| Naquela esquina 3 |
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O relógio marcava seis da tarde e a noite começou a cair. Kátia andava de um lado para o outro, preocupada com a demora de Eduardo. Gustavo assistia televisão na sala pensando em como a mãe podia acreditar naquele conto idiota e mesmo se fosse verdade, Eduardo estava de carro, somente se o homem parasse ao lado de um terreno abandonado, talvez para tirar uma água do joelho, é que seria apanhado pelo retalhador do mato.
Uma luz forte na entrada da garagem seguida pela silhueta do marido abrindo o portão acalmou a dona. Kátia respirou fundo e sentou-se no sofá ao lado do filho. Eduardo entrou em casa, colocou a pasta sobre uma pequena mesinha próxima a porta. — O dia foi puxado, mas nunca me senti tão bem na vida. Finalmente encontrei o emprego que tanto sonhei. – ele tomou um longo gole da água que tinha pegado antes de sentar ao lado da esposa. – E como foi o de vocês? Gustavo apenas sacudiu os ombros como fazia sempre e Kátia abraçou o marido lançando-lhe um beijo na boca. O garoto levantou protestando contra a atitude dos pais, Eduardo não sabia o porquê daquela recepção e Kátia apenas estava feliz por ter sua família reunida em casa depois de tudo que ouviu na rua. Minutos depois, os três estavam à mesa jantando. Germano caminhava solitário pela rua vazia como fazia na maioria das noites. Parou em frente ao terreno e observou a escuridão que tomava conta do local. A lâmpada do único poste de luz que poderia lançar alguma claridade pelo caminho estava queimada ou quebrada, ele não sabia. Todas as vezes que a companhia de iluminação trocava-a, amanhecia apagada. As manchas do sangue do último ataque ainda estavam vivas no asfalto fazendo Germano se demorar ainda mais para observá-las. Depois de cada caso de desaparecimento, ele contemplava a extensa área abandonada, como se quisesse desvendar o mistério que girava em torno dos acontecimentos. Após uma manhã inteira de procura no mato sem achar uma única pista do autor daquele possível assassinato, ele duvidava se a polícia retornaria ao local, talvez para fazer algumas perguntas, tomar alguns depoimentos, mas ações de fato não teriam mais. Assim como todos os outros, aquele caso também ficaria sem solução. Aquela noite estava fria, mas não tanto quanto as outras. No céu, poucas nuvens encobriam as estrelas. Germano respirou fundo e seguiu seu caminho. Estava cansado e só queria deitar em sua cama e relaxar pensando em quem seria o próximo. Laura ajudava a mãe em algumas tarefas da manhã quando soou a sineta, indicando que alguém esperava do outro lado do portão. Era César Gonçalves, o garoto magricelo. No relógio, oito da manhã e ela se perguntou o que ele queria tão cedo. César era o típico do vizinho inconveniente, que chegava à casa dos outros sem aviso e se convidava para as refeições. O pai de Laura; que também trabalhava na fabrica de tecidos, embora num setor diferente do pai de Gustavo; não gostava das constantes intromissões do rapaz. A moça, por outro lado, não fazia discriminações contra o magricelo, sendo uma das poucas pessoas a conversar normalmente com ele, e às vezes dando certa liberdade como freqüentar sua casa. — Está muito chato lá em casa. – disse César entrando porta adentro. – Com meus pais trabalhando eu não tenho nada para fazer. – ele abriu a geladeira e apanhou uma fruta sem nem mesmo pedir permissão para Laura. – Podíamos sair por ai, ir ao cinema, fazer alguma coisa. — É uma boa idéia. – respondeu Laura voltando para a pia da cozinha onde a louça do café aguardava. – Vamos chamar o Gustavo. Ele não conhece o bairro, aproveitaríamos para mostrar as coisas... — Porque ele? – a voz de César saiu um tanto alterada. – Não convidei aquele mané. Estou convidando você. Só nós dois. — Eu não entendo essa antipatia pelo garoto. Só porque ele não acredita nas lendas do terreno, não significa que seja má pessoa. César atirou a maçã parcialmente comida no cesto de lixo ao lado da pia. A força empregada naquele gesto foi tão grande que o recipiente de plástico tremeu com o impacto. Laura não gostou daquela atitude e começou a perceber porque o pai não gostava da presença do rapaz em casa. — Você gosta dele? – perguntou César. – Está apaixonada pelo jeito despretensioso do moleque? — O que está acontecendo aqui? A mãe de Laura acabava de chegar da rua carregando uma sacola plástica com frutas e legumes. Era costume da mulher entrar sem fazer barulho. César ficou um pouco sem jeito, mas seus olhos ainda faiscavam enquanto fitava a moça em frente a pia. Ele passou pela dona da casa sem erguer os olhos para ela e saiu. — Acho que o papai tinha razão. – disse Laura trazendo uma expressão assustada no rosto. Um sol fraco iluminava aquela manhã. Gustavo levantou da cama meio desorientado e caminhou para a cozinha. Não havia ninguém em casa. Na mesa do café, uma toalha florida tampava a comida com um pequeno bilhete posto sobre tudo. Ele reconheceu de imediato àquela letra desenhada. O bilhete dizia: “Fui ao mercado. Volto logo. Beijos, Mamãe”. Passava das nove. Ele apanhou alguns biscoitos e uma caneca de café e sentou na frente da televisão. Gostava de comer assistindo televisão, mas Kátia era rígida quanto às refeições na mesa obrigando tanto o filho quanto o marido a realizarem suas refeições lá. Segundo ela, aquele era o momento da família. Da sala, ele ouviu pancadas fortes no portão. Gustavo por um minuto pensou se tratar da mãe, mas duvidava que Kátia, metódica do jeito que era, tinha esquecido a chave. Ele deixou sua caneca de café sobre a mesinha de centro da sala e correu para ver de quem se tratava. Para a surpresa do rapaz, César estava parado diante dele bufando como se tivesse corrido muito para chegar até ali. O magricela respirou fundo e disse: — Alguns homens do bairro estão organizando uma busca dentro do terreno e como você acha que tudo não passa de invencionices, vim perguntar se não quer participar. Gustavo não estava muito certo se queria se embrenhar no mato junto com um bando de homens para procurar o corpo de uma pessoa que ele nem conhecia. Ainda mais junto com aquele magricela. — Acho que vou passar essa, mas boa sorte nas buscas. – disse Gustavo. César sorriu sarcasticamente. Balançou a cabeça e disse: — Eu sabia que essa pose era fachada. Sabia que tinha se impressionado com o sangue e que no fundo está se borrando de medo como todos os outros do bairro. Laura ainda acha você legal por não acreditar. Só quero ver a cara dela quando eu disser que o menino novo não passa de um covarde. O bom senso mandava Gustavo ignorar as palavras do magricelo e deixa-lo falar o que quisesse, mas quem dá bola para o bom senso quando se é chamado de covarde? Talvez um covarde. — Então vamos. – disse Gustavo encarando César. – Vamos vasculhar aquele terreno e eu vou provar que essas histórias não passam de mentiras. — Nos encontre na frente do terreno as sete. Os caras acham que para termos chance de pegar quem está fazendo isso, é agir durante a noite. E não se esqueça de levar uma lanterna. César deu meia volta e seguiu caminho. Gustavo não gostava daquele magricela. Sua vontade era de acertar um soco no rosto encovado do moleque, mas a idéia de por fim naquela lenda idiota seria um bom castigo para ele. Sua única preocupação era de inventar uma boa história para enganar Kátia, o que seria uma tarefa bem mais difícil do que caçar no terreno.
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