DE COMO NÃO SER INCÔMODO Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Itamaury Teles de Oliveira, em 30-08-2008 22:15
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Por esses dias, li artigo do médico e escritor Drauzio Varella, na Folha de São Paulo, em que falava de suas agruras, do seu azar quase atávico em relação aos parceiros de assento em viagens aéreas.

O autor de "Estação Carandiru" até fez intróito dizendo não ser pessoa enjoada ou exigente, daquelas que desejam viver experiências transcendentais com o ocupante da poltrona vizinha. Espera, pelo menos, que o deixem ler, escrever um texto e olhar para as nuvens.

Mas, pelo que relatou, é mesmo um grande azarado, pois se sente antipatia gratuita por alguém, no salão de embarque, tem absoluta certeza onde essa pessoa se sentará. Invariavelmente, a indigitada pessoa vem para a poltrona ao seu lado, tagarelando curioso pela sua vida íntima; espaçoso se apoderando do braço da cadeira; brutamontes dormindo e tombando para o seu lado ou, neuróticos, maltratando as comissárias de bordo...

Machado de Assis, que neste ano comemoramos os 100 anos de sua morte, escrevendo sob o pseudônimo de Lélio, em 1883, também disse algo parecido, mas relativamente ao transporte coletivo mais utilizado no Rio de Janeiro de então, os bonds, escrito assim mesmo, sem a vogal e, para manter a grafia da época...

Segundo ele, ocorreu-lhe compor certas regras para uso dos que freqüentavam bonds, por se tratar de "meio de locomoção essencialmente democrático", para que não se deixe "ao puro capricho dos passageiros".

Ele disse ter escrito setenta artigos, mas publicou alguns extratos do seu trabalho, resumindo-o em apenas dez pontos principais, de forma muito bem humorada.

Lendo a referida crônica machadiana, verifiquei serem tais regras aplicáveis, ainda hoje, aos usuários de ônibus urbanos e interurbanos. Vejam algumas considerações, na fina ironia do nosso maior escritor.

O primeiro artigo trata - com perdão da má palavra - dos "encatarroados". Estes só poderiam entrar nos bonds com a condição de não tossirem mais de três vezes dentro de uma hora, e no caso de pigarro, quatro. Mas, alertava que se "a tosse for tão teimosa que não permita essa limitação, os encatarroados têm dois alvitres: ou irem a pé, que é bom exercício, ou meterem-se na cama. Também podem ir tossir para o diabo que os carregue."

Sobre a posição das pernas, ele pontuou que estas "devem trazer-se de modo que não constranjam os passageiros do mesmo banco. Não se proíbem as pernas abertas, mas com a condição de pagar os outros lugares".

Também se lembrou dos que lêem jornais nos transportes coletivos, exortando-os a terem o cuidado de "não roçar as ventas dos vizinhos, nem levar-lhes os chapéus" a cada vez que abrirem a folha.

Para os emissores de perdigotos (aqueles que lançam chuvas de cuspes nos interlocutores), Machado reservou o banco da frente para eles; ou "na plataforma de trás, indo o passageiro ao pé do condutor, e a cara para a rua".

Para as pessoas com morrinha (com cheiro desagradável, repugnante), as regras estabelecidas foram extremamente rígidas: só mesmo indiretamente podem participar dos bonds: "ficando na calçada e vendo-os passar de um lado pra outro. Será melhor que morem em rua por onde eles passem, porque então podem vê-los mesmo da janela".

Fala ainda dos amoladores (não de facas, mas dos que aborrecem a paciência alheia), cujas regras são muito minuciosas - talvez para manter coerência com tais chatos, que contam seus casos íntimos nos seus mínimos detalhes - ou bastante taxativas, no caso dos que insistem em conversas, impondo limites de quinze ou vinte palavras, mas "sem alusões maliciosas, principalmente se houver senhoras".

Como vêem os amigos leitores, faz mais de 125 anos que Machado de Assis escreveu essa tentativa de tornar nossa vida em comum mais tolerável, menos incômoda. Apesar disso, suas regras continuam tão aplicáveis agora quanto naquela época. Por isso, lembrei-me da célebre máxima francesa "plus ça change, plus c'est la même chose" (quanto mais as coisas mudam, mais elas continuam as mesmas).


Publicado em : Crônicas, Crônicas
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