramente tornar-se superior em combate.
DA FAIXA VERDE À MARRON

Ao chegar à faixa verde, o aluno já deverá ter adquirido um conhecimento técnico marcial relativamente alto. Já saberá usar as "armas" de forma satisfatória. Será rapido e vigoroso nos golpes e já compreenderá bem conceitos como hikite ou hikiashi, sem que seja necessário lembrá-lo a todo momento. Esta é a fase em que o aluno deve solidificar seus conhecimentos e adquirir maturidade.
Neste ponto, o aluno poderá estar encantado com o poder que lhe é conferido pelo Karate e pode começar a sentir-se invencível. Por isso, este é o momento em que o professor deve lembrá-lo de que ainda há muito para se aprender e que ele ainda poderá chegar a ser muito mais forte do que ele imagina ser até aquele momento. De qualquer forma, esta é uma fase muito produtiva para o aluno, pois a perícia técnica adquirida nos primeiros anos de treinamento lhe permitem participar de diversos eventos que podem servir de incentivo para que ele continue seus treinamentos e não desista mais.

A partir da faixa verde o aluno poderá seguir diferentes caminhos que definirão seu futuro no Karate. O aluno pode, por exemplo, decidir participar de competições (não quero dizer que ele não possa fazê-lo antes da faixa verde). Então ele terá que começar a se preparar de forma específica para tais eventos, já que estes possuem uma série de regras e comportamentos específicos que deverão ser obedecidos pelo atleta. Assim, o aluno provavelmente precisará dedicar tempo extra aos treinos, uma vez que o professor pode optar por separar o grupo dos alunos que desejam competir do grupo de alunos que não possui tal intenção e realizar um treino especial com os futuros competidores. Mais tarde dedicarei um capítulo inteiro para falar sobre as competições e sua importância para o Karate e sua continuação através dos tempos.

Alguns alunos podem não demonstrar interesse por competições e portanto não devem ser forçados nem discriminados por isto. Estes alunos, porém, devem ser auxiliados a pensar no seu futuro como karatecas, no que pretendem fazer de sua arte. Se não tomarão parte em competições, precisarão de maior encorajamento e de maior força de vontade para continuar a treinar, uma vez que a realização pessoal será sua única recompensa por seus esforços. De qualquer forma, tais alunos podem ser encorajados a tomar parte nas competições, ainda que de forma indireta, torcendo por seus colegas, auxiliando na organização dos eventos, participando como auxiliares da comissão de árbitros, etc. No futuro eles podem vir a participar destes eventos como atletas ou podem tornar-se árbitros. Não devem, entretanto, permanecer completamente isolados das competições pois estas poderão servir de elo entre eles e a arte a que se dedicam.
Em geral, existe uma faixa intermediária após a faixa verde (no estilo Goju Ryu é a faixa roxa) antes que o aluno receba o grau de faixa marron. Esta representa uma continuidade do amadurecimento do aluno e uma espécie de preparação para o último grau que antecede a faixa preta. Muitos alunos dedicam mais tempo a esta faixa pois sentem-se inseguros para subir o próximo degrau. Sentem que ainda não aprenderam o suficiente e que necessitam aperfeiçoar suas habilidades. Durante este tempo, o aluno deve dedicar-se à autoreflexão e treinar de forma intensa para sanar eventuais "imperfeições" que forem identificadas por seu professor.

Ao chegar à faixa marron, o aluno já terá um elevado grau de conhecimento técnico e filosófico de sua arte. Supõe-se que o aluno compreenderá bem o significado de tudo que fez até aí e do que pretende fazer no futuro. A faixa marron, então, será uma espécie de estágio, onde o aluno deverá se preparar para receber o grau de shodan. Durante este período, o aluno deverá participar de cursos de primeiros socorros e de arbitragem, deverá fortalecer seu conhecimento sobre o Karate e sua história, precisará fazer mais do que apenas executar golpes e katas com perfeição. O aluno faixa marron, precisará demonstrar que é digno de receber a faixa preta, através de um conjunto de atitudes e qualidades que precisarão ser demonstradas ao seu professor e à comunidade, bem antes do exame de faixas oficial. O professor que permite que um mal aluno receba tal honra estará se responsabilizando por qualquer dano que ele venha a causar no futuro.

Uma vez que o faixa marron passe por todos estes testes que, pode-se dizer, estendem-se por toda a sua vida de karateca, e pelo teste oficial - Exame de Faixas Pretas - que avaliará suas habilidades e conhecimentos específicos, ele receberá o grau Shodan e, a partir daí, tornar-se-á membro do yundan-sha. O aluno terá alcançado a tão sonhada faixa preta.

O INÍCIO DA COMPREENSÃO
A FAIXA PRETA (SHODAN)
UM NOVO COMEÇO

É a partir da faixa preta que o karateca começará seu verdadeiro aprendizado no Karate. Como pode ser isso? Você pode estar se perguntando. E todo o conhecimento que ele adquiriu até então? Não serviu para nada? (...) Com certeza todo o aprendizado construido até este ponto é valioso e sim, serve para muita coisa, mas é apenas o começo, e vou tentar explicar o porquê.

Sabemos que, ao chegar na faixa preta o aluno terá uma grande bagagem de conhecimento, tanto teórico quanto prático. Ele será capaz de fazer coisas que antes não poderia nem imaginar. Será também uma pessoa completamente diferente daquela que era quando entrou pela primeira vez no dojo, como faixa branca. Nem sequer conseguirá se lembrar de toda a insegurança e estranheza que sentiu ao participar do primeiro treino. Terá uma força e um potencial descomunais. Por outro lado, a deste momento, o karateca encontrará uma série de novos desafios.

O primeiro desafio poderá ser decidir se vai continuar treinando ou se vai encerrar sua carreira neste ponto. Não estou dizendo que esta seja uma opção aceitável ou sábia para alguém que dedicou tanto tempo de sua vida ao Karate, mas o fato é que muitos alunos são tentados a abandonar, e muitos efetivamente abandonam, os treinos a partir da faixa preta por não encontrarem mais sentido em treinar. Acreditam que já chegaram ao seu máximo ou sentem-se desmotivados por que não têm mais um objetivo a curto prazo como tinham quando eram faixas coloridas. Além disso, seu professor pode ter fechado sua escola ou mudado para outra cidade. Como ele pode então encontrar ânimo para continuar treinando? Precisará treinar sozinho? Se tornará ele mesmo um professor? O que fazer. Estas são perguntas que precisam ser respondidas para que o jovem faixa preta não abandone os caminhos do Karate e possa continuar sua jornada até o fim de sua vida.

A este respeito, acredito que minha experiência pode ser útil para ajudar aqueles que enfrentam ou enfrentarão um dia tal dificuldade. Tive momentos em minha carreira no Karate em que fui extremamente ativo. Treinava praticamente todos os dias, participava de competições, fazia cursos de aperfeiçoamento, exercia funções de arbitragem, dava aulas, etc. Por outro lado, já tive momentos, como agora, de pouca atividade relacionada à arte, mas jamais abandonei ou abandonarei o Karate. O faixa preta deve compreender isto muito bem, do contrário acabará abandonando e esquecendo tudo aquilo que aprendeu com tanta dificuldade. Às vezes ele estará sozinho, mas precisa continuar sua jornada. Não se pode parar na metade do caminho, mas às vezes é necessário retardar a marcha, para acelerar de novo um pouco mais adiante.
Quanto a tornar-se um professor, esta pode ser uma ótima saída para o faixa preta que deseja manter-se na ativa. No entanto, a decisão de tornar-se professor é muito importante e deve ser feita com cuidado. Não se deve decidir tornar-se um professor de Karate pelos motivos errados. Por exemplo, se o faixa preta pensa que o "ofício" de professor lhe trará riqueza e glória, é bem provável que fique frustrado. De fato, este é um caminho que reserva muito mais desafios e dissabores do que ganhos materiais ou o recebimento de honras. De fato, o professor poderá enfrentar a falta de recursos financeiros, a falta de reconhecimento por parte da sociedade e até por parte de seus alunos, entre outras dificuldades.

Também não se deve tornar-se professor apenas para não abandonar o Karate. Existem outras formas de manter-se ativo que podem servir de opção para os que não se sentem atraídos a ensinar. Mas para os que decidirem se dedicar a esta atividade, é preciso que tenham um objetivo maior em mente. Eu penso da seguinte forma: o que recebi de meus mestres e professores devo transmitir a outros para que estes transmitam às futuras gerações. Se pensarmos desta forma, saberemos se temos ou não o "chamado" ou a vocação para ser professores. Se você for capaz de se dedicar a esta atividade apenas com o objetivo de transmitir a outros o que foi legado a você pelos seus mestres, então você está apto a se tornar um professor. Não estou dizendo que você terá que trabalhar de graça ou oferecer aulas gratuitas á comunidade (embora este seja um gesto muito nobre que alguns professores praticam), mas que você deverá ter o ensino do Karate como seu principal objetivo, e deverá pensar nos demais como consequência de seu trabalho.

De qualquer forma, não pretendo desistimular aqueles que desejam ser professores, mesmo porque carecemos de bons professores de Karate que possam continuar perpetuando nossa arte. O meu objetivo é mostrar que nem tudo são glórias neste trabalho. Mas, como professor, posso garantir que este é um ofício muito gratificante. Só o professor tem a honra de ver seus alunos partirem do zero e tornarem-se grandes karatecas. Ele pode vê-los progredir e se tornarem fortes. Além disso, as amizades que vão sendo construídas pelo caminho são algo incomparável com qualquer outro prêmio que se poderia receber. O professor também conquista o respeito e a gratidão de seus alunos, sobretudo por parte daqueles que alcançarem uma melhor compreensão do caminho (Do). Tais reconhecimentos são pra toda a vida, e seu valor é inestimável.

CAPÍTULO IV
COMPETIÇÕES
Significado e Importância

As competições de Karate são uma oportunidade de socialização e de aprendizado para o aluno. Neste eventos, o karateca pode vivenciar de forma prática aquilo que aprendeu nos treinamentos do Dojo. Desta forma, o aluno poderá verificar seu progresso e constatar na prática o quanto ele desenvolveu suas habilidades ou o quanto ele precisará melhorar caso note alguma deficiência no decorrer da competição. Além disso, a existência de regras que limitam a intensidade do contato dos golpes, a disciplina exigida durante a competição e o estrito cerimonial a ser seguido durante o evento, ajudam o aluno a desenvolver o caráter e o respeito à regras e à hierarquia.
As competições surgiram da idéia de popularizar o Karate através daquilo que o ser humano mais tem de natural, o desejo de confrontar-se com outros e de superar o oponente a sí próprio. Por ser um esporte regido por regras e com a exigência de uma excelente conduta moral e ética - tanto durante quanto antes e depois do evento - o Karate de competição fornece um ambiente saudável de confronto entre atletas e de auto-superação. Ainda, as competições criam uma situação única que serve de pretexto para a reunião de várias escolas de Karate e seus praticantes, provenientes de diferentes cidades, estados ou países, dependendo da invergadura do certame. De qualquer forma, o objetivo maior das competições é reunir os praticantes de Karate de uma determinada região, país ou de todo o mundo de forma a manter vivo o esporte, além de incentivar a sua prática pelas futuras gerações.
As federações de cada estado ou país, normalmente, são as responsáveis pelo controle e organização das competições. Para competir, basta que o aluno seja inscrito no evento por seu professor, e compareça na data, local e horário estabelecidos para a realização dos combates. Naturalmente, para que isto possa ocorrer, tanto aluno como professor devem ser registrados junto á federação ou órgão competente.
As disputas, em geral, são organizadas por idade, faixa e peso dos competidores. Existem dois tipos principais de competição no Karate: Shiai Kumite (luta por pontos) e Kata (Luta Imaginária).

No Shiai Kumite, dois atletas se enfrentam em uma luta regida por regras. As regras prevêm um conjunto de comportamentos permitidos ou proibidos que englobam vários pontos como intensidade do contato, técnicas permitidas e proibidas, áreas pontuáveis do corpo do oponente, penalidades, código de conduta, etc. Os atletas se enfrentam num quadrado de mais ou menos 64 metros quadrados e tentam marcar pontos atingindo o adversário nas áreas pontuáveis do corpo com técncas permitidas. Existe diferença de pontuação para cada tipo de técnica e para cada área onde o atleta é atingido. Pelas regras atuais da WKF (World Karate Federation) o tempo médio de luta é de 3 minutos e vence o atleta que obter 8 pontos de vantagem sobre seu oponente ou que, passado o tempo regulamentar, tiver obtido mais pontos que seu adversário. Havendo empate, ocorre a prorrogação (ensho-sen) onde os alunos se enfrentam em estilo de "morte súbita", ou seja, vence quem fizer o primeiro ponto. Persistindo o empate, os árbitros decidirão quem é o vencedor com base em critérios como combatividade, conduta exemplar durante o evento, respeito às regras, etc.

Nas competições de Kata cada atleta se apresenta individualmente ou em equipes. Nas apresentações individuais, 2 atletas se enfrentam por vez. O primeiro (aka) apresenta o Kata e então retira-se, aguardando que o segundo atleta (shiro) se apresente. Após terminarem suas apresentações, ambos são chamados pelos árbitros até o centro do Koto onde, após a autorização do árbitro central, todos os árbitros erguem suas bandeiras (vermelha ou azul) ao mesmo tempo. Vence o atleta que obtiver mais votos favoráveis a ele (aka = faixa vermelha/ shiro = faixa azul). Assim vão seguindo-se as disputas até que se obtenha os 4 atletas finalistas que disputarão os 3 primeiros lugares.

Nas disputas de Kata por equipes, 3 ou 5 atletas se apresentam simultaneamente, devendo procurar executar todos os movimentos de forma síncrona e com o máximo de semelhança possível entre si. De igual forma, as equipes se apresentam uma a uma e recebem o resultado através de bandeiras, como ocorre nas disputas individuais. Existem ainda disputas de bunkai, onde as aplicações dos movimentos dos katas devem ser ilustradas através de uma "dramatização" dos golpes. Algumas destas apresentações são muito criativas e alcançam incomparável beleza e perfeição técnica.
Apesar de ser um esporte massivamente praticado em todo o mundo, o Karate ainda não é considerado um esporte olímpico. Acredita-se que este fato seja motivado, tão somente, por questões políticas, uma vez que o esporte já se encontra organizado e possui uma federação mundial com regras próprias, é praticado mundialmente, tem seus eventos mundiais realizados periodicamente e já é presença garantida nos Jogos Panamericanos. Esperamos que num futuro próximo, as barreiras políticas ou seja lá quais forem sejam transpostas para que o Karate possa ocupar seu merecido lugar nos jogos olímpicos.

Apesar da importância das competições e de seu papel socializador e mantenedor da chama que mantêm vivo o Karate, devemos sempre nos lembrar que elas não são, nem devem ser, o objetivo maior e/ou final do aluno/professor. Ao contrário, as competições devem ser encaradas como um trampolim, uma ponte que vai ajudar o praticante de Karate a alcançar seus maiores objetivos na prática de sua arte. Em outras palavras, um aluno que treina exclusivamente para competições, poderá sentir-se frustrado caso seus objetivos não se cumpram, ou mesmo que estes sejam alcançados, tal aluno poderá frustrar por uma série de razões como o seu envelhecimento e cessação da idade produtiva neste tipo de evento. De fato, muito embora alguns atletas continuem competindo até uma idade relativamente avançada, a maioria encerra sua participação em competições depois de uma certa idade. Se competir for o principal ou único objetivo de um atleta que se vê forçado a encerrar suas atividades como competidor, este pode acabar abandonando a prática do Karate, uma vez que ele não construiu um sentido maior para a prática do mesmo.

Alguns mestres, no passado, eram contra as competições por acreditar que os objetivos da prática do Karate Do eram imcompatíveis com tais eventos. Hoje em dia, no entanto, a maioria dos mestres já encara estes eventos de forma positiva, embora sempre façam questão de frisar que estes não, nem jamais serão, o objetivo principal da prática do Karate.

Em suma, as competições, quando encaradas da forma correta, podem e devem fazer parte da vida do aluno. Elas podem ajudá-lo a superar-se a si próprio além de servirem de incentivo para que ele continue sempre buscando melhorar mais e mais nos caminhos do Karate. No entanto, tais eventos não devem ser vistos como o principal objetivo do atleta, uma vez que, caso sejam vistos desta forma, podem trazer dor e frustração ao aluno, que pode acabar se desviando do verdadeiro Do.


Publicado em : Livros, Trechos de Livros
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Comentários (1)
Postado em nateco, em 22-09-2008 16:28, , Membro Registado
O livro "Karate: a arte de transformar vidas" ainda está em processo de escrita e deverá ter conteúdo acrescentado ao longo dos próximos meses. No entanto, achei que seria interessante disponibilizar ao leitor aquilo que já foi produzido, ao invés de aguardar até a conclusão do livro.
 
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