Previsão Imprimir Enviar para um amigo
Avaliação desta obra: / 0
RuimÓtimo 
 
Escrito por vanise macedo maria, em 23-08-2008 19:24
Avaliação média    (0 voto)
Visitas 1214    
Favoritos Nenhum

- Mas quando exatamente isso vai ocorrer, Madame Linda?
- Não posso dizer, minha filha. As cartas não são claras...
- Não são mesmo ou a senhora acha que eu ficarei impressionada, hein?
- Não...
- Então... Dá ao menos pra ver se eu estarei sozinha nesta rua?
- Não pergunte mais... Veja, seu horário está acabando. As imagens já estão fugindo de mim. Vamos encerrar a consulta aqui.
Linda balançava a vasta cabeleira para um lado e para outro, mostrando um misto de insatisfação e de preocupação.
- Mas eu não posso sair justamente agora! Você me diz que vê um acidente, que eu estou próxima, que vê um carro. Eu preciso saber se acontecerá algo comigo, quando e onde. Quero me prevenir. Diga, Madame!
- Vá embora, por favor. Seu horário acabou. Deve ter mais pessoas me aguardando lá fora. - Linda levanta-se com dificuldade, por causa do excesso de peso, apoiando as mãos sobre a mesa de vidro.
- Isso não é justo. Você é uma charlatona!
- Lamento, minha filha. Não consigo enxergar mais nada. Uma nuvem cobre meus olhos neste momento...
Lucíola sentia-se confusa. A voz doce e, ao mesmo tempo, firme da vidente parecia sincera. Porém, não esquecia a frase dita com determinação... Cuidado com o automóvel! Saia! Não poderia saber mais? Queria detalhes que a fizessem tomar cuidado.
A velha senhora caminhava arrastado em direção à porta; respirava lenta e harmonicamente. Parecia esgotada. Olhava para o chão; tentava apoiar-se na porta como se estivesse equilibrando o grande peso do corpo. Lucíola levantou-se, arrumou a bolsa no ombro e pegou o dinheiro da consulta. Voltou-se para a porta e estendeu algumas notas à mulher. A vidente permanecia olhando para o chão, segurando a maçaneta. Ao perceber a mão estendida da moça, segurando o dinheiro, a mulher apenas acenou, negando o recebimento. E insistiu, com outro gesto, apontando para que saísse. A moça não entendeu bem a pressa para que fosse embora e menos ainda a recusa do pagamento, mas sentiu que não havia mais o que fazer a não ser sair dali.
Assim que a porta se fechou, Linda caminhou com dificuldade até a poltrona e atirou-se sobre ela. Suas pernas tremiam intensamente, os braços pareciam enfraquecidos... A cabeça jazia jogada para trás sobre as costas da poltrona. A imagem era de total lassidão. Nunca se sentira tão enfraquecida! Repentinamente, percebeu que a porta ao fundo da sala, próxima da mesa em que há pouco estivera com Lucíola, abria-se. Com passos lentos, ele se aproximava. A vidente abriu os olhos, mas se manteve com a cabeça caída. Apenas disse:
- Já foi feito. Acabou. - Parecia notar que ele sorria, mas não teve forças para erguer a cabeça e encará-lo. Aquela luz vermelha parecia causar mais mal-estar que o odor forte que exalava... Embora a sensação de sua presença fosse extremamente forte, vê-lo de frente era demais para ela. Aos poucos, foi se sentindo cada vez mais fraca e, ali mesmo, acabou adormecendo. Não pretendia vê-lo novamente. Seu trabalho estava feito. Ao menos esse alívio.
Lá fora, já a duas quadras da casa de Linda, Lucíola caminhava com passos ágeis. A cabeça ia embaralhada... Não se lembrava ou não se importava com muitas das frases ditas pela vidente; apenas cintilava em sua memória aquela última previsão: Cuidado com o automóvel! Saia!
Foi nesse estado de confusão mental que tomou o ônibus e chegou a sua casa. Foi à cozinha, bebeu um pouco de suco e sentou-se na poltrona, de frente para a janela. Ficou relembrando a ida à casa daquela senhora, inclusive como chegara à vidente, como descobrira aquela rua tranqüila.
Lembrava-se do dia insuportavelmente quente em que fora ao dentista e de quando cruzara o centro da cidade e recebera de um homem, na esquina da rua, uma propaganda sobre a vidente. O rapaz, vestido de vermelho, destacava-se no meio da multidão. Apenas ergueu a mão para ela e entregou o papel. Nada falara. Como qualquer um que recebe um anúncio, Lucíola continuou andando e deslizou os olhos pelas letras toscamente escritas. Havia as promessas de sempre quanto aos serviços de vidência.
Curiosa, porém, observou que havia apenas o endereço da vidente. Pensando em marcar um horário, voltou ao local onde havia recebido o panfleto. Parou na esquina com a surpresa estampada no rosto. O homem que entregara o papel não mais estava ali! Mas haviam se passado tão poucos minutos... Ela virava o rosto para a esquerda e para a direita à procura de alguém vestido de vermelho e não visualizava pessoa alguma assim, próxima ou distante da multidão que circulava agitadamente pelo centro da cidade. Foi então que Lucíola percebeu que havia uma banca de um camelô um pouco mais adiante. Resolveu pedir informações:
- Ei, o senhor viu para que lado foi um rapaz de vermelho que estava aqui, há cinco minutos, entregando estes papeizinhos da vidente?
- Rapaz de vermelho, dona? Que isso, não havia ninguém aqui não.
- Claro que havia! Ele acabou de me entregar isso. - Lucíola estendeu mecanicamente o papel.
- Ih, dona, o calor deve de lhe ter feito mal! Eu trabalho sozinho aqui, não deixo moleque parar perto da minha banca que afasta a atenção dos meus produtos. Foi aqui não, dona!
Percebendo que não adiantava insistir, e sentindo-se embaralhada, Lucíola olhou novamente para o papel e fitou o endereço. Distraída relendo a mensagem, não pôde perceber que um carro vermelho cruzava o outro lado da movimentada avenida tendo como passageiro um homem que baixava os óculos de sol, observando atentamente os passos de Lucíola. Com sorriso discreto, aquela figura de vermelho acenava para o motorista, indicando que o carro já poderia partir. Em segundos, perdia-se de vista o carro, arrastando um terrível odor de enxofre.
Desde aquele momento, sua curiosidade foi ainda mais atiçada. Foi assim que, mais tarde, buscou um catálogo para localizar a rua da vidente e saber como chegaria até ela. Não havia telefone no folheto e, curiosa demais, resolveu ir àquela casa, em uma tarde em que estivesse desocupada. Bateria e tentaria marcar um horário se naquele dia mesmo fosse impossível ser atendida. Porém, ao chegar, percebeu que parecia estarem já à sua espera, pois a aceitação para a consulta fora imediata. E assim aquela consulta tão impressionante acontecera...
Ali, sentada preguiçosamente na cadeira, ela agora relembrava tudo e pensava que, se não tivesse sido tão curiosa, não teria ouvido a previsão que a assustava e a deixava tão intrigada e, por que não dizer, ainda mais curiosa.
Os dias passaram. O corre-corre da rotina misturado a obrigações da casa e da faculdade prendiam-na às mais diversas atividades. No entanto, em sua mente, a imagem da velha vidente ia e vinha. A mulher não quisera receber o dinheiro... Não terminara a consulta... Sentira-se inesperadamente mal... Dissera que mais gente estaria à espera de consulta, e não havia ninguém ao sair... Eram muitos elementos que a deixavam impressionada ou intrigada. Desejava saber mais.
De repente veio a idéia. Pensou que poderia voltar àquele mesmo local, àquela mesma rua sem saída em que morava a vidente. Quis ir até lá e tirar nova consulta, desta vez paga. Era isso mesmo que faria no dia seguinte!
No final da tarde, ela descia do ônibus e dobrava a rua, rumo à última casa da rua sem saída. Andava decidida, como se faz quando se conhece bem o destino, com passo firme. A rua não era muito longa e logo estava na metade do caminho. Olhando pra frente, Lucíola procurava avistar a casa, velha e simples, em que estivera há algumas semanas. E de repente, percebeu algo estranho na paisagem. Profundamente intrigada, apertou os olhos, desejosa de enxergar melhor as casas existentes no lado esquerdo da rua. Por um instante, poderia achar que... Não era possível! A casa da vidente não estava mais ali! Tinha certeza de que era naquele caminho, que era aquela rua, que a casa ficava à esquerda da rua. Continuou caminhando até o final e parou em frente ao que seria a última moradia: ficou ali, estagnada, diante de um terreno baldio... completamente abandonado!
Olhando perplexa para o local, Lucíola sentiu um arrepio percorrer o corpo. Tentado racionalizar, analisou o lugar: matos crescidos tomavam conta do terreno, muito lixo atirado revelava que não cuidavam daquilo há muito tempo. Não era abandono recente. Impossível pensar na hipótese de que a casa havia sido demolida há pouco. Aquela paisagem não teria se formado assim. Não em semanas...
A moça deve ter ficado ali, perplexa diante do terreno baldio, por dez ou quinze minutos. Só voltou a si ao escutar um barulho de ferrolho a três construções de onde estava. Voltou a cabeça e percebeu um moleque, de uns doze anos, fechando o portão de uma casa. Rapidamente ela se adiantou, tentando se aproximar do local em que ele saía e chamou pelo menino.
- Menino, espere... É... - Lucíola procurava palavras para perguntar o que parecia tão sem sentido... - Me diga, não é nesta rua que tem uma vidente?
Mostrando simpatia, o menino respondeu:
- Uma vidente? Sei não, moça. Que eu conheça, não.
- Não mesmo? Você não conhece uma senhora bem gorda, de cabelo enorme, que se chama Linda? Ela é conhecida como Madame Linda...
- Não. A senhora deve estar na rua errada.
- Mas eu me lembro desta esquina... È aqui mesmo! Este terreno ali na frente... está abandonado há quanto tempo? - Falou, arriscando mais uma tentativa e apontando em direção à última localização da rua.
- Ih, moça... Há muito... Eu e minha irmã moramos aqui há seis anos e ele sempre foi assim. O pessoal da outra rua vem aqui e joga lixo. Ninguém liga pra ele, não. Mais alguma pergunta? Eu preciso ir até a padaria, porque minha irmã está esperando o pão pro café. Desculpe, tá?
- Ah, desculpe você... Obrigada!
Lucíola viu o menino afastar-se, indo em direção à esquina. Ia rápido e logo dobrava à direita, provavelmente para atingir a padaria. Continuou por mais uns dez minutos ali, tentando não reconhecer a rua como a outra em que estivera. Pensou que, se estivesse enganada, como o menino sugerira, talvez não se sentisse como louca... Poderia ir até a outra rua, encontrar a casa da vidente e achar que tudo ainda fazia sentido... Mas não... Sabia que era mesmo ali, naquela rua, no local em que só existia um terreno abandonado.
Não havia explicação... Lucíola ajeitou a bolsa no ombro e decidiu voltar pra casa. Caminhava tencionando sair da rua e, de vez em quando, estancava. Voltava a cabeça em direção ao fim da rua. Alimentava a esperança de voltar a identificar a velha construção em que estivera na consulta à vidente. Mas nada! O terreno continuava ali. Sentia uma forte dor de cabeça como se a pressionassem.
Caminhava, parava e olhava para trás. A rua era totalmente sem movimento; ela continuava andando a passos muito lentos pela via, não pela calçada e, de vez em quando, estancava. Olhava para trás... Parecia entorpecida pelas lembranças, pelo sumiço da casa, pelas palavras do menino... Aquilo tudo prendia seus pensamentos.
Já quase próxima à esquina, Lucíola deu sua última parada. Pela última vez quis olhar e confirmar que, de fato, a casa não existia. Era preciso ter a derradeira certeza. Parou. Olhou pela última vez e pareceu dizer, pra si mesma, que não havia a casa da vidente. Continuou caminhando assim, distraída, e olhando para o fundo da rua.
Neste instante, um imenso carro vermelho dobrou velozmente a esquina. Estava em velocidade muito acima do limite, parecendo decidido a não parar. No exato instante em que Lucíola finalmente voltou a cabeça para frente, num ponto em que já podia enxergar a entrada da rua, deparou-se com o carro em cima dela. Apenas pôde enxergá-lo, iluminado pelos faróis, vindo em sua direção. Não havia mais tempo para uma reação de sua parte. Espantada, com os olhos arregalados, ela permaneceu imóvel diante do veículo.
Ao mesmo tempo, o menino retornava da padaria com um embrulho na mão. Ele vira o carro dobrar a rua e percebera que Lucíola, distraída, encontrava-se de costas para o veículo que insistia em avançar. Parecia alheia a moça, olhando algo em direção ao fim da rua. Obedecendo a um instinto, assim que percebeu a cena, o garoto gritou em pânico: Cuidado com o automóvel! Saia...
Tarde demais!! Ele não tivera tempo de concluir a frase, dizendo... "Saia da rua, moça!". O carro havia se chocado contra ela, atirando seu corpo ao chão, deixando-o caído do outro lado da rua. Imediatamente o menino correu para dentro de sua casa, pretendendo chamar a irmã para socorrer a vítima. Talvez telefonassem para a ambulância ou à polícia. Antes de bater a porta de casa, ainda percebeu que o carro vermelho continuava seguindo reto, em direção ao final da rua, mas não mais em velocidade alta. Mesmo curioso e espantado quanto àquilo, achou que era mais urgente ir em busca de ajuda.
Em poucas palavras, gritando muito, agitando-se de forma descomunal, ele chamou a irmã que nada ouvira de estranho. Juntos, foram até o portão; a irmã já com o telefone sem fio na mão, digitando os números da polícia. Nem olhava para os lados, digitava e caminhava ao lado do irmão.
O moleque chegou à calçada e, repentinamente, parou, com as sobrancelhas levantadas. Não via mais o carro! Como ele teria manobrado aquele automóvel numa rua sem saída de forma tão rápida? Como poderia ter sumido?
A moça desviou por um instante o olhar do telefone, levando o fone ao ouvido, à espera da ligação. Procurou pelo corpo. Lançou os olhos em direção à rua, por toda a rua, e nada viu. Ela olhou assustada para o menino que a acompanhava e perguntou onde estava a vítima. O olhar perplexo do garoto parecia não explicar coisa alguma... Do outro lado do telefone alguém, impaciente, respondia. Ela simplesmente apertou a tecla, desligando a ligação. Os dois chegavam, neste momento, à esquina. Nenhum sinal de atropelamento. Em lugar algum. Nenhum indício de automóvel naquela rua residencial...
Segurando o irmão pelo braço, ela exigia uma explicação. Mas ele sequer conseguia falar... Pedro era um menino ajuizado, responsável, não era dado a brincadeiras ou a trotes. Ela não entendia o episódio. Mas pensou que, desta vez, o menino tivesse pregado uma peça, uma daquelas a que qualquer criança está sujeita.
O menino caminhou de volta a sua casa, ao lado da irmã, cabisbaixo. Os olhos dos dois ainda procuraram alguma pista de sangue pela calçada ou uma marca de pneu na rua... Nada!
Chegaram a casa. A moça entrou, pôs o telefone na base e voltou à cozinha. Tinha que terminar o café que acompanharia os pães que Pedro comprara. Sentado na sala, o menino relembrava o encontro com a moça, a visão ao entrar na rua, seu grito avisando sobre o atropelamento... Seria possível ter imaginado aquilo tudo? Não era um garoto de mentiras ou de fantasias. Como podia explicar o que acontecera?!
Levantou-se e foi à janela. Debruçou-se sobre o parapeito e começou a sentir um cheiro extremamente forte de enxofre. Aquele odor invadia o ar. Que era? Debruçou-se mais e não via coisa alguma que justificasse aquilo. Resolveu ir até lá fora para tentar juntar as peças. Apoiou-se na grade do portão, observando a rua. O cheiro era fortíssimo lá fora. Espantoso!
Foi aí que ele percebeu um homem, do outro lado da calçada, mais adiante à sua casa, arriado ao lado de um corpo. O carro vermelho estava parado próximo, com uma porta traseira aberta. O homem ergueu-se e carregou a mulher até o carro, colocando-a no banco traseiro. O menino tinha certeza de que o cheiro de enxofre vinha daquela direção.
Pedro não desviava o olhar, não se lembrando sequer da possibilidade de o verem ali. Viu o homem fechar a porta traseira do veículo e soltar um grunhido estranho; ergueu suas mãos, fazendo com que uma capa vermelha se mostrasse ampla e cintilante. O garoto pensava que diabo poderia ser... Mas não teve tempo de perceber mais nada. Ao mesmo tempo em que o homem abaixava os braços e a capa se fechava, tudo sumiu: o carro, o homem...
Num gesto infantil, Pedro piscou os olhos repetidas vezes, como se quisesse ter certeza de que aquilo fora mesmo verdade. Haviam desaparecido mesmo! Abriu o portão e caminhou apressadamente até a calçada do outro lado. Não havia mais vestígio algum do carro ou do homem ou do corpo da moça.
Voltando para casa, o garoto tentava arrumar os acontecimentos em sua cabeça. Quando atravessava a rua, olhou para adiante, para o local onde havia o terreno baldio... Pedro não podia acreditar no que via!! Não viu mais o terreno abandonado, de fronte ao mesmo em que vira a moça há um tempo atrás... Caminhou até ele, postando-se em frente ao terreno. Espantado, ele percebeu que, em seu lugar, havia uma modesta casa branca. Em sua porta, uma senhora bastante gorda varria a calçada enquanto sua vasta cabeleira insistia em voar...


Publicado em : Literatura - Contos, Diversos
Quote this article in website Favoured Send to friend

Comentários (0)

Nenhum comentário

Adicionar comentário

< Anterior   Próximo >