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Naquela esquina 2 Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Firmino Brites, em 27-08-2008 21:04
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Nas ruas vazias, passos podiam ser ouvidos em meio ao barulho da chuva. Alguém andava rápido e não era Germano em seus passeios noturnos, era Carlos Tavares, um daqueles que não eram empregados da fábrica.
Carlos caminhava rapidamente pela calçada do outro lado da rua. À medida que o terreno ia se aproximando, sua respiração ficava cada vez mais difícil. Pensou em correr, mas certamente o barulho do sapato no chão molhado denunciaria sua presença.
Um cão uivou ao longe. O arrepio subiu fazendo os pêlos de sua nuca se levantar. O céu estava encoberto e aquele uivo não podia trazer nada de bom. Sem motivo aparente, pois a rua estava tranqüila e não se via nada estranho no terreno, Carlos sentia o pânico crescer dentro dele a ponto de suas pernas não responderem aos comandos. Ele parou em frente a uma casa verde clara, se abrigando da chuva sob uma pequena fachada de telhas vermelhas.
A voz na sua mente o mandava correr. Ficar parado daquele jeito era no mínimo um ato de estupidez. A mesma voz lhe dizia que não havia nada o que temer, que aquilo tudo não passava de mito e que ele em breve estaria debaixo do chuveiro quente dando boas risadas do medo irracional que sentiu há momentos atrás.
O primeiro passo foi dado e quando o segundo estava a caminho, um farfalhar no mato fez Carlos estacar na calçada. Um novo uivo, seu coração batia rapidamente, as batidas eram tão fortes que fazia seu cordão pender no peito. Ele pensou em chamar por socorro, mas duvidou que alguém saísse para ver o motivo dos gritos. Naquele momento, ele estava por conta própria se quisesse permanecer inteiro, precisava agir.
O mato farfalhou novamente, mas agora de forma mais intensa. O homem conseguia ouvir uma respiração arrastada vindo da direção do terreno. Lembrou dos programas estilo vida selvagem dos quais tanto gostava, principalmente aqueles sobre grandes felinos. As imagens dos animais espreitando a caça seguindo de um bote rápido e certeiro ficavam passando continuamente em sua mente. Carlos teve a estranha sensação de que era a caça do dia.
O que está esperando? Corra, sebo nas canelas. Se ficar parado feito um idiota, vai acabar como os outros e nem eu, nem você queremos isso. – a voz dentro da sua cabeça dizia. – Ande logo seu idiota. CORRA!
Carlos se lançou numa corrida cega. A bolsa plástica que trazia nas mãos com seu jantar dentro de uma quentinha, ficou pelo caminho. Ele não olhava para o terreno, fixou um ponto na esquina e olhou somente para lá.
Som de galhos quebrados se sobrepôs aos sons de seus pés contra o solo. O mato se mexia tão veloz quanto ele. Os anos sem exercício estavam pesando, Carlos não conseguia correr como queria. Ouviu um novo som, parecia algo duro batendo contra o asfalto, alguma coisa o perseguia, mas ele não tinha coragem de olhar para trás. A respiração do que quer que fosse continuava arrastada, mas de forma cadenciada. Quando ele alcançava o fim do terreno, sentiu algo pular em suas costas e cravar algo em sua carne.
Ele caiu. Uma dor tremenda irrompia da região lombar. O homem sentia o sangue aos poucos empapar a parte traseira de sua camisa pólo azul. Carlos gritou pedindo por socorro e nenhuma luz se acendeu nas casas vizinhas. Ele tinha certeza de que todos estavam ouvindo, entretanto, ninguém saiu para ajudá-lo. Um novo ataque e cinco farpas encravaram em seu pescoço tingindo o asfalto molhado de um vermelho quase negro.
Qualquer tentativa para estancar o sangue era inútil. Os jorros continuavam saindo cada vez com menos intensidade à medida que o coração ia desacelerando. O último vislumbre de Carlos em vida foi a da placa na qual seus olhos se fixaram antes de começar a correr por sua vida.
Ela dizia: Corra porque Jesus está chegando. Igreja Nova Vida, cultos todos os dias as 8:00, 10:30, 14:00, 16:00, 18:00 e o culto da salvação as 21:00.
Um falatório chato acordou Gustavo naquela manhã. Ele sentou-se na cama preguiçosamente e ficou por alguns momentos observando o movimento circular do ventilador antes de desligá-lo. Era uma rotina matinal, como se seu corpo precisasse de alguns segundos para se desvencilhar da cama.
No exato momento em que o barulho do aparelho cessou, ele percebeu que o falatório não era só dentro de sua casa, mas vinha também da rua. Ele saiu encontrando Kátia e Eduardo discutindo. Foram poucas as vezes que Gustavo viu os pais discutirem, contudo, aquela discussão tinha mais preocupação nas palavras do que propriamente uma briga entre casais.
— As vizinhas me disseram que isso já aconteceu antes. Desaparecimentos acontecem nesse bairro, mas nunca houve um caso desses. – dizia Kátia.
Eduardo se preparava para seu primeiro dia de trabalho. Sua atenção estava voltada em conseguir uma boa impressão. Segundo ele, coisas como aquela acontecia em toda a cidade. Ele precisava dizer alguma coisa para acalmar a esposa e ir para o trabalho sossegado.
— Pessoas desaparecem o tempo todo. A violência está em todos os lugares. Quando fui contratado, fiz uma pesquisa e quase todos os empregados da fábrica moram por aqui e todos com quem conversei me disseram a mesma coisa: Aqui é um ótimo lugar para se viver. – ele colocou as mãos nos ombros da esposa e percebeu que ela tremia. – Um fato isolado não tira a segurança do lugar. E quem me garante que não é um animal ferido? As pessoas precisam de algo para acreditar e passam a taxar de verdade a primeira mentira que ouvem.
— Não creio que seja apenas uma história. Há viaturas da polícia no local.
Eduardo olhou o relógio. Estava em cima da hora para o trabalho. Gostaria de ficar e conversar com a esposa, mas chegar atrasado logo no primeiro dia não seria nada bom para sua imagem perante a equipe que chefiaria. Deu um beijo na testa de Kátia e saiu. Quando estava na porta da sala, virou-se e disse:
— Lembre-se, não há nada o que temer.
Gustavo apareceu na saleta onde a mesa do café estava posta. Kátia estava sentada numa das cadeiras com a expressão preocupada. Ele não perguntou nada porque sabia que a mãe seria evasiva com relação a esse assunto. Se quisesse informações, teria que tê-las na rua.
A Mourão de Paula estava abarrotada de pessoas. Moradores da própria rua e do conjunto se amontoavam em torno de uma imensa mancha de sangue que começava um pouco depois do meio da rua e ia se alongando até a orla da mata do terreno baldio. Havia uma poça onde parecia ter começado. Da poça, uma mancha se estendia como se algo tivesse sido arrastado.
Pela primeira vez na vida Gustavo via tanto sangue. Seus olhos voltaram-se para a árvore no terreno, ele não sabia por quê. Estava tão distraído que mais uma vez não percebeu a aproximação de Laura. Dessa vez, a moça não estava sozinha. Ao seu lado, um menino magricela e com óculos de armação preta e aros redondos mirava Gustavo de cima a baixo, sempre com uma expressão taciturna no rosto.
— Pela primeira vez acontece algo tão violento. – disse a menina. – Quando acontece é só gente desaparecida, nunca tinha visto sangue antes.
— E como sabem que os desaparecimentos e esse caso têm algo relacionado?
— Porque esse terreno é do mal. – disse o magricela.
Gustavo sentiu certa hostilidade na voz do garoto, talvez por ciúme de Laura.
— Isso não tem nada a ver com gente sendo morta. – decretou Gustavo. – Algum animal foi ferido, talvez atropelado, e correu para o terreno. – ele tinha ouvido aquelas palavras do pai e para ele parecia uma boa explicação.
O magricela investiu contra ele e se não tivesse sido contido pela menina, Gustavo voltaria para a casa com um belo de um olho roxo.
— Você é um puto! Acha que essas coisas são brincadeiras.
Ele não conseguia entender o motivo de tamanha hostilidade. Fizera apenas um comentário inocente, tentando enxergar o ocorrido sob uma perspectiva diferente da que estava ouvindo das pessoas ao redor. Laura sorriu tristemente e escoltou o magricela revoltado para longe do local.
Num canto, afastado da multidão, Germano observava tudo. Francisco Silva, dono de um bar subindo à rua em direção a via principal, se aproximou e disse:
— Ainda acha que é coincidência?
— Tenho certeza. – rebateu o homem sem tirar os olhos da movimentação dos policiais. – Essas pessoas com esses mitos urbanos são um bando de idiotas. Não há nada nesse terreno, se fossem corajosos o bastante para entrar no mato e verificar, isso já tinha acabado há tempos e a polícia estaria atrás de quem realmente seqüestrou as outras pessoas e não se borrando de medo como estão agora.
— Você é louco homem. Andando por essa rua de noite. Um dia vai ser o seu sangue que encontraremos nesse asfalto.
Germano riu e ficou observando Francisco ir caminhando em direção ao amontoado de pessoas.
Homens da polícia saiam de dentro do mato e voltavam a entrar. As pessoas se aglomeravam buscando por alguma resposta, mas os rostos sérios dos homens de farda passavam duas coisas para Gustavo: A primeira era que mesmo se algo estranho fosse encontrado, eles não comentariam nada com a população. Segundo, pelas expressões, os mesmos homens não tinham encontrado nada e achavam aquela expedição ao mato uma tremenda perda de tempo.
Parte do mato da orla do terreno foi posto no chão. Os agentes não encontraram nenhum vestígio de sangue dentro do terreno e nem mesmo na vegetação caída. Aparentemente a mancha acabava na calçada dando a entender que quem tivesse sido atacado, não tinha entrado no terreno.
Meia hora depois, apenas uma única viatura continuava no local. As pessoas permaneciam na rua comentando o acontecido. Por volta do meio dia, nem mesmo a viatura permanecia e o caso parecia estar encerrado. O pobre Carlos faria parte da lenda do terreno, o que Gustavo achava triste demais.
Longe das vistas da multidão, Laura falou tentando manter a calma:
— O que aconteceu? Porque daquilo tudo? Gustavo só fez um comentário inocente e você quase o agrediu.
— Comentário inocente uma ova! – protestou o magrelo. – E afinal, como você sabe o nome dele?
— Nós nos conhecemos ontem. – disse Laura, mas sem mencionar onde se deu o encontro.
O magrelo fitou Laura e percebeu um acanhamento suspeito na moça. Deixou-a falando sozinho e seguiu bufando no sentido contrário.


Publicado em : Literatura - Contos, Ficção
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