![]() willrod ![]() |
![]() All by myself ![]() |
![]() Vanessa Pena ![]() |
![]() Celina de Fátima ![]() |
![]() Uiara Rosiene ![]() |
![]() ENGLER ![]() |
Esta aberta a temporada de caça a talentos, seja um colunista do site Autores.com.br| Make your own history - Capítulo 08 |
|
|
|
Recuperei-me rápido do tornozelo e voltei a ensaiar. Liguei para Denise, contei tudo e pedi desculpas por não ter ido encontrá-la. Ela me disse que logo viria a Londres para me ver. Luc também voltou de Los Angeles e me contou suas aventuras com Denise em Hollywood e Las Vegas. O mês passou rápido. Dias de muito trabalho, noites de muita solidão. Há tempos não chorava tanto.
Para aliviar a pressão, dedicava-me totalmente à montagem do novo espetáculo da companhia. Iríamos apresentar Giselle, obra prima do compositor de ópera Adolphe Adam. O papel de Giselle é um dos mais procurados no balé, já que exige tanto perfeição técnica quanto excelente graça e lirismo. É um ballet de repertório lindo que traz em seu enredo elementos muito parecidos com minha história pessoal. Giselle é uma jovem camponesa que vive nos campos da Alsácia, na França. Ela se aproxima do Conde Albrecht, acreditando ser ele um lenhador chamado Loys. Albrecht, por sua vez, também encantado pela bela Giselle, mantém a farsa e esconde sua verdadeira identidade e seu noivado com a Duquesa Bathilde. Hilarion, um amigo de infância e pretendente ao amor de Giselle, tenta desmascarar Albrecht, mas a moça prefere acreditar no amor e na sinceridade do falso Loys, sem se convencer das suspeitas de Hilarion, nem escutar os apelos de sua mãe Bertha. A chegada de uma grande comitiva de caçadores, chefiada pelo Duque de Courland e sua filha Bathilde, noiva de Albrecht, permite ao apaixonado Hilarion finalmente provar a identidade falsa de seu rival. O camponês encontra, numa cabana abandonada, a espada com o brasão de nobreza de Albrecht e a apresenta a Giselle. A jovem, que acaba de ser coroada Rainha da Vindima de sua aldeia, ainda reluta em aceitar a realidade do fato, mas Bathilde dá o golpe de misericórdia, confirmandoa Giselle seu noivado com o nobre Albrecht. O choque da notícia leva Giselle à loucura e à morte. No segundo ato, Hilarion está de vigília na tumba de Giselle, quando soa a meia-noite. Esta é a hora em que as Willis se materializam. São almas de jovens que foram enganadas por seus noivos, no amor, e morreram antes do casamento. Elas se vingam, fazendo dançar até a morte os homens que encontram na floresta. Myrtha, a Rainha das Willis, aparece e chama o seu séqüito para iniciar Giselle em seus ritos. Hilarion é perseguido por esse exército de almas brancas, até a morte. Quando Albrecht aparece, carregando lírios para o túmulo, Giselle surge para ele. As Willis, encontrando outro mortal, voltam-se para o Conde, e Myrtha o condena a dançar até a morte. Giselle, no entanto, consegue poupar a vida do amado com a proteção da cruz de seu túmulo, amparando-o na dança, até a aurora, hora em que o poder de materialização das Willis desaparece. Sem dúvida uma das histórias mais lindas do ballet clássico. E nesta envolvente montagem, fui deixando o meu passado para trás... Os dias de março passaram rápidos e mais uma vez era o ballet que me salvava dos atropelos da minha vida. Dedicava-me intensamente aos ensaios, pois estrearíamos na primeira semana de abril, com curtíssima temporada em Londres. Os executivos estavam trabalhando arduamente em busca de patrocinadores para levarmos a montagem para Paris e Moscou. Voltar a viajar me animava. Era noite de sábado, seis horas da tarde, ensaiamos o dia todo. Só pensava em tomar um banho e relaxar. Luc foi passar a semana na França, visitando os pais. Estava sozinha. Fui fechar as cortinas do quarto, pois queria dormir cedo, mas a vista prendeu minha atenção. Do meu quarto era possível visualizar, a Picadilly Circus e bem no centro da movimentada praça erguia-se uma fonte em bronze, coroada por uma figura de alumínio alada empunhando um arco. A estátua é de Eros, o deus pagão do amor. A fonte foi concebida no século XIX, não como símbolo pagão, mas como símbolo da caridade cristã, um monumento memorial ao filantropo inglês Lord Shaftesbury. É a primeira estátua pública do mundo feita em alumínio. Ela apontava para a minha rua a Shaftesbury Avenue, a ‘Broadway' de Londres. Mas durante a Segunda Guerra Mundial, a estátua foi removida pra ser protegida contra as bombas. Depois do conflito, ao ser retornada ao lugar original, o anjo foi posicionado com sua flecha apontando para direção errada. Distraída nestas divagações, não percebi Luc chegar. - Amour, namorando Eros? - Não é engraçado que até o cupido está de costas para nós? - Então ainda está sofrendo de amor... - Todos os dias. Será que fiz a coisa certa? - Se você acha que exagerou, procure ele. - Você acha que eu exagerei, não é? - Bom ele disse que ficaria com você, mas você fugiu dele... - Mas... Não sei... Sentiria-me culpada... - Você sofre por antecipação. Deveria conversar com ele pelo menos mais uma vez - e suspirou - neste final de semana descobri que perdi tempo demais em conversar com meus pais. - O que houve? Eu aqui tão presa nos meus problemas. - Contei tudo e foi doloroso. Meu pai não quer mais me ver. Disse que sou a vergonha da família. - Imagina! Você é sempre foi o orgulho deles. É porque é muito recente e tanto tempo de mentiras. Você é um homem íntegro, não deve nada pra ninguém e tem uma carreira brilhante. Logo teu pai vai perceber isso. - Foi frustrante. Minha mãe disse que já sabia. Inclusive comentou que achou divertidíssimo surpreender você e o Jack na sacada do Palace. Rimos muito. Choramos outro tanto. Tínhamos um ao outro e naquele momento era o que bastava. Na segunda-feira, saí cedo para o teatro. Esta semana, antes da estréia, os ensaios seriam todos nos palcos do Royal Opera House. Luc ainda ficou dormindo. Tomei um café e caminhei até a Bow Street em Covent Garden, endereço do complexo do Royal que abriga além do teatro e do Royal Ballet, as instalações do Royal Ópera, Royal Opera Chorus, The Roh Orchestra e todos os programas artísticos para jovens. Quando cheguei, fui abordada pelo nosso coreógrafo principal Wayne McGregor: - Julianne, bom dia! - Bom dia Wayne. A semana promete, em? - Com certeza e ainda temos muito trabalho. Você está perfeita, mas tem nos preocupado. - Sério? Por quê? - Desde que você voltou de Nova Iorque não sinto a mesma paixão em cena. É como se ainda estivesse lá. Tens intenção de dançar no ABT? - Não vou mentir que amei estar lá e cheguei a receber um convite, mas minha vida pessoal não permitiu tal ambição. - Eu sabia que seu coração não estava mais nestes palcos. Na verdade sempre achei que você voaria logo daqui. - Você é muito sensível e sempre cuidou de mim. Grande parte do que sou no palco devo a você. - Você é um talento que veio pronto. Os executivos chegam a te considerar nossa nova Margot Fonteyn - Que exagero, Wayne! Estou longe da grande dama do Royal. Eu realmente preciso melhorar, pois estou sem ânimo, mas não pelo Royal, mas pela minha vida. Prometo que não vou deixar meus problemas subirem no palco - E isso eu tenho certeza que você consegue, afinal estamos junto há pelo menos oito anos. - É verdade! Você ainda era coreógrafo assistente. Obrigado amigo pelas dicas. Vou superar. - Tenho certeza que vai, mas não sei se ficarás conosco por muito tempo. - Por que diz isso? - Conseguimos, finalmente, investimentos para a turnê e a exigência é ir, além de Paris e Moscou, também para Nova Iorque. Nova Iorque! Será a oportunidade de rever Jack? - Mas o que isso tem haver comigo, Wayne? - O patrocínio para a companhia está vindo de uma produtora americana que quer produzir um documentário sobre o Royal e o ABT e a outra exigência deles é que você seja a bailarina principal, a Giselle. - Bom isso não é problema, mas quem são estes produtores? - Eles já estão aqui e, neste momento, em reunião. Irão começar as filmagens e eu estava te esperando, pois querem te ver. Parece que já a conhecem. Seria Jack? Ele realmente disse que não desistiria. Segui Wayne até os escritórios da companhia com as pernas trêmulas e o coração acelerado. Ao entrar na sala percebi a presença do diretor administrativo Anthony Russell e do empresário Kevin O'Hare. Além deles outro homem que não conhecia e, que surpresa, Louise e Jeremy, seu marido. - Julianne querida, que bom revê-la. - falou Louise toda animada. - Louise! Como está? Olá Jeremy. - Não é o máximo! Nossa produtora fará toda a cobertura da turnê. Trabalharemos juntas e estou louca para te conhecer melhor. Logo fiquei a par de tudo e realmente o investimento seria maravilhoso, mas fiquei decepcionada. Definitivamente, Jack não estava com o grupo. Ao mesmo tempo, foi muito bom rever Louise. Comentou comovida que após saber de toda a história pelo Jack, descobriu o quanto tinha sido precoce o preconceito comigo. Ela e Bárbara estavam frustradas por terem transferido para mim o ódio da separação dos pais. Disse que Bárbara queria muito me ver novamente para que pudéssemos resgatar essa relação. - Louise, eu sempre entendi o quanto era difícil para vocês. Nunca esperei nada. - Mas não foi justo você ter crescido sozinha. - A vida se encarregou de me presentear com amigos que se tornaram minha família. - Você acha que nós ainda temos chance, pelo menos de construirmos uma amizade? - No Château ficou claro que temos muito em comum. Lógico que não é tarde. E com lágrimas nos olhos nos abraçamos. Não tive coragem de perguntar nada sobre Jack e percebi que ela também evitava o assunto, mas logo ficou claro que o investimento vinha dele. Os executivos conversavam no canto da sala e descobri que o homem que não identifiquei na verdade era Ross Macstorm, braço direito de Jack na produtora. - Julianne - Wayne me chamava para a realidade - precisamos iniciar nossos ensaios, vamos lá? Despedi-me de Louise e segui com ele. Dirigi-me até o camarim para trocar de roupa. Para a maratona de ensaios escolhi a tradicional meia calça rosa e um colant preto. Por cima vesti uma bermuda balonê que era confortável e auxiliava os movimentos. Enrolei a cintura da bermuda até o quadril, fiz um coque, separei a sapatilha e fui para o palco iniciar os aquecimentos. O cenário já estava montado. Alguns técnicos continuavam trabalhando na iluminação. Cumprimentei a todos os colegas e percebi várias pessoas sentadas nas filas do meio da platéia, mas não podia identificá-los, pois a luz forte dificultava a visão. Wayne nos pediu que repassasse toda a coreografia da willis e o pad de deux e assim o fizemos. Estávamos muito coesos. Foi perfeito e ao final a pequena platéia aplaudiu com euforia. Começamos a perceber a equipe de Louise e Jeremy instalando seus equipamentos. Dois homens com câmeras portáteis já começavam acompanhar os nossos movimentos, focando principalmente o pad de deux. E sinceramente eu me superei, sentia isso, estava animada de novo. - Uau July, finalmente de volta a ativa - apressou-se em comentar o bailarino principal desta temporada, Frederico Bortolinne, um italiano lindo e talentosíssimo. - Desculpe Fred, te dei trabalho não é? Mas agora estou bem! - Não fiquei preocupado, sabia que você ia dar a volta por cima. Wayne nos chamou a atenção. - Julianne e Frederico. Por favor, vou repassar outros detalhes com o corpo de baile. Descansem um pouco e repassem alguns movimentos, ok? E assim o fizemos, sentamos ao canto do palco. Tirei a sapatilha e Fred começou a massagear meu pé. - Sente ainda o tornozelo? - Às vezes, mas muito pouco. Só estou cansada. - Nova Iorque não te fez bem. Voltou machucada no coração e no corpo, em? - Nem me fale e o pior é que... - nem me deixou continuar - Eu sei. Esse pessoal é do ABT. Quem é ele? - Não está com o grupo ou pelo menos não o vi. - Logo imaginei que tinha o dedo do seu Jack neste projeto. Fred dança comigo desde os tempos do Royal Academy. Freqüentamos a mesma turma e chegamos a namorar. Sempre muito mulherengo logo vi que a relação não tinha futuro. Com certeza já se envolveu com a maior parte das bailarinas da companhia e era um galanteador. Imaginem: italiano, alto, moreno, olhos verdes. Um encanto. E o que é raro: hetero. Depois que terminamos nosso breve namoro nos tornamos amigos, mas tivemos algumas recaídas ao longo dos anos. Sempre que ficávamos sozinhos no final de uma festa... Ops e lá estava eu passando um tempo delicioso com Fred. Mas só. Não tínhamos nada em comum. Quando voltei de Nova Iorque deprimidíssima, fiquei super contente em saber que ele seria o bailarino principal e num dos encontros do grupo, numa sexta-feira chuvosa, ao invés de terminarmos à noite no meu apartamento ou no dele, ficamos até de manhã conversando e bebendo num pub da Picadilly Circus. Desabafei, contei tudo e Fred concluiu: "É amiga! Você encontrou seu amor. Perdi minha amiga de fim de festa definitivamente. Mas eu torço por você, viu? Quem sabe um dia eu também encontre a mulher que vai me fazer sossegar". Novamente era Wayne que me trazia a realidade. - Julianne e Frederico. Após o almoço estará reservada a sala cinco e seis e quero vocês marcando as posições dos solos. Vou designar um pianista para cada um que já estará lá os aguardando. E assim que possível vou encontrá-los para ver como está. Adorava estes momentos, pois me auxiliavam a concentrar. Os pianistas eram muito discretos e posicionavam-se no canto da sala silenciosos só seguindo nossos comandos para rever partes da música. E como estive distante, era uma boa hora de correr atrás do tempo perdido. Fred e eu descemos até o restaurante. Escolhemos uma mesa discreta no canto e ficamos ali conversando. Uma hora depois, voltamos para o palco. Os solistas ainda estavam com Wayne, marcando suas partes e posições. Fred se queixava de dores nos ombros então fiz com que sentasse em borboleta e massageei-o delicadamente até Wayne nos orientar a começar o ensaio individual. - July, George irá com você. Vou começar com Fred e depois te encontro, ok? - Tudo bem - e voltando a atenção para o pianista continuei - George te encontro lá em cinco minutos, pois preciso trocar as sapatilhas. Entrei na sala cinco e George já estava dedilhando o piano com a sonata do primeiro solo. O piano alto ficava ao quanto da sala. Daqui não podia vê-lo, mas já estávamos acostumados com estes momentos discretos de ensaio. George acompanha a companhia há muitos anos e sabe que sua função é executar a música e deixar que o bailarino evolua. Sentei próxima ao espelho, coloquei as sapatilhas, aqueci um pouco os pés com movimentos circulares, um breve alongamento, posicionei-me no centro da sala e solicitei: - Por favor, George, vamos começar. Ele assim o fez. A sonata de Adolphe Adam para o solo era bem clássica e marcada. Precisava aprimorar ainda mais a diagonal na ponta que se constituía de passos bem marcado, precisos e graciosos. Dancei este espetáculo outras vezes, mas sempre é um novo desafio, pois o coreógrafo impõe o seu ritmo e a sua marca. Estava com tudo organizado, concentrada, mas percebi que George estava se perdendo em algumas notas. Fiquei intrigada, pois isso nunca aconteceu antes. Suspirei cansada e após duas repetições parei na frente do espelho, apoiei os braços sobre a barra e comentei: - George hoje quem está desatento é você. - Desculpe-me, mas faz tempo que não pratico. - Meu coração parou. Aquela voz rouca... Só conhecia uma e ele se ergueu de traz do piano e continuou. - Olá Juliet, achei que poderia tocar, mas estou enferrujado. - Jack! O que você faz aqui? E ele estava lindo. Elegantemente trajava um terno preto, uma camisa branca e uma gravata preta. Seus cabelos levemente grisalhos realçavam com o figurino. Estava sem barba, rosto limpo. Seus olhos pareciam ainda mais verdes e me fitavam. - Achou que eu iria investir neste projeto e ficar longe? - Não sei, você agora tem outros compromissos. - Não ironiza Juliet. Este assunto é sério e estou aqui a negócios, mas não podia deixar de te ver. - Desculpe. Não estou ironizando, mas você tem o dom de aparecer do nada. - E isso te incomoda? - Claro que incomoda. Porque não estava na reunião hoje cedo? Assim já deixava tudo claro. - Por que tinha outros compromissos, mas pelo menos pude acompanhar todo o ensaio. - Que ótimo! Já viu que trabalhamos bem, então posso ter George de volta? Também estou aqui a negócios. E abri a porta da sala, sinalizando com a mão a possibilidade dele sair. - Ou você quer que eu chame o "Fred" para te ajudar? - falou com o tom de voz meloso e debochando, ao mesmo tempo em que empurrava a porta e tornava a fechá-la. - O que você quer dizer com isso? - Que agora entendi porque você me dispensou rápido e fugiu de mim. - Entendeu o quê? - Ora o seu "Fred"! Todo mundo aqui sabe da fama dele e que vocês são muito próximos. Eu mesmo já percebi. Massagem no tornozelo, massagem nas costas... - Você não sabe de nada. - Eu não preciso saber. É visível. - Então andou me investigando e vigiando. - Claro! Estou aqui porque mesmo se você não me quiser, se realmente ficar firme nesta posição durona e inflexível, pelo menos me deixa te conhecer melhor? Temos um passado mal resolvido, coisas de anos atrás. - Jack, porque isso? Você deveria estar lá com sua mulher, esperando a chegada do seu filho. - Mulher? - balançou a cabeça negativamente - Não é assim. Ela está bem assessorada e meu filho só nasce daqui a três meses. Quando nascer, estarei lá e serei muito presente, mas não preciso casar com a mãe dele para ser um bom pai. Respirei profundamente. Não tinha argumentos e ele me pegou de surpresa. Estava começando a por minha vida nos trilhos e ele chega assim, bagunçando tudo. - Não precisa falar nada, Juliet. Nós vamos ter muito tempo. Afinal vou acompanhar a turnê e a produção do documentário. Pegou minha mão que ainda segurava a maçaneta e abriu a porta. Aproximou seu rosto do meu e depositou um beijo suave: - Bom ensaio. Nem pude falar nada. Ele realmente me desconcertou. Sai dali e fui até meu camarim em busca do meu celular. Precisava ligar pra Luc e contar tudo. - Luc, você não vai acreditar no que aconteceu aqui. - Posso tentar adivinhar? - Você não vai conseguir. - Jack está aí e vai patrocinar a turnê do Royal. - Quem te contou? - Ele esteve em casa hoje cedo, logo depois que você saiu. - Fazendo o quê? - Queria te ver antes da tal reunião, mas como você saiu cedo ficou por aqui. Tomamos um café e ele me contou tudo. - Você podia ter me ligado. - Liguei, mas para variar você não atende este telefone. - Eu ainda estou em choque. - Então fique mais apavorada: ele vai ficar hospedado no nosso apartamento. Suas coisas inclusive já estão no quarto de hóspedes. Mais esta agora. Nem sei mais o que pensar. Só despertei do meu desespero quando Marie, coreógrafa assistente, bateu na porta. - Julianne, Wayne te chama. Vamos fazer todo o espetáculo de ponta a ponta. Aqui está o seu tutu. Os executivos do documentário já estão com os equipamentos prontos. - Obrigada Marie. Já estarei lá. Tirei a bermuda e pus o tutu. Ajeitei o cabelo e fui para o palco. Passei por George, o pianista, que apenas me cumprimentou com um gesto de cabeça. O que será que Jack fez para chegar até ele? O que ele deve estar pensando? Bom não importa. Preciso estar concentrada. Desta vez Jack não ia atrapalhar meu rendimento. Já chega o período todo que fiquei apática. E o ensaio foi maravilhoso. Todos os elementos de cena estavam integrados. A parceria com Fred realmente ficou especial. Nossa sintonia no palco era a ideal para uma história como a de Giselle. Nos momentos fora de cena, aproveitava das coxias para observar Jack, que já estava sem o paletó e com a gravata mais frouxa. Ele parecia comandar toda a equipe com os olhos atentos em todos os movimentos. Ele realmente sabia o que estava fazendo. Ao terminar o ensaio de marcação de palco, fomos orientados a estar de volta amanhã apenas à tarde, pois pela manhã os técnicos terminaria a iluminação e o cenário. A tarde faríamos a maquiagem, o cabelo e acertaríamos o figurino para em seguida gravar o espetáculo em dois atos completos. Fred estava ao meu lado e comentou ao pé do ouvido. - Já sei quem é o seu Jack. - Nem me fale, preciso te contar os últimos acontecimentos. - À noite ligo, ok? E me deu um beijo no rosto antes de sair. Instintivamente olhei para Jack que desviou o olhar. Mais essa agora. Pelo jeito acreditava mesmo que Fred e eu estávamos juntos. Com pressa fui até o camarim. Troquei de roupa e sai. Seria bom voltar caminhando até em casa com tantas coisas acontecendo. Evitei encontrar Louise, sei que seria indelicado, mas ela estava tão atarefada com sua equipe que nem ia perceber. Já estava na calçada quando Jack me alcançou. - Calma pequena. Ainda na terminamos nossa conversa. - Conversa? Achei que você só quis deixar claro que está aqui a negócios. - Você entendeu tudo errado. E também me desconcertou com esta história de Fred. - Fred é só um amigo e ponto. - Bem íntimo pelo jeito. - O que você quer saber? - olhei firme para ele. - São namorados? - Não. - e continuei caminhando - Mas já namoraram? - O que é isso? Um inquérito? - Calma, só estou curioso. - breve silêncio e nós dois caminhando lado a lado - não vai responder? - Sim, já namoramos, mas por favor, faz tanto tempo. - Quanto? - Jack! - Responde. Quanto tempo faz que namoraram? - Sei lá, eu deveria ter uns dezenove anos. Éramos colegas na Academia do Royal. Satisfeito? - Não! - respirei fundo. - Por quê? - Porque todo mundo lá fala que vocês ainda estão juntos, principalmente agora que ele foi promovido a primeiro bailarino. - É, você tem razão, as pessoas lá falam demais. Daqui a pouco vão estar comentando que você coagiu George e invadiu a sala de ensaio. - Eu só pedi um favor e ele concordou. - Está bem, Jack. Deixa quieto. - Porque tanta irritação? - Com tanto hotel na cidade, precisa ficar na minha casa? - Ah! Então é isso. Bom eu falei que quero te conhecer melhor... E também quero que você me conheça melhor... Mas se é impossível conviver comigo... Vou buscar as minhas coisas... Parei no meio da rua. Droga! Ele tinha o dom de me tirar do sério. Jack percebendo que parei, voltou preocupado e me puxou pelo braço. - Você quer ser atropelada de novo. - Tudo bem. - respirei fundo - você fica lá em casa, mas custava ter me ligado, conversado. Você sumiu por três meses. - Duas mil e duzentas e cinqüenta e nove horas. Ou noventa e quatro dias. Ou três meses, cinco dias e dez horas, desde que nos despedimos no cemitério. Fiquei sem ação e perplexa pela exatidão. E eu também sabia a quantidade de horas sem vê-lo. Saber que ele também contava o tempo longe de mim... Mexeu comigo. E ele continuou: - E eu não sumi, estava apenas encontrando um jeito de estar aqui sem você se sentir pressionada. Você é Juliet. A pequena Juliet que pus num avião há catorze anos atrás. Eu quero te conhecer. - Não é tarde, Jack? - Nunca é tarde e serão apenas duas semanas, depois saímos em excursão, por favor? Ele estava se divertindo com minha irritação e desconforto e isso me irritava ainda mais. Continuamos caminhando, e ele retrucou: - Está vendo? Este lado seu eu não conhecia. - Que lado? - Irritadinho. - Eu sou muito calma, só você me irrita. Ele deu uma gostosa gargalhada e apressou o passo para me acompanhar. Eram sei quarteirões até o apartamento. Percebia Jack sem fôlego, sempre um passo atrás. Chegamos ao prédio e nos dirigimos ao elevador. Um espaço tão pequeno e eu aqui sozinha com ele. Sentia sua respiração tão próxima. Queria virar e cair nos seus braços. Ele me observava, mas entrou no jogo do silêncio e apenas sorria e balança a cabeça. Abri a porta do apartamento. No hall, Jack parou e observou minha foto com Luc. - Interessante esta foto, mas você era bem mais nova. - Dezoito anos. - Exatamente como lembro de você na formatura. Você mudou bastante. - Quem conviveu comigo acha que não. - então me dei conta do seu comentário - você esteve na minha formatura? - Não acredita? - Eu não duvido de mais nada. - Mas eu estava sim. Seria uma formatura comum com protocolo formal, não fossem as apresentações finais, ressaltando os talentos de cada um. Você estava com um lindo vestido preto e para a minha surpresa, não dançou, mas tocou num piano lindo como este - e apontou para o piano ao canto da sala - a nona sinfonia de Beethoven com um grupo tocando violinos. - Você realmente esteve lá - falei com surpresa. - Por isso quero um tempo com você. Não vou forçar nada. Compreendo completamente o que te incomoda. Mas temos muito em comum, principalmente princípios, valores, mas vou te provar que não estou errado em estar aqui. - Olha, fique a vontade. Luc me disse que você já esteve aqui hoje cedo, então já conhece seu quarto. Preciso subir e tomar um banho. - Sozinha? - Jack! - Desculpe. - sorriu malicioso - prometo me comportar. Subi e nem olhei pra trás. Entrei no meu quarto, tranquei a porta instintivamente. Nunca tinha feito isso, mas era difícil tê-lo sob o mesmo teto. Não tinha medo do Jack, mas de mim mesma.
|
Nenhum comentário
| < Anterior | Próximo > |
|---|
| TerrorAlma de Cemitério + Full Story | DiversosUm Ano de Anti-Ontem + Full Story | PolicialLágrimas de Prata - Combate Engajado + Full Story |
| DiversosPalavras em doses alopáticas, um pensamento de 6/6 hrs. + Full Story | PolicialLágrimas de Prata - África livre - parte um + Full Story | RomancePuro Amor cp 20 (último capítulo) + Full Story |
| Outros textos... | ||
A coluna de Gilberto Profeta tem como objetivo recolocar em uso palavras dos falares brasileiros, indígenas ou africanas, de autores daqui ou de Portugal, pesquisar o ...
[+] Leia mais
Os motivos de se fazer literatura postos entre antagonismos e discutidos por um dos maiores talentos da literatura contemporânea: Hiago R.R. de Queirós, que traz semanalmente com um peso ...
[+] Leia mais
Digitado, escrito, e psicografado por Allan Pitz, PHD em Patavinas.
–Quando meus inimiguinhos da época de escola me chamavam gentilmente de Pizza de barro.....
[+] Leia mais
Em “Filosofia do Entretenimento” estudarei unido ao meu conhecimento em crítica, argumentação e toda a filosofia em si a divulgação e o trabalho feito pelas...
[+] Leia mais
O dicionário define lenda como : conto fantástico da tradição popular . Mas sabemos que a definição de lenda vai muito além disto . Pois estes contos tradicionais trabalham ...
[+] Leia mais
Espaço voltado para apresentação de textos sobre cultura e ciência visando explorar mitos e fatos científicos apresentando-os de forma simples, objetivando....
[+] Leia mais
Os múltiplos olhares de Fernando Pessoa esquadrinharam a vida, em todos os seus aspectos. Pelos olhos de Pessoa, nosso olhar passeará pelo cotidiano que se nos apresenta, através dos olhos da natureza...
[+] Leia mais
é uma coluna da jornalista e escritora Brigite Brandão. Viciada em café, Brigite lê cartas enviadas pelos seus leitores, que pedem conselhos...
[+] Leia mais