Velórios e vexames Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Itamaury Teles de Oliveira, em 30-08-2008 17:00
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Nos antigamentes - como gosta de falar o médico e meu fraternal amigo Cesário Rocha -, em decorrência do ritmo pachorrento e da falta do que fazer nas cidades pequenas, às vezes até se torcia para que mais um partisse desta para uma melhor, tão-somente para que ocorresse um velório.
Ali pela década de 60 do século passado, velório era sinônimo de aglomeração humana, de fogueira para esquentar o frio da noite, de café com biscoito e, claro, da cachaça e da sessão de piadas, enquanto os parentes e as carpideiras choravam o morto, naquele ambiente insalubre e viciado, cheirando a vela queimada e flores murchas e baldias.
Após silêncio compungido, beatas se revezavam compenetradas na reza do terço, enquanto outras, com voz esganiçada, ensaiavam um "segura na mão de Deus e vai..."
Quando eu era adolescente, bateu em mim ficar matutando o porquê daquela espera infindável para se enterrar os mortos. Disseram-me, então, que era preciso esperar 24 horas para ver se o defunto morreu de verdade. E, em tom professoral, justificavam:
- Pode ser que seja apenas um ataque cataléptico e o defunto ressuscita depois.
- Ah, bom... - dizia eu, com ares de quem sabia o que era esse tal de ataque cataléptico. E aí, contavam casos esclarecedores do tal ataque que teria acometido várias pessoas, que acabaram sendo enterradas vivas - inclusive o ator Sérgio Cardoso -, porque aparentemente estavam mortas. Hoje, é cada vez mais remota essa possibilidade, pois, com os recursos postos à disposição da medicina, pode-se confirmar a morte cerebral com segurança. E ela é irreversível.
Pois bem. Voltando ao assunto de velórios, atualmente criaram até regras de etiqueta para se freqüentar tais cerimônias fúnebres. Tomei conhecimento delas por esses dias, contemplado que fui com uma lista bastante criativa e fruto de muita observação, intitulada "dez cuidados para não dar vexame em velórios". Isso somente demonstra que o brasileiro, atualmente, encara a morte como algo muito natural. Embora respeitando a dor dos entes queridos do falecido, não perde oportunidade de brincar com algo tido como sério, o velório.
A referida lista começa com a necessidade de se verificar "se o morto é o que a gente ia velar mesmo para não dar um fora antes de começar a chorar". Depois, orienta a "não dar gargalhadas quando ouvir as piadas", o que é quase impossível, e a utilizar "voz baixa, grave e respeitosa, quando chegar a vez de você contar a sua piada"; E continua: "Fique pelo menos um minuto ao lado do caixão olhando para o falecido, fingindo que está rezando, e nunca se esqueça de fazer o sinal da cruz antes de se afastar"; "comente com o parente mais próximo que o morto parece que está dormindo"; "nunca espante qualquer inseto que esteja andando sobre o morto"; "diga aos parentes frases politicamente corretas como: "Ele(a) descansou" e "Tenho certeza de que ele(a) está olhando por nós"; "se você estiver ouvindo futebol no rádio e o seu time fizer um gol, abaixe a cabeça e sussurre baixinho: goooool"; "se um parente do morto lhe der um abraço bem apertado, não tente se afastar, mesmo que esteja incomodando". Espere ele soltar você"; "se quem morreu foi uma pessoa que você não gostava, fique ao lado do caixão e encoste a mão nela para ver se está gelada, só para ter certeza de que ela partiu de verdade".
Embora não esteja na lista, poderíamos incluir uma outra recomendação: "nunca compareça a um velório embriagado". Isso porque, em Francisco Sá, algo bastante desagradável aconteceu com um bancário, que já havia tomado "umas e outras" no Araês Clube. Voltando a pé para casa, trocando os passos, percebeu uma aglomeração em frente a uma casa de um fazendeiro muito conhecido e cliente do banco em que trabalhava. Não teve dúvida. Entrou na casa e, no meio da sala, começou a cantar e bater palmas:
- Parabéns pra você, nesta data querida...
Não acreditando no que viam e ouviam, vários amigos foram em direção do que cantava e o retiraram da sala onde era velado o dono da casa:
- Cê num tá vendo que isso aqui é um velório? Não viu "seu" Chiquinho no caixão, ô maluco? - gritavam no seu ouvido.
Foi aí que o bêbado, enrolando a língua, caiu na real:
- Caixão? Era caixão? Bem que eu tava estranhando o tamanho daquele bolo...


Publicado em : Crônicas, Crônicas
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