| Cantor de Pizzaria |
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18h30. Chove torrencialmente. O forno da pizzaria está quente. O garçom
de Arapiraca (AL) está com um frio "retado", recém chegado na capital ainda não foi ao Brás comprar blusa. Apenas um cliente bebe cerveja, enquanto aguarda a meia pizza. Os motoqueiros (entregadores de pizza) chegam paramentados parecidos com escafandristas urbanos: macacões impermeáveis, jaquetas de couro, botas e capacetes. Ensopados, lastimam: "o trânsito desta sexta feira está infernal. A cidade parou. Nas próximas 6 horas o bicho vai pegar". Com este tempo, pizza para viagem com novela é o programa predileto dos paulistas. Chego. Determinado, sento de frente a tv, junto ao forno para aquecer-me. Peço uma cerveja preta, apesar do preço é a única bebida que me apetece. Neste fim de outono, depois do trabalho e do trânsito fatídico, deixo tudo para trás, inclusive os problemas. Relaxo e agora sou só: cerveja preta, franguinho grelhado, alegria e música. Música? Chamo o garçom, pergunto pelo cantor da casa e sou informado: "só às 19hs". 19h30. A pizzaria ainda vazia. Em dias mais quentes, há esta hora, a pequena pizzaria está cheia e existe até uma disputa por lugares nas mesas da calçada. Hoje, ao relento. Entra um freguês, procura um lugar, senta-se, pede conhaque, reclama do tempo e pergunta pelo cantor. De pronto responde o balconista: "Ele só começa a cantar às oito. Já deve esta estourando por aí". 20h30. Um grupo de amigas senta-se na mesa maior para 6 pessoas. Entra um casal. Mais três amigos. O clima começa a esquentar e o movimento vai aumentando: pizzas, sucos, garrafas de vinhos, cervejas e refrigerantes começam a circular do balcão para as mesas. Garçons, motoqueiros e pizzaiolo estão a todo vapor. 21h30. Bebi, comi. Joguei conversa fora com o garçom, bati papo com um camarada da mesa ao lado, assisti meio por cima a novela das seis, das sete e até um pouco do jornal. Já to quase chapado. Nem lembrava mais que o motivo de ter ido até a pizzaria era a música ao vivo, quando não mais que de repente entra apressado com o violão em punho o cantor. Vai direto ao caixa, se desculpa com o dono. Justifica o atraso: "O transito está péssimo, a cidade está um caos". Nem bem o cantor afina o violão e liga o microfone, faço logo o primeiro pedido: Linha do Equador do Djavan. E antes do cantor dizer algo, emendei: "como cheguei primeiro, manda também a das Laranjeiras, com a Cássia Eller". Canto, simulo um solo de guitarra, arrisco uma percussão na mesa. Esqueço as horas. Começam os pedidos musicais, de todos os lados: escritos em guardanapos amassados, aos berros das mesas de fundo ou carinhosamente sussurrados ao pé do ouvido do cantor por alguma garota mais delicada. Profusão de pedidos: "a do Jota Quest", "aquela dos Paralamas", "a do Zé Ramalho", "a outra do Alceu que você cantou a semana passada, lembra?", "Pais e Filhos do Renato Russo". E uma do Raul para o cara da mesa do fundo, outra do Lulu para a garota de verde da mesa oito. "Toca outra vez Zé" grita outro. Entre tantos pedidos o cantor resmunga baixinho: "vou cantar uma que eu gosto". Canta Pérola Negra do Luiz Melodia. Mas como tudo que é bom, apesar da chuva, das cervejas, das pizzas e dos vinhos, acaba rápido. O dono da pizzaria faz um pedido: "canta só mais uma e encerra, vou fechar a meia noite". A freguesia embalada pelos gorós, pela música, enfim pela alegria, inicia os pedidos da "saideira" e "só mais uma do Skank". Sob protesto da freguesia, que ameaça não mais voltar na próxima semana se os pedidos não forem atendidos, o dono fecha o caixa, o segurança fecha a cara, o pizzaiolo tira o avental, o garçom ainda simpático passa um pano nas mesas e c´est fini. Eu, que já estava quase indo embora quando o cantor chegou, pago a conta, também resmungo com o dono, queria mais uma, mas não tem jeito. O Cantor desliga o microfone, guarda o violão, e promete para a próxima, atender todos os pedidos que desta vez não foram possíveis. E a chuva lá fora cai mais forte ainda.
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