| Lágrimas de Prata - Escaras de Guerra |
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Os demais homens do SAS contornaram calmamente o chão decorado com explosivos e tomaram a primeira entrada do bunker. Era uma construção de concreto armado, predominantemente cinza, com portas de aço toscas, parede manchada de chuva e o que havia de metal estava oxidado pela maresia.
Os combatentes alemães haviam jogado suas armas de mão e metralhadoras, os morteiros detonados pela granada haviam derrubado a parede o que expunha as entranhas do prédio. Seis soldados estavam ajoelhados com as mãos sobre as cabeças aguardando as ordens dos Aliados. O primeiro a subir a escada semidestruída foi Cheston, acompanhado de Demot e Bony. Eles dominaram os alemães e gritaram "clear" para os homens abaixo. Com a situação aparentemente controlada, voltaram atenção para Gascoin, De Bruce e o doutor. Grills desceu do campanário e veio até eles com cuidado. Era uma granada Stielhandgranade, ou seja, uma base de TNT envolvida por uma lata de metal, uma espoleta negativa dentro e um pino de detonação. Espoleta negativa porque é acionado ao contrário das normais, que detonam quando o pino acerta a pólvora. Naquele modelo a detonação acontecia quando o sujeito tirava o pé, o pino subia e inflamava o combustível. Os engenheiros alemães faziam isso pensando exatamente no que estava acontecendo: um soldado pisa e ouve o clique do pino, pára e avisa os demais, isso paralisa toda uma unidade, melhor que de o homem pisar e detonar de vez, alertando todo mundo. Grills havia sido da polícia inglesa, conhecida pela sua elegância em abordar criminosos e pela perícia em raciocínio. Disse com calma para Gascoin não tirar o pé dali por nada. Como se falar baixo fosse facilitar a vida deles, o médico foi retirado do local e levado para juntos dos outros, o coronel foi carregado por Demot e deitado num canto. Grills sacou a faca de campanha e baixou sobre o pé de Gascoin. Tinham de manter o pino pressionado e tirar o homem dali. A primeira coisa a fazer era identificar o tamanho do artefato, depois cavar em torno e em baixo, apoiando com uma das mãos. Com a outra substituir o pé do homem pela faca, e com sorte, jogar tudo isso fora antes da detonação. Ouviu-se uma saraivada de metralhadora vinda de algum lugar obscuro dentro do prédio. Winston recebeu sei tiros no tronco e tombou. Os demais identificaram uma escada que descia para um lugar escuro. Bony tirou uma granada de fragmentação da mochila e jogou. O estrondo levantou poeira e pedaços de concreto. Cheston mandou os outros ficaram abaixados e mandou Demot, Lions, Stein e Bony para ver o que era. Dois ficaram no topo da escada deitados no chão com as armas apontadas para baixo, Bony desceu o primeiro degrau quando a poeira deitou. De um canto um soldado alemão atirou e como não havia visto Bony, mesmo o homem tendo dois metros de altura, as balas subiram ao vazio o que deu tempo para o inglês se jogar de costas contra a parede oposta e responder aos tiros. O soldado alemão recebeu as balas e cambaleou para trás. O inimigo bateu de costas numa porta de ferro que aberta, revelou um grupamento inteiro de alemães entocados aguardando a entrada dos aliados. Bony gritou "nazis!" e descarregou o pente da MVK. Demot, Stein e Lions desceram correndo e abriram fogo também. Grills ouvia o tiroteio e tentava se concentrar em desenterrar a lata preta sob o pé de Gascoin. O francês pôs a mão no ombro do amigo e apontou para o lado. Perguntou o que ele achava e o atirador do SAS não podia concordar, mas era uma saída. A explosão deixou boa parte da parede sul do bunker destruída e ao lado deles havia um resto de parede de concreto com uns dois metros de altura por quase três metros de comprimento. A parede estava cambaleante e era claro que qualquer empurrão a derrubaria. O plano de Gascoin era deixar a parede cair sobre ele, tentar pular no último instante e deixar que o concreto abafasse a explosão. __Seja lá o que Deus quiser... - Grills foi trás da parede e começou a empurrar. Gascoin arqueou o corpo para trás e ficou de olho na bomba sob sua bota. A parede passava meio metro das costas do francês, então, ele teria de ser bem rápido. Assim que a estrutura começou a ceder, pedaços de concreto voaram para os lados e Gascoin tentou proteger o rosto. Grills mandou que ele saísse logo e esperava perder mais um amigo nessa guerra. O tenente Gascoin desequilibrou-se e caiu de costas, puxou as penas no último instante antes da parede de centenas de quilos bater no chão com um barulho surdo. Grills estava meio desequilibrado quando olhou Gascoin, mais branco que o normal, olhando suas pernas dobradas e intactas. A mina falhou. Subiram aliviados para as escadas onde os tiros continuavam. O bunker estendia-se para baixo e parecia ter três pavimentos. A sala de entrada com os soldados alemães estava dominada. O coronel De Bruce levantou-se rapidamente, quase sem efeito de morfina, voltando a sentir dor, mas disposto a caminhar. Mandou seus homens ficaram dentro da sala. Entrou e passou nova revista em todos. Eram agora onze homens. Contavam onze metralhadoras, dois pentes extras cada homem, onze facas de campanha e umas quarenta granadas de fragmentação. Ao todo aquele contingente de força britânica tinha quase seiscentos tiros e quarenta explosivos. Ia ter que dar. __Não temos uma planta do local - falava baixo perto de uma porta de ferro- Portanto vamos avançar vagarosamente. Não sabemos em que posição estão os americanos, mas parece que estão tão travados quando nós. Quero que avancem homem a homem, dois atiram e dois cobrem. Demot perguntou a Bony se ele estava com medo. Claro que estava, mas como não tinham nenhum compromisso para o momento, iriam tentar o bunker mesmo. Gasco era o homem das entradas furtivas então foi mandado na vanguarda do avanço britânico. O parisiense disse ao coronel que havia visto uma entrada mais alta do lado de fora e perguntou se podia ir por ali. De Bruce deu-lhe o rádio de Grills e o liberou. Deixou os homens nas entranhas do prédio e pôs-se a escalar a parede lateral, sem dificuldade devido ao grande número de buracos. Chegou logo ao terraço, onde, sorrateiramente notou um soldado rondando o local de arma em punho, mas travada. Gascoin passou pelo para-peito estreito sem fazer barulho, sacou lentamente a faca de campanha (cabo de fero cilíndrico e lâmina regular reta com fio duplo) e esgueirou-se por trás do alemão. O soldado não notou o golpe. Apenas caiu como um saco de batatas vazio, com uma faca de quinze centímetros cravada na coluna vertebral à altura de C-4, bem abaixo da nuca. Mesmo se quisesse gritar não conseguiria. No terraço havia outra entrada por uma porta de ferro de dava para uma escada estreita de pedra. Gascoin desceu e chegou a outra sala, havia uma mesa simples com uma cadeira reta, de madeira, alguns papeis e um cigarro aceso sobre um cinzeiro. Barulho de passou abaixo dele e à esquerda. Ouvia um alemão falar alguma coisa, mas estava calmo. Os passos foram para mais longe e ele desceu, tragou o cigarro do alemão e o viu de costas. O homem das SS voltou rapidamente para sua mesa e não achou nada estranho. Não percebeu o quão rápido estava fumando, devia ser apreensão por esse ataque, mas tinha confiança de que acabariam com os aliados em breve. Enquanto o sujeito levantou os papéis diante do rosto e continuou lendo, Gascoin saiu de baixo da escada e avançou pelo corredor escuro para dentro do bunker. Quando achou que estava num lugar seguro ligou o rádio e avisou seu pelotão de sua posição. De Bruce informou que haviam passado para mais salas, mas não haviam encontrado resistência ainda. Do lado de fora o barulho era enorme. As metralhadoras podiam ser ouvidas a quilômetros dali. Os americanos disparavam os bangalores e abriam trincheiras, mas o avanço era quase impossível. Depois de três horas do início dos ataques ainda havia navios ao largo esperando ordens para se aproximar de Omaha. Gascoin havia dito que estava descendo um corredor estreito em direção nordeste. De Bruce disse que estavam numa sala ampla, com camas e armários e havia uma única porta em direção oeste. O coronel mandou o tenente seguir para o norte e tomar cuidado. "Norte? Que norte?" pensou Gascoin. O próximo local era um entroncamento de duas portas, uma à direita e outra à frente. Vozes agitadas vinham da porta à direita. O intruso tirou uma de suas granadas da mochila, puxou o pino e manteve o gatilho preso. Depois forçou silenciosamente a granada pela alavanca da maçaneta da porta e seguiu na outra direção. O barulho das MG 42 ficava mais claro. Era um corredor de pé direito baixo, de pedra, frio e escuro, com estreitos recuos nas laterais. Um grupo de alemães veio avançando de armas em punho. Gascoin meteu-se de costas num desses recuos e rezou para não ser visto. Quatro homens passaram por ele e ficaram na sala em que estava conversando. Ele sacou sua Webley e atirou no ombro do único homem visível dentro da sala. Os gritos e os primeiros tiros de resposta foram suficientes para chamar os demais dentro da sala com a porta à direita. A granada caiu diante dos oito homens num lugar de quatro metros quadrados. Gascoin voltou para o local e atirou nos sobreviventes, entrando em seguida na sala que estava fechada. Era o centro de comando do bunker. Uma estação de rádio rangia constantemente em alemão. Papéis espalhados por uma mesa retangular, uma máquina de café, névoa cinza de cigarro no ar e uma única lâmpada pendia solitária no teto. Em meio aos documentos alemães que examinou rapidamente, escolheu aquele que tinha alguma coisa de compreensível. Tinha escrito "Londres" em cima e abaixo, uma data: treze de junho. Guardou tudo dentro da camisa e continuou o avanço. Passou novamente sua posição pelo rádio. De Bruce respondeu que haviam encontrado mais alguns homens que foram abatidos. Bony fora baleado, mas não era nada grave. Gascoin continuou avançando e chegou numa sala sem porta, mas que dava acesso a um lugar mais claro, de onde o barulho da metralhadora era nítido e com uma passagem para leste que parecia sumir de tão escura. Uma tábua presa à parede imitava uma mesa e logo um soldado parou diante dela falando num rádio, parecia nervoso. O homem do SAS estava de costas pregadas a uma parede e olhando tudo com apreensão, o coração disparado, suor frio na testa. Mais um alemão chegou e os dois conversavam aos gritos pelo barulho da arma à esquerda. Outro homem veio daquele local agitando as mãos como se estivessem machucadas. O francês pensou em tirar um granada e acabar com todos de uma vez, mas no momento em que tirava da mochila, deixou cair e tilintar até o pé de um alemão. Enquanto os dois homens viravam ele sacou a Webley e atingiu o peito do homem que vinha com as mãos machucadas. O percussor da arma travou e a última cápsula saltou da câmara. A MVK pendia pela tira de couro, mas estava às suas costas. Deu três passos avançando para cima do primeiro homem. O pegou pela gola da camisa e jogou contra o outro. O soldado tinha a Lugger apontada para ele, mas não conseguiu atirar. Tirou a faca da cintura e avançou sobre o homem novamente. Agora estava em cima dos dois. O de baixo perdeu a arma na queda e tentava sair dessa posição. Gascoin tentava golpear o soldado, mas seu punho estava contido pelo dele. O homem de baixo arrastou o corpo para o lado gritando para alguém vir ajudar e conseguiu pegar a Lugger. Gascoin sabia que contra aquela arma ele não tinha muitas chances, mas era um alemão destro tentando atirar com uma arma extremamente potente usando a mão esquerda. Sua única saída era mirar com certeza. Gascoin puxou o corpo do primeiro homem para o lado deixando-o sobre a arma. O alemão de baixo atirou. A bala passou pelo tronco de seu companheiro, pelo ombro direito de Gascoin e cravou no tento como se tivesse atravessado manteiga. O nazista armado disparou mais duas vezes com o cano enterrado nas costas de seu companheiro. Gascoin havia caído para o lado esquerdo e o homem finalmente saiu de baixo do outro. Assim que levantou estava irado. Manteve a arma apontada para o francês e só não atirou porque no momento em que Gascoin recostou na parede, a camisa expôs os papéis que havia pegado. __Wo es gelungen? - perguntou o alemão. Gascoin não respondeu porque não entendeu, claro. O soldado queria saber onde ele havia conseguido aquilo. Fez sinal para que ele entregasse os papéis. O francês lentamente deslizou a mão até a metralhadora às suas costas e recebeu uma coronhada no rosto. O canto do olho direito começou a sangrar. __Geliefert jetzt! - reiterou a ordem para entregar os papéis. Gascoin enfiou a mão na camisa, tirou as folhas e jogou no chão. Mais um homem veio do local claro, à sua direita, também com as mãos pretas. Os dois conversaram rapidamente e o segundo homem pegou uma caixa do chão, olhou Gascoin e riu debochado, depois voltou ao local de onde saíra. O soldado armado mexeu as folhas com um pé e mandou Gascoin levantar. Com dificuldade o francês se apoiou na parede e pôs-se de pé. O homem levou a outra mão ao cão da Lugger, mas não teve oportunidade de engatilhar. Do lado esquerdo de Gascoin, Demot mantinha a Webley firme, o cano apontado para a têmpora do alemão, que caía quando os demais homens do SAS chegaram. __Acho que temos um problema, coronel... - disse Gascoin meio zonzo pela dor no ombro. __Depois falamos sobre isso, tenente. - disse De Bruce chamando um homem atrás dele - Tenente Grills, a chuva de chumbo. Imediatamente os demais tiraram suas granadas e sem puxar os pinos, jogaram dez para diante do corredor de onde o barulho da MG 42 vinha. De Bruce reuniu todos em um dos corredores e Grills nem sequer usou o rifle. A bala da Webley faria efeito desejado. Na praia, sob a saraivada de balas constante, os americanos que haviam desembarcado estavam atrás dos poucos tanques e reagiam. Haviam conseguido cobrir terreno suficiente para chegar ao sopé da subida e estancaram nessa posição. Um major chamado Ethan Fox, olhou rapidamente por sobre o tanque e viu a discreta abertura por onde a língua de fogo da MG42 vitimava seus homens. De repente uma seqüência de explosões foi tomando proporções cara vez maiores até que finalmente o ronco da fera cessou. Ouviu um grito em uníssono de vários homens lá em cima e um deles pôs a cabeça pela abertura. __Dêem só uma olhada nisso! - exclamou pasmo, Demot. Assim que os demais foram até a janela para a praia viram o tamanho da encrenca em que o Eixo estava se metendo. Mais de cinco mil navios estavam ao largo da costa francesa. O SAS olhou para cima e a quantidade de aeronaves era de fechar o tempo, literalmente. Centenas de homens desembarcavam, ainda, pelos navios de fundo chato, trincheiras estavam simetricamente abertas, tanques desciam por rampas armadas à frente dos desembarques mais pesados. Os primeiros canhões navais guinavam para Omaha. Minutos depois de o major Ethan passar a mensagem para o navio capitania da frota, o almirante Bertrand Ramsay ordenou que todos os desembarques fossem enviados. Ao final da manhã de seis de junho de 44, duzentos e cinqüenta mil homens entre americanos, canadenses, franceses e ingleses começavam a verdadeira revanche aliada. Depois de passado o primeiro momento dentro do bunker tomado pelo SAS, o tenente-coronel Marrik De Bruce mandou que Lions hasteasse uma bandeira inglesa sobre o para-peito da abertura da MG42. Indicando o caminho de entrada para os ianques. Depois do quê o coronel recostou numa parede e pediu que alguém lhe trouxesse um cobertor, estava com frio. Em Londres, a cúpula aguardava notícias da Normandia. O cheiro de charuto impregnava a sala de reuniões e Liv não agüentou ficar ali dentro. Havia pedido ao ajudante para que fosse até o registro da Casa Ocre e voltasse com os documentos de envio dos homens do SAS, queria ter certeza que Gascoin estava entre eles e vivo. Como o rapaz estava demorando foi ver ela mesma se conseguia alguma coisa. Frederic era um bom rapaz, com muita disposição para ajudar, sempre por perto nas decisões mais importantes e atento a tudo, cumpria as ordens com extrema alegria e nunca reclamava. O rapaz não estava na mesa designada para ele, então Liv foi para sua sala. Notou que a porta estava aberta, ela havia deixado fechada. Entrou e não havia ninguém. Sobre sua mesa um relatório da Defesa Aérea fora deixado fora do lugar. Neste momento Fred bateu na porta, sorridente perguntando se ela queria alguma coisa. Liv ficou em silêncio por alguns segundos olhando os documentos e depois disse que não precisava de nada. __Um momento, Frederic... Ouviu o general Eisenhower dizer em quanto tempo nossos aviões da Fleet Air chegarão à Normandia? __Sim, senhorita Duncan. Ao que me parece serão duas horas à partir das dezoito horas do próximo dia dez. Posso ajudar a senhorita em mais alguma coisa? __Não, Frederic, obrigada, isso é tudo. - e dispensou o prestativo rapaz. Só que Liv sabia que o general Eisenhower jamais foi avisado sequer da localização da frota da Fleet Air Arm, e mesmo se tivesse lido o relatório, com seu deficiente francês ele não entenderia Pas-de-Calais.
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