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| A lição de Ricardo e Emanuel em Pequim |
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Antes de explorar o tema sugerido, permita-me uma breve introdução que dará o tom desse artigo.
Existe uma cultura no Brasil que deve ser, definitivamente, extirpada. Algumas máximas e discussões se tornaram verdade neste país e perseguem cotidianamente o brasileiro. "No Brasil é proibido pensar em lucro. É pecado obter lucro" "Rouba, mas faz" "Estupra, mas não mata" "Dos males, o menor" "Eu não imagina chegar até aqui, portanto, está de bom tamanho" É a cultura da mediocridade, do conformismo. E essa tradição está intrínseca no pensar inconsciente ou não dos nossos atletas. Amarelamos nos momentos mais cruciais, na hora da decisão. Tentarei, agora, contextualizar o descrito acima na atitude de nossos atletas em Pequim. Independentemente se Ricardo e Emanuel vão ganhar a medalha de ouro (eu ainda acredito que sim), a dupla deu uma lição de comportamento na vitória (2 x 1) contra os russos Barsouk e Kolodinsky, que chegaram a ter 20-18 no segundo set e dois pontos à frente no meio do tie-break (terceiro set de 15 pontos). A dupla brasileira demonstrou personalidade e frieza. Não amarelou. Maturidade e frieza diferem os atletas de ponta dos atletas esforçados. São esses dois adjetivos que faltam em muitos de nossos atletas. Os ginastas brasileiros afinaram, perderam, mas agora impõe o discurso de que essa foi a melhor colocação individual e por equipe já alcançada pelo Brasil. Sim, foi mesmo. Mas "dos males, o menor"? Ricardo e Emanuel não mudaram o estilo de jogo quando estavam atrás no placar. Eles mantiveram a cabeça no lugar. "Jogaram o jogo". Buscaram os pontos como grandes campeões que são. Agora, na semifinal, enfrentam seus rivais, Gibb e Rosenthal, que já ganharam quatro dos seis jogos contra a dupla brasileira. Mas Ricardo e Emanuel têm estrutura, estão sempre fora do país, ganham bons prêmios (R$). E os ginastas do Brasil também não usufruem disso tudo? Essa não é uma crítica ao indivíduo (ao atleta em si), mas à cultura de um país que faz com que a estima de seus atletas não consiga obter "lucratividade". Ela (estima) está sempre no vermelho. Confesso... ao ver o placar do jogo de Ricardo e Emanuel, pensei: Ferrou! É, eu faço parte desse sistema medíocre, desse país em que uma empresa, uma pessoa, não pode ser feliz bonita, inteligente e rica. Olha só que belo exemplo também tem nos deixado as meninas do futebol. Vai dizer que ao saber que as grandes alemãs - a equipe brasileira jamais havia derrotado a Alemanha no futebol feminino -, ao fazerem o primeiro gol logo no começo da partida, não te deu aquela sensação: É...mais uma vez a Alemanha tirou a chance do Brasil. A partida tem que ter um vencedor, claro. Mas a Alemanha não tira a chance de ninguém, é você, é o Brasil que perde a oportunidade de ser feliz. Mas não dessa vez. As meninas levantaram a cabeça, "jogaram o jogo" e deram um chocolate. Venceram por 4 x 1 e vão disputar o ouro. Marily dos Santos, estreante nos Jogos Olímpicos, chegou na 51ª colocação da Maratona. Para ela foi pura emoção participar dos jogos. "Eu corri emocionada o tempo todo", disse. Lindo o discurso da ex-trabalhadora rural. Mas correr 42 km emocionada? Olha aí o "Eu não imagina chegar até aqui, portanto, está de bom tamanho". Enfim... essa cultura do medíocre está enraizada em países que sofrem financeiramente. Veja o exemplo do jamaicano Usain Bolt, que correu pra vencer e levar o ouro, não para entrar para a história baixando ainda mais o próprio recorde mundial. "Ainda tenho muito tempo para quebrar o recorde mundial", disse. Mas será que ele ainda realmente tem muito tempo? Ele não está contando com lesões ou qualquer outra situação adversa, tão comum entre atletas de ponta? Ok! Ao refletir sobre isso no final de semana e transcrever para o papel eu fui, em todo o momento, frio e calculista. Pensei sempre na vitória, no podium, no "lucro". Pensei, pelo menos uma vez, em quebrar minha própria cultura, não em detrimento de meus princípios ou puxando o tapete de outros, mas de maneira limpa. Eu estou limpo, enfrento qualquer exame antidoping para provar.
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