| Escrito por Allan Pitz, em 18-08-2008 17:36 |
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E lá, no seu Mundinho capenga onde tudo eram flores, Alaor foi aclamado Rei. Tinha amigos, era influente, e imaginem vocês; o Rei de Patavinas detinha o amor irrestrito de seus súditos!
Naquele Reino triste, pequeno, onde seres incríveis pensavam coisas maravilhosas que nenhum mortal jamais poderia pensar por pobres pestanas cerebrais, o povo não tinha água encanada, nem mesmo um riacho, um lago. Viviam a esperar pelos tonéis benditos que o rei mandava, entre sorrisos lacrimais e sonetos cínicos. Todavia o Rei era amado. Isso era visível e inquestionável, inda mais quando a água chegava! - Viva o bondoso Rei! Deus lhe pague, oh alteza inigualável! E a felicidade costumava ser tanta, que ninguém perguntava a origem da água que enchia os tonéis, nem quando percebiam que uns levavam tonéis maiores, ao tempo que outros recebiam baldes miseráveis.
Só havia beleza em Patavinas, só havia inteligência, perfeição, harmonia; no que viesse do Rei e de seus súditos. No lado de fora balbuciavam os porcos irracionais, transformados assim, pelo povo limpo demais. O sabão dos suínos poderia sujar a moralidade contornável, e a falsa lisura de uma terra abençoada por algum Deus, decerto, tão perfeito quanto à perfeição do inteligentíssimo povo seco.
Numa primavera que entraria para história, algum dos porcos renegados conseguiu pular a muralha Real, e adentrou o bosque secreto de Patavinas onde só circulavam o Rei e seus pajens. O porco achou uma pequena fonte de água mineral, escondida por uma pedreira erguida humanamente, estando ali por mero intuito de esconder do povo a água que brotava ao alcance das mãos, em quantidade suficiente para manter o abastecimento do Reino. O suíno desmoralizado pelos irmãos patavinianos, correu para avisá-los sobre a fonte de água mineral, esquecendo qualquer pensamento de vingança que antes havia lhe percorrido o cinzento. Avistou os esnobes habitantes e contou aos berros tudo que viu no bosque secreto, disse ainda que burros e porcos, eram eles, por se vangloriarem com tão pouco, e se contentarem a receber doses racionadas do próprio bem natural, enviado pela natureza Mor. A água não podia ser de ninguém, senão dos irmãos de terra que brotaram do mesmo lugar. Revoltados, os habitantes de Patavinas invadiram o castelo, e quebraram as muralhas que cercavam a vida naquela terra. Afogaram o sorriso desconexo do Rei Alaor, que escondia a água; mas só queria ser amado.
E assim ele iludiu os coitados, mostrou-lhes a força que muitos não tinham, deu baldes a quem merecia tonéis. Apontou os porcos, os sujos, ganhou seus adoradores... Seu reino de criaturas e criador. Mas, ele só queria ser amado... E talvez, a água fosse tudo que ele possuísse de precioso naquelas terras secas a ponto de impressionar o povo, de seduzi-lo, mesmo que a privação penosa o matasse. Mas, ele só queria ser amado...
Por isso eu vos afirmo: Ao adentrarem num reino, onde os esnobes lhe apontarem como porco, como inferior, ou abaixo de outro irmão de carne e osso criado pelo mesmo Deus, e dotado de força como você; fuja do reino!
Existem outros Reis, com outras opiniões e razões, que talvez não necessitem de tanto amor felpudo e forçado para inflar-lhes o ego, e que também não mantenham seu povo seco e iludido. Em algum lugar da jornada estará o seu lugar; o seu valor. Lute por seu reino, ignore os baldes de água e os porcos esnobes. Somos filhos da mesma Terra, compostos da mesma matéria. O resto é vontade humana. Vontade humana.
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