| Naquela esquina final |
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Dez minutos antes da hora combinada, Gustavo já estava parado na rua, encostado num muro de uma casa ao lado do terreno. Àquela hora, ele já esperava que tivesse alguma concentração no local, mas não tinha ninguém. Convencer Kátia foi uma tarefa mais fácil do que ele imaginava. Inventou uma desculpa de que iria sair para comer uma pizza num pequeno restaurante no início do conjunto com alguns amigos que tinha conhecido e que todos voltariam juntos. Ela relutou, mas graças à intervenção de Eduardo, ele conseguiu a liberação.
Sete horas e nenhum sinal de vida na rua. Gustavo olhava para o terreno e não conseguia ver nada. Ele ouviu passos, alguém se aproximava. O rapaz tentou apontar a lanterna, mas a silhueta foi tomando forma e Gustavo reconheceu aquela carcaça magricela. Era César. — Onde estão os outros? – perguntou Gustavo. Estava frio e ele vestia apenas uma camisa de mangas compridas com uma calça jeans. César, por outro lado, vestia um pesado casaco estilo japona e calças pretas com coturnos. Um pouco exagerado, pensou o outro. — Você não disse que tudo isso são lendas? – perguntou César com tom sarcástico. – Nós dois vamos entrar sozinhos e você vai provar se isso é lenda ou não. — Só pode estar louco se acha que vou entrar nesse matagal sozinho. – disparou Gustavo tomando o caminho de volta para casa. — Eu sabia que era um covarde. – César parecia disposto a provocar o outro. – Pena da Laura que estava toda derretida. Quando souber que você não passa de um medroso safado, vai mudar de idéia. Aquela era a segunda vez que aquele magricela o chamava de covarde. Certamente não haveria uma terceira vez. Ele ligou a lanterna e se embrenhou na mata seguido pelo próprio César que por baixo do pesado casaco tremia e não era por causa do frio. No relógio, tinham se passado apenas dez minutos que os dois estavam explorando o terreno, mas no meio daquele mato onde não era possível enxergar nada mesmo com as fracas luzes das lanternas, parecia que eles rodavam há horas. Gustavo tentava se orientar pela árvore que surgia no terreno. Ele não conseguia vê-la, mas seguia uma trajetória de modo a chegar o mais próximo possível dela. César se mantinha a poucos passos dele. Havia grandes chances dele sair correndo ao primeiro sinal de algo estranho tamanha era a apreensão do magricela. Gustavo tinha completa certeza de que ele estava arrependido pelo desafio. Ele também demonstrava certo nervosismo, não pelos montes de histórias contadas, mas pelo fato de andar no escuro no meio de um matagal. O caminho era acidentado fazendo-o pisar em todo o tipo de coisa: pedras de entulho, vergalhões, sacos plásticos, latas de refrigerantes, até mesmo um pneu foi encontrado na exploração dos dois. Uma imensa manilha de concreto bloqueou o caminho obrigando-os a dar uma volta de quase dois metros para continuar. Quando se afastaram da manilha, uma moita de capim se mexeu. César lançou a luz da lanterna imediatamente para o local, mas não conseguiu avistar nada. Estava tão escuro no terreno que as fracas lanternas trazidas pelos garotos só tinha força suficiente para iluminar alguns poucos metros ao redor. Gustavo achava graça do medo de magricela, era por causa dele que os dois estavam metidos no meio do mato, então era ele quem deveria se segurar. — Parece que alguém está com medo. – disse Gustavo abrindo caminho. – Se quiser voltar, ainda há tempo. A preocupação era visível nos olhos do magrelo, mas mesmo assim ele não deu o braço a torcer. Respondeu sem pestanejar: — Não estou com medo. Todo o cuidado é pouco. Daqui a pouco quem vai sair correndo é você. Quando César bateu em sua porta mais cedo, propondo aquele estúpido desafio, ele pensou que talvez o magrelo estivesse armando junto com outros garotos do bairro para lhe dar um susto, mas a menos que ele fosse um ótimo ator, o medo nele era claro e aquilo de certa maneira começava a deixar Gustavo nervoso. Novamente uma moita se mexeu e dessa vez próximo a Gustavo. Aquilo não era ação do vento, havia alguém com eles no matagal, alguém espreitando. Um pensamento perturbador ocorreu ao garoto. Havia alguém ou algo dentro daquele mato. César se aproximou ainda mais de Gustavo. No começou, o magrelo mantinha uma distância entre eles, mas diante das circunstâncias, qualquer tipo de rixa era sem propósito. Depois de alguns metros, eles finalmente chegaram à árvore e como Gustavo suspeitava, havia uma pequena clareira no seu entorno. O chão estava úmido e desprovido de vegetação, como se alguém tivesse capinado aquela área. Ele encostou o ouvido no tronco e bateu algumas vezes, estava totalmente oco por dentro. O garoto ficou admirado em como ela se mantinha de pé mesmo estando oca. César, por outro lado, não entendia o porquê daquilo. Enquanto Gustavo examinava a árvore, César observava ao redor a procura de qualquer coisa estranha. — Acho que podemos ir agora. – disse Gustavo. – Não há corpos por aqui e mesmo se houver, não iremos encontrar nada nesse breu. É melhor irmos e voltarmos amanhã com luz do dia. — Nós só vamos sair daqui quando revirarmos esse terreno todo! – a voz de César começou a ficar histérica. O magrelo estava em pânico, mas mesmo assim queria continuar. Algo rugiu dentro da mata. Gustavo lançou o feixe de luz a esmo tentando achar a origem do grito. César já tinha irrompido de volta para a rua deixando-o sozinho ao lado da árvore. Ele começava a pensar quem era o covarde agora. Novamente um urro e dessa vez Gustavo ouviu passos vindos em sua direção. Podia ser César vindo para buscá-lo ou podia ser o dono do urro. Ele não esperou para ver, correu na horizontal tentando sair da linha de alcance de quem vinha. Gustavo corria. Estava completamente desorientado dentro do terreno. Mesmo seguindo para o lado quando começou a corrida, as secessões de obstáculos o fizeram mudar seguidamente de direção. Ele estava perdido, correndo só Deus sabia para onde. A lanterna havia ficado nos pés da árvore, contudo, ele imaginou que ela seria peça completamente dispensável naquele momento. Uma respiração arrastada e os sons dos passos eram ouvidos. Quem o perseguia estava bem atrás dele. Gustavo tropeçou e cai pesada e dolorosamente no chão arranhando os joelhos num monte de cascalhos. Ele conhecia aquele lugar, os dois haviam passado por ali quando entraram, estava perto da rua. O silêncio tomou conta novamente do terreno. Ele arfava, um zumbido em seus ouvidos era a único som naquele momento. Ficou quieto enquanto seus olhos se acostumavam com a escuridão. Novamente um urro e agora seguido de um grito rouco, Gustavo podia estar enganado, mas tinha quase certeza de quem gritou tinha sido César. Ele continuou correndo. O perseguidor voltava ao seu encalço e chegava cada vez mais perto. Os urros medonhos se aproximavam, feixes de capim eram arrancados e atirados para o ar. Estava chegando cada vez mais perto, quando ele avistou a manilha à frente. Entrou dando de cara com César sentado. O desespero de Gustavo aumentou quando percebeu o rasgo na garganta do magrelo. O garoto nem teve tempo de pensar. Algo pousou sobre a manilha e mais uma vez Gustavo ouviu o urro. Aquele barulho era pavoroso, ele não conseguia pensar direito, seu coração batia violentamente contra o peito, sua respiração era ofegante fazendo suas costelas arderem. Os passos do perseguidor podiam ser ouvidos de dentro do rolo de concreto, ele sabia que o garoto estava ali dentro. Gustavo não tinha nada o que fazer, as lágrimas começaram a escorrer por seu rosto. Imaginou o que estaria fazendo se tivesse recusado o desafio, pensou que César ainda estaria vivo. Outro urro foi ouvido, dessa vez muito mais alto. O perseguidor saltou de cima da estrutura de concreto e caiu no chão. Gustavo conseguiu ouvir parte de capim se rompendo com o peso. Ele apanhou a lanterna e apontou para o lado livre, garras negras e imensas saíram da moita de capim tateando o concreto. O garoto, num último ato para se manter vivo, pulou o corpo do magrelo e correu na direção perpendicular a manilha. Novamente o urro, Gustavo sentiu que aquele era diferente, podia sentir o ódio. Ele correu o mais rápido que conseguia e o perseguidor avançava rapidamente atrás dele. O garoto conseguia ouvir a respiração chegando cada vez mais perto, conseguia sentir as garras se esticando no ar prontas para agarrá-lo quando ele finalmente alcançou a rua se lançando cegamente contra o asfalto. Alguém segurou seu braço e o levantou. Era Germano. — O que diabos estava fazendo lá? – perguntou vendo o estado do garoto. — Meu amigo... Digo o César... Está ainda... Morto. – ele não conseguia falar direito e nem tirava os olhos do terreno. – Chamar alguém. Germano afastou Gustavo do terreno. O garoto tremia loucamente. Não tinha ninguém na rua, mesmo com os urros, ninguém tinha aparecido. — Você precisa se acalmar. – disse o homem. – Vai acabar tendo um troço. Estou chegando do trabalho, estou cansado e com fome. Não quero ter que levar ninguém para o hospital então se acalme e conte-me o que houve. Gustavo respirou fundo. Aos poucos seus batimentos cardíacos e sua respiração foram voltando a normalidade. Seus joelhos ainda ardiam pelos arranhões e seu pulso começava a inchar, parecia estar quebrado. Ele contou tudo a Germano, desde o desafio até a entrada na floresta culminando com a perseguição. O homem escutava tudo atentamente. Ao final do relato, olhou para o garoto e disse: — Não há nada nesse terreno. O que as pessoas contam é mentira, são apenas histórias para manter a atenção no bairro. Seu amigo provavelmente tentou lhe pregar uma peça e as coisas acabaram mal. Esse terreno foi um antigo canteiro de obras, existem muitos vergalhões espalhados e alguns deles pendem de forma ameaçadora. Provavelmente ele se feriu em um deles. – Gustavo tentou argumentar, mas foi impedido por Germano. – Ouça bem, se contar para os outros o que acabou de me contar, vão fazer investigações e não vão achar nada porque não há nada. Iram encontrar apenas o corpo do seu amigo. Se contar que foi alguma criatura as pessoas vão desconfiar de você, mas se disser que tudo não passou de um terrível acidente... Gustavo apenas olhava para Germano com os olhos cheios de lágrimas. Levantou-se dolorosamente e seguiu para casa deixando o homem ainda sentado na rua. Germano levantou e se aproximou do terreno baldio. Revirou dentro da mochila e tirou um embrulho amarrado com um barbante branco. Ele assobiava uma música alegre enquanto desembrulhava um pedaço de carne crua que jogou no chão próximo ao capim. O mato se mexeu e uma mão marrom e úmida com grandes garras negras saiu de dentro de um feixe e apanhou a carne. — Bom apetite meu amigo. – disse Germano. – E da próxima vez tenha mais cuidado. A criatura voltou para dentro do terreno enquanto Germano tomava o caminho de casa assobiando a mesma música de antes.
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