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Make your own history - Capítulo 04 Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Nanda Oliviero, em 26-08-2008 16:50
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Nunca esperei tanto por uma apresentação. Pareciam que as horas se arrastavam.
No dia seguinte acordei renovada. Passei o dia no quarto do hotel, preservando meu tornozelo. Não sentia dores e estava bem disposta. Eram duas da tarde quanto o interfone tocou. Meu coração bateu acelerado. Seria Jack?

- Srta. Chartier, boa tarde. Encontra-se na recepção Sr. Legart que gostaria de vê-la.
- Sim! Por favor peça para que suba. - tinha esquecido completamente de Luc.
Não demorou a bater na porta. Nos abraçamos com saudade.
- Amor! Que bom te ver. Tenho tanta coisa pra te contar...
- Minha doce July! Finalmente Nova Iorque. Estou louco para que você me mostre tudo desta maravilha!
- E onde está seu novo affair?
- Problemas, amiga! Brigamos feio. Agora é definitivo. Sou todo seu nos Estados Unidos.
- Então fique aqui comigo. Não há motivos para você ficar em outro quarto.
- É justamente o que tenho que te pedir. Houve mudanças de planos e nem pude te consultar. Presenteei meus pais com uma viagem ao Canadá para esquiarem, mas primeiro fizeram questão de passar para te ver e se hospedaram aqui. Ficam até amanhã de manhã e embarcam para passar as festas por lá com um grupo de amigos.
- Que ótimo! Tanto tempo que não os vejo. Vou ligar agora para o teatro para reservar os lugares para eles.
- Já os acomodei em uma suíte, mas obviamente esperam que fiquemos juntos.
- Por favor, Luc! Já fazemos isso há tanto tempo. Agora não seria diferente.
- Juro para você amiga, desta vez estava decidido a contar tudo, mas fiquei tão decepcionado com Luigi que perdi a coragem.
- Tudo bem. Vai ser ótimo tê-los aqui. A hora certa para contar tudo vai chegar.

Logo ligamos para a recepção e subiram suas bagagens. Aproveitei também para interfonar para os pais de Luc, explicando que precisava ir cedo para o teatro, mas à noite, após o espetáculo, jantaríamos juntos.
- E afinal, o que aconteceu? O que tens de tão urgente para contar? - perguntou-me Luc.
Comecei a falar sem parar. Contei tudo, todos os detalhes e a minha empolgação em rever Jack.
- Amor, você está apaixonada. Nunca vi você falar de alguém com tanto entusiasmo.
- Imagine Luc! Só estou eufórica em revê-lo. Tudo foi muito inusitado.
- Parece coisa do destino, isso sim. E você não vai se revelar para ele?
- Não sei, parece-me agora que ficou pior. O que ele vai pensar?
- Quanto mais você esperar, com certeza pior irá ficar.

Ficamos ali, trocando idéias, enquanto terminava de me arrumar. Precisei ir cedo para o teatro, pois tínhamos alguns rituais: um aquecimento tranqüilo, algumas orientações e relaxamentos, depois um lanche leve coletivo, a preparação do cabelo e maquiagem, organizações do figurino e, uma hora antes, do espetáculo, o último aquecimento. Foi aí que senti alguns desconfortos no tornozelo. Apelei para doses maiores de gel inibidor a base de xilocaína.

Fui até o palco, repassar alguns passos com Ângelo, meu partner, o príncipe do espetáculo. Não resisti e espiei, discretamente, por entre as cortinas. A orquestra já estava toda posicionada. Acima da orquestra pude enxergar, à esquerda do palco, o camarote que me foi reservado e lá estavam os convidados: Luc e seus pais bem acomodados, Dr. Shephard e provavelmente sua noiva, que não conhecia. Mas e Jack?
Não consegui vê-lo. Será que não vinha? Fiquei decepcionada e nem percebi uma das camareiras se aproximando.

- Srta. Chartier estão solicitando sua presença em seu camarim.
- Obrigada. Estou indo.

Ao entrar no meu pequeno reduto no Metropolitan, percebi um lindo arranjo de rosas champagne sobre a mesa e um pequeno cartão.
"Sei que no ballet não é bom desejar sorte, mas parabéns por este momento. Com carinho, Jack Hamilton."
Sorri.

- Que bom que gostou? - levei um susto, não havia percebido sua presença.
- C-como você conseguiu entrar aqui?
- Desculpe-me, não tinha intenção de te assustar, é que tenho alguns contatos aqui e consegui este privilégio. - senti seu olhar percorrendo meu corpo e gelei. Veio em minha direção e delicadamente passou a mão na minha testa ferida e disfarçada sob a maquiagem, tremi - você está encantadora. Quase tenho medo de te tocar, parece porcelana.
- Obrigada. Você realmente me assustou. E como soube que rosas champagne são minhas favoritas? Teus contatos?
- Na verdade arrisquei. Também eram as preferidas da minha mãe. Talvez semelhanças de bailarinas. Desculpe-me pelo susto, só queria ter certeza que aceitaria jantar comigo depois do espetáculo?
- Seria ótimo, mas temos a confraternização do grupo, por este ser um evento beneficente e especial. Como convidada, seria indelicado não ir. Além disso, tem um grupo de amigos da França, que chegaram hoje só para o espetáculo, preciso acompanhá-los. Mas adoraria se você viesse conosco. E o Dr. Shephard se puder, claro.
- Você tem razão, é melhor acompanhar o jantar. Na verdade minha intenção era sair sozinho com você, mas não faltará oportunidade, não é? Amanhã pode ser?
- Claro, é bem possível. - falei sem lembrar das vésperas do Natal.
- Bom vou te deixar concentrar. - aproximou-se e me beijou no rosto com ternura - dance para mim hoje.

Apenas sorri e provavelmente ruborizei. Que boba! Parecia uma adolescente com a primeira paixão. E a apresentação foi incrível. Dancei com muita paixão e intensidade. Meu partner, Ângelo Corelli, espanhol talentosíssimo, me elogiava nas coxias:

- Você está radiante. Se fosse hétero, me apaixonaria agora por você.
- Você é um fofo e se tudo está perfeito é porque temos muita afinidade, sintonia.
- Apostaria que você está apaixonada.

Talvez Ângelo tivesse razão. Não via a hora de reencontrá-lo.

O público aplaudiu de pé, por cerca de cinco minutos e com entusiasmo.

Como é de praxe, recebi rosas, tradicionalmente são vermelhas, mas desta vez eram de minha cor preferida. Será coincidência. Adorei! Fiz uma saudação direcionada ao meu camarote e pude vê-los com sorrisos no rosto. Jack também estava lá e me olhava com admiração. Novamente meu coração batia acelerado. Que sensação boa! Não queria que acabasse.

Fecharam-se as cortinas e vibramos com o sentimento de missão cumprida. Como tínhamos o jantar de confraternização, rapidamente nos dirigimos aos camarins. Tomei um banho rápido, soltei os cabelos displicentemente e fiz uma maquiagem leve. Escolhi um vestido lilás de musseline, frente única, solto, discreto, mas muito atraente. Como nevava lá fora, separei um casaco elegante para o frio. Escolhi uma sandália Manolo Blahnik, que combinou perfeitamente com a elegância do vestido. Senti uma leve dor no tornozelo, mas não vou me preocupar, forcei mais o que devia e agora terei um mês de férias. Peguei minhas flores e me dirigi para a saída. Estavam todos lá me esperando. Posei para algumas fotos com Ângelo e com o elenco, depois encontrei meus amigos.

- Querida! - mãe de Luc se aproximou - sempre um prazer vê-la dançar.
- Obrigada Sra. Legart, sempre gentil. Que bom revê-los. - cumprimentei Sr. Legart com elegância.
- Por favor, July, apenas Marie. Não há mais formalidades entre nós, depois de tantos anos - falou a mãe de Luc com carinho.
- Amour - com sotaque francês, sussurrou baixinho Luc ao me abraçar - teremos problemas com seu Jack - e com a voz alta - Parabéns!

Olhei intrigada, sem entender. Dr. Shephard aproximou-se e fui apresentada a sua noiva que agradeceu muito o convite. Jack foi o último a se aproximar e parecia distante, frio. Muito diferente de algumas horas antes, no camarim.
- Parabéns Srta. Chartier! Você realmente tem talento. Há muitos anos não via tanta dedicação. - cumprimentou-me com um aperto de mão discreto.
- Obrigada - falei educadamente, sem reação. Será que Jack descobriu tudo?
- Jack meu caro! - aproximou-se o coreógrafo e diretor artístico do American, Anthony Green, falando com muita intimidade - Pensei que não vinhas, pois não o vi na platéia. Quando chegou da Europa? E vejo que já conheceu nossa estrela londrina. Ela não é um encanto?

Então este era o contato de Jack.
- Realmente Tony, você não aumentou nada. Foi uma excelente contratação. Ela é brilhante e nos conhecemos por acaso. Voltei há dois dias, mas foram tantos compromissos que não pude vir vê-lo. Mas estava sempre muito bem informado e sei que fez um excelente trabalho por aqui, na minha ausência.
- Julliane, Jack Hamilton é nosso diretor geral. Toda a coordenação e a excelente fase administrativa do American Ballet Theatre se devem a ele. Lembra que eu falei pra você que nosso chefe estava pela Europa, em busca de novas produções e talentos? - Olhei com surpresa. Bom! Se ele descobriu tudo também não fui à única a esconder os fatos. - Mas eu só precisei ir a Londres uma vez para encontrar você, não é querida? - continuou com carinho.
- Você me conquistou Tony - pontuei com sinceridade.
- Tony, parabéns. A montagem ficou perfeita. - Jack olhou para todos antes de falar - Por favor, espero vocês em nossa recepção no Palace. Até mais.

E se retirou. Dr. Shephard e a noiva os acompanharam.
Fiquei intrigada, esperei que se afastassem e procurei Luc.
- O que houve?
- Espera. Vamos chamar um táxi para os meus pais e vamos conversando a sós.
E assim foi.
- July, minha mãe decepcionou o Jack e não cheguei a tempo de interferir.
- Como assim?
- Ora, se apresentou como sua sogra.
- Nossa! E agora, o que ele deve estar pensando. Bom, menos mal. Cheguei a pensar que ele tinha descoberto quem eu era. Mas Luc, você viu? Ele é diretor do American e eu nem imaginava. Será que sua mãe deixou escapar mais algumas coisas? - falei toda confusa e atrapalhada.
- Não, tenho certeza, estava por perto e as conversas foram poucas.

Chegamos rapidamente ao Palace que estava muito bem decorado. Na recepção, uma interessante mostra fotográfica de toda a produção. Os ensaios, o cenário, o figurino, e outras tantas do ensaio geral com anglos incríveis dos melhores momentos do espetáculo. Logo na entrada, um grande e lindo painel com Ângelo e eu em uma das sustentações principais do pad de deux.

Ao chegarmos, fomos encaminhados por um elegante soldadinho de chumbo, referência ao tema da festa em integração com o enredo do Quebra-Nozes e, para a nossa surpresa, estávamos na mesa principal, com Tony, Jack, Dr. Shephard e sua noiva Lana.
Os pais de Luc já estavam acomodados em uma mesa com alguns pais de outros bailarinos, já integrados em conversa animada.

- Nossa elegante estrela - falou Tony - por favor, sente-se aqui. - Colocando-me ao lado de Jack. Luc acompanhou-me e sentei entre eles.

Percebi o olhar de Jack me acompanhando, como se nos avaliasse a cada movimento. Mais uma vez fiquei sem palavras.

O jantar ocorreu entre conversas soltas e um clima de observações mútuas. Já estávamos na sobremesa quando Luc, extrovertido, comentou para quebrar o gelo:
- Estou quase me sentindo parte do Quebra-Nozes. Que bela festa!
- Idealizações do nosso boss, Sr. Hamilton, sempre com requinte e bom gosto. - e olhando para Jack continuou - Ainda bem que você pode vir, em? Imaginem organizar isto tudo e não comparecer.
- É verdade Tony! Mas meu compromisso foi cancelado a tempo de uma grande decepção e estou aqui.

De repente abandonei este perfil de adolescente boba e comecei a agir com firmeza e decisão. Julliane Chartier não iria se calar, ficar submissa, só porque tremeu as pernas por este homem elegante e charmoso.
- Nossa Sr. Hamilton - falei irônica fitando-o com o olhar - o que poderia ser tão importante para lhe afastar de uma noite como esta?
- Srta. Chartier - surpreso com minha provocação, olhou-me diretamente, sem piscar - às vezes nos surpreendemos com as pessoas, com os momentos e fazemos escolhas erradas. E isto quase me tirou do evento em que trabalhei com intensidade, principalmente para tê-la aqui, direto de Londres.

Não me intimidei:
- Pois fico lisonjeada em saber que seus esforços me permitiram participar deste sonho. Às vezes, nos precipitamos em julgar as pessoas sem conhecer os fatos. O senhor acredita que, nas últimas horas, quase perdi a oportunidade de estar nos palcos do Metropolitan porque um maluco no Central Park praticamente me atropelou?
- Atropelou? Tem certeza que não foi à senhorita quem atropelou alguém?
Todos na mesa sem entreolharam, sem entender nada.
- A única certeza que tenho é que não podemos mesmo confiar em estranhos.
Percebendo que aquela discussão tinha algo a mais, o casal se levantou para dançar. Tony já havia saído para cumprimentar algumas mesas. Luc engolia um seco. Percebi o olhar de Jack desafiador e continuou:
- É verdade. Nova Iorque é realmente perigosa. Se não nos cuidarmos podemos nos envolver com o primeiro estranho que cruzar o nosso caminho.
- Exatamente! E a falta de informação ou comunicação, como quiser, pode ser fatal.
Luc não agüentou mais e interferiu.
- Dá para vocês dois pararem agora. Vão conversar e explicar os fatos ou continuar se alfinetando?
- Desculpe-me Sr. Legart.- falou Jack educadamente, como se tivesse voltado a si - Não tive intenção de ofender sua noiva.
- Estamos tendo uma série de enganos aqui - apressou-se Luc, e foi objetivo como nunca - a July não é minha noiva! Somos amigos queridos há muito tempo e minha família não sabe, mas definitivamente - falou entre dente - Sou gay.
- O quê? - espantou-se Jack.
- Exatamente o que você ouviu e faz tanto tempo que meus pais acreditam que somos namorados que para não chateá-los, nunca desmentimos - sentenciou Luc.
- Luc, por favor - interferi - Não precisa fazer isso. O Sr. Hamilton já deixou claro o que pensa e nós não precisamos justificar nada para ninguém. Muito menos para um estranho. Com licença, vou buscar um pouco de ar. Essa situação me sufocou. - e deixei-os na mesa.

Segui em busca de um lugar tranqüilo.

Algumas janelas do Palace davam para pequenas sacadas, fechadas e aquecidas, mas que permitiam visualizar uma paisagem privilegiada de Manhattan, com o Empire State à frente e a Estátua da Liberdade pequenina bem ao fundo. Fiquei ali sozinha, admirando a cidade à noite e deixando meus pensamentos soltos começarem a se organizar.

Isso realmente me fazia bem. Sempre que precisava colocar os pensamentos em ordem, procurava o horizonte, como se de lá pudesse sair a solução para todos os meus dilemas.

Estava de costas para a entrada da saleta, perdida nas minhas divagações, quando percebi uma taça de vinho que aparecia sobre o meu ombro.
- Podemos começar de novo? Prometo não te machucar desta vez.
Virei-me lentamente para encontrar o olhar de Jack e falei com firmeza:
- Não me machucar? Física ou emocionalmente? - com referência ao acidente do parque.
- Os dois! Prometo.
Peguei o copo de vinho e brindamos. Demos uma boa gargalhada. Rimos de nós mesmos.
- Desculpe-me Julliane. Fiquei encantado com você e quando conheci a sua suposta sogra, fiquei decepcionado.
- Jack, eu entendo a sua chateação. Você ficou tão ofendido, mas mal nos conhecemos...
- Luc me explicou tudo! E eu exagerei mesmo, mas você não tem culpa. Minha vida é marcada de histórias de traições, separações. Fidelidade para mim é fundamental e não fiquei ofendido por mim, mas pela possibilidade de você estar me dando esperanças, sair para jantar e trair um cara tão bacana quanto Luc. Conversei muito com ele no camarote antes do espetáculo.
- Dei esperanças? - fiz cara de falsa surpresa, explicitamente me fazendo de inocente e ele riu. - Mesmo que fosse verdade meu romance com o Luc, nós não fizemos nada de mais e também não nos comprometemos. Quem deveria estar chateada sou eu por você não me revelar tuas relações com a companhia de ballet.
- Não foi intencional, apenas não queria te deixar constrangida. Iria te revelar no teatro, após o espetáculo. Fiquei surpreso, lá no hospital mesmo, por você ser a primeira bailarina da minha produção. Foi muita coincidência.
- E como um advogado veio parar na administração de uma companhia de dança? Fiquei curiosa!
- Como te falei, minha mãe foi bailarina da companhia na década de sessenta. Tinha paixão pelo ballet, mas por uma série de fatores abandonou tudo. Desde pequeno assistia aos espetáculos com ela e minhas irmãs. Ao final, íamos as coxias e ela nos mostrava os figurinos e todo o universo que envolvia uma produção. Há uns cinco anos atrás descobri que a companhia estava sem investimentos, quase fechando as portas.
Os bailarinos não recebiam há uns três meses. Continuavam por paixão e eu entendia bem que paixão era essa, por ter crescido com minha mãe. Nesta mesma época, recebi um incentivo, na verdade mais moral do que financeiro, para largar tudo e me lançar num projeto novo e que me desse prazer. Quem administrava o teatro já não tinha mais os mesmos cuidados, foi então que literalmente comprei o Ballet Theatre Foundation Inc.

Será que foi pela minha carta, se sentiu motivado? Fiquei intrigada.
- E pelo visto você conseguiu, porque segundo o Tony o American está na melhor fase. O que te levou para a Europa, então?
- Uma das grandes marcas da companhia é descobrir excelentes bailarinos de diversas partes do mundo e revelá-los. Perdemos muitos talentos por não incentivar a permanência. No passado, os bailarinos faziam suas vidas aqui, depois com a falência, os primeiros explorados foram o coração do teatro, os bailarinos. Não é frustrante?
- Na minha carreira nunca me preocupei em ser reconhecida aqui exatamente por isso. No Royal, e na Europa como um todo, recebemos outro tratamento. Só aceitei estar aqui por ser um convite e uma nova experiência, mas acredite, o sentimento de cooperação que vocês tem aqui, não existe lá. Lá é obsessão, competição. Se você não tem uma cabeça legal a anorexia é a primeira dificuldade.
- Mas não era assim. É conquista de uns três anos, principalmente depois que contratei o Tony. Nossa meta agora é formar um "dream team" e quando ele te encontrou, antes de mim, e isso eu não vou perdoá-lo, pensávamos que tudo estava perfeito, por você ser nova e ao mesmo tempo com tanta caminhada. Mas ele já me contou que suas raízes no Royal são fortes...
- É complicado largar tudo. Tenho contratos, compromissos...
- Eu estou disposto a pagar o que for necessário, rescisões contratuais, tudo para ter você aqui, principalmente nos projetos do próximo ano.
- Quais projetos?
- Este ano o ABT completará 60 anos e na estréia, em 1940, apresentamos três balés famosos: Les Sylphides, de Michael Fokine, com música de Frederic Chopin; Tríade, um dos mais poéticos balés de curta duração de Sir Kenneth Macmillan, que narra a amizade de dois irmãos, destruída quando uma jovem se interpõe entre eles e, finalmente, o brilhante espetáculo do Grand Pas de Paquita. Para celebrar estas comemorações, queremos montar novamente estes três espetáculos e transformar num sucesso.
- É irresistível, principalmente pela paixão que você fala destes projetos.
- Então, promete que pensa no assunto? - e se aproximou, me deixando gelada.
- Quantas bailarinas você costuma seduzir por temporada?

Sorriu descontraído.
- Ah! Este é um ponto em que sou disciplinado. Não misturo negócios e prazer.
- E você quer que eu acredite nisso? - falei dirigindo-me para o outro lado da saleta, fugindo de suas investidas e apoiando-me de costas para a paisagem da Big Apple, de forma que fiquei escondida da visualização do salão, bem atrás da porta de entrada.
- Se você não acredita, pergunte para qualquer um. Pesquise. Ficará surpresa com a minha integridade profissional.
- Mas você está misturando tudo agora, afinal, neste exato momento é você que está pagando meu ótimo salário e ainda quer me contratar por uma temporada. Ao mesmo tempo, fica jogando todo este charme.
- Com você é diferente. Você me deixa confuso. E, além disso, fala tudo o que pensa, sem meias palavras. Gosto da tua sinceridade.

E eu aqui escondendo quem realmente sou...
- Depois de tanta falta de comunicação é bom deixarmos tudo claro.
- Parece que estamos numa reunião de negócios, estou quase perdendo o clima.
- Talvez seja esta a minha intenção... - falei com sinceridade.
- Estou me sentindo um bobo porque realmente achei que você respondesse minhas investidas, pelos menos os olhares. - falou com tom triste, encostando-se à sacada, no lado oposto ao meu.
- Não, você não tem nada de bobo porque realmente fique incomodada, mas não sei viver fantasias. Sou prática e realista demais. Você é lindo, charmoso, mexeu mesmo comigo, mas em duas semanas estarei de volta à Londres. Talvez em outras circunstâncias até encararia uma aventura, mas você é especial demais para isso.
- Você não cansa de me surpreender?

Imediatamente veio em minha direção. Largou a taça de vinho no parapeito, apoio às mãos na sacada, de forma que não pude escapar. Senti o calor do seu corpo próximo ao meu e olhando-me profundamente, com aquele olhar envolvente, sentenciou:
- Julianne, eu sinto sinceridade na sua voz, mas, por favor, não tenha medo de mim.
Não pude resistir aquele apelo. Queria viver tudo com ele. Que razão que nada!
E no momento em que nossos lábios se buscavam com desejo...
- Julianne querida, estávamos te procurando para nos despedir.

Pulamos como dois adolescentes flagrados e mesmo com o coração acelerado fui rápida:
- Sra. Legart imagine que o Sr. Hamilton quer me convencer a largar o Royal pelo American Ballet? Londres por Nova Iorque?
Conheço Marie Legart há muito tempo e sei que é bem distraída. Tenho certeza que não percebeu nada.
- Sr. Hamilton é bom saber que reconhece o talento de nossa querida Julianne, mas já foi difícil quando saiu da França para Inglaterra. De lá para Nova Iorque seria um desafio e nosso Luc iria ficar abalado.
- França? - indagou Jack já estabelecido do susto - não sabia que havia morado lá?
- Foi quando conheci Luc, mas não se preocupe Marie - cortei, evitando que ela revelasse maiores detalhes - não tomarei nenhuma decisão precipitada. Sabe muito bem que sou bem racional em minhas decisões.
- Se sei. Ela é a razão e Luc a emoção. Mas querida precisamos mesmo ir. Nosso vôo sai amanhã cedo. Tem certeza que não querem ir junto?
Entra Luc desesperado e surpreso ao ver a mãe.
- Querido estou mesmo perguntando se não querem viajar conosco.
- Mamãe, por favor - responde Luc já compreendendo a situação e me abraça para disfarçar ainda mais - bem sabes que July e eu planejamos uns tempos sozinhos, aventurando-nos por Nova Iorque, Los Angeles. Viajar com vocês está fora de questão.

Percebo Jack nos observando e se divertindo com tudo. Apressamo-nos com as despedidas e aproveito a oportunidade para escapar dos apelos envolventes de meu antigo tutor.
- Jack, obrigada por tudo, mas preciso descansar. Sinto meu tornozelo fraquejar. - falei com sinceridade, pois estava latejando há algum tempo. - Acho que preciso de repouso, forcei muito.
- Será que não é outra coisa que fez suas pernas fraquejarem - sorriu malicioso e percebendo minha contrariedade continuou - deixe-me pelo menos levá-los até o hotel.

E fomos nos direcionando para o salão. Nos despedimos dos pais de Luc e ficamos mais algum tempo despedindo-nos de todos os queridos amigos que fiz no ABT. Luc esperou ficarmos apenas os três para indagar:
- Estão todos combinando de esticar numa danceteria. Vamos?
- Não, mas você pode ir se divertir, por favor. Em outro momento não desperdiçaria dançar até de manhã, mas meu tornozelo requer cuidados. - afirmei determinada.
- Fique tranqüilo, Luc. Aproveite a sua noite. Levarei Julianne para o hotel com segurança.

Ele consegue ser irresistível com uma simples frase, mas desta vez não fiquei sem palavras, na verdade estava cada vez mais sabendo o que dizer e isso era um mau sinal, quando fico esperta demais, atenta, é porque reconheço, instintivamente, os perigos da situação.
- Com você eu não ficarei em segurança, mas aceito sua carona.
E ele respondeu:
- Nós temos negócios ainda a tratar, lembra? É disto que estou falando.
- Negócios? - indagou Luc.
- Nada de mais Luc. Amanhã te conto os detalhes. Divirta-se.
- Ok amor, mas não me espere acordada, ok?! - brincou Luc


Publicado em : Livros, Romance
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