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Lágrimas de Prata - O Cheiro de Rosas Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Brunno, em 03-09-2008 00:18
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Os primeiros americanos chegaram ao bunker e encontraram um grupo de ingleses sentados, extenuados, sujos, famintos e feridos. O tenente-coronel Marik de Bruce tinha a perna direita inchada quase a ponto de rasgar a calça, o supercílio era uma massa roxa, vermelha de sangue seco e de cor bege pela terra.

O ferimento antigo do olho de Gascoin supurava uma infecção insistente e o outro olho sangrava pela lateral, quase cegando o soldado francês, fora o ombro paralisado pela dor do tiro. Bony também fora baleado, mas na lateral do tronco, por uma metralhadora alemã da primeira guerra, tiro fraco que mesmo de raspão abriu ferimento extenso.

Os demais haviam tirado os capacetes e sentaram-se em silêncio na sala da MG42. Na verdade tinham uma visão privilegiada da Normandia. O tempo era fresco e os americanos ávidos por ajudar. Sua decisão imediata foi trazer cobertores e ração para os ingleses, afinal, eles haviam aberto caminho para avanço de tropas importantes.

O SAS foi informado de que havia pára-quedistas da Easy Company saltando no sul da França. Henri achou incrível com que velocidade os americanos montavam barracas e armavam construções com paredes pré-fabricadas descidas dos conveses dos navios. Do alto da saída da metralhadora, Demot e Gascoin estavam fumando com os cotovelos apoiados sobre o pára-peito e olhando a movimentação americana na praia.

__Senhores, sou o major Fox, quem está no comando? - De Bruce levantou a mão, mas não disse nada. Suas roupas estavam tão desgastadas e estava tão cansado e com dor, que apenas queria um hospital e uma cama - Levante-se soldado, não estamos aqui para descansar, qual sua patente?

Bruce foi levantando do chão diante do major e logo o sol escondeu-se atrás do inglês.

__Sou Tenente-Coronel, Major. Agora diga onde está o restante de sua tropa e porque demoraram tanto?- De Bruce ajeitava a gola de sua camisa, embainhava a faca, trocava o pente da MVK e travava o cão. Chamou seus homens diante do major e mandou que ficassem descansados. A essa ordem os homens dobraram as pernas sobre os joelhos direitos, ficando o cotovelo apoiado sobre o esquerdo, aguardando ordens.

__Excelente, senhores. Muito bom trabalho. É doloroso carregar nossos mortos, mas quero que Demot e Grills voltem para o sul deste lugar e tragam os corpos de Winston, Phelps e Simpson. Ou o que restou deles. Hoje nós tomamos uma importante missão alemã - virou-se para o americano- Como estão as defesas laterais deste ponto, major?

__Resistem, mas temos agora um ponto seco onde nossos engenheiros estão abrindo um deque para desembarque dos tanques, subindo por essa encosta que vocês conquistaram temos como atacá-los de todos os lados. Nossos radares interceptaram que esquadras da Lutfwafe estão decolando da Bélgica e vindo para cá. Parece que Hitler foi avisado da invasão de vocês. - respondeu o major Fox empertigado por falar com um coronel.

__Ótimo, gostaria de saber, major, se há possibilidade de meus homens e eu recebermos atendimento médico em algum posto de vocês. - Fox respondeu que sim e chamou alguns soldados - Precisamos também de munição, granadas, roupas novas, remédios, coturnos reformados, capacetes e velames, ou ao menos cordas para armar os nossos novamente. Pode conseguir isso?

__Soldado Glass - gritou o major Fox - escolte estes senhores até o deque do Virgínia e faça com que recebam um banho, comida e camas quentes, bem como remédios e atendimento médico no navio, dê-lhes toda munição que precisarem e qualquer outro equipamento.

__Eu o agradeço, major, só tem mais uma coisa. Precisamos nos reunir e enviar uma mensagem a Londres, sabe onde podemos fazer isso?

O major pensou por um segundo. Olhou os homens ajoelhados aguardando ordens de seu oficial comandante e pensou em como eram disciplinados.

__Obviamente, Coronel, há uma estação de rádio no Virgínia, mas espero que saibam para onde transmitir a Londres, soubemos que a cidade está sitiada há três dias.

__Foi bombardeada? - quis saber De Bruce.

__Não segundo soubemos. Existem camadas de resistência na cidade que estão contendo qualquer avanço nazista, a cúpula de guerra ainda nem foi retirada para local seguro. Nosso Comandante-em-Chefe General David Eisenhower está com seu Primeiro-Ministro e o governante francês.

Henri levantou rapidamente, depois voltando à posição de "descanso" do SAS. De Bruce virou para ele sorrindo. Sabia que eram notícias que ele queria ouvir. Logo os olhos dos dois franceses estavam marejados de orgulho, maior mesmo do que ver a bandeira inglesa tremulando diante da fachada do bunker.

Os Ingleses foram levados para o Vinginia Class, uma fragata de mais de cento e trinta pés ancorada ao largo da costa. No navio os soldados foram tratados, Gascoin, De Bruce, Bony e quaisquer outros ferimentos foram limpos e medicados. Os homens receberam um alojamento e camas limpas, tomaram um banho e tiveram seus uniformes restaurados. O jantar daquele dia foi especial: arroz, carneiro, legumes, batatas e vinho!

Enquanto o SAS dormia, o coronel foi até a ponte para usar o rádio. O capitão o deixou à vontade.

__War Room, this is Splinter! Somebody listening? Aqui é o Tenente-Coronel Bruce, estou transmitindo da Normandia. Alguém na escuta, câmbio? - o aparelho chiou por alguns segundos até que alguém respondeu.

"Na escuta, Coronel. Estávamos aguardando sua transmissão. Como estão todos, câmbio?"

__Estão como devem estar, vivos e ativos. Ouça: Nós estamos bem, a salvo e perto de casa. Cuidado com sua retaguarda, Londres. Vocês me ouvem, câmbio? - novamente o chiado.

"Copiamos a mensagem, repito, copiamos a mensagem. Estado-Maior ciente da condição de ameaça. Qual sua posição neste momento, câmbio?"

"Minha posição neste momento?" pensou Bruce. "Em pé, diante de um rádio!" respondeu e desligou. Voltou para o alojamento e depois de conversar com seus homens rapidamente, decidiram que ficariam ali para ajudar os americanos a tomar as demais praias.

Erney perguntou ao doutor Jekill o que ele achava dos ferimentos de Bruce, em silêncio, ouvido somente por alguns homens. O médico da equipe disse que o coronel era mais forte que eles haviam imaginado.

A próxima praia a ser tomada era Juno, depois Sword e finalmente Gold, já na costa oeste francesa. Ao todo seria mais cinqüenta quilômetros de tomada, o que abriria de vez a passagem de homens e máquinas para o interior.


Ao chegarem à planície acima da praia, atrás dos bunkers, os tanques tiveram as primeiras dificuldades em avançar devido a mata fechada. A rede de túneis que ligava as casas-mata de Saint Marie du Mont fora implodida pelos engenheiros americanos e o que sobrou da papelada foi incinerada ou arquivada nos navios.

Ao terceiro dia depois da tomada de Omaha, havia mais de trezentos mil homens acampados e aguardando ordens para continuar o avanço. Era manhã do dia dez de junho, e Londres despertava para mais um dia de guerra.

Liv abriu vagarosamente os olhos esverdeados e ficou deitada na mesma posição. Demorou alguns minutos até sair da cama porque o frio era intimidador. Haviam providenciado para ela um apartamento na mesma quadra da Thames House, pouco mais de cinqüenta metros distante.

Trocou de roupa e tomou um café leve. Pegou uma edição do London Daily que fora deixada em sua porta e leu rapidamente. As notícias que chegavam à imprensa através dos valentes correspondentes de guerra eram animadoras naquele dia. Davam conta de que as tropas inglesas haviam deitado suas forças sobre o litoral francês e estavam avançando.

Ainda assim não era hora de sorrir. Liv tinha alguma coisa a incomodando e ela teria de dar conta do recado. Imaginava que havia uma falha de segurança dentro da Thames. Só não sabia o motivo, e muito menos em como agir para ter sucesso em capturar ou sequer desmascaram o traidor.

A bela morena sabia que Frederic estava prestativo demais para saber mais do que lhe era dito. Tinha certeza, agora, de que ele havia lido o relatório sobre as posições dos aviões da Fleet Air Arm. E o que era pior, sabia quando o hangar estaria vazio, ficando, ainda que brevemente, Pas-de-Calais desprovido de defesa.

Saiu para a rua e novamente a desolação da guerra a fez pensar em Paris. Se Londres, ainda resistente estava daquele jeito, com boa parte da cidade destruída, a capital francesa devia estar pior.

O General Bouffey, o mesmo que a havia alertado sobre a existência de soldados franceses junto ao SAS, explicou que a França ocupada estava melhor do que ela imaginava, ao menos na infra-estrutura.

__Todos os serviços foram postos novamente em atividade, madmoiselle Duncan. Ainda que ocupados pelos nazistas, os franceses não rebelados recebem comida e aturam os invasores. - disse o homem na sala de reuniões da Thames, aguardando a chegada da Cúpula de Guerra.

__Homens simples, General. Sabem que nessas condições é inútil lutar. Rendem-se à comodidade de seguir suas vidas ainda que sob a bandeira de fanáticos.

__Nós também somos pessoas simples, Liv. E ainda assim acreditamos que lutar é o certo - o General Bouffey gostava de pensar na guerra como um mal necessário, portanto, digno de ser estudado. Estava com seus mais de sessenta anos, ficou viúvo há dez e sua única filha não o via há tempos. Havia deixado a França antes de o confronto estourar e começou como enviado em Londres.

Os generalíssimos e Chefes-de-Estado entraram na sala e logo foram expondo a ordem do dia. Tinham de o avanço da Luftwaffe até a Normandia e determinar se haveria remoção das tropas. Liv aproximou-se do General De Gaulle e disse alguma coisa discretamente.

De Gaulle deixou sobre a mesa os documentos que lia e olhou para ela com desdém. Respondeu da mesma maneira discreta, que ela tinha outras funções além das quais estava se excedendo. Não era prudente desconfiar de seus anfitriões naquele momento e ela que voltasse para sua mesa e para suas decisões marginais. Foi esse termo que usou.

Ela apertou os olhos e, novamente, sentiu raiva por ter de servir a um homem como De Gaulle. Voltou sua atenção para o General Bouffey, que parecia mais centrado, mas este também achou desnecessário tomar decisões daquele porte sem ter certeza, disse de forma mais educada, mas sugeriu que realmente voltasse ao que lhe fora solicitado.

Um dos mensageiros veio até ela dizendo que a equipe do SAS ainda não enviara uma retratação sobre a posição das tropas alemãs e nem de sua condição. Era de se imaginar que pela natureza da tomada da costa de Omaha, infelizmente, ou os homens estavam sem comando ou mortos.

Foi um balde de água fria sobre todos. A morena decidiu deixar os sentimentos de lado e meter a cabeça no trabalho. Enquanto em um canto da sala os comandantes militares das nações decidiam se ficavam em Londres, ou não, no outro canto os secretários de guerra decidiam com quais informações deviam trabalhar.

O navio em melhores condições era a fragata Virginia, portanto, foi para eles que o comandante americano pediu explicações. O capitão informou que haviam tomado o flanco esquerdo e que os tanques ganhavam terreno por trás dos alemães.

As operações "Anvil" e "Cobra" estavam prontas para serem deflagradas, apenas aguardando ordens.

Quando foi perguntado sobre a condição dos homens do SAS, o capitão disse que não tinha notícias dos ingleses, apesar de ter certeza absoluta, que foi por obra deles que haviam conseguido a primeira porta de entrada para a Normandia.

O capitão disse isso olhando para um dos lados de sua mesa de rádio e, postado firmemente estava o Tenente-Coronel Marrik de Bruce, fazendo sinal de negativo com o dedo.

__Acabo de dizer a Londres que estamos desaparecidos, porque fiz isso, tenente Gascoin? - perguntou o chefe do SAS no convés, enquanto fumava um cigarro ao lado de seus companheiros.

__OS papéis no bunker, coronel. Não sou fluente em alemão como o falecido Weiss, que Deus o tenha, mas acho que pude decifrar alguma coisa do código deles. - esclareceu o soldado.

__E será que não tem ninguém nesse navio que possa nos dar certeza? - quis saber Jekill.

__Se for o que estamos pensando, não podemos confiar em ninguém. Estes papéis são uma descrição completa da condição de uma frota num lugar chamado Pas-de-Calais. - respondeu Gascoin. Demot levantou os olhos, apreensivo.

__E que diabo de lugar é esse? - indagou o chefe.

__Em francês quer dizer "passagem do canal". Aqui parece dizer quando os aviões dessa Fleet Air vão deixar o "Canal". Alguém está repassando informações aos alemães de quando o Canal da Mancha estará desarmado. Londres pode estar sob ataque nesse momento.

__Fiz o que sugeriu - disse Bruce - disse-lhes para ficarem de olho na retaguarda. Com certeza vão entender que quero dizer a retaguarda da Thames House, para onde o extremo aponta o Canal da Mancha.

Liv deixou a sala de reuniões para tomar um café. Ou pelo menos foi o que disse às pessoas que estavam perto dela. Foi até a mesa de Frederic, enviado para conseguir os mapas na sessão de arquivos, e revirou rapidamente a gaveta.

Encontrou uma chave presa a uma argola que ela não sabia de onde era. Reparou o tipo e a marca e rodou rapidamente pelas dependências da Thames, isolando cinco portas de onde aquela chave podia ser. Testou as fechaduras a que abriu dava para a sala de rádio do centro de comando inglês.

Quando voltou à mesa de Frederic, o rapaz estava tranqüilo e sorridente como sempre. Organizando os mapas para levar aos generais. Perguntou se ela precisava de alguma coisa, mas sem levantar da cadeira.

__Deixe-me dar uma olhada nesses mapas, Fred. - ela estava sorridente também. Deixou as grandes folhas sobre a mesa ficando ao lado do rapas e inclinando o corpo para olhar com mais atenção. - O que são essas marcas?

__São os pontos onde as tropas de apoio estão alojadas. Essas outras mostram onde os japoneses estão e para onde podem avançar se vencerem a batalha no Pacífico. - ele gaguejava um pouco. Jamais estivera tão perto assim dela, e muito menos num local isolado dos olhos alheios como o salão dos subalternos. O rosto dela lembrava um manhã de natal e o cheiro era de rosas frescas.

__E estes pontos, Fred? - ela declinou mais o corpo para apontar um ponto distante de seu ventre no mapa e baixou a voz em meio tom, mantendo a mão esquerda na borda da mesa.

__Esses... São... A Sibéria, se não me engano... - enquanto ele lutava com todas as suas forças para não desviar os olhos da Sibéria para o decote dela, Liv abriu a gaveta e guardou a chave. Levantou o mapa, agradeceu e voltou à sala da Cúpula de Guerra.

__General Bouffey, pode confirmar se realmente não tivemos notícias do Serviço Aéreo? - ela sabia que para isso o general teria de checar os resultados estenografados das transmissões de rádio. O que levaria alguns segundos.

Foi até uma de suas assessoras e pediu que ela trouxesse a pasta com os dizeres "Pas-de-Calais" de sua mesa, mas disse o nome da pasta quando a moça passava diante da mesa de Frederic.

__Seja rápida, Jess, aguardamos confirmação de mudança de planos para aquela área. - diante dos olhos e ouvidos ágeis de Frederic, olhou para o general Bouffey que terminava de consultar as folhas. O estrelado militar olhou para ela com cara de pena.

__Está confirmado, senhorita Duncan.

Liv virou-se para a assessora Jessica e pediu que ela fosse rápida. Depois olhou Frederic atento à conversa e sorriu. Entrou novamente deixando a porta da sala entreaberta e ficou em sua mesa prestando atenção ao assessor. O rapaz estava inquieto em sua cadeira e logo depois de Jess voltar com a pasta ele deixou o local.

Liv falou novamente como o General Bouffey e pediu que acreditasse nela. Tinha de acompanhá-la imediatamente, mas tinha de ser discreto. O homem não teve como recusar aquele olhar. Acompanhou Liv até a sala de rádio e ficaram os dois perto da porta.

__Anderung der Plane in de Kanal.Vorsicht.- e repetiu a mensagem.

O general Bouffey ficou horrorizado com o que ouvira. Não era preciso ser fluente em alemão para saber que aquilo era alta traição. Sacou sua arma e chutou a porta. Deu com um Frederic apavorado ainda segurando o grande fone do rádio e imaginando em como sair dessa.

__O senhor está preso por traição, senhor Frederic. - levou o homem sob custódia até a sala de guerra, acompanhado de Liv. Explicou tudo aos chefes e por sorte daquele rapaz, Eisenhower e Churchill tinham coisas a resolver em outro local naquele momento.

O General De Gaulle o fitou como desprezo oferecido aos traidores e mesmo em se tratando de um cidadão inglês, mandou que fosse posto a ferros e interrogado para saber o que havia dito aos nazistas. O jovem foi levado e Bouffey meneou a cabeça sorrindo para Liv, como se quisesse parabenizá-la pelo feito.

__É preciso ficar de olho em você, mademoiselle Duncan. É mais ativa do que pensei. Isso pode ser bem interessante no futuro. - disse De Gaulle no que devia ser seu máximo exercício de admiração.

Ainda que a mensagem do traidor fosse enviada em tempo hábil, não mudaria os planos dos alemães para aquele dia. Depois de informados da traição de um de seus funcionários o ânimo foi restaurado parcialmente. Agora podiam enviar uma mensagem ao Virgínia dizendo que qualquer ameaça de vazamento de informação estava controlada.

Os presentes se aplaudiram cedo demais. No momento que a estenografa designada para ficar na sala de guerra sentava em sua cadeira para ouvir o ditado um zunido agudo e contínuo surgiu sobre os céus de Londres.


Publicado em : Literatura - Contos, Policial
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