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Manifesto Anti-Surrealista por Artaud e Schreber Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Gilberto Rabelo Profeta, em 24-08-2008 11:30
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"É preciso fazer algo para sair do marasmo e do tédio de tudo, ao invés de ficar reclamando da inércia e da imbecilidade de tudo". A realidade está a ser criada! O homem é agente e ator da realidade! (Artaud)

"Para me fazer compreender terei que me expressar muito por imagens e símiles, que serão apenas aproximadamente corretos". (Schreber)

"O lodo rico das vagas concepções (é o lugar da ) desova da razão humana". "O poder de entender símbolos, isto é, de considerar, acerca de um dado sensorial, tudo irrelevante, exceto uma certa forma que ele incorpora, é o traço mental mais característico da humanidade". (Susanne Langer)

Artaud e Schreber, dois loucos queimados na fogueira estilizada em manicômio, esturricados no forno aceso pela psiquiatria em um Malleus Malleficarum re-editado no século 19! São eles que ensinam a forma correta de se escrever errado, a cultura dinâmica.

Antonin Artaud, surrealista, rompe com o movimento quando este adere ao marxismo. Artaud não faz um manifesto anti-surrealista neste momento de ruptura, apenas declara que é anti-surrealista e dá algumas direções que seguirá em sua vida-obra-teatro. Artaud é ainda mal compreendido, e o sistema que lucra com sua obra precisa lhe manter o label de louco, pois sua loucura vende. Talvez se pense que oferecido como a filosofia que foi, expressa em forma particularizada, poética, poiética, não renda lucro. Artaud fala do pensamento e de seus mecanismos e recursos de expressão, gestual e lingüística. Diz não à linguagem clara e pede que se converse com os loucos sem o uso dos dicionários, que eles estão a transmitir informações que, muitas vezes, não querem ser recebidas por ninguém. Seus escritos renderam milis outros.

Paul Daniel Schreber escreve "Memórias de um doente dos nervos" e, insano, se torna o modelo da paranóia no mundo dos sanos, que rendeu milis textos onde se fala bobagens que se reduzem a uma só, quando a maioria não passa de paráfrases do texto inicial de Freud!

Chega de Associações livres e de obras egoístas

O que é anti-surrealismo? O surrealismo procurou as associações livres no veio da psicanálise aberto por Freud. O surrealismo não produziu obras literárias de monta, Breton é conhecido - e pouco - apenas pelos estudiosos de Literatura! Está sendo expulso até mesmo das enciclopédias. Artaud permanece vivo! Artaud percebeu que as informações que cada homem armazena em seu inconsciente têm valor maior que se prestar a serem associadas livremente, em obras digestivas. Anti-surrealismo é usar todo o material registrado no inconsciente para acabar de construir a realidade, "a menos que (o homem) queira ser apenas um órgão de registro". Os mil choques interiores que cada escoriação neuronal provocada por um estímulo vivido podem levar o homem a ser o senhor do reino das mil possibilidades! Artaud fala da poiesis, a capacidade de criar do homem e do fato de que a realidade está a ser criada. É preciso ser poiético e saber extrair todas as conseqüências do que se apreende do real. Artaud fala de seus excluídos da sociedade, ele próprio um deles, obrigado a sentir o desejo de não-ser, não o de se autodestruir, suicidar, mas de estar do outro lado do ser instituído pela sociedade, em que o ser nada vale senão enquanto elemento homogeneizado com o todo por não manifestar o seu Eu verdadeiro. O homem instituinte da sociedade! Se Artaud se posiciona contra a psicanálise que o espremeu até lhe extrair do seu âmago sua mãe e o seu alimento, Schreber mostra que a psicanálise não tem valor algum como instrumento de leitura da realidade. Freud errou profundamente ao ultrapassar os limites de utilidade da psicanálise pretendendo ter analisado o caso Schreber.

É preciso produzir obras culturais não psicanalisáveis, ou, no dizer de Artaud, "basta de obras egoístas". O texto literário, de um poema de três linhas a um romance de três tomos, deve ser não psicanalisável. O material contido no inconsciente é muito valioso para dele nos valermos apenas por associações livres e deixar que pseudo-analistas enxerguem em nossas obras culturais os pedaços que canibalizamos de nosso seio materno! É isto nós cá banalizarmos o Inconsciente! O motivo é simples: não há quem possa recuperar estes pedaços que nos foram introjetados junto com o leite de nossas mães! O máximo que se pode conseguir é auxiliar o outro a dar outras interpretações às coprolalias recebidas no seio familiar, intrerpretações estas que, por critério de utilidade, lhe sejam melhores! Quem quiser se submeter à psicanálise que vá ao divã divagar!

Da mesma forma, a Natureza/realidade não é psicanalisável! A Natureza não tem psiquismo! Há quem pense ter, há pontos de vista panteístas, pan-psiquistas, mas estes pontos de vista, sem valorá-los com negativos ou positivos, não analisaram a Natureza a ponto de questioná-la sobre papai-mamãe, pois estes pontos de vista julgam que a Natureza é Deus! Então, se a Natureza tiver psiquismo, não é possível que Deus tenha passado pelo complexo de Édipo!

O ponto de observação do agente cultural, do homem ator da realidade, é o outro, a interioridade escreve sobre o outro, outra interioridade, mesmo quando o outro seja ela mesma! "Eu Assisto a Antonin Artaud", significa que a interioridade observa a si própria como a um outro que lhe é alheio. Os meus problemas existenciais são ínfimos em relação aos problemas de todos os outros, mas posso ser "o fulcro de todos os problemas universais!" O material básico do agente cultural é o sentimento, não o sentimento próprio, mas o do outro! A vida do outro é sempre um delírio, até achar quem a des-delire! É preciso buscar nos delírios dos loucos os instrumentos necessários para o completo descentramento de nosso minúsculo Ego. É preciso estudar a gramática dos delírios, mesmo que alguns os julguem agramaticais.

A "apaixonante equação entre o Homem, a Sociedade, a Natureza e o Objeto"

Todo homem é autor não apenas de sua vida/obra, mas autor da realidade sua e dos outros. O homem está condenado à sua solidão, por ocupar um espaço que nenhum outro homem ocupará, jamais, e, assim, todo homem tem direito radicalmente à sua individualidade. Não é a Sociedade que faz o homem: o animal nasce fadado a ser humano, como pode nascer com o determinismo genético de ser vaca ou macaco. Uma vaca deixa de ser vaca no momento em que é excluída da vida para, aos pedaços, estar em nossos pratos com o prosaico nome de bouef, beef ou bife! A Sociedade pode facilitar a vida do homem. E facilita para alguns, dificultando para muitos! Para se respeitar como ser individual e viver em Sociedade é necessário estar, cada ser humano, sempre em busca da solução da "apaixonante equação entre o Homem, a Sociedade, a Natureza e o Objeto", em que os fatores se multiplicam e se subdividem a cada solução dada. A Sociedade só é respeitável quando é religiosa, quando é sagrada sem ser deificada, quando "comai e bebei todos vós" lhe significa preocupar-se que em seu seio não exista famintos ou sedentos. A Fome e a Sede desintegram os Corpos sociais da mesma forma como desitegram as carnes individuais!

O Homem

Todo ser humano tem direito radicalmente à sua individualidade. Todo ser humano tem direito a crescer e se desenvolver intelectualmente, dentro dos limites de sua natureza orgânica e biológica. "É preciso dar crédito ao homem ao absurdo". Artaud e Schreber dizem ao mundo que o homem não é apenas um elemento a ser homogeneizado no social, pois todo homem é a semente de uma nova humanidade no caso da aniquilação da atual. Não se fala aqui de fantasia, como fantasiar sempre se fez o fim do mundo. O fim do mundo já existe, apenas não foi acionado! Como corolário, todo homem tem direito ao acesso a todas as informações. Nenhum ser humano pode ser excluído do corpo social, sob qualquer pretexto! Não existem bruxas a serem queimadas em fogueiras, não existem loucos a serem excluídos do corpo social, ainda que os manicômios agora sejam apenas virtuais. É possível cometer-se o maior crime, o de transformar o ser humano em um macaco, animalizando-o, mas é impossível realizar o maior milagre, transformar um macaco em ser humano! Toda manipulação da mente humana, domesticando o homem, forçando-o se submeter a outro homem ou a uma ideologia, é apenas considerar o homem, ainda, uma besta, mero animal irracional por quem se tem que pensar, homem e deve ser condenada. Nenhuma obra cultural pode servir ao pretexto de domar/domesticar o ser humano. Todo ser humano nasce excluído da sociedade humana e precisa de quem nela o acolha para nela se incluir! Não é a sociedade que transforma o animal em ser humano (Durkheim), é o animal, que sendo humano cria e transforma a sociedade!

O homem, o Dizer e o Fazer da realidade

Pelo que diz e faz, o homem se insere na Natureza e na sua transformação, operada por ele em comunhão com outros homens, em Civilização/Cultura! Para respeitar a individualidade radical de cada ser humano é preciso valorizar a Fala em detrimento da Língua! A Língua só existe pela existência da Fala. A Língua é parasita da Fala e a está matando de inanição. A falta de criatividade vai reduzindo, lentamente, todos os tempos verbais a gerúndios. É preciso estudar menos Lingüística e instituir o estudo adequado da Fala, a Falística. No entanto, para se falar errado forma correta, é preciso conhecer muito bem a Língua em que se fala e escreve! A vida é um simples jogo de antinomias! Ferdinand de Saussure, pretendendo fazer "ciência", relegou a fala ao plano não analisável e chamou-se de idiossincrasias todas as contribuições individuais, os linguólogos não hesitaram em condenar as idiossincrasias falísticas de cada um. É preciso acabar com o cientificismo nas áreas que não comportam as regras do método científico! É preciso jogar nos textos os vocábulos dos dialetos familiares, de todos os falares existentes, é preciso recuperar como Língua a Fala do povo, para descobrir que, no Brasil, a contribuição africana é muito maior do que se imagina; que a contribuição italiana, japonesa, árabe e outras são bem maiores que os textos de lingüística admitem, muito maiores, pois estão nos falares de todos os tipos. Nada de pedidos paradoxais aos usuários da Língua: seja elegante ao escrever! Ser elegante ao escrever é ser pedante! Não invente palavras, use as existentes! As palavras não existem se não são conhecidas! O homem sempre recria as palavras, quando delas toma conhecimento, para o uso como seu sistema mental aprendeu a ler a realidade! Corolário: é preciso escrever textos que o povo leia!

É preciso libertar os canais de formação das palavras. É preciso retomar o estudo da formação de palavras, não pelo que se impõe como Língua, mas estudar a formação de palavras no local onde são formadas. Não existem palavras na língua a serem aprendidas, todas precisam ser refabricadas, reconstruídas, formadas de novo, na mente de quem as recebe, pelos mecanismos mentais de associação dos mil choques interiores das escoriações nervosas que cada estímulo produz no inconsciente, que se aglutinam em formas inonimadas a que se apõem palavras! (Artaud) A cada vez que se internaliza um campo situacional e nele há palavras, a palavra estando em contexto com o campo situacional, internaliza-se um valor diferenciado, mesmo que já tenha sido recebida, visual ou auditivamente, milis e tantas vezes! E dentro dos mil choques interiores das mil e tantas escoriações nervosas no inconsciente, as palavras sofrem pequenas alterações de sentido. Não são idiossincrasias individuais que se tornam presentes na Fala: é o resultado do próprio mecanismo de uso do inconsciente, onde as associações não são livres, são eliciadas a cada estímulo por ele recebido! Parece paradoxal, mas não o é! As associações livres da psicanálise se fazem por um determinismo inconsciente pretensamente sugado do seio materno (também em Melanie Klein). As associações do inconsciente a cada estímulo que o elicia se fazem sem interpretações sim-não, positivo-negativo, sou isto-não sou isto! Depois de aprendidos do real é que os estímulos são valorados, eu sou isto que penso que sou, então vou por aqui neste fluxo. É preciso não contar com o passado para viver o presente e construir o futuro! Não da forma como se tem feito! De que me serve o passado se só me serve para avacalhar meu futuro! Não são idiossincrasias individuais que se tornam presentes na fala! O latim não é uma língua morta, é apenas uma língua não mais usada. Se ensinada novamente e conquistar leitores, as suas palavras que teoricamente tem um único significado histórico, morto, congelado, readquirirão a capacidade de se deixar fermentar na mente dos homens e crescer em significados novos. A palavra é um ser vivo - e precisa esclarecer que isto é metáfora? - e toda palavra entra na mente do leitor com um significado e sai com uma alteração, ainda que leve!

O Dizer: as palavras não tem sentido!

Artaud escreveu palavras sem sentido e glossolalias, o que foi visto apenas como sintoma de sua loucura. O que Artaud ensina é que as palavras não têm sentido. É o óbvio ululante que ninguém quer ver, o sentido é aposto à palavra no momento da sua emissão e um sentido é aposto à palavra no momento da recepção, visão ou audição. Quem lê, delude estar lendo sentidos nas palavras. Até gente graúda cai nessa! As palavras não têm sentido! Humberto Eco em "A ilha do dia anterior" descreve uma máquina que produz frases e disse algumas frases por ela construídas têm sentido. As frases produzidas pela máquina não podem ter sentido, pois a máquina não tem inconsciente! Humberto Eco leu os sentidos que sua mente pôs nas palavras. Primeiro, foi ele quem a inventou no mundo imaginário de sua escrita, foi ele quem deu sentido às frases. Segundo, se a máquina fosse montada e realmente produzisse frases, estas não teriam sentido! Quando expressamos verbalmente o produto de nosso inconsciente, as palavras fazem parte de nosso inconsciente, mas os sentidos que damos a elas não são necessariamente os sentidos que os leitores dão. O sentido está com o emissor! O receptor que apõe apenas o seu sentido à palavra que recebe está egocentrado, tem a mente absurdamente estreita, por mais interessante que seja a interpretação/leitura que faça. Se as palavras não têm sentido, a elas podem-se apor quanto sentidos se queira. É preciso forçar o leitor a ler o texto mais de uma vez, utilizando esta propriedade das palavras. A frase deve forçar a mudança de direção de sentido a cada palavra, as palavras sempre indicam direções de sentido diferentes. Não existe compreensão imediata de um texto! Todo dicionário, por maior que seja, registra apenas uma mísera parcela de significados para cada palavra! Ninguém tem dicionários internalizados! Cada ser humano usa um número restrito de palavras, as que internalizou, o seu vocabulário, e ainda as modifica por sua singularidade". Quem, lendo um texto, o "compreendeu" à primeira leitura, não o leu, mas leu a si mesmo no texto. Projetou seus pontos de vista no texto, que, nele, encontraram ressonância. A compreensão imediata é apenas a leitura dos próprios sentidos no texto. Enquanto Lacan apregoa que "o Outro fala no homem", é preciso entender que o "Outro escuta a si mesmo na fala do homem". A ninguém é dado ter pontos de vista totalizantes sobre a realidade. O óbvio é ululante e por este motivo não é assumido como verdadeiro e útil: toda direção tem dois sentidos e o homem só enxerga o que lhe está à frente; para enxergar o que lhe está às costas necessita de um esforço, mas por mais que gire seu corpo para ver o que lhe está atrás, sempre lhe restará o lado oculto da lua que lhe é automaticamente escondido.

Miadoleces

Insana vontade de querer-te minha
alma vadia vaga no rio
de pensamentos adolescentes
que dominam meu ser
teu é o que aspiro
e te amo, infantil amor,
sem que saibas.

Ah! Impossibilidade temporal
que nos separa, arrancando minhalma
pelas raízes, deixando me o corpo
teu que desejo sem fim
por saber que nele tua alma
habita meu ser comigo, vem,
que sou vazio de teu amor.
Vem.

Não são frases ambíguas, mas outras direções de sentido só podem ser percebidas se o leitor variar o seu ponto de vista.

É preciso fazer girar o liquidificador mental!
É preciso misturar todas as formas de expressão verbal!
É preciso comunicar o novo, cacarejar se botar ovo!

É preciso dar vazão aos mil choques interiores que fazem entre si as mil escoriações nervosas produzidas no cimento físico-químico do inconsciente. É preciso liquidificar o mental e deixar que se misturem as palavras que se colam às formas inominadas que evaporam do caldo de impressões vividas, torná-las vívidas enquanto se tem vida, pois quem exige que o homem seja ator da realidade é a própria Vida!

Miadoleces

Alma insana vadia vonta+de2 vaga = insana no querer-te me = mi + u = nha rio
de que dominam pensamentos adolescentes meu ser e - e teu é,
te amo o infantil que amor aspiro sem que saibas.

Ah! que impossibilidade nos separa pelas temporais (- i) arrancando raízes,
deixando minhalma me por (o = ô) o saber corpo que nele teu que (- que) tua alma
desejo que (- que) sem fim sou habito (o = a) vazio de meu ser teu amor comigo,
Vem2
!

Zumbazumbizumba

Pentagrama notas Hamelin flauta
dê sol to mi teu có ra sol si gui meu sol
qui sol teu sol ce sol re sol bro sol
é sol to mi, é sol to mi.
Fa sol fa sol or sol dê sol nó sol,
or dê no sol,
fa sol for mi fa sol for mi.
Fa sol zum bi.
Decrêexciente
Vivace
Fa sol zum bi.
dolce
Fa sol zum bi.
piano
Fa sol zum bi.
pianíssimo
Fa sol zum bi.

fortissimo

Hip hip not azar!
Hip hip not azar!

andante non troppo
Povo rua jornal tevê

Pega ladrão,
pega ladrão!
forte
Mata! Mata! Lincha!
Lincha! Lanche!
Matalinchalanche!
Matalinchamata!
Lanchematalinche!

prestíssimo
andante cantabile

O Povo Vencido
Será Conduzido!
O Povo Vencido
Será Conduzido!

Dele visão tele vender visão
vírus cabeça mente capto

melodicamente
aluz zumbi aluz zumbi
zumba zumbi zumba.
prestissimo
Zumba zumbi, zumba!
presto
Zumba zumbi, zumba!
vivace
Zumba zumbi, zumba!
dolce
Zumba zumbi, zumba!
piano
Zumba zumbi, zumba!
pianíssimo
Dorme nenê tevê vai te pegar,
dorme nenê tevê vai te pegar.
fortíssimo
Pegou!

vivace

Há luz! Zumbi, há luz!
Não zumba zumbi, não zumba
Há luz! Zumbi, há luz!

jogral de um só
O homem veio do macaco
com uma mão atrás
tampa olhos e ouvidos
à flauta de Hamelin!

Todo sentido dado pelo emissor pode ser recuperável pelo receptor, desde que ele se descentre de seus parcos pontos de vista. As pretensas mil possíveis interpretações de um texto não passam de novos mil textos plagiando-o! Não se pode se expressar verbalmente julgando que as palavras têm sentido, que os sentidos estão registrados nos dicionários, que o leitor vá lá e o procure! Não se pode mais falar que o povo não gosta de ler se quem escreve não respeita quem o lê. As palavras devem ser usadas de modo a que reconstruam o seu sentido na mente do leitor, de modo a fazê-lo pensar! O leitor não pode se perder nos vários significados para cada palavra registrada em dicionário. Não existem palavras com significados fixos! Não existem dicionários que contenham todos os significados de todas as palavras, os dicionários não registram a fala, não registram as contribuições individuais de cada um dos usuários da Língua! As palavras têm o sentido que lhe deu o emissor, esteja ele incluído na Sociedade como homem ou dela excluído como louco!

Abaixo a sintaxe!

Crê ser                                OU                                  Crê ser
Criança mente crescimento
vida sensibilizar magia
aprender buscar encantamento
conflito conceito inteligencia
duvidar questionar perplexidade
mostrar dizer fazer refletir
conflito aumentar curiosidade
erros recomeçar insistir.

Crê ser dono do próprio nariz.



Crê aprender conflito duvidar
inteligência ser questionar aumentar
crescimento magia dono encantamento
de recomeçar buscar criança
erros mente seu refletir conceito
curiosidade fazer próprio mostrar
nariz sensibilizar conflito dizer
insistir perplexidade duvida  

Pelo processo mental de formação das palavras, um grupo de palavras, sem se observar ordens direta ou indireta, sem conectá-las com preposições e conjunções, sem aditá-las com adereços, ad (jetivo, verbal, nominal), simplesmente um número de palavras colocadas próximas pode refabricar um sentido-conceito na mente do leitor. Basta para isto que as palavras retornem ao tempo em recuperavam, na mente do receptor, campos situacionais, imagens, como disse Artaud usando o vocabulário de sua época, e que o emissor saiba dar o indicador que fará este sentido precipitar no cadinho alquímico que é o inconsciente!

O sentido está com o emissor:
Viva a obscuridade!
Abaixo a linguagem clara!

Só há uma forma de expressão verbal: a linguagem obscura. Não existe linguagem clara! É o óbvio ululante Nelson Rodrigues! O simples fato de se julgar verdadeiro que cada um possa interpretar como quer um texto, uma obra cultural, já indica que toda expressão verbal é obscura, nela cada um lê o que quer! Quem escreve dá à sua palavra o seu sentido singular, quem o lê, lê as palavras com os sentidos que tem internalizado! Mas o que o escritor quer dizer não é o que o leitor entende: é preciso procurar o sentido que o escritor deu à palavra! Não se deve descer ao nível mais baixo da comunicação verbal e fazer textos como se fossem seqüências de números, palavras com significados exatos. Não existem palavras com significados exatos! Nem mesmo as palavras que designam algarismos e números têm este pretenso significado exato! Um é número, Um é Deus, Um é o Absoluto. Um é também Deus para quem O desacredita!. Mil é número, mas é também coletivo de coisas: tenho mil coisas para fazer. Toda compreensão da realidade expressa verbalmente é mera poesia sobre a realidade! A teoria da relatividade é um poema em linguagem abstrata! Quanto mais abstrato, menos clareza. A teoria da relatividade ainda não foi decifrada em todas as suas conseqüências!

E se a fórmula de Einstein for energia igual massa multiplicado pelo infinito ao quadrado? A teoria da relativadade é um baita delírio que foi mais ou menos entendido! Todo delírio é absurdamente claro se são aceitos os significados que o delirante dá às suas palavras! A clareza só se obtém pela anuência do outro ao sentido dado pelo emissor, independentemente do grau de "normalidade" mental do emissor! A teoria atômica é de uma clareza espetacular (...) apenas para quem internalizou os sentidos das palavras dados pela atomística! Freud não analisou o texto de Schreber. Freud apenas leu a psicanálise no texto de Schreber! Se o leitor compreendeu o texto de imediato, o leitor não leu o texto, apenas se leu no texto! Os outros que leram Schreber, em sua grande maioria, só leram os pontos de vista de Freud em as Memórias! Isto porque a psicanálise só produz hermaFREUDitas!

Embora inserido em uma cultura, inserido na Língua de uma cultura, o dono do significado de uma palavra é o emissor!

O manter-se uma palavra e variar o conceito é recurso que leva a textos obscuros, e não pode ser usado de forma gratuita. Se for usado, a palavra deve conseguir produzir todas as suas conseqüências. (Artaud) A psicanálise insiste que "sexual" não tem nada a ver com genital, contudo, a mente não funciona assim! É mera piada! Sexualidade não tem nada a ver com genital, mas... Nenhum psicanalista sabe dizer o que viria a ser homo(sexualidade não genitalizada)!

Em toda manifestação cultural há um código oculto que a decifra! E não é a mãe! Não há aqui metonímia, é um ideograma, por ter a função de remeter a toda a psicanálise! A palavra pode e deve ser usada como um ideograma! Artaud e Schreber demonstram a existência, como resultado da capacidade de sínmtese da mente, de palavras que remetem não a um sentido único, mas a um corpo teórico, sentidos articulados em concepções mais amplas sobre o Real, nas quais as compreensões imediatas desorientam, não o emissor, mas o receptor, que, egocentrado, apenas consegue dizer que o emissor é desorientado mentalmente!

Schreber

O nasor taco bashis dresriser
rimaica loucum da potódoa
pada onça folie em laso
era psidenárase xirido
esséden lozompe vira riovo
um tricute debajo totiso
no lênasna guasmorfo lirade
ime soai dataguei dasai.

Gilfeto
Proberta

A chave para se entender o discurso pode ser dada ou não! A poesia acima Miadoleces tem uma chave que a decifra! Mas ela parece tão clara! Sim, nela pode-se ter uma compreensão imediata de um sentido, mas é o sentido do receptor. Para que se recupere o verdadeiro sentimento escondido pelo autor, é preciso colocá-lo no divã e o questionar. É preciso entender que as palavras podem dizer claro e esconder! A chave desta poesia é a inexorabilidade da vida! Está agora absurdamente claro? Não, a palavra esconde o significado das palavras que ela representa! Quem é dono da chave é o emissor! Fornecendo-a ou não, o emissor só será entendido por quem o respeite em sua dignidade humana e dê valor à sua fala! É o que Schreber demonstra: cada um se expressa verbalmente usando um código próprio que decodifica o sentido de suas palavras. Artaud alerta para que se converse com os loucos, sem usar dicionários. Schreber permanece há anos internado em manicômio, agora virtual, com o diagnóstico de paranóia, escreve um texto "Memórias de um doente dos nervos", que é estudado há um século como "o delírio de Schreber", a partir do trabalho inicial de Freud. Freud não leu as Memórias! Freud não analisou as Memórias! Freud única e exclusivamente leu os seus pontos de vista nas partes de as Memórias em que foi possível lê-los, menos de um décimo do total! Freud não percebeu, mas apenas projetou seus pontos de vista sobre o texto as Memórias! Não percebeu que Schreber usa um código! Freud não percebeu, pois, estando parindo a psicanálise, deixou-se encantar pela psicanálise. O que a psicanálise diz: que todos se expressam verbalmente usando um código seu particularizado, nascido de suas vivências com a realidade primeira, a mãe. O encantamento de Freud pela psicanálise não lhe permitiu perceber o que Schreber demonstra: o código particular e singular de cada ser humano tem a ver com as suas vivências da realidade como um todo, não apenas da realidade que vivenciou sugando as tetas maternas ou sob o jugo paterno. E Schreber ensina mais ainda: a chave que cada um usa para codificar suas expressões verbais só pode ser recuperada dentro da própria expressão verbal do emissor, dando valor à sua fala e a suas idiossincrasias.

Irque somache Panicou

Esta frase tem um sentido predefinido para se inserir neste manifesto: ela exprime, por definição de seu emissor, o que aqui se procura explicar. Este conjunto de signos gráficos que não são palavras, embora o pareçam, e verdadeiramente não têm sentido como palavras, está sendo internalizado como significando "o sentido está com o emissor". Apenas se houver um desrespeito ao emissor é que se pode dizer que não significa. A palavra nomeando a coisa que se internaliza deixando escoriações nervosas no inconsciente, ou que nome se dê ao processo, passa a ser o símbolo com que a coisa - tornada objeto do homem - será recuperada das profundezas do ser! E deste modo o conjunto de signos gráficos se torna conjunto de palavras! O que se precisa entender, artaudianamente, schreberianamente, é que o mesmo fenômeno se dá com todas as palavras, mesmo que o conjunto de sinais gráficos que a constituem forme sentidos já dicionarizados e já previamente conhecidos. A situação contextual com novo campo situacional onde a coisa real se deixa casar de modo diferente com a palavra, ela se internaliza com esta marca do novo. É isto que ensina Schreber complementando Artaud.

Quem lê pensa que está lendo sentidos nas palavras! Está apenas dando seus sentidos às palavras! Até gente graúda cai nessa! As palavras não têm sentido! Humberto Eco em "A ilha do dia anterior" descreve uma máquina que produz frases e disse que as frases têm sentido. As frases produzidas pela máquina não podem ter sentido, pois a máquina não tem inconsciente! Humberto Eco leu os sentidos que sua mente pôs nas palavras. Primeiro, foi ele quem a inventou no mundo imaginário de sua escrita. Segundo, se a máquina fosse montada e realmente produzisse frases, estas não teriam sentido! É a única forma em que o receptor pode apor sentidos às palavras que recebe sem se preocupar com o sentido dado pelo emissor: a máquina não dá sentidos! Quando escrevemos, expressamos o produto de nosso inconsciente, as palavras fazem parte de nosso inconsciente, mas os sentidos dados a elas pelo emissor não são necessariamente os sentidos que os leitores nelas lêem.

Abaixo a linguagem clara!


Assim, torna-se preciso gritar o grito de Artaud novamente: Abaixo a linguagem clara! Abaixo a sintaxe! É preciso extrair de uma palavra todas as suas conseqüências! Viva a obscuridade! Só há uma forma de expressão verbal: a linguagem obscura! Não existe linguagem clara! Quem escreve dá à sua palavra o seu sentido singular, quem o lê, lê as palavras com os sentidos que tem internalizado, e cada um, lendo o que quer lê, apenas se lê no textos, seja um texto verbal, apresentativo, verbal-apreentativo ou a própria realidade em si. Não se deve usar o nível mais baixo da comunicação e fazer textos como se fossem seqüências de números, palavras com significados exatos! Este uso é restrito e tem o imperativo verbal. Não matarás! Não roubarás! Pode também permitir aberturas, pela propriedade que têm as palavras de indicar mais de uma direção ao sentido: não desejarás a mulher do próximo! Deixa a abertura para o desejo à mulher de quem lhe é distante! Em qualquer língua? Tem-se que pesquisar! Não existem palavras com significados exatos! Nem mesmo as palavras que designam algarismos e números: um é número,

Viva a obscuridade, mas que se grite não! à obscuridade gratuita. Artaud fez palavras sem sentido e glossolalias. Se não têm sentido, não são obscuras... São sem sentido, por definição! Não foi ele que chamou de poesia o conjunto de palavras sem sentido para serem escandidas em seu ritmo, em um cenário de teatro: ratara ratara tara ratara ratara dana, etc. Foram os estudiosos que viram palavras em forma de versos em gestalt de poesia, e falaram é poesia de louco! Não o é! É música feita com palavras! Ao contrário, uma obscuridade gratuita é mera enrolação.

"Não estamos em alturas de maior daquelas,
nem conversamos de maior,
principalmente em matéria de entretanto,
não há como absolutamente,
não só por isto mas quanto mais
e por falar em alturas,
tudo mais são coisas"

Isto se pretende um discurso e foi emitido como discurso dentro da realidade cotidiana de um político anônimo! Não é prestigitação! É mera obscuridade gratuita! Pode ser válido como um brinquedinho, mas não é literatura! É enrolação! Não tem sentido oculto! É algo mais condenável que os doublets de Lewis Carroll, que Artaud chamou de escritor de barriga cheia!

Textos que se pretendem de uma clareza ímpar são meras obscuridades produzidas por manter-se uma palavra e variar o conceito a que está presa ou dar a um conceito outra palavra, pretendendo-se estar inovando "cientificamente". É um recurso que a nada leva, a não ser preencher papéis e papéis que logo se demonstrarão úteis em serem reciclados a seu verdadeiro papel higiênico. A psicanálise insiste que "sexual" não tem nada a ver com genital, contudo, a mente não funciona assim. É mera piada! Sexualidade não tem nada a ver com genital, mas... nenhum psicanalista sabe dizer o que viria a ser homos(sexualidade não genitalizada)! E isto nada tem a ver com Freud, que reciclou a palavra libido para ter o significado que sexual não pode exercer sem confundir o leitor! Artaud soube dizer. Quer saber como e o que ele soube? Vá estudá-lo em suas metonímias metafóricas, em suas metáforas metonímicas, em sua linguagem metafísica!

Que Artaud seja traduzido para o português brasileiro: é impossível ler um francês ouvindo-o falar em seus ouvidos alto lá rapaz, Ora pois pois!

É preciso aumentar o vocabulário!

Para tanto, é preciso produzir obras que façam o leitor pensar, mas ao mesmo tempo em que o leve a aumentar seu vocabulário. Sem recorrer ao dicionário, apenas pelo uso da palavra, fornecendo-lhe textos que recuperem campos situacionais onde elas se inserem, para que os mecanismos de formação de palavras do inconsciente do receptor/leitor sejam respeitados. Toda produção intelectual que vise ser apreciada pelo outro é condenável quando o torna preso a um número restrito de palavras e a um número restrito de significados para cada palavra! Todo discurso, verbal ou apresentativo, só é válido quando respeita seu usuário naquilo que lhe é mais sagrado, sua identidade e seu potencial de crescimento, sua condição de ser humano! Tudo que for lançado à cultura deve ter como princípio ajudar o seu usuário a crescer. Não adianta escrever textos que forcem o leitor buscar um dicionário! É preciso ajudar o usuário da Língua a enriquecer seu vocabulário, pelo uso adequado das as redes contextuais onde inserir palavras, fazendo com que o sentido surja na mente do receptor. Todo uso social da palavra tem de respeitar o leitor, e respeitar não quer dizer mantê-lo em sua mediocridade usando só as palavras que ele conhece. Todos somos medíocres por conhecermos apenas um pequeno número de palavras e uns poucos significados para cada uma delas! Quando menor o vocabulário de uma pessoa, menor a sua capacidade de crescer, progredir e respeitar um ser humano é respeitar o seu potencial de crescer, criar, inventar! Todo homem se reinventa a cada dia, ou não está vivo, está apenas vivendo! Todo homem precisa dos estímulos necessários para se reinventar a cada dia; nada cresce perdendo partes, mas adquirindo! Todo instrumento cultural tem o dever de respeitar o homem neste sentido, ajudá-lo a transformar em ativa a sua energia potencial, ajudá-lo a se reinventar a cada momento, a inventar a vida a cada instante.

O Objeto

O homem não é o único animal que interpreta a Natureza e transforma suas coisas e seus fatos em objetos. A ameba o faz! O homem vivencia a realidade e a expressa em obras culturais, textos que sejam. "Toda escrita (porca) é porcaria!" Escrita porca é a que expressa suposições sobre as coisas da realidade tomando estas suposições, meras fantasias, como se as próprias coisas fossem. O Mito, a Magia, o Encantamento existem, mas no Mundo Ausente! Não lhes é defeito existir desta forma, pois no Mundo Ausente habitam também os conceitos, as abstrações. Se forem usados, que o sejam a favor do homem e não contra ele! Não existe "inconsciente coletivo", a sociedade não é um ser orgânico! Não há parte feminina e masculina em nenhum ser humano! A Sociedade não é um Ser Supremo! A sociedade não é um ser, é um sistema de sistemas, uma complexidade de complexidades! Não se podem aceitar reduções, simplificações, pois toda simplificação reduz a complexidade de complexidades ao absurdo. O homem só pode se expressar sobre a realidade por meio de poesia, metáforas, símbolos! O Mundo Ausente existe com suas abstrações! É preciso que o homem aprenda a "ir do abstrato ao concreto e então retornar ao abstrato". É preciso tirar o leitor do seu conforto intelectual! Todo texto, falado ou escrito, literário ou jornalístico, deve levar o leitor a pensar, e levá-lo a pensar não é fazê-lo aceitar um ponto de vista que se vende. "As imagens levam a pensar, mesmo que construídas com palavras". A teoria da relatividade é a maior poesia obscura já escrita! A primeira teoria atômica é um mito se comparada com a última! O destino do homem racional é ser metafórico!

O Mundo Ausente das abstrações

O mundo das abstrações é um mundo ausente. "O mundo conceitual é um mundo ausente e nunca atinge ser objetivo". (Artaud) Cada representação simbólica, seja na mente individual, seja na cultura, é apenas uma aproximação da realidade, abordar todas, pela destruição sucessiva de todas, levaria a uma apreensão mais fidedigna da realidade, objetivo, no entanto, inatingível. É preciso que se aprenda a queimar formas! (Artaud) É preciso destruir as aparências com que se apreende o mundo, para sob elas se apreender as coisas reais (o real concreto) em seu devir contínuo! Há um mundo ausente que se veste de verdade sobre o real e é vendido, por meio de encantamento, como se o real fosse. É preciso encantar o homem singular para que ele consiga perceber a realidade das coisas reais e seus acontecimentos! É preciso levar o leitor da realidade a pensar! É preciso levá-lo a refletir sobre a realidade! É condenável, por prestidigitação com as palavras e com as imagens, encantá-lo para que siga o ponto de vista do autor como se fosse seu próprio ponto de vista! Os meios de comunicação não podem ser a Flauta de Hamelin, encantando a todos para que pensem estar refletindo sobre a realidade, seguindo o ponto de vista alheio. O ponto de vista cristalizado reflete o passado, não serve para ler o presente, muito menos para imaginar o futuro! Há que se fazer o leitor da realidade confrontar seu ponto de vista com o do outro, o que permite aos não egocentrados, aos não teleguiados por doutrinas e ideologias congeladas, aos não encantados pela Flauta de Hamelin, estar sempre modificando seu ponto de vista! É preciso compreender que o presente é absurdamente virtual! O que acabei de fazer não é presente, já é passado, e mais, é ultra passado!

O leitor tem o direito de exercer o seu direito de pensar e chegar a conclusões sobre a realidade a partir de seus próprios pontos de vista, e tem a obrigação, lei não humana, de crescer, progredir, isto é, não se deixar congelar em seu pontos de vista! Todo texto/obra cultural deve ser mágico apenas no sentido de prender o leitor, fazê-lo retornar à leitura, levá-lo a pensar, e nunca no sentido de, por encantamento, fazê-lo aceitar como seus pontos de vista que lhe são estranhos. O autor não é dono da mentalidade do leitor! O autor não é dono do imaginário do leitor! Se há a escravidão pelo trabalho, há a escravidão pelas idéias: ser levado a seguir como suas as idéias do outro! Toda obra cultural/texto tem como  obrigação de ajudar o leitor da realidade a crescer, nunca o imbecilizando a ponto de que levante bandeiras não verdadeiramente suas. Todo ser humano deve ser livre, mesmo quando se torna leitor, expectador ou ouvinte.

É preciso levar o leitor a pensar! É preciso levar o leitor a descongelar seus pontos de vista! Não existe demência "pela idade" no final da vida do homem: é que todo sistema fechado tende à auto-aniquilação. Todo sistema de idéias que é fechado é sistema de pontos de vista congelados! Um sistema de pontos de vista congelados sobre a realidade tende à alienação! A realidade é devir, os pontos de vista sobre a realidade devem devir! Não existe envelhecimento mental! Hoje estou diante da realidade em um momento completamente distinto de quando nasci! Não posso vê-la na base do bilu bilu bilu tetéia! Como nascem as crianças! Quem traz é a cegonha! É símbolo! É imagem! Quem não consegue enxergar o saco do homem no desenho da cegonha trazendo o bebê precisa parar para pensar sobre a realidade!

Mas...
A ninguém é dado o direito de encantar seu semelhante com a prestidigitação por meio de palavras e  imagens! A realidade tem de ser encarada de frente: o homem é um sistema que participa de um sistema maior, em que "tudo na natureza vai contra sua condição de ser constituído". A função precípua do ser vivo é sobreviver até o dia de sua morte!

Abaixo a prestigiditação com palavras e com imagens, mesmo que feitas com palavras! É preciso exercer o direito máximo do ser humano diante de um texto, verbal, apresentativo ou verbal-apresentativo. Os encantadores estão sempre de plantão. Circunda o discurso de elementos que precipitam um só sentido na mente do leitor: aquele que o emissor quer nela impresso! O receptor é impedido de exercer o seu direito de pensar! O receptor aceita como seu o ponto de vista do autor! Não mais importa quem são "eles" e nem se foram eles!

Todo texto/obra que esconde a realidade dos fatos através de suposições sobre os fatos é condenável! Textos claros podem esconder a realidade dos fatos de mais facilmente que textos obscuros! É infantil dizer que a psiquiatria no século 19 prescrevia um tratamento somático e psicossocial! Isto é prestidigitação com palavras! É dizer sem nada informar! É esconder que o tratamento dispensado aos loucos era cruel, desumano, mesmo após a "humanização" introduzida por Pinel e William Tuke! Somático esconde que o tratamento físico era prescrito meramente para produzir dores ou caganeira, ou consistia em girar o paciente até fazê-lo vomitar as tripas, como se ali estivesse o agente etiológico da loucura! Psicossocial esconde o intimidar o doente mental, fazê-lo ter medo, aterrorizá-lo, usar de todos os recursos para domá-lo e torná-lo submisso a um homem! É infantil dizer que, quando se algema pobre ninguém grita! Grita sim! Todo preso tem mãe, talvez, mas sempre tem amigos e parentes! Grita sim, mas pode não encontrar quem escute!

Se a Carta de Vaz de Caminha tem de ser engolida como literatura, a atividade jornalística é literatura. Os textos/obra sobre a realidade devem transmitir informações dos fatos. Qualquer suposição sobre os fatos não é informar os fatos! Não se pode iludir o receptor fazendo-o crer que suposições sobre fatos e meras interpretações de fatos sejam os fatos em si! Reportagem é reportagem de fatos, descrição de fatos! Opinião sobre fatos não é reportagem, é criação literária de quem opina. Deve-se negar o hiperrealismo! Os meios de comunicação interagindo com seus usuários (Jean Baudrillard, Humberto Eco), ao vivo, no momento em que cometem seus atos, não é realidade virtual! É condução da massa por encantamento! A realidade não pode ser editada para se ajeitar aos parâmetros do jornalismo! A liberdade de imprensa não pode ser libertinagem de imprensa! Se publico um livro, a imprensa não põe minha foto em todos os canais de comunicação, quando cometo um crime não deveria haver a liberdade de a imprensa colocar minha imagem à disposição de todos, quase aos gritos de Linche! Mate! Mas... Quando escrevo um livro exerço um ato cultural positivo, crimes são atos culturais negativos! É uma imbecilidade julgar que a espetacularização de prisões é estar fazendo Justiça, se o for é fazer justiça com as próprias mãos!

É preciso becilizar a leitura da realidade!

Todo texto, literário ou não, reflete o modo como quem o escreve compreende a realidade. O Brasil é o único país do mundo em que há o risco de não se entrar em curso superior ao se redigir "a cores", mesmo se nas grades curriculares do curso a que se candidata constar disciplinas que ensinam "televisão a cores" ou como compor "imagens a cores". Hábitos e comportamentos não são modificáveis por edição de leis! A fiscalização de leis, mesmo não rígidas e abusivas, pode levar a modificação de hábitos e comportamentos, mas não de imediato! Somente os mágicos "alteram" a realidade de modo imediato! Mas magia é ilusão!

É condenável a prestidigitação com palavras usando o científico! A Ciência não descobre verdades sobre a realidade! A Ciência formula hipóteses sobre a realidade! As hipóteses são verificáveis provando-se que são falsas! (Popper) A prestidigitação com cientificismo é a forma mais condenável de manipulação de inconscientes alheios:

A Quarta Dimensão

Pela física moderna, energia é massa vezes velocidade da luz ao quadrado. Sendo a velocidade da luz igual a 299.790 km/s, a luz movendo-se ao quadrado de sua velocidade teria a velocidade da luz, que é de 299.790 km/s. O quadrado de um número é igual a si mesmo, se e apenas se, este número for a unidade. Conclui-se, então, que 299.790 é a unidade. Da mesma forma, sendo Deus igual Um, a Unidade, tem-se, portanto, que 299.790 = 1 = Deus. Sendo verdadeiro que Deus = Luz, a velocidade de Deus é a velocidade da Luz; Como Deus = o Mundo, e mundo = matéria, matéria = massa, conclui-se que Deus = Matéria e Deus = Massa. Substituindo na fórmula de Einstein, a Energia Divina é igual a MC2, ou Deus multiplicado por Sua velocidade ao quadrado. Sendo Deus onipresente, e, estando em todos os lugares, não pode estar em movimento, portanto, Sua velocidade é igual a zero. Conseqüentemente a Energia Divina sendo igual a MC2, e sendo o quadrado da velocidade zero igual a zero, tem-se que a Energia Divina é igual a Massa vezes zero. Qualquer número multiplicado por zero dá como resultado zero, tem-se que M0 = 0 donde se deve concluir que Deus não tem Energia. Sendo verdadeiro que Deus tem Energia, conseqüentemente o zero resultante da equação de Einstein é diferente de zero fator. Sendo verdadeiro que, sempre, 0 = 0, implica em que, obtendo-se 01 = 02, 01 e 02 encontram-se em dimensões diferentes,
cqd.

Para becilizar a leitura da realidade é preciso saber que nada é evidente. Se Descartes pediu que se duvidasse até se atingir a evidências, Artaud induz a que a dúvida seja sistemática e suficiente para destruir as evidências! Nada é evidente! Toda evidência é mero ponto de vista sobre a realidade! Toda evidência deve ser destruída para que se consiga enxergar "a realidade perigosa e típica onde os Princípios como os golfinhos mal põem a cabeça para fora apressam-se a mergulhar novamente na obscuridade das águas". Artaud. Traz o conflito conceitual citando a Pedro Abelardo, "a vida é queimar perguntas", e a curiosidade epistêmica, "é preciso dançar a anatomia humana para todos os lados, para cima para baixo, para frente e para trás", onde "anatomia humana" é "humanidade". Para se enxergar a realidade perigosa, "É preciso dar uma parada no ar", é preciso suspender o julgamento (de muitos, um deles Bérgson). É preciso lembrar que o ponto de vista cria o objeto de uma coisa real sobre a qual atue, de que Freud viu apenas uma faceta, a projeção de sentimentos. Apenas deste modo é possível acabar de criar a Realidade! Destruições sucessivas não é niilismo gritante em Artaud (Susan Sontag): é o elemento necessário para que haja construções sucessivas com o mesmo material que se tem, e a Natureza é uma só! "O homem precisa aprender a se manter em equilíbrio no meio de tantas destruições!".

Temas do movimento anti-surrealista


Todos.

Toda manifestação verbal, oral ou escrita, ou por imagem é um texto. O homem fala de tudo, escreve sobre tudo, e vivencia tudo estando entre as coisas do real

(a) Gilberto Rabelo Profeta, por Antonin Artaud e por Schreber


Publicado em : Literatura, Dicas para novos autores
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