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| Make your own history - Capítulo 01 |
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Vôo com destino a Paris. É aqui que quero iniciar a minha história. A sensação que tenho é que minha vida começa a ser escrita agora. Vou finalmente trilhar meu próprio caminho, traçar meu destino. Se depender de mim, meu passado ficará em Nova Iorque. Não há mais nada que me prenda ao passado. Meu pai foi primeiro, minha mãe depois. Amigos? Nunca os tive de verdade. Família? Ninguém.
Permita-me a apresentação. Sou Juliet. Neta de imigrantes franceses, que vieram para a América em busca de novas oportunidades, na década de sessenta. Minha mãe, Margareth Chartier, cresceu em Nova Iorque e lá fez sua história. Conheceu e casou cedo com John Parker, corretor de imóveis em Manhattan. Juntos fizeram fortuna, com senso de compra e venda extremamente aguçadas e uma boa dose de sorte. Perdi meu pai aos sete anos e foram com ele as lembranças mais doces da minha infância. O câncer o levou com apenas quarenta anos, deixando-nos em ótima situação financeira. Não demorou muito e minha mãe casou novamente, mas nunca mais encontrei o sentimento de família. Mesmo tão nova, percebi desde cedo o que era um casamento de conveniências. Meu padrasto, homem também de muita influência no mercado imobiliário e de construção encontrou em minha mãe, completamente despreparada para assumir tantas responsabilidades, a investidora ideal e, juntos, transformaram seus negócios em um grande império. Sempre pensando nestes negócios e na preservação dos investimentos, como legítima herdeira de John Parker, alteraram meu sobrenome para Juliet Parker Hamilton. Meu padrasto, Carl Hamilton, separou-se da primeira esposa depois de envolver-se com minha mãe. Então imaginem como fomos bem aceitas pelos três filhos: Louise, a mais nova, doze anos na época que conheci; Bárbara tinha quinze anos e Jack, o mais velho, com dezoito anos. Todos adolescentes, na fase mais difícil de aceitar qualquer coisa, imaginem uma separação, um novo casamento e uma menina de oito anos, que vista pelos seus primeiros conceitos, era mimada e superprotegida. E saibam que eles tinham razão. Minha mãe me cercava de cuidados e nunca me deixou faltar nada. Não pude freqüentar escolas e fui educada em casa, primeiro por ela, depois por professores particulares. Fui sempre afastada do mundo real. O que me aproximava da realidade eram os livros, minha grande paixão. Isso me deixou sempre muito atenta a tudo que estava acontecendo e, acreditem, amadureci antes da hora e sabia, desde o início, que todo este cuidado e todo este dinheiro não moldariam minha personalidade, mas apenas o que tenho e não o que sou. Ensinamentos de meu querido pai, nunca esquecidos. Vivia sozinha. Minha mãe estava sempre ocupada com seus compromissos sociais. Acostumei-me a viver no meu próprio mundo, mas desta vida em clausura, a melhor parte sempre foram as aulas de ballet. Minha mãe fazia questão pela rigidez e disciplina. Eu amava pela música, pelos movimentos. Aprendi também francês e hoje, voando para Paris sozinha com apenas doze anos,isto é uma pequena vantagem, mas na verdade é o ballet que me anima e motiva outra vez. Morávamos numa propriedade invejável, construída por Carl assim que os negócios cresceram, num bairro nobre de Nova Jersey, apenas 30 minutos de Manhattan. Quase uma fazenda com cavalos, bosques, lagos e praias. E como já disse, mantive-me sempre muito afastada dos filhos de Carl, que moravam com a mãe, mas poucos meses depois, ela se foi, em situação nada esclarecida. Falavam em acidente, suicídio. Eu mesma só ouvia metade das histórias entre os empregados, entre sussurros. Era uma sexta-feira quando os observei pela janela, chegando a nossa casa, trazendo muitas malas. Sem dúvida vieram para ficar. A suposta tranqüilidade da mansão transformou-se num clima tenso, pesado. Carl fazia questão da presença de todos no jantar e era péssimo. Ninguém falava, minha mãe e Carl trocavam amenidades, sempre com suspiros contrariados de Louise e Bárbara. Jack mal tocava a comida e ficava esperando o momento de ser liberado daquela tortura. As meninas me olhavam com raiva e desprezo, mas Jack... Via pena no olhar dele. Acho que ele era o único que entendia meu igual desconforto naquela situação. Nunca esqueci aquele olhar. Terno e triste. Certa noite, sem sono, fui até a biblioteca buscar um livro. Escutei passos se aproximando, fiquei com medo de ser pega na madrugada e me escondi. Era Carl e Jack e suas vozes pareciam alteradas. - Escuta pai, você não tem do que se queixar. Estou fazendo tudo exatamente do jeito que você sempre quis. Qual o problema? - Jack, meu filho, eu deposito tudo em você. Você é responsável, madurto. Estudar em Harvard! Tudo que sempre sonhei para o meu primogênito. Todo este império um dia será seu. - E isto tudo te faz feliz pai? - Felicidade? O que você entende por felicidade? - Eu vivi muitos momentos felizes com o senhor e a mamãe. Mas a ambição te deixou cego. E a mamãe? Pobre coitada! Nunca vou te perdoar. - Não diga isso. Nós nunca fomos felizes meu filho. Sempre desesperados, em dívidas. Vivíamos de aparências, fazendo o impossível para garantir o melhor para vocês. Casar com Meredith Parker foi à melhor coisa que nos aconteceu. - Para o senhor pai. - Sua mãe sempre soube de tudo e concordou desde o início. E nós ninca te escondemoas nada. As meninas é que não tem idade para entender tudo isso. Nunca deixei que nada faltasse à vocês. - Mas suas visitas eram poucas pai. A mamãe não era feliz e não pensou em nós. O senhor imagina o quanto é impossível para as meninas conviver com Margareth? Eu vou para Harvard sim, mas elas ainda terão que ficar por aqui. - Elas precisam amadurecer. - Elas precisam do senhor pai. - Escuta, Margareth e eu pensamos muito em vocês e também na pequena Juliet. Preciso garantir o futuro de vocês, portanto meu filho, daqui a quatro anos já terei encaminhado boa parte deste império ao seu controle. - Eu não quero nada. - Não há escolhas. As coisas só cresceram porque fizemos acordos importantes, mas ao mesmo tempo fragilizamos o grupo. Vocês, nossos filhos, como herdeiros não poderão ser ameaçados. - O que o senhor está falando? - Nada, apenas divagações do álcool. Acho que passei da dose no whisky. - Está me deixando preocupado pai. - Não fique. Filho, aproveite muito teus anos de faculdade. Vá dormir, amanhã faço questão de te levar ao aeroporto. Despediram-se com um abraço apertado. Parecia uma despedida. Confesso que tive medo. Esperei a casa sossegar e fui para o meu quarto. Nem consegui prestar atenção no livro. Aquela conversa não saia da minha cabeça. Adormeci em preocupações. Despertei com conversas altas no pátio. Corri para a janela e vi as meninas despedindo-se do irmão. Minha mãe estava perto, só observando a cena. Educadamente Jack também se despediu dela e entrou no carro com o pai. Olhou para a minha janela, sorriu, e pela primeira vez, me acenou. Retribui. Foi estranho. Nunca conversamos e senti como se um grande amigo estivesse partindo. foi para Boston e por longos quatro anos não o vi mais. Vocês estão achando que é muita tragédia? Não sei. Acho que preciso olhar como se tudo fosse necessário para escrever a minha história. Entre os tantos livros que já li um em especial me ajudou nesta fase e falava de vidas passadas. Vai saber o que fizemos ou o que plantamos. Agora é a colheita. Ficar chorando e lamentar? Desde cedo aprendi que não valia à pena. Tudo pelo que passei foi aprendizado. Quatro anos se passaram e era julho quando minha mãe e Carl precisaram viajar para Londres e o pior aconteceu. Sofreram um acidente de helicóptero enquanto estavam lá. As notícias vieram aos poucos, mas desde a primeira sabia que não a veria mais. Que destino! Por quê? Não demorou e a mansão ficou cheia. Movimentada. Ninguém falava comigo. Achei mais prudente ficar quieta no meu quarto. Já imagina o que era. Ouvi as meninas chegando. Louise, quando a irmã foi para faculdade, pediu para morar com o avô materno e foi atendida. Bárbara voltou da Califórnia, pois estava estudando arquitetura por lá. E Jack? Porque não chegava? Já estava formado, com 22 anos, trabalhava na empresa do pai, fazia mestrado, morava sozinho, mas nunca mais tinha pisado na mansão. E eu nem conseguia chorar. Sentei no computador e comecei a pesquisar. Não tenho mais ninguém. Onde poderia ir? O que fazer? Ballet? Como? O engraçado é que logo encontrei as repostas. Estava tão envolvida nesta busca que não percebi a porta do meu quarto sendo aberta. Quando virei, não acreditei. Era Jack, como sempre calmo, sereno e lindo. Os olhos verdes me olharam de novo com pena. Fiquei sem palavras. - Olá Juliet. Quanto tempo. Você cresceu. - Oi Jack. - Eu preciso te falar... - Não precisa. Eu já sei. - Disseram-me que ninguém te falou. - Ninguém falou, mas compreendi pela movimentação. Como foi? - O helicóptero que os levava caiu em Londres. - Sofreram? - Não sei. - Quando ela se despediu tive a sensação que era um adeus. Não é estranho? - Quando falei ontem com o meu pai, por telefone, também tive esta sensação. Percebi seus olhos cheios de lágrimas. Disfarçou. Eu ainda não conseguia chorar. É como se tudo não fosse novidade. - O enterro será hoje à tarde, mas se você não quiser... - Por favor, quero sim. Posso? Já fiquei afastada de tanta coisa. - Você vai comigo então. Vou te esperar lá embaixo. Arrumei-me muito rápido. Pela primeira vez pude escolher o que vestir sozinha. Nenhuma empregada apareceu. Achei ótimo. Escolhi uma calça jeans, uma camiseta preta discreta e um tênis. Finalmente vestida como alguém da minha idade. Prendi o cabelo e desci. A sala estava cheia. As meninas conversavam contrariadas com Jack. Acho que não queriam minha presença. Só escutei a última frase dita por ele: "... mas é a mãe dela". Fiquei esperando. Paralisada. Ninguém se aproximou. Entendi: a "bonequinha de porcelana" de Madame Margareth Parker estava sozinha. Jack veio em minha direção. - Vamos Juliet. Você vai comigo. Entramos no seu carro e seguimos. Não trocamos uma palavra. Também não precisava. Estava tão fascinada em ver Manhattan, sair de Nova Jersey. Minhas últimas lembranças eram com meu pai, passeando no Central Park ou assistindo a um ballet ou ópera no Lincoln Center. Chegamos rápido ao cemitério, após atravessar Manhatan. Mas ver aquela cena, os dois caixões, minha mãe. Lembrei de meu pai novamente e as lágrimas finalmente apareceram. Silenciosas. Deixei. Jack segurou a minha mão. Era quente e firme e, de repente percebi que esta era a única segurança que eu tinha: Jack. Se o mundo parar agora, estou bem, tenho Jack segurando a minha mão. Tudo aconteceu muito rápido. De todo o cortejo até a reunião do testamento foi um piscar de olhos, uma espaço sem lembranças. No dia marcado pra leitura estavam todos. Louise, Bárbara, Jack, três advogados, representantes das empresas e, de toda a conversa complicada, só entendi que Jack seria meu tutor até eu completar 21 anos; as meninas estariam sob a tutela dos avós maternos e a divisão das ações das empresas se daria da seguinte forma, de acordo com a sociedade iniciada por nossos pais: 50% das ações eram minhas, Jack recebeu 20% e cada uma das meninas 15%. Imaginem o descontentamento das duas com a minha porcentagem. Jack, por ser meu tutor, tornou-se sócio majoritário. Jack meu tutor! Isso pareceria ótimo, mas senti que era um peso para ele. O fato de ter o maior número de ações não me tranqüilizava. Na verdade me era indiferente. Apenas imaginava um monte papéis. A reunião dispersou, entre sussurros e contrariedades. Percebi que alguns me olhavam. Busquei o olhar de Jack, meu porto seguro. - Posso falar com você? - Você não entendeu alguma coisa? - Acho que entendi tudo, mas preciso muito falar com você a sós. Jack acenou positivamente para os advogados e todos se retiraram. - O que você quer Juliet? - Ir embora. O mais rápido e o mais longe possível. - Calma pequena. Há muita coisa em jogo aqui. Não é assim. Pequena? Achei delicado e especial, mas também já tinha visto ele chamando as irmãs assim. - Jack, pense bem, não há nada que me prenda aqui. Eu não tenho nada. - Como não? Você entendeu que é dona de tudo por aqui? - Entendi que você controlará tudo até eu completar 21 anos. E não sou dona de nada sozinha, tenho apenas uma parte. - A grande parte. - Você só tem 22 anos e um monte coisas pra cuidar. Porque se preocupar comigo ainda. - São minhas responsabilidades. Ainda não sei se vou dar conta de tudo, mas pelo menos cuidar de você eu acho que sou capaz. - E das empresas também. Seu pai não faria um testamento desta forma se não confiasse em você. Lembrei-me da conversa da biblioteca alguns anos atrás. - Juliet, você é muito jovem para entender tudo isso. Eu mesmo ainda não sei por que preciso ser seu tutor. Há uma carta no processo de testamento, mas só poderemos abri-la quando você completar 21 anos. Acho que é um pedido que devemos respeitar - Tudo bem, concordo, mas porque mais este peso. Além de tudo não agüento mais viver nesta redoma. Quero vida de verdade. Ir para escola, ter amigos. - Não se preocupe. Providenciarei que você estude nos melhores colégios. - Aqui todo mundo conhece minha história. Ficariam comentando, julgando. Conheço um colégio interno na França, muito bem conceituado. - França? É muito longe. É mais seguro você estar por perto. E em menos de dez anos, você também precisará estar à frente dos negócios. - E você acha que eu quero todo este poder? - Não quer agora. - Jack! Pelo amor de Deus! Esses negócios só me fizeram perder meu pai, minha mãe. Nada me prende a isso. Tenho todas as informações do colégio. Pelo menos analisa. - Tudo bem. Preciso de um tempo. Vou avaliar as informações que você tem e pesquisar mais. Vou consultar os meios legais também. - Vai ser bom para todos. Despedimos-nos e subi para o meu quarto. Não vi mais ninguém. Lancei minha sorte. Foi uma noite longa. Chorei e rezei muito para que minha vontade fosse atendida. Dois dias depois recebi resposta positiva. Acredito que Jack consultou os advogados e foi bem orientado. E desta forma segui para França, Paris, Ecole Privée de Tersac. Escola de verdade, quem sabe amigos. Prestei todos os exames necessários e fui aprovada. Depois, ao chegar lá, procuraria saber como me inserir na escola de ballet e continuar me dedicando ao que tanto amava. Resumo da primeira parte da minha história. Todos os fatos importantes para compreender o que vem pela frente. Mas neste ponto, no vôo para Paris, sabe o que mais me intriga? O olhar de Jack no aeroporto ao se despedir. - Cuidado pequena. Não se meta em encrencas e, se precisar me liga, ok? - Obrigada Jack. - Boa viagem. Ganhei um beijo carinhoso e demorado no rosto e um olhar de ternura e carinho. Não tinha pena mais e, acho que não estou errada, percebi um pouco de inveja. Inveja boa de alguém que, talvez, também quisesse largar tudo e ir embora. Mas são apenas suposições. Respostas eu só teria muito mais tarde. Quatorze anos exatamente, quando reencontrei Jack em Nova Iorque. E sabem o olhar? Era ainda mais lindo e doce.
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