| OS SOBREVIVENTES |
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"Quem pode garantir que o Homem é a última experiência de Deus sobre a Terra?"
(Voltaire) Quando ressuscitei, minha primeira impressão foi de luminosidade. Depois de uma forte sensação de formigamento pelo corpo todo, vi que estava em uma pequena sala, cheia de telas coloridas e aparelhos semelhantes a medidores, que estavam sendo observados atentamente por um homenzinho, vestido de branco, o que me levou a considerar que era um médico. Ainda sem satisfazer a curiosidade inicial sobre o local onde me encontrava, senti uma vontade imensa de saber a data em que estávamos. "Que dia será hoje?" - pensei, lembrando-me que, no dia em que havia morrido, tinha tido também essa vontade vazia de saber quando voltaria à vida. Olhando para mim, mas sem falar, ele me comunicou: "Estamos no dia 18 de outubro de 2.165". Dois mil, cento e sessenta a cinco! Senti o meu sangue (será que eu ainda tinha sangue?) gelar. Então eu havia dormido por cento e oitenta e sete anos! O desastre fora em 2025. Isto valia dizer, 47 anos depois do meu congelamento. Os mutantes não sabiam ainda ao certo as causas do desastre. Sabia-se apenas que uma série de grandes explosões nucleares havia destruído a superfície do planeta, dizimando todos os seres vivos. Todos, exceto um pequeno grupo que, por mera coincidência, estava, no momento das explosões, no interior de um grande abrigo então recém-construído no centro da cidade. Aliás, aquele grupo estava ali exatamente para tomar contato com o abrigo, aprender como manusear os instrumentos, conhecer a planta das edificações subterrâneas. Com o fim do mundo, tiveram que viver no abrigo por nove anos. Sabiam que não podiam passar muito tempo enclausurados. Desenvolveram técnicas para medição dos índices de radioatividade da atmosfera exterior. Observaram que, com o tempo, seus organismos estavam se modificando, numa preparação para a saída. Em meados de 2034, ao mesmo tempo em que chegaram à conclusão de que a atmosfera terrestre não voltaria a ser a mesma, verificaram que suas provisões alimentares estavam no fim. Assim, estavam diante de um xeque-mate: ou morrer confinados, ou sair e sucumbir sob o ar letal. Alguns resolveram sair - e, curiosamente, seus organismos entraram em mutação, acabaram se adaptando a nova atmosfera. Logo, todos os habitantes do abrigo saíram e, salvo algumas poucas mortes, todos se adaptaram. Muito agilmente foi construída a nova civilização. A ciência não parara de progredir durante o exílio no abrigo. Uma pequena cidade foi construída e, com o tempo, aqueles seres retomaram o andamento normal da vida de uma civilização. Em 2.162, plenamente construída e renovada, a cidade tinha todo o conforto de uma megalópole, sem os inconvenientes das grandes cidades do passado. A nova civilização evoluíra incrivelmente. O domínio da mente, de uma forma integral, fora o ponto de partida para as grandes conquistas no campo da ciência: a transmissão de ondas cerebrais resultara em comunicação telepática a qualquer distância. O transporte elétrico da matéria tornara possíveis as viagens eletro processadas, e completamente obsoletos os meios de transporte conhecidos no século anterior. Em 2.163, uma expedição, das muitas que vasculharam os escombros do mundo antigo, encontrou trinta e cinco urnas frigoríficas, com corpos humanos congelados. Quatorze corpos estavam intactos, isto é, podiam ser trazidos de novo à vida. E isso fora feito. Por isso, eu estava ali, naquele momento, naquela sala, sob os cuidados daquele homenzinho que, agora eu sabia, era um personagem de um mundo que eu jamais sonhara conhecer.
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