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| ESA #27 - Erick não conhece limites |
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- Muito legal da parte da Sofia convidar a gente para o recital esse sábado, não? - após o comentário, Erick ergueu os olhos para Joyce. A garota estava distraída com o convite prateado nas mãos, os cabelos castanhos lisos presos em um rabo de cavalo, ainda de uniforme. - O que você acha? Devemos ir?
- Certamente não pode ser pior do que os comentários da escola. - Erick estava de mau-humor naquela quarta-feira e Joyce não precisava mais do que o seu tom de voz para saber disso. - Mas de que adianta? Se for à noite não vou poder ir. - Ah se o André forçar o tio Márcio te libera do castigo por uma noite. Além do mais, ele não é esse tipo de pai chato que fica pegando no pé... - Joyce comentou batendo os ombros, com a cara escondida dentro do convite. - Você diz isso porque ele não é o seu pai, no meu pé ele pega todo dia! Joyce finalmente largou o convite de lado para encarar Erick. Eles estavam em seu quarto, no carpete cor-de-rosa estudando química. Sorriu mostrando os dentes perfeitos: - Ah é? E o que ele faz? Implica com suas roupas? Seus piercings? Suas notas? Normal, Erick, ele está sendo pai! Pais fazem isso... você tem que ver a minha mãe, ela implica com tudo! - Não estou acostumado com isso, minha mãe não implicava com nada e nem Gregory. - Eles não brigaram quando você apareceu com esses furos na sua boca? Se o Joaquim fizesse isso, meus pais o deixariam de castigo o resto da vida! - Não. Na verdade quando eu disse que queria fazer piercing o Gregory achou que eu estava brincando e me levou até a loja. - Erick riu. - Eu não estava brincando, mas não sabia que ia doer tanto! - Ai, me deu até dor! - Joyce riu também. - E o que a sua mãe fez quando viu? - Ela nem viu. - e nessa hora o sorriso de Erick desapareceu. - Odeio quando você faz essa cara. - observou com a voz murcha de chateação. - Dá um aperto horrível no peito. - Deixa pra lá. Às vezes até esqueço tudo o que aconteceu... mas as vezes eu lembro que ela passou um ano e meio deitada naquela cama. - eram exatos dezesseis meses e doze dias. - O que aconteceu? - O pior nessa história toda é que se você digitar "coma profundo" no Google, você vai ler que é comum os pacientes morrerem de falência múltipla dos órgãos. - Erick contou. - Eu não sei o que dizer, eu me sinto sempre sozinha que meus pais viajam o tempo todo... mas eles tão vivos e sei que pelo menos uma vez por mês eles aparecem em casa... - Não tem problema, Joyce. Já acabou. O problema não era saber que ela ia morrer, mas achar que ela podia acordar... cada dia que passava e ela não acordava, ou não respondia a qualquer estímulo... era isso que era complicado... especialmente pro Gregory. - Você não fala muito desse Gregory... até parece que você não gosta dele. - Ah... - Erick soltou o lápis em cima do exercício. - Estou evitando falar com ele. - Por quê? - Além dos motivos óbvios? - e foi suficiente pra que o olhar distante de Erick se firmasse com irritação. - Há uns meses atrás a Guta disse que o tio Márcio te arrancou de Brasília à força. Teoricamente você não deveria preferir voltar pro Gregory? - Ah, Joyce é complicado... deu um rolo enorme. - Erick suspirou. Joyce o encarava com um ar de interrogação. Era incrível como todo mundo gostava de escutar essa história. - Eu não quero falar a respeito, pode ser? - Não ia fazer como fez com Sofia, que falou tudo pra nada. - Pode ser, se você prefere. Só acho que você tem sorte, porque tem dois pais que se preocupam com você. - Se isso fosse verdade, eles teriam perguntado o que eu prefiro. - E o que você prefere, Erick? - a pergunta simples de Joyce foi como uma faca afiada e certeira de sinceridade. - Em quatro meses, você se surpreenderia como as preferências da gente mudam radicalmente e com uma rapidez abusiva. - E em Brasília você acha que ia ser mais feliz do que aqui? - Não tava legal em Brasília faz muito tempo. Mas às vezes tenho saudades... - Você devia ligar pro seu padrasto, Erick. Independente de qualquer coisa, ele deve estar sofrendo também. A sua mãe era esposa dele, e além dela, ele também perdeu você. - Se eu disser que vou pensar no caso, você muda de assunto? - era fácil falar essas coisas, era a mesma reação que Guta tivera e Sofia tivera. Compaixão pela dor de Gregory. Mas Gregory não tinha dor de nada, ao contrário, nem demorou a mandá-lo para longe! - Desculpe não queria incomodar você com isso, só tentei ajudar. - Joyce chateou-se. Às vezes se sentia uma boba, porque sempre que tentava conversar com Erick ele esquivava-se do assunto. Erick sentiu-se culpado quando Joyce abaixou a cabeça chateada. Ele sabia que devia confiar mais nela, contar mais coisas e que ela tinha toda razão quando dizia que ele deveria ligar para Gregory. Mas tudo o que Erick queria era simplesmente esquecer todos os seus problemas, nem que isso significasse ter que fingir que eles não existiam. - Ah, Joyce, não fica chateada. - Eu não estou. - e pegou de novo o convite, para não ter que olhar para Erick, porque estava chateada. - Fica decidido que vamos ao recital? - É, fica... - Erick pegou o lápis de novo e voltou a se concentrar em seus estudos. Só que não conseguiu. Ficou o tempo todo imaginando o que iria acontecer se ele falasse com Gregory. O que ele teria para contar? O que Gregory teria para contar? Renato estava amarrando os sapatos no banco da quadra de basquete da escola. O restante do time estava terminando de chegar. Os cabelos loiros presos com uma faixa de cabelo na testa, porque ele odiava como o cabelo grudava em sua pele por conta do suor. André aproximou-se largando a mochila da Nike e sentou-se ao lado do amigo. - E aí, Rê? Beleza? - Tudo certo... e você? - Ah, mais ou menos... - André ajeitou à meia. - Estou um pouco chateado com esse monte de gente enxerida que tem nessa escola. - Você é uma celebridade escolar, André. É isso que acontece. - Ninguém fala mal de você! - É que não dei motivo. - Você acha que as pessoas estão certas? - André o encarou, surpreso. - Que dei motivo? - Não sei o que eu acho, não acho certo esse lance de traição. Isso pra mim é imaturidade. Da Joyce, da Guta, do Erick e principalmente sua! - Você é livre pra pensar o que quiser, só não ache que eu estou achando isso divertido. Tudo bem que traí a Joyce com a Guta, que não tenho razão no que fiz, que fiz coisas erradas... mas isso não elimina o fato de que eu tenho sentimentos. Renato soltou uma gargalhada. - Que tipo de sentimentos você acha que tem André? - Renato soou como Erick para André, e isso foi o suficiente para que André se irritasse com seu melhor amigo. Era um tom irônico que não era comum em Renato. - Eu gosto muito das duas e me preocupo com elas! Tanto que não acho legal a Joyce namorar o Erick. - Isso pra mim é ciúmes, não preocupação. - Você fala isso, mas não sabe direito das coisas. A Joyce é fenomenal, perfeita... aquele cara é um erro, não vai saber cuidar dela direito. - E por acaso você sabia? Eu acho que trair a namorada não é cuidar direito de ninguém. Você está sendo egoísta, pra variar... você é o mais errado nessa história, sabe por quê? - Essa é boa...! - Porque você magoou a Joyce, não dando atenção pra ela. Aí o que aconteceu? O primeiro que deu mais atenção foi o suficiente pra ela te trocar. Ela errou, mas só errou porque você errou primeiro. A culpa é toda sua! - Não é porque a culpa é minha que eu aprovo o namoro dos dois. - Você tá com ciúmes, não suporta a idéia da Joyce ter te trocado pelo Erick, sendo que você a trocou primeiro com a Guta. - A Guta não é metade do que a Joyce é! - A Guta é um doce, uma das melhores pessoas que já conheci. Não sei como ela foi se meter nessa confusão e só posso crer que ela gosta muito de você... só que se você maltratar a Guta ou fizer ela chorar... eu juro que vou ser o primeiro a bater em você, tá entendendo? - Ih, o que foi está com ciúmes? Quer a Guta pra você?! - Se liga, André... será que você não consegue pensar em ninguém além de você?! - Renato ficou em pé, o treinador chamava os garotos pro meio da quadra. - Pensa bem antes de fazer as besteiras! E dito isso, Renato foi para a quadra, irritado com André. Marcio atendeu ao telefone de seu escritório naquela manhã fria. Estava com a xícara de café em cima da mesa, pois havia acabado de chegar ao escritório após largar os filhos na escola. - Alô? - Márcio? - era a voz de Gregory do outro lado da linha, já anunciado pela secretária, que retornou a ligação que solicitara. Dessa vez Márcio quem havia procurado o homem. O que não acontecia sempre. - Aconteceu alguma coisa? - Não precisa se preocupar, Erick está bem. - Ele não me ligou nem uma vez desde que está aí. Não havíamos combinado que nos falaríamos toda semana? Eu pago a conta de celular pra quê? - Se ele não quer falar com você, isso não é problema meu. Não posso obrigá-lo, posso? Gregory suspirou impaciente do outro lado da linha. Márcio folgou a sua gravata verde listrada de verde escuro. O terno marrom combinava com a camiseta amarela. - Essa semana ele estourou o limite do meu cartão de crédito numa repentina mudança de comportamento... jogou todas as roupas fora! - Márcio o que eu te falei sobre o Erick e cartões de crédito? - Eu não achei que ele fosse gastar o limite inteiro! Esse moleque não conhece limites, pra nada! O que você fazia a respeito? Deixava-o gastar o que quisesse? Gregory não é assim que a gente educa nossos filhos. - Desde quando você é um expert em educação, Márcio? - Criei o André muito bem, ele é um rapaz responsável e... - O André não é seu filho, Márcio. - Gregory se irritou. - Você disse que o Erick estava respeitando os horários do castigo e que estava longe de confusões, esse não era nosso objetivo principal? Por falar nisso deu certo a viagem de vocês? - Não. Ele ficou o fim de semana inteiro trancado no quarto. Até bebeu de novo. Não sei o que fazer a respeito. Logo depois disso, jogou todas as roupas fora e disse que precisava comprar novas. Eu achei que era uma boa idéia, já que não aprovo aquelas roupas mesmo... - É, mas acompanhe as compras, não saia confiando no bom senso do Erick, ele não tem... não com cartão de crédito. Falo isso por experiência própria! - É culpa sua que ele não saiba controlar gastos, você deixava o garoto gastar o que quisesse. - Eu não vejo problema nenhum ele gastar se eu posso pagar. Sempre cuidei para que nada faltasse na vida dele, ao contrário de você. Se você não pode pagar as contas do seu filho imponha limites! - Ah, tá bom, Gregory. Eu não liguei pra falar de contas, eu liguei pra pedir conselhos. - Márcio não queria entrar nesse âmbito com Gregory e isso se devia ao fato de que Gregory tinha uma carreira bem sucedida, promissora, era mais jovem e passou os últimos anos ocupando seu posto de pai na vida de seu filho. - Conselhos? - Gegory riu debochado. - Muito bem, que tipo de conselhos você, o super pai, pode precisar de um péssimo tutor como eu? - Gregory adorava utilizar-se de ironia para falar com Márcio. As faíscas agressivas aconteciam entre os dois desde o primeiro dia que um botou os olhos no outro, no aniversário de sete anos de Erick. Gênios e personalidades controversas resultavam sempre em discussão. - Apesar da sua falta de senso de responsabilidade e educação, você esteve com Erick esse tempo todo e pode saber melhor que tipo de viagem familiar ele goste mais, pois o hotel fazenda foi um desastre! - Eu avisei que seria! - Eu achei que uma mudança brusca de ambiente o fizesse repensar algumas coisas... - E fez, no armário. - Gregory riu mais uma vez em deboche, divertindo-se com a desgraça de Márcio. - Afinal quanto ele gastou? - Muito mais do que eu posso pagar. - Você o deixou de castigo? - Mas é claro! Além de um longo sermão sobre responsabilidade. Mas daqui a pouco de tantos castigos não vai sobrar nada para ele fazer. - Tudo bem, o importante é impor limites. O Erick é obediente, vai respeitar qualquer limite que você inventar, mas se você não impuser limite nenhum, ele vai sempre extrapolar. - O Erick está colecionando castigos, Gregory. Já perdi noção do quanto ele faz de propósito ou do quanto é mesmo algum problema de responsabilidade! - E amigos? Essa é a parte que mais me preocupa... - Ele fez amizade com os amigos de André, quanto a isto estou tranqüilo, são jovens muito responsáveis, de boas famílias, conheço os pais de todos. - Ótimo. - Gregory relaxou. - Depois fale com minha secretária, me passe essa fatura do cartão. Vou agendar para você um passeio que faz mais o perfil do Erick e depois você pode me agradecer. Conversaremos sério sobre ele passar uma semana em Brasília. - O quê? - Eu estou com saudades dele! - Não, ele não vai para Brasília! - O Erick vem para Brasília, você não vai querer discutir isso comigo. Fique tranqüilo, assinarei um termo de responsabilidade e me comprometo que no sétimo dia ele está de volta em sua casa, não vou seqüestrar meu próprio filho. - Erick não é seu filho. - Heloísa não pensava assim. - Heloísa está morta. - Márcio foi duro e incisivo em sua decisão. - Eu decido se o Erick vai ou não para Brasília no fim das férias. - Márcio eu pago o que for preciso, o valor que você quiser. Eu compro seis dias da vida do Erick se você preferir, contrato assinado e reconhecido firma no cartório. Você precisa do dinheiro, já que o Erick resolveu falir as suas economias, e acredite, ele é bom em fazer isso. Só estou pedindo que ele passe seis dias comigo! São seis dias dos trinta dias de férias escolares. Se você quiser, nem fico em Brasília e vou pra fora do país, você decide. Apenas não faça isso conosco, porque não é justo e é egoísta. Márcio suspirou. Parou um pouco para pensar. - Tudo bem. Temos nossas diferenças e não concordamos em muita coisa... mas estamos os dois lutando pelo bem estar do Erick. Além do mais, não quero entrar nessa briga com você. - e essa ultima frase se referia ao processo judicial que estava interrompido, visando tirar a guarda de Márcio. A interrupção havia sido um acordo para que Erick fosse morar na casa de Márcio por tempo indeterminado, mas Márcio vivia receoso a respeito. - Então estamos combinados. Não se esqueça de me passar essa conta depois. Agora preciso ir, tenho uma reunião antes do almoço. - Certo. - e com isso Márcio desligou a ligação, precisando de um calmante. Cobriu os olhos com as mãos. O que ele estava fazendo? Havia negociado Erick como uma mercadoria. Mas o que podia fazer? Não queria aclamar derrota, não queria ter que abaixar a cabeça e entregar Erick para Gregory nunca... e o relógio estava correndo, ele tinha menos do que três anos antes que Erick fizesse dezoito anos e decidisse por si mesmo para onde queria ir... e Márcio tinha medo que no fim desse tempo, ou até mesmo antes disso, Erick dissesse que não queria mais ficar lá, que queria voltar para Brasília, ou pior: que queria voltar para Gregory. Estava chovendo bem forte naquela tarde. O vento batia gelado na varanda. Guta estava sentada no chão com um copo de vinho tinto nas mãos, que ela trouxera. Dentro do quarto o notebook de Erick berrava Bad Religion, enquanto os dois conversavam. - Esse sábado vai ser uma merda. - Erick desabafou após um largo gole no vinho. - Por que você não diz pra Joyce que não quer ir? - Ela quer ir... - Que bonitinho, se sacrificando pela namorada! - Guta debochou. Soltou o copo para fechar o zíper do casaco branco com frio, estava de botas cinza e calça jeans preta. - Como estão as coisas entre vocês? - A gente passa o tempo todo estudando... eu nunca estudei tanto na minha vida! Já não sei quando estou de mau-humor ou simplesmente entediado! - Se você tirar boas notas vai sobrar bastante tempo pra vocês! Já no meu caso, tenho que aproveitar antes das aulas acabarem, pois o André vai ter um milhão de treinos... vai ser um saco. E como estão as coisas no jornal? - Não estou com muito tempo pro Jornal. - afastou a franja dos olhos, empurrando o capuz do moletom preto para trás. - Essa semana nem estive nas reuniões... se a Cecília não tivesse enviado e-mail dizendo que fotos queria, eu nem ia fazer. A matéria da semana que vem ainda é aquele top idiota... "os dez melhores lugares para sair com os amigos". Sorte que ela queria uma foto de um café e estive em um com a Joyce ontem. - É, você a Joyce agora não se desgrudam... dá uma inveja! Queria que o André fosse assim comigo. Acho muito lindo que vocês façam tudo juntos! - Mas a gente só estuda! - riu. - Mesmo assim é legal. Acho muito bonitinho ela te ajudar com os estudos, mesmo estando com as notas altas e não precisando estudar. Se tudo der certo vocês vão poder descontar nas férias tudo o que não fizeram! - A Joyce vai ter aulas extras de Ballet, vai ter que acordar cedo todo dia. De que adianta ter férias e mesmo assim não ter tempo pra nada? - Já foi numa aula de Ballet com ela? - Não. Eu queria ir... mas ela não deixa. - olhou no relógio. - Inclusive agora ela está lá, deve chegar só mais tarde aqui. - Enquanto nossos amores se ocupam com seus afazeres, a gente bebe! - Guta piscou um olho, com um sorriso grande e brilhante nos lábios. - Isso é muito feio! Eu devia estar terminando o trabalho de história! - Erick riu. - Prometi pra Joyce que ia terminar hoje! Ela quer revisar tudo antes de imprimir, é muito perfeccionista! - Você termina mais tarde, daqui a pouco o André volta e você não precisa ficar fazendo sala pra mim! A Joyce demora pra chegar mesmo. - Guta finalizou o copo e tratou de encher a taça novamente. - E seu padrasto fica te ligando ainda? - Fica. Ontem eu quase atendi... na quarta a Joyce falou umas coisas que me fizeram pensar... sei lá, me senti tão egoísta quando ela falou que eu devia atender, que eu estava pensando só no meu lado... foi horrível. - Não é o máximo como ela fala como se tivesse toda a razão do mundo?! - É, eu achava que era bom em fazer isso, mas ela me supera! Recebo cada lição de moral que às vezes fico até sem graça! - Como qual? - Lembra que eu dormi na aula de matemática? - Lembro! - Guta divertiu-se. - Ela brigou com você? - Não foi bem brigar... fez eu me sentir a pessoa mais irresponsável do mundo! - encheu mais seu copo também. - É mesmo muito irresponsável! - Guta debochou. - E eu ainda peguei mais um castigo essa semana... - Por causa do cartão de crédito, né? O tio Márcio ainda pegou leve, Erick! Minha mãe no lugar dele não ia ser tão light. - É. Isso me assustou. Nunca é bom quando nossos pais guardam a maior bronca pra outro dia... - Erick torceu o nariz. - Eu juro que estou tentando não ficar de castigo! - É, to vendo! - Guta bateu sua taça com a dele. - Bebendo assim vai é ficar de castigo até o Natal! - É. Eu sei... eu preciso parar com isso. - confessou meio chateado. - Você sabe... - Você já contou pra Joyce? - Nem vou, Guta... imagina o que ela não vai pensar? - Erick, eu ouvi direito? Você está realmente preocupado com o que alguém vai achar de você? Meu deus! - berrou fingindo estar horrorizada com uma notícia arrasadora. - Estou surpresa, você está mesmo apaixonado! - Não é isso, Guta. - Erick irritou-se com o comentário. Mas sabia que estava se enganando. - Não? - Guta debochou. - Ah, já sei, você não quer é a mãe dela apontando o dedo e dizendo: "Joyce minha filha, uma menina tão bem criada como você se envolvendo com esse tipo de marginal!" - e imitou a mãe de Joyce de forma semelhante. - Erick, a Joyce gosta de você. Independente de como você se veste e da sua nota no trabalho de história! - É exatamente por isso que ela merece um pouco mais de esforço da minha parte, né? - Erick largou a taça pela metade. - E por isso, tenho que ir terminar aquele trabalho de história antes que a noite acabe comigo vomitando no banheiro! É só isso que eu faço de sexta-feira... - Tá bem, eu te ajudo! - Guta ficou de pé. - Vamos terminar o trabalho de história e a Joyce vai ficar orgulhosa de você. Quem sabe a noite não esquenta depois disso? - Não fala bobeira, Guta! Quando André chegou em casa, a única coisa que ele pensava era em deitar-se com Guta! Depois de um treino puxado como tivera, na chuva, achava que merecia um pouco de carinho e de atenção. Ver um vídeo no quarto depois do jantar e aninhar-se no calor de sua namorada! Subiu as escadas e escutou a música que vinha do quarto de Erick, uma baladinha romântica. Irritou-se de imediato. Isso só podia significar que Joyce estava com ele no quarto. Portanto, não contou duas e abriu a porta devagar, procurando não fazer barulho. Sentiu um arrepio percorrer todo seu corpo com a visão pavorosa que tinha: A blusa de Guta estava em cima da cama. Os lençóis desfeitos. Percebeu a luz do banheiro acessa e o chuveiro ligado. Isso só podia significar que Erick e Guta haviam acabado de fazer sexo! Isso era um ultraje! Além de roubar Joyce, Erick agora roubara Guta?! Portanto, André não pensou duas vezes antes de abrir a porta, dessa vez, da forma mais brusca que conseguiu! O banheiro estava todo embassado do calor do vapor da água. Guta estava debruçada segurando com uma mão uma toalha e a outra a cabeça de Erick, que vomitava no vaso sanitário branco. - Cacete! - André soltou em um misto de susto e alívio. Por sorte não era o que ele pensava, mas por outro lado, era seu irmão bêbado de novo! Já estava de saco cheio dessa mania. - Que bosta, Erick! - André me ajuda. - Guta pediu, sem se mexer, com apenas o sutiã branco de renda. - Ele não para de vomitar! - Calma. - André se aproximou e segurou a cabeça do irmão, que vomitava pela necessidade, porque não estava nem de olhos abertos. - O que vocês tomaram? - Só vinho! - Guta estava com os olhos cheios de lágrimas. - Droga... - Vai se vestir, Guta... - André não gostou de ver a namorada sem blusa, trancada no banheiro com o irmão. - Tá suja, ele vomitou em mim... a gente não bebeu muito... ele só tomou umas cinco taças! Estávamos terminando o trabalho de história, conversando... aí ele começou a passar mal. - Erick, cê tá legal? - André ignorou a garota e se concentrou em seu irmão, quando ele segurou em sua mão, fazendo-o soltar sua testa. - Estou só enjoado. - respondeu embriagado, com a voz arrastada. André o ajudou a ficar em pé. - Merda... - e se debruçou de novo para vomitar. André colocou as duas mãos na cabeça. Encarou Guta que ainda estava de sutiã na sua frente. - Vai pegar uma blusa no meu quarto. Não é pra ficar peladona desse jeito na frente do meu irmão, saco. - falou com toda sua estupidez. Guta deixou o banheiro com pressa chateada. - Erick, cê consegue ficar em pé? - Me deixa em paz, André... - reclamou. Não conseguia se concentrar, tudo girava, ele girava... e só sentia um enorme enjôo ensurdecedor. O grande problema era que nem tinha mais nada para vomitar, era desesperador. - Você não tem limites. - André resmungou, deixando o irmão sozinho no banheiro. Para piorar tudo, a campainha tocou. - Aposto que é a Joyce. André desceu as escadas para atender a campainha. Quando André chegou na sala e abriu a porta, constatou que ganhara a aposta. - Oi Joyce! - Oi André! - o cumprimentou. Estava de calça jeans, sapato preto e um casaco de moletom cor-de-rosa, segurando a mochila que carregava as coisas do ballet. O cabelo estava preso com gel e coque. - Cadê o Erick? - Vomitando, pra variar. Seu namorado é um bêbado! - André deu espaço para ela entrar. - Oh. - Joyce não soube o que dizer, não esperava que Erick fosse estar bêbado na primeira sexta-feira dos dois. - Posso subir? - André deu de ombros. Joyce andou em direção à escada e no corredor, encontrou com Guta, que saía do quarto de André, com uma de suas camisas. - Oi, Guta... tudo bem? O que houve? - Ai, Joyce... - Guta falou com a voz trêmula, abraçou a amiga. - É tudo culpa minha, desculpa. - Joyce sentiu o bafo de bebida de Guta. - Desculpa. - O Erick está bem? - Guta fez que não com a cabeça. Joyce entrou no quarto sem demorar. Soltou a mochila e dirigiu-se até o banheiro. Encontrou com Erick sentado no chão debruçado no vaso sanitário, que estava sujo de vômito. - Erick? Erick levantou a cabeça e a encarou com os olhos azuis avermelhados e o rosto pálido. Droga, não era para Joyce estar ali. - Vem, vamos lavar o rosto. - Joyce o ajudou a ficar em pé. - Eu vou arrumar a cama dele, tá? - Guta falou atrás dela, na porta. - Assim ele descansa. - Obrigada. - Joyce sorriu para a amiga. Guta saiu, para ir para o quarto. Quando Erick acordou, Joyce estava no quarto com a luz apagada, sentada no pé da cama, com o notebook no colo. Assim que ele se mexeu, ela logo salvou o arquivo e colocou o computador no chão. Por cima do lençol subiu em cima de Erick, não deixando ele se levantar. - Seu bêbado! - resmungou, depois sua careta séria e falsa deu lugar a um sorriso, contente por vê-lo consciente. O beijou. - São quase onze horas, achei que você não ia acordar mais! - Desculpe. - Encarou a silhueta de Joyce no escuro. - Não era pra ficar bêbado antes de terminar o trabalho... me distraí... - Podia ter esperado eu chegar, assim ficaríamos bêbados juntos. - Já disse que isso não combina com você. - O que vocês estavam comemorando? - Joyce quis saber. - Nada, estávamos só passando o tempo enquanto nem você e nem o André chegavam... pra variar estraguei tudo. - Você precisa é tomar um banho, amorzinho, está todo sujo! - Joyce debochou. - E podemos terminar o trabalho de história, se você estiver se sentindo bem. - Não tem como me sentir mal com você aqui! - Erick sentou-se, puxando Joyce para o seu lado. Eles se encararam. - Vai adiantar alguma coisa se eu prometer não beber mais? - Vai ser um avanço se você conseguir manter a promessa! Não queremos que você fique com mais castigos, estamos tentando ter umas férias boas, não é? - É, eu sei... - Erick a encarou em seriedade. - Já te disse que faço tudo pra te ver feliz, né? - É. Já. - ela o beijou longamente, em resposta as palavras de carinho dispersadas. Apertou-se contra Erick, abraçando-o. Depois, os dois se encararam de novo no escuro. - Vai tomar banho, seu porquinho! E escova os dentes, tá com bafinho! - Joyce sentenciou debochada.
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