ÉDI E OS AMIGOS Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por GERALDO JOSÉ COSTA JUNIOR, em 19-08-2008 18:26
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Não faz muito tempo, encontrei no bolso da calça do meu filho uma carta de amor dirigida a ele por uma jovem supostamente apaixonada. Li rapidamente aquela meia dúzia de linhas que falavam de amor com sinceridade e esperança.
Inevitável para mim foi lembrar-me de um fato ocorrido, quando, ainda adolescente.
Eu tinha 15 anos. Apenas estudava, o que para um jovem dessa idade, acostumado ao conforto e comodidade proporcionado por seus pais já era muito. Amigos, de verdade, eu tinha apenas dois: Aliás, desde que me dei por gente sempre foi assim: desconfiado de tudo e de todos, o que me impedia de ser o que Dª Rita, nossa inesquecível professora do ensino básico chamava de: extrovertido e simpático. Eu tinha, como até hoje tenho, dificuldade de me relacionar com as pessoas, prefiro os animais, porque eles apenas escutam minhas ofensas e besteiras, sem contestar. É muito mais cômodo e menos constrangedor. Pra ser sincero, acho que minha vida não interessa a ninguém, e a vida de quem quer que seja também não interessa a mim. Sou do tipo intratável. Portanto, estou quite com tudo e com todos, e desse modo, posso viver no meu mundo, na redoma de vidro que para mim criei, onde me escondo e vivo, com meus gostos, manias, idéias, e opiniões sobre as coisas.
Naquela manhã, teríamos a primeira aula com a nova professora de Português. Por uma dessas inaceitáveis razões que a vida nos impõe, a senhorita Mattos havia se transferido de escola, levando consigo os seus conhecimentos de Anatomia... Digo, de Português, é claro. Ficariam para nós, ex-alunos, a lembrança do perfume dos seus cabelos, a doçura da sua voz, o encanto do seu olhar e a beleza incomparável do seu sorriso. Doce e desejada Srta. Mattos! Andréia Mattos. Hoje, por onde andará?
Tocara a campainha anunciando o final da aula da perversa e detestável Senhora Matemática ministrada pelo não menos detestável Professor Mandrake, opa, quero dizer, Rossini. Ângelo Rossini, que de italiano só tinha o nome e o nariz. Também as costas largas, o peito estufado, a calvície proeminente, as grossas sobrancelhas, os lábios carnudos, as mãos peludas...
Tá bom vai, era de fato um genuíno italiano, mas antes que essa sempre desagradável lembrança tome conta de minha mente perturbada e eu acabe cometendo besteira, como, por exemplo, descobrir onde mora aquele sujeito e lhe explodir a casa, com ele dentro, e dormindo, de preferência, é claro... Ora, valha-me, Deus, até hoje esse homem me atormenta. Bem, à parte a lembrança desse infeliz carrancudo, sempre mal humorado, incapaz dum sorriso, mais frio e insensível que os números, tão abominável quanto os problemas e equações que tentava em vão nos ensinar a resolver, esse sujeito que meu amigo Ricardo, no alto de sua erudita enciclopédia falante, denominaria sim um verdadeiro Leão da Matemática, devo dizer antes de tudo que, naquela manhã, no intervalo entre uma aula e outra, eu e meus companheiros de classe, abandonamos nossas carteiras rabiscadas - tão zelosamente cuidada por Seu Mário, o zelador - e corremos até a porta, para, ansiosos, disputarmos o privilégio de dar o primeiro "Bom Dia!" à nova professora que, imaginávamos cheios de esperança, seria tão linda quanto a Srta. Mattos.
Desse modo, entre empurrões, tapas e sopapos, eu e mais cinco ou seis companheiros de classe nos engalfinhamos até que, num dado momento, William, um dos nossos, exclamou: "Vejam!".
E lá estava ela, alvo dos nossos olhares ansiosos, vindo com postura impecável e andar solene pelo imenso corredor de ladrilhos vermelhos, em direção à nossa sala de aula. O corpo, sim, era esbelto. E os cabelos, embora curtos, bonitos. Usava uns óculos de sol. Quando bem perto, reparamos com preocupação que a bonitona vestia meia-calça. E quando mais perto ainda, ela tirou finalmente os óculos, revelando os olhos amendoados e introspectivos que se perdeu em nós demoradamente:
"Bom dia, rapazes!" - disse ela, ao que respondemos sem nenhuma empolgação.
"Cara, daria pra ser minha tia" - disse William, desapontado.
"Ora, não é para tanto".
"Quê?! A mulher dever ter uns 40 anos".
"Sim, e daí? - respondi - Imagine o que não poderia nos ensinar".
"Uma mulher de 40 anos? Talvez nos ensine a limpar janelas, lavar pratos e passar roupas".
Tive a impressão de que a nova professora, enquanto arrumava suas coisas sobre a mesa, bem escutara nossas colocações. Entretanto, no auge de sua experiência fingiu ignorar. Talvez porque acreditasse saber lidar com adolescentes rebeldes utilizando-se daquilo que minha mãe sempre recorria para nos educar e convencer: a psicologia. Mas, em última instância: uns bons pés d'ouvidos.
As meninas da classe, sempre comportadinhas, adoraram a Sra. Telles. A nossa nova professora, depois viemos saber, chamava-se Olga Telles. E dois eram os motivos pelos quais as meninas logo se identificaram com a nova professora: sua simpatia e seus 40 e poucos anos. O que, em outras palavras, significava que estava a salvo o cinema dos sábados à tarde na companhia dos meninos da classe. O que nos tempos da Srta. Mattos seria algo inimaginável por motivos óbvios. Doce e até hoje inesquecível Srta. Mattos. Para mim, simplesmente, Andréia. Mas na salinha do cinema ou no banheiro lá de casa, perdido em sonhos e devaneios, apenas: Déinha.


Publicado em : Literatura - Contos, Diversos
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Comentários (3)
Postado em SANTOSH, em 25-12-2008 23:13, , Membro Registado
Ah! profa. Patrícia, quanta saudade das aulas de educação física - eram de tirar o fôlego!
 
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Postado em Catucha, em 23-08-2008 19:05, , Membro Registado
Olá amigo, adorei ler o seu conto. Me transportei para o tempo do grupo escolar onde, no pátio, meninos ficavam de um lado e as meninas do outro. 
Muito show estas lembranças. Parabéns. Um abraço.
 
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Postado em Fátima, em 21-08-2008 21:41, , Membro Registado
Adorei Menino levado! Já não se fazem professoras como antigamente rsrsrsss... Bjim
 
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