| A BATALHA DE RIACHO GRANDE |
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A batalha estava no auge, com ligeira vantagem para um dos lados.
O comandante em desvantagem fez o clássico sinal com o braço direito, socando o ar, e em pouco segundos os quatro tenentes estavam ao seu lado. –A situação está insustentável. Disse o comandante Jaca. -Eu avisei, mas ninguém me escutou. Retrucou o tenente Minhoca. -Percebi desde ontem a movimentação deles preparando munição e te alertei, estava na cara que ia dar nisso, para cada arremesso nosso tem três deles, assim não há exército que agüente. -Tudo bem, agora não dá pra chorar o leite derramado, a estratégia deles deu certo, mas essa mesma estratégia será discutida em uma reunião de cúpula que vamos exigir, e uma regra a respeito disso terá que ser criada, senão vira bagunça. Uma saraivada de projéteis interrompeu os diálogos da reunião. -Jaca acho melhor içarmos a bandeira branca. -De jeito nenhum, eles formaram um centro forte, precisamos inverter nossa posição, vamos abandonar o centro e concentrar nossas forças nos flancos, mas prestem atenção, o grosso da tropa ataca o flanco direito com tudo, o atacante do franco esquerdo que serão poucos, usa a tática de guerrilha, ataca e recua, ataca e recua. -Toninhooooooooo, Toninhooooo... Ao ouvir esses gritos a batalha parou como por encanto, dando uma sobre vida ao exercito em desvantagem. -Toninhooooooo, onde está você moleque saia já da mata. -Toninhoooooo... Toninho se aproximou do grupo do comandante Jaca, totalmente sujo de barro, pois tinha sido atingido diversas vezes pelos projeteis inimigos. -Jaca é minha mãe, to ferrado, não tem jeito vou ter que sair da guerra. -E pelo que estou vendo você vai apanhar da sua mãe, porque não vai dar tempo de você se lavar no rio. Risos abafados começaram em ambos os exércitos. -Só faltava vocês dar relaxo agora, mas vou para o sacrifício, boa sorte pra vocês. Toninho, um garoto de oito anos sai da mata e vê sua mãe chegando. -Toninho eu já não disse, que não quero que você brinque de guerra na mata?- E olhe sua roupa, sua cara, tudo sujo de barro. -Mas a guerra precisa de mim. -Presumo que esta guerra é contra a turma do outro lado. -Isso mesmo mãe. Pois eu vou te mostrar uma guerra de verdade, moleque. Ao terminar de falar a mãe, pegou o garoto pela orelha direita, e o foi puxando ladeira acima. Os dois exércitos continuaram estáticos vendo a cena em que um bravo soldado era retirado do campo de honra pelo poder absoluto chamado mãe, cada um daqueles bravos combatentes sentiam a própria orelha doer. Aproveitando do momento o comandante Jaca, ordenou ao tenente Minhoca que erguesse a Bandeira amarela. -Não é a branca? -Deixe de ser burro, é a amarela, rápido, rápido. O tenente Minhoca, ergueu a bandeira amarela, o mais alto que pode. O comandante do outro lado ao ver à bandeira amarela gritou indignado. -Hei Jaca qual é a de vocês, está apelando?-É bom que você tenha uma boa explicação para a bandeira amarela, ou vocês estão amarelando? Gritos de zombaria no exército do outro lado. -Não é nada disso Lau, é melhor vocês respeitarem a bandeira amarela. -Tudo bem Jaca, só quero te lembrar que a vitória está pendendo para nosso lado, portanto explique o motivo da bandeira amarela. -Lau, você e seus comandados, sabem que a bandeira amarela só é içada por um dos lados, quando ocorre um ferimento em um integrante do exército. -E alguém se machucou por acaso, que justifique a bandeira amarela?-Pelo que sei e pude observar até agora ninguém se machucou, estou achando que você está enrolando. -Você tem razão, ninguém se machucou, mas morreu, portanto é preciso parar a batalha, para que o meu exército junto com o teu, preste ao soldado morto em ação, às devidas honras militares. Lau não conseguia perceber o que Jaca estava tramado, e isso era ruim para si, percebeu seus comandados com os olhares fixos nele, sentia, pois que a partir deste momento ele travava com Jaca uma batalha particular, conhecia bem Jaca, o mesmo era esperto. e cheio de artimanhas, por mais que tentasse não conseguia ver onde Jaca queria chegar, infelizmente teria que pagar para ver. -Acho que você está ficando xarope Jaca, que soldado seu morreu durante a batalha? –Trata de abaixar a bandeira amarela e vamos continuar a batalha, não vai dar dez minutos você e seu exército vão bater em retirada, mas como sou um bom comandante diga aí xarope quem morreu em batalha aí no seu exército? Alarido e risos no exercito do outro lado. -O Toninho. -Como é que é? Perguntou Lau perplexo. -O Toninho, quem morreu foi o Toninho alias um dos meus melhores soldados, foi até agraciado com a medalha Tiro Certo, na batalha que vencemos na semana passada. Gargalhadas no exército do outro lado, e risos moderados no exército do lado de cá. -Eu como comandante de um exército, exijo o devido respeito para com a minha patente, vou fazer vocês engolirem essas risadas, pois vou provar a minha afirmação de que o bravo soldado Toninho, morreu em ação nessa batalha que por hora se encontra paralisada, inclusive por causa da morte do referido soldado. Os dois exércitos se calaram, todos os olhares cravados em Jaca, que se mantinha tranqüilo demonstrando que sabia o que estava dizendo, e isso deixou Lau preocupado, sentia que o esperto Jaca ia se sair bem daquela situação, disso não tinha dúvidas, e ele Lau, o poderoso comandante do exército do outro lado, não conseguia acompanhar o raciocínio de Jaca, e isso não era nada bom, mas enfim tinha que continuar aquela batalha particular entre ele e Jaca. -Vamos logo Jaca, desembucha. -Calma cada coisa em seu tempo, tenente Azeitona dê para mim o livro de guerra e o lápis. Azeitona aproximou-se de Jaca, e retirou do bolso uma caderneta suja e sebenta junto com um toco de lápis preto. Jaca com o livro de guerra na mão direita, levantou o braço para que todos pudessem ver. -Este é o nosso livro de guerra que é igual aos seus. Dirigindo essa fala ao exército do outro lado. -Aqui está registrados o regulamento para as nossas batalhas, como sabem o regulamento especifica cada item, tais como o uso correto para a bandeira amarela, como hoje a batalha iniciou-se com uma pratica não prevista pelo livro, ou seja, a fabricação antecipada de munição, e não foi o meu exército que inventou isso, mas confesso que foi uma tática inteligente, e acho que pode ser utilizada por ambos os exércitos, portanto proponho que dois novos itens sejam acrescentados ao livro de guerra. -Opa, porque dois? Retrucou Lau, bastante inquieto, sabendo que vinha mais coisa de Jaca. -É um item só, a partir de hoje é permitido que se o exército quiser pode preparar projétil antecipadamente e ponto final. -Não,não,não.Falou Jaca.-O preparo de munição será posto em votação, portanto quem concorda com essa nova lei de guerra levante a mão. Todos os integrantes dos dois exércitos levantaram as mãos aprovando a nova resolução. -Acabou Jaca? -Ainda não falta mais uma resolução. -Qual?-A da morte do Toninho em batalha?Risos. -Essa mesma. Afirmou Jaca convicto. Lau calculou que sua batalha particular com Jaca estava próximo do final, e ele Lau, venceria sua batalha particular contra Jaca, e o que era melhor, venceria também a batalha principal, por desistência, e o que era pior, inventar uma desculpa para parar a batalha, item alias previsto no livro de guerra, já que o Toninho não morreu. Agora ele acabaria de vez com Jaca. -Não tem nenhuma nova resolução, porque o Toninho não morreu. -Morreu. -Para com isso eu e o meu exercito ganhamos a batalha e fim de papo. O exército de Lau produziu um grande alarido festejando a vitória, e Lau sentia-se pela primeira vez vitorioso de fato. -Nada disso, o Toninho morreu em batalha, ta mortinho da silva. -Jaca se você insistir nessa sandice, eu vou partir pra ignorância. -Eu explico, quero que todos prestem atenção, em que situação um soldado durante uma batalha deixa de participar ativamente dela?-Eu respondo, em apenas em três. Lau pensou me ferrei ele encontrou uma saída, não adianta eu bater de frente, tenho tirar proveito também. -Como eu disse em apenas três situações, por covardia, o que não é o caso do Toninho, segunda por ferimento que impeça o soldado lutar, que também não é o caso do Toninho, ou por morte. Por mais que tentasse Lau não conseguia acompanhar o raciocínio de Jaca, mas resolveu arriscar. -Bem se não foi por covardia e nem ferimento e o Toninho está vivo... -Não o Toninho esta mortinho da silva para esta batalha que estamos travando, porque ele foi retirado à força pela sua mãe da batalha, isso é como ele tivesse morrido em ação, portanto ele merece todas as honras fúnebres militares, igual as dos filmes, e essa é a segunda resolução que quero propor para o livro de guerra, qualquer soldado ou oficial que for retirado da batalha contra sua vontade por sua mãe, e isso pode acontecer a qualquer um de nós, seja considerado morto em batalha, e recebera todas as honras militares, e a batalha será encerrada, para que ambos os exércitos prestem as homenagens, quem estiver de acordo levantem as mãos. Todos levantaram as mãos acompanhado de exclamações: - Aprovadooooooooo. Lau deu-se por vencido, mas em seu íntimo aprovava a resolução, também ele gostaria de receber honras fúnebres, poderia combinar com sua mãe, e depois de longe assistiria as honras em sua homenagem. -Tudo bem Jaca, convoque o seu estado maior e vá para o ponto neutro, que eu irei com o meu, para acertarmos os pormenores e procedimentos das honras militares ao soldado morto em batalha. -Estado maior comigo ao ponto neutro. Gritou Jaca chamando seus quatros tenentes, Minhoca, Melancia, Tonel e Azeitona. EPÍLOGO -Hei Almeida, apreciando a paisagem? -Oi César tudo bem?-Estou apreciando este vale do Riacho Grande, dá pena saber que ele vai desaparecer, para dar lugar a um lago, cuja função será apenas decorativa. Almeida se referia ao pequeno vale à sua frente onde corria preguiçosamente um riacho protegido por pequena mata ciliar em ambas as margens. -Dá e não dá Almeida, quando a obra da barragem estiver pronta daqui a seis meses, todo este vale vai sumir, para dar lugar a um belo lago, vai ficar bonito. -Não sei por que César, mas bate uma tristeza saber que isso vai acontecer, sabe neste momento está se desenrolando uma batalha das crianças as margens do riacho. -Eles estão brincando lá agora? -Sim, a guerra estava bem movimentada, era bolota de barro em todas as direções, até a Nina vir buscar o Toninho, e o levar todo sujo de barro para casa, ai a guerra deu uma esfriada, acho que neste momento eles devem estar verificando alguma regra quebrada no livro de guerra deles, então eu estava aqui esperando para ver se a guerra ia continuar ou não, aí você chegou. -Puxa, essa molecada sabe se divertir. -E como sabem, é uma pena saber que o vale... -Desencana Almeida, quando o lago ficar pronto, nós já teremos aqui em Sul do Norte, o sinal de televisão, ai essa criançada, vai ficar grudada na TV e nem vão se lembrar mais da mata do Riacho Grande. -Televisão, o que será que virá depois da televisão?-Sabe César coube a nossa geração a incumbência de matar a infância dessas crianças que travam neste momento a batalha do Riacho Grande, ou melhor, de todas as crianças do mundo, e das que vierem a nascer, este ano de 1960 ficará na história.
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