| Autobiografia e fotografias como contadoras de história: Imigrantes japoneses e a manutenção cultura |
|
|
|
Resumo
O principal objetivo do artigo é analisar a manutenção cultural dos imigrantes japoneses no município de Tomé-Açú/PA que começaram a chegar no apagar das luzes da década de 1920. Muitos textos autobiográficos começaram a ser escritos na década de 1980 com intuito de deixar para os descendentes, desses primeiros imigrantes, a trajetória pela qual as famílias percorreram ao desembarcarem no Pará. As fotografias ocupam um papel de destaque nessas narrativas, pois, fazem com que os leitores visualizem os caminhos percorridos e são interlocutoras de vários momentos vividos e documentados visualmente pelas famílias de imigrantes. Dessa forma, ambas as fontes utilizadas, nos ajudam os primeiros anos de vida dos imigrantes na colônia de Tomé-Açú, assim como, os sentimentos após terem deixado para trás sua pátria-mãe. O sonho do retorno não chegou a se concretizar, no entanto, com o desenrolar de suas trajetórias novos significados foram atribuídos à vinda e ao conseqüente estabelecimento em terras paraenses.
Abstract The main goal of this article is to analyze the Japanese immigrants' cultural maintenance who arrived to the State of Pará (localized in the northern of Brazil) in the early 30's. Many reports were written in the format of autobiographies of the old immigrants who intend to leave for the posterity the path of the families always emphasizing the periods of difficulties, intragrupal status, and the subsequent ascent of some families. The photographies also occupy an important place to show the lived paths. The autobiographies, as well as, the photographies started to be the speakers of the ethnographic work accomplished since the year of 2005. The texts present, in a general way, a melancholic tone, but that take other linkages that move forward in its interlaced written. They help to understand the first period of immigration and the feelings of the immigrants when they arrived in a very far land of their mother-country. After analyzing the autobiographies and photographies we can perceive the contributions, on the backstage, of the wives. Women who influenced their husbands to come to Brazil and quietly supported the difficulties but they always were the responsible to maintain the "dream" of el dorado. The "dream" of returning to the mother-country never came for many of them but the wives maintained the traditions for a japanese spirit in the children that were growing. The national brazilian culture influenced the descendents and many traditional aspects were been forgotten.
Levar em consideração as experiências individuais pode ser, quiçá, a principal característica encontrada nas autobiografias, mas não podemos deixar de considerar que, servem para provar a validade de hipóteses científicas referentes às práticas e funcionamentos das convenções sociais, segundo análise de Levi (2002). Ainda segundo o mesmo autor, a biografia, e a autobiografia, mostram-se como um canal privilegiado sobre os questionamentos e as técnicas argumentativas empregadas pela Antropologia na sua relação com a literatura. A forma da literatura corroborar com a Antropologia parece-nos salutar, à medida que, nos traz novas possibilidades de fontes, que carregam consigo informações que contemplam os aspectos espaciais, atos e demais indícios do cotidiano do autor ao longo das narrativas. POR UMA COMPREENSÃO DA IMIGRAÇÃO JAPONESA NO PARÁ Parte-se porque a vida vai mal e porque se cria uma expectativa de possibilidades com relação à terra de destino. Mas pode-se partir de muitas maneiras: com um pequeno capital, sem dinheiro algum; sozinho ou com família; dentro de um projeto de colonização, ou tentando a sorte; tendo parentes ou referências no ponto de chegada, indo em direção ao desconhecido, dentre as muitas possibilidades. As condições de saída constroem as condições de chegada. E ao chegar, e ao longo dos anos, não vai se estar nem cá, nem lá, caracterizando-se o que Sayad (1999) denomina de "dupla ausência". A idade avançada dos que ainda estão vivos, a saúde destes imigrantes muitas vezes mostra-se abalada por várias razões: o árduo trabalho, as dificuldades no acesso a saúde pública nos anos "difíceis", trazem no corpo a herança negativa até nossos dias, outros simplesmente já repousam no Campo Santo, em seu leito eterno. A autobiografia é uma forma de falar de si a posteriori. Para Bourdieu (2002), a autobiografia é construída como uma história, um romance, porque as pessoas contam a vida, descrevem a vida como um caminho, que tem um começo, etapas e um fim. A narrativa autobiográfica é construída dentro de um contexto, e nesse sentido não é apenas a história do indivíduo, mas do indivíduo dentro da sociedade: "A reconstituição do contexto histórico e social em que se desenrolam os acontecimentos permite compreender o que a primeira vista pareceria inexplicável" (LEVI, 2002). Por outro lado, o autor pondera que a interpretação tende a normalizar comportamentos que perdem seu caráter de destino individual na medida em que são típicos de um meio social, mas que contribuem para o retrato de uma época. Gomes (2004) utiliza a expressão "teatro da memória" que evidencia a idéia do indivíduo como personagem de si mesmo. Essa expressão evoca o tempo como um problema, uma vez que o tempo é ordenado pelo autor, procurando estabilidade e continuidade narrativa entre passado, presente e a antevisão do futuro, ou seja, o tempo é significado pelo indivíduo. A autora sugere que o texto é o objeto de uma cultura material de uma época. Como lidar, então, com estas tensões e as representações do teatro da memória? Tratarei de objetivar os textos. Como é o objeto material que estou analisando? Como é a capa? o título? Como o autor inicia o seu texto? Quais as ilustrações escolhidas pelo autor: são de âmbito do autor e de sua família ou públicas? - uma memória de si constituída de objetos do cotidiano: fotos. Quais são as instituições e os contemporâneos citados? Quais são os registros que materializam a história dos indivíduos? Como o autor marca o tempo em sua narrativa? De forma a objetivar as autobiografias, utilizarei materiais comparativos sempre que possível, procurando restituir o seu processo de produção e detectar diferentes tempos, espaços e temáticas narrativas. AUTOBIOGRAFIAS COMO OBJETOS DE ESTUDO Segundo Sakurai (1993, p. 15), datas e acontecimentos relevantes, fotos, músicas são características da cultura japonesa. Momentos de confraternização entre familiares, vizinhos, amigos. São oportunidades em que se constitui uma vasta documentação. As fotografias são abundantes e falam por si sobre as trajetórias percorridas pelos imigrantes japoneses no estado do Pará. Em tempos difíceis os registros fotográficos escasseiam. Talvez, uma estratégia para não documentar os momentos difíceis dos súditos do Trono do Crisântemo. Os motivos são silenciados muitas das vezes. No entanto, ao passar dos anos a necessidade de contar um pouco de suas memórias leva alguns imigrantes a abrirem o baú de lembranças e iniciam seus apontamentos com fragmentos de memórias que acabam se transformando em livros, muitas vezes, editados pelas próprias famílias referentes a períodos considerados relevantes para a comunidade, segundo Barros (1989, não paginado), "a figura dos mediadores" que os velhos imigrantes passam a assumir entre o passado e seus descendentes. Os personagens que aparecem nas narrativas abaixo eram pessoas simples e que provavelmente não tomariam esta iniciativa de escrever suas memórias se tivessem continuado no Japão, mas suas histórias de vida tomaram um rumo totalmente diferente no momento em que viram as âncoras do navio serem levantadas do Porto de Kobe e iniciaram sua viagem rumo a desconhecida colônia de Tomé-Açú no Estado do Pará num país muito distante chamado Brasil. "O CRUZEIRO DO SUL CINTILA NO CÉU COM A LUZ DE VERDADE" autobiografia de Paulo Toshio Ohashi O livro de Paulo Ohashi é construído a partir de uma representação do Brasil: na parte inferior, uma faixa verde com os signos da bandeira brasileira. O cruzeiro do sul é projetado para o alto, sobre uma superfície azul de vários tons, encimada pelo título: "Cruzeiro do Sul cintila no céu com luz de verdade". Na contracapa, a capa é reproduzida em tamanho reduzido, sob a qual se lêem os dizeres: "recordação de um lavrador aos 70 anos na vida do campo na Amazônia - narração de vida de si próprio", texto este que serve também de título para a primeira parte do livro. Algumas coisas nas capas são dignas de nota: não há qualquer menção ao Japão, enquanto que os signos da nacionalidade brasileira são projetados no céu e investidos da luz da verdade. O autor sugere construir um mito do Brasil por meio dos símbolos máximos da nacionalidade. Embora Ohashi se mova principalmente no leste do Pará, a sua referência é o Brasil.
Este livro é organizado em duas partes, sem que fique muito clara qual a divisão temática. A primeira que se refere à recordação de um lavrador está mais voltada para a memória pessoal e da família, mas também são comentados eventos mais amplos. A segunda tem o mesmo nome do livro e se inicia com pequenos ensaios e comentários sobre eventos sociais e sobre diferentes costumes para retornar às questões familiares.
"Estou com 84 [no ano de 2001] anos de idade, já tenho a vista fraca, para ler uso lentes de aumento fora dos óculos, ouço metade das vozes, prejudicando a audição e a escrita, ainda com o que me resta de ânimo anoto o que experimentei e o que tenho guardado no fundo do coração". (OHASHI, 2003, p. 50).
A foto de Ohashi na época em que escreveu o livro ilustra todas as páginas ímpares, como a mostrar o autor ao mesmo tempo dentro e fora de seu escrito, com a proximidade daquele que participa e a distância daquele que observa. Na primeira parte trata da chegada de sua família, contextualizando a situação do Japão, do Brasil e do Pará em particular, misturando-a aos relatos do cotidiano; da chegada da Companhia Nipônica a Castanhal para orientar os colonos, do confinamento em Tomé Açu nos tempos da segunda guerra, a mudança para Santa Isabel e as difíceis relações dos membros da família com o pai, a história de Santa Isabel do Pará, a inserção da família na sociedade local; o recebimento por três de seus irmãos do título de cidadão de Santa Isabel em 1966; a condecoração recebida por Paulo Ohashi; A criação da Associação Cultural Nipo-brasileira, sob a presidência de Ohashi e ainda a Associação das Senhoras Japonesas de Santa Isabel. Nesta primeira parte, o autor descreve o processo de migração, a instalação dos colonos, os deslocamentos, o difícil período de confinamento na guerra, os processos de consagração social no país de partida e no país de chegada e a constituição de organizações associativas dos japoneses e seus descendentes, que se colocam como espaços japoneses na Amazônia, com o ensino da língua e a reprodução das tradições. As práticas de tais associações são construídas a partir de representações da identidade. São, portanto, palcos, vitrines que exibem o consenso de uma identidade para as próprias famílias de origem japonesas e para os brasileiros que assistem a tais manifestações e para a mídia que repercute essas construções para um público mais abrangente. Na segunda parte o autor começa a relatar a instalação da Companhia Japonesa de Colonização (Companhia Nipônica) em 1929, dizendo que esta empresa começou a colonização no meio da selva amazônica. A seguir relata a sua experiência em São Paulo, volta às memórias da infância no Japão para construir a Amazônia como nossa terra, aborda as questões de violência familiar no Japão, no Brasil e nos Estados Unidos e o papel da associação das senhoras japonesas, discute o problema da escola no interior, relata sua doença e as de sua família e sua adesão a Seicho-no-Ie, fala ainda das pessoas que ficaram em sua memória e finalmente faz um balanço de sua vida, do alto de seus 84 anos [referência o ano de 2001]. Em sua autobiografia, relata não apenas a sua história, contextualizando-a, mas também emite opiniões de caráter moral, utilizando o recurso de fazer a comparação entre os dois países.
Este formato não é muito freqüente e por isso é revelador da posição do autor, que observa e opina sobre eventos diversos, com um objetivo moral, a partir de cada página ímpar. Para esse tipo de construção do texto contribui também a sua posição de líder da colônia japonesa de Santa Isabel, atribuindo-se o papel de responsável moral pelo grupo.
A quantidade de fotografias, na obra de Paulo Ohashi é abundante e faz parte de seu arquivo particular. Através imagens, o autor narra toda a formação de sua família, as relações que foram estabelecidas com os brasileiros, suas conquistas e suas perspectivas para com os descendentes. Dentre as várias fotografias de época temos dentre as que constam de seu arquivo pessoal a hospedaria dos imigrantes, seus pais senhor e senhora Itaro Ohashi. O autor não menciona o primeiro nome da mãe, apenas se refere a ela como "mãe" ou senhora Ohashi como vemos na descrição que aparece na foto. Segundo nos informa o autor, ao longo do texto, o pai mantinha um comportamento rígido para com a família. A esposa sofria com a situação, porém, preferiu continuar ao lado da família devido aos apelos de sua sogra que a implorava para que continuasse no Brasil. Na foto fica evidenciada a representação da esposa de Itaró Ohashi para o filho. O rosto exposto à plena luz tem expressão marcante, enquanto que constrativamente o marido aparece na penumbra. A mãe aparece como a referência da família, como nas fotos dos grandes heróis. Ohashi discorre sobre o pouco respeito e a falta de afeto que seu pai despertava no seio familiar dada a rigidez com que tratava os seus. Em seu relato, nos mostra como a família se comportava em relação aos maus tratos recebidos pelo pai: "O meu pai dentro de casa não foi amado e nem respeitado como devia, tinha um sentimento de desgosto e um incurável golpe no fundo do coração, podia-se dizer que era um infeliz. Meu irmão Yassuo, o segundo dos filhos, odiava muito a violência do papai [...]" (OHASHI, 2003, p. 12). Como ilustração a toda rigidez de Ohashi, em segundo plano, temos um calendário, supostamente, vindo do Japão e que mostra curiosamente a imagem de um demônio[1] (akuma, em japonês), da mitologia japonesa, correndo atrás da criança como se quisesse puni-la por ter feito algo de errado. Ainda nesta mesma imagem, a discussão sobre a presença da mulher japonesa é reativada, como bem observa Sakurai (1993), a mulher japonesa desempenha não o papel principal nas descrições, porém, detém participação marcante dentro da trajetória da família. Muitas situações decisivas durante a vida da família são marcadas pela presença das esposas. No caso da autobiografia de Ohashi o enredo marca de forma muito acentuada a participação da esposa na vida cotidiana e doméstica da família. Ela marca bem sua posição dentro das normas da sociedade japonesa, onde os fortes são aqueles que desprezam a felicidade pessoal, entretanto, cumprem com suas obrigações. Neste sentido, ser forte é não se rebelar, e sim, conformar-se com a realidade (BENEDICT, 2002). Nesta narrativa é importante analisar a participação do autor enquanto cidadão brasileiro. Diferentemente de outras autobiografias que procuram ressaltar o ambiente no qual, os descendentes foram criados, no caso o Brasil, Ohashi, por outro lado, ressalta a vivência na região do Acará as idas e vindas à capital paraense, sua viagem para São Paulo, a procura do novo terreno para a família se estabelecer, o apoio de alguns não-descendentes nos aspectos agrícolas. O ambiente do autor é o da comunidade japonesa da região do Acará. Não é para menos! Na colônia de Tomé-Açú a língua japonesa era a língua oficial entre os imigrantes, as comidas eram japonesas com algumas alterações devido às dificuldades e o alto custo de se importar artigos japoneses. Um relato do autor marca de forma bastante relevante o apego que os imigrantes passaram a ter em relação a Tomé-Açú com o passar dos anos, quando de sua transferência para o município de Santa Izabel, o autor se refere à saudade que sua esposa teria: "Para minha mulher, a cidade de Tomé-Açú era mais do que o Japão, devia ter saudade, pois, era onde tinha família e todos os irmãos e, sepultura de seus pais e amigos." (OHASHI, 2003, p. 31) Ao longo da narrativa o autor se preocupa em apontar seus feitos no Brasil e assim reconhecia o Brasil enquanto país receptor e que a criação de seus filhos seguiam de forma harmônica, porém, algumas vezes, como vimos acima o autor nos remete a saudade do Japão, como podemos ler numa outra passagem, Ohashi (2003): Ainda nesta mesma imagem, a discussão sobre a presença da mulher japonesa é reativada, como bem observa Sakurai (1993), a mulher japonesa desempenha não o papel principal nas descrições, porém, detém participação marcante dentro da trajetória da família. Muitas situações decisivas durante a vida da família são marcadas pela presença das esposas. No caso da autobiografia de Ohashi o enredo marca de forma muito acentuada a participação da esposa na vida cotidiana e doméstica da família. Ela marca bem sua posição dentro das normas da sociedade japonesa, onde os fortes são aqueles que desprezam a felicidade pessoal, entretanto, cumprem com suas obrigações. Neste sentido, ser forte é não se rebelar, e sim, conformar-se com a realidade (BENEDICT, 2002). Nesta narrativa é importante analisar a participação do autor enquanto cidadão brasileiro. Diferentemente de outras autobiografias que procuram ressaltar o ambiente no qual, os descendentes foram criados, no caso o Brasil, Ohashi, por outro lado, ressalta a vivência na região do Acará as idas e vindas à capital paraense, sua viagem para São Paulo, a procura do novo terreno para a família se estabelecer, o apoio de alguns não-descendentes nos aspectos agrícolas. O ambiente do autor é o da comunidade japonesa da região do Acará. Não é para menos! Na colônia de Tomé-Açú a língua japonesa era a língua oficial entre os imigrantes, as comidas eram japonesas com algumas alterações devido às dificuldades e o alto custo de se importar artigos japoneses. Um relato do autor marca de forma bastante relevante o apego que os imigrantes passaram a ter em relação a Tomé-Açú com o passar dos anos, quando de sua transferência para o município de Santa Izabel, o autor se refere à saudade que sua esposa teria: "Para minha mulher, a cidade de Tomé-Açú era mais do que o Japão, devia ter saudade, pois, era onde tinha família e todos os irmãos e, sepultura de seus pais e amigos." (OHASHI, 2003, p. 31) Ao longo da narrativa o autor se preocupa em apontar seus feitos no Brasil e assim reconhecia o Brasil enquanto país receptor e que a criação de seus filhos seguiam de forma harmônica, porém, algumas vezes, como vimos acima o autor nos remete a saudade do Japão, como podemos ler numa outra passagem, Ohashi (2003):
Quando estava em São Paulo, na casa do senhor Hoshii, no verão quente, ainda assim no Ano Novo era servido sake e kazunoko como no Japão, tinha a sensação de que o Japão estava mais próximo. Tinha muita saudade de minha terra natal, meus pais, então deveriam ter muito mais, entretanto não voltaram mais lá, a Amazônia passou a ser a nossa terra.
De acordo com o Shintoismo[1], que tem o imperador como deus principal, para Ohashi (2003, p. 8) era necessário "ouvir do fundo do coração que eu não era fracassado, nem frouxo, era a voz do santo harmonioso pacifista e mais corajoso, o Imperador Hirohito" em outra passagem o autor demonstra sua reverência em relação ao Imperador, deus supremo do Shintoismo: "o morador do fundo do meu coração, o Santo Padre do Shintoismo Imperador, continua dizendo seja bom brasileiro, obedeça a voz da consciência, principalmente nos serviços prestados a comunidade como um ato sagrado, confiando na proteção divina" (OHASHI, 2003, p. 12). Daí lembrar do sentido da palavra ganbaré que vimos anteriormente. O ganbaré no caso da família Ohashi foi efetivamente reconhecido na ocasião em que, no ano de 1966 a Câmara Municipal de Santa Izabel concede o título honorífico de cidadão para os irmãos: João Shizuo Ohashi, Manoel Yassuo Ohashi, Antonio Tukuju Ohashi. Daí o relato do autor em relação à gratidão estampada no semblante do patriarca da família, Itaró Ohashi, que já contava com idade avançada: "Que bom! Que Bom! Recordando [o pai do autor] os diversos motivos pelos quais decidiu pela imigração à Amazônia tendo como principal objetivo livrar os filhos da morte na iminente guerra" (OHASHI, 2003, p. 12) A gratidão a que se reporta o autor, em relação ao pai, estava ligada ao espírito de ficar e vencer no Brasil, isso supostamente seria visto com orgulho pelo imperador do Japão. Ficar e vencer no Brasil significavam estar bem economicamente e com os filhos educados, segundo analisa Sakurai (1993) em suas pesquisas. Era a recompensa pelos anos de trabalho árduo e o reconhecimento deste. Não pertenciam a "massa do povo", como diria Sakurai (1993), demonstravam o verdadeiro "espírito nipônico". Este é, geralmente, o ápice da maioria dos romances escritos pelos imigrantes e seus descendentes. O autor contabiliza o total 13 diplomas de honra e agradecimento por parte dos japoneses e 4 diplomas de honra ao mérito conferidos pelo governo brasileiro. Ohashi é agraciado com a Medalha de Jóia do Jubileu ao Mérito, série 6, conferido pela Sua Majestade Imperial em favor do Paulo Ohashi. Na ocasião o narrador foi convidado para ir juntamente com sua esposa ao Palácio Imperial, mas devido a problemas pessoais, o autor foi representado pelo cônsul que posteriormente lhe entregou a Medalha numa cerimônia realizada em Belém. Esse acontecimento marca a narrativa, pois, uma coincidência fez com que o narrador imaginasse que por trás de toda a cerimônia de recebimento da Medalha tinha as mãos benevolentes do Imperador japonês, como podemos perceber nas palavras de Ohashi (2003, p. 38): "O dia 2 de junho é meu aniversário [dia que recebeu a Medalha das mãos do cônsul em Belém] foi uma ótima coincidência, achei que isso foi uma casualidade, entretanto, imaginei que por trás desta ligação tem a vontade divina e que reconheceu o verdadeiro amor e respeito que eu tinha ao Imperador Hirohito [...]" A fim de demonstrar seu status social dentro da colônia local o autor lança mão das pessoas reconhecidas como por exemplo, o casal Tomoji Kato, Conde Koma, Naosuke Takakura, Yoozo e Akiko Watanabe, Gunji e Natsuko Tanabe, entre outras pessoas que passaram a ser personalidades dentro e fora da colônia e tiveram grande relevância na trajetória dos Ohashi. A presença de novas pessoas, seja por meio dos casamentos ou nascimentos, no seio da família dos imigrantes é recorrente dentro das narrativas. Nesse sentido, o miai[1] (casamento arranjado) está presente em muitos casos e o amor torna-se secundário à medida que o objetivo maior é a negociação entre as famílias de patrícios e a aquisição de mais braços para auxiliar no trabalho familiar, sendo assim, aumentar a força de trabalho o que significava mais lucro. A esposa de Ohashi, segundo opinião do próprio narrador, cumpriu de forma satisfatória o seu papel enquanto mãe, esposa e nora o que o faz sentir satisfação por ter sido pai de nove filhos e delega à esposa o título de "super mãe" (OHASHI, 2003, p. 31). Realmente, a esposa foi uma "super" mulher, pois, colocou no mundo nove filhos que, de alguma forma, devem ter contribuído para a prosperidade da família. A chegada de filhos é uma constante nas narrativas. Porém, o autor não entra em muitos detalhes sobre o nascimento dos filhos apenas cita que os dois primeiros nasceram na colônia de Ipitinga município de Tomé-Açú/PA e após esses dois nascimentos: Mário Toshihiko e Luiz Eidi, o autor se transfere com sua família, composta de quatro pessoas, para o município de Santa Izabel. Como um Samurai, o narrador não deixa transparecer, em seus relatos, sinais de sofrimento e, agüentava todas as adversidades sem pestanejar, Benedict (2002, p. 128). Esta autora faz uma análise sobre o comportamento dos samurais e a forma com que estes deveriam se portar frente às circunstâncias desfavoráveis. Fica evidente que Paulo Ohashi tomou para si toda responsabilidade, com o trabalho na agricultura, com objetivo de dar condições melhores aos filhos e perpetuar a honra do nome da família. Nota: Todas as imagens estão disponíveis no livro de Paulo Ohashi, conforme citação. REFERÊNCIAS
BARROS, Myriam. Memória e família. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2, n.3, 1989. p. 29-42. BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: FERREIRA, Marieta; AMADO, Janaína. Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro, FGV, 1996. CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. Os (des)caminhos da identidade. Rev. bras. Ci. Soc., fev. 2000, vol.15, no.42, p.07-21. ISSN 0102-6909. GOMES, Ângela de Castro. Escrita de si, escrita da história: a título de prólogo. In: ______. Escrita de si, escrita da história. Rio de Janeiro: FGV, 2004. LEVI, Giovanni. Usos da biografia. In: FERREIRA, Marieta; AMADO, Janaína. Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro, FGV, 2002. OHASHI, Paulo, T. Cruzeiro do Sul cintila no céu com a luz de verdade. Belém: [s.n], 2003. POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, n. 10, 1992, 200-212. SAKURAI, Célia. Romanceiros da imigração japonesa. São Paulo: Sumaré/FAPESP, 1993. (Série Imigração; vol. 4). SAYAD, Abdelmalek. Immigration et pensée d´État. Actes de la Recherche em Sciences Sociales, n. 129, septembre 1999, p. 5-14. [1] O miai consiste num encontro preliminar entre o pretenso futuro casal. Encontro este no qual o casal decide se concorda ou não com o desejo, "negociação", das famílias envolvidas. Não podemos deixar de pensar o miai enquanto uma negociação que passa a ter aspectos monetários e a esposa passará a pertencer à genealogia da família do futuro marido. (Ver: SAKURAI, Célia. Romanceiros da imigração japonesa. São Paulo: Sumaré/FAPESP, 1993. p. 69. Série Imigração; vol. 4). [1] Religião oficial do Japão que tem por divindade principal o Imperador. [1] Este termo é utilizado para se referir ao bicho-papão dos contos infantis japoneses.
|
Nenhum comentário
| < Anterior | Próximo > |
|---|