| Naquela esquina 1 |
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A noite ia caindo. As luzes dos postes se acendiam uma após a outra. As mães chamavam seus filhos, os trabalhadores corriam para suas casas. Aqueles que se arriscavam, andavam em bandos. Ninguém se arriscava pela Rua Mourão de Paula depois que escurecesse.
Era uma rua tranqüila. Fazia parte de um conjunto habitacional num bairro do subúrbio. A maioria dos moradores era composta por funcionários de uma fábrica de tecidos que funcionava próxima a localidade. A fábrica ficava relativamente perto, alguns caminhavam e cortavam caminho pelas inúmeras ruas que se interligavam, mas os outros, que dependiam da condução para ir e vir, precisavam descer nos pontos da via principal sendo que para alguns o único caminho era pela Mourão. Contudo, a rua não era o principal motivo da preocupação dos moradores, e sim um terreno abandonado num dos trechos no final quando a Mourão e uma outra rua se encontravam. Não era possível ver nada no local, apenas uma grande árvore seca que irrompia do capim alto. O que contavam era que quando o conjunto começou a ser construído, aquele terreno ficou reservado para a construção de uma área de lazer, com brinquedos para crianças e campos para prática esportiva. Porém, fatos estranhos começaram ocorrer, fatos sem explicação que contribuíram para a fama do lugar. Tudo começou com a quebra de materiais usados na obra. Depois os aparelhos motores eram danificados sistematicamente, sendo que alguns chegaram a desaparecer do canteiro de obras. Esses primeiros fatos foram atribuídos a vândalos locais o que levou a empreiteira a colocar vigias noturnos para proteção, mas as coisas complicaram quando um dos guardas sumiu durante o turno de serviço. No meio do canteiro foi encontrado apenas o boné usado pela companhia e o crachá de serviço, ambos manchados de sangue. Os desaparecimentos foram ficando mais constantes. Pelo menos uma pessoa por semana. Inquéritos foram instaurados, tanto da polícia quanto da empresa, mas os funcionários desaparecidos nunca foram encontrados assim como os culpados. Os planos para o local foram abandonados e o conjunto foi inaugurado com aquela área inacabada e logo nos primeiros dias, os moradores da rua perceberam as estranhezas quando um dos residentes sumiu misteriosamente depois de sair para por o lixo na rua depois de escurecer. Com o tempo, os moradores começaram perceber que os incidentes só aconteciam durante a noite e o mito da rua tornou proporções tanto que na entrada do conjunto uma placa avisava: “Rua Mourão de Paula. Não passe ao escurecer. Por sua conta e risco”. Gustavo Mota tinha acabado de se mudar com a família para o conjunto. O pai tinha conseguido um cargo no setor de produção da fábrica, seria uma espécie de gerente. Nem ele mesmo sabia o que faria, mas como o salário oferecido era muito superior ao do seu antigo emprego, ele não pensou duas vezes em aceitar a proposta. Era um sábado chuvoso, obrigando o rapaz a permanecer dentro de casa. Enquanto os dois funcionários da empresa de transporte corriam na chuva, carregando as inúmeras caixas e as mobílias da família, tudo ao som das ordens de Dona Kátia pedindo mais correria à medida que a chuva ia apertando. Eduardo Mota se mantinha alheio a tudo aquilo. Permanecia falando no celular, objeto carregado para cima e para baixo. Gustavo não acreditava que a pai estivesse resolvendo algum problema urgente da empresa em pleno sábado, aquilo não passava de uma manobra para não ser obrigado pela esposa a carregar coisas na chuva. Quando o caminhão rugiu ao ter seu motor ligado, foi que o verdadeiro trabalho começou. Era um abrir e fechar de caixas, colocando cada uma em seu cômodo correspondente. Eram onze da noite quando terminaram de arrumar a casa. Ainda faltavam algumas coisas pendentes, mas o cansaço se abateu sobre a família levando todos para a cama. As luzes se apagaram e a casa mergulhou no silêncio assim como a Mourão de Paula, rua que eles ainda não conheciam. Apenas uma pessoa vagava pela rua a noite. Era Germano Castro. O único que se aventurava na Mourão durante a noite, não passava de um homenzinho corpulento de 42 anos e também funcionário da fábrica. Todas as noites ele cumpria uma rotina religiosa: comprava um pacote de salgadinhos de bacon e caminhava calmamente até em casa, tendo como trecho a Mourão de Paula. Além de ser o corajoso do bairro, era conhecido por suas críticas acerca daquela crença idiota. O medo da população girava em torno do terreno, mas ninguém tinha coragem de entrar no local e por fim as histórias. Perguntado por que ele não fazia isso, a resposta estava na ponta da língua. “Porque eu já sei que tudo isso é besteira. Não preciso entrar num lugar sujo só para provar a um bando de idiotas que todas essas histórias não passam de coisas inventadas.” Germano achava graça daquele medo irracional. Ele podia entender se um ou outro especulasse sobre o assunto, mas não acreditava em como um local inteiro podia se deixar levar. Até mesmo altos funcionários da fábrica, alguns com níveis educacionais elevados, se deixavam levar quando o assunto era o terreno na Mourão. Ele balançava a cabeça. No fundo, sentia pena de todos. Durante todo o domingo, Gustavo foi obrigado a ficar em casa. Ele estava ansioso para explorar o conjunto e não via à hora de sair, mas a chuva que caia desde o dia anterior não dava trégua obrigando-o a passar o final de semana arrumando a casa com os pais. Na segunda, o tempo melhorou embora as nuvens cinzentas ainda ameaçassem, mas deu a chance de Gustavo bater perna pelo lugar onde ele ficaria por muito tempo se as previsões de seu pai dessem certo. Era período de férias escolares, mas não se via crianças na rua. Continuou andando até chegar a um trevo. No poste a placa indicava a junção da General Marmo, a rua onde ele morava, com a Mourão de Paula. O aviso escrito com tinta branca num pedaço velho de madeira, pregado logo acima da placa indicando a junção, fez Gustavo rir. Ele seguiu pela Mourão. Era uma rua larga, talvez a mais larga de todo o conjunto. As casas tinham o mesmo formato, todas com seus telhados de amianto em forma de vê, diferente da sua rua onde as casas estavam bastante modificadas com construções tanto em cima quanto dos lados das casas. Era interessante observar que o projeto arquitetônico original ainda se mantinha. Gustavo percorria a rua, sempre com seus fones no ouvido. A Mourão de Paula era uma enorme reta com quase um quilometro. Próximo ao final, chegando numa esquina para a esquerda, um terreno baldio se estendia. Seu comprimento parecia ser de quase três campos de futebol justapostos lado a lado. O mato alto impedia que ele tivesse uma visão real do terreno, mas mesmo assim ele conseguia visualizar manilhas de concreto e ferros que seriam usados em alguma construção. Contudo, o que mais chamava a atenção do rapaz era a árvore seca do terreno. Sua cor acinzentada e seus galhos finos e despidos de qualquer folha, chamavam a atenção do garoto, mas ele não sabia por quê. Alguém cutucou seu ombro e Gustavo deu um salto. Estava tão distraído observando a árvore que não percebeu a aproximação da moça que agora estava parada ao seu lado. — Nunca pensei que um terreno baldio fosse tão interessante. Gustavo estava sem jeito. Realmente ficar parado na calçado fitando um terreno cuja única paisagem é uma árvore morta e um monte de capim alto era estúpido demais. — Eu passo por aqui, às vezes meu olhar é atraído, mas nunca pensei que alguém pudesse ficar hipnotizado. – ela estendeu a mão para ele. – Me chamo Laura, moro um pouco mais para cima. – disse ela apontando na direção de onde ele tinha vindo. Ele não disse nada, apenas sorriu estupidamente. — As pessoas não são de ficar muito na rua, principalmente quando escurece. Dizem que há algo errado com esse terreno. – ela olhou sombriamente do terreno para Gustavo. – Dizem que as pessoas somem aí dentro. Não sei o quanto dessa história é verdade, mas não quero me arriscar. Quando vi você parado, pensei que ainda não soubesse desse conto. — Eu mudei no sábado. – disse finalmente. – Sou Gustavo. – ele estendeu a mão para ela num gesto tão estúpido que arrancou um sorriso gracioso da moça. – Isso mais parece conto para crianças, igual àquela tábua lá no trevo. — Como eu disse, não sei o quanto dessa história é real, mas uma coisa eu posso lhe garantir que muitos moradores daqui nunca mais foram encontrados depois de passar pela Mourão depois de escurecer. Alguém gritou o nome da moça. Um homem de óculos estava parado em frente a uma casa azul clara. — É meu pai, eu preciso ir. Ela sorriu novamente para ele e caminhou rapidamente para junto do pai que ainda lançou um olhar desconfiado para Gustavo. O rapaz parado na rua não conseguia assimilar que em plena era da informática, as pessoas acreditavam naquele tipo de história. Uma chuva fina começava a cair fazendo o rapaz interromper seu passeio. Ele ficou observando Laura até ela entrar em casa. O pai dela parecia invocado, talvez por parar na rua com um estranho. Ele olhou novamente para o terreno e sorriu, só faltava mesmo a história do terreno assombrado para sua coleção de contos bizarros ficar completa. O restante da segunda transcorreu da mesma forma que o domingo anterior. Desde a hora que Gustavo voltou do passeio até a noite, a chuva não dera trégua. Por volta das onze da noite, a casa da família Mota estava novamente escura assim como a maioria das casas do conjunto.
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