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| Palavras: favila, estuar. Texto final: Encantamento fátuo. |
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Favila. Uma palavra de grafia e fonética bem bonitas, mas com muito pouca probabilidade de uso, pois, desconhecida, não constrói nenhum. Reciclá-la teria de ser usando-a de uma forma que o contexto construa o seu sentido na mente do leitor. Presente no romantismo de Gonçalves Dias, está no dicionário de dificuldades sem citação do uso, como brasa, fagulha. Não é encontrada no dicionário de Raphael Bluteau, mas aparece no António de Morais Silva, [1] que é sua continuação, significando chispa, centelha, faísca: se o espírito do homem volvesse como uma favila ao fogo universal depois de ter volteado nos espaços. (Latino Coelho, A Oração da Corsa) Neste sentido é de origem latina, [2] podendo significar também “cinza”, mostrando como as palavras não tem sentido fixo, podendo chegar a representar a coisa e o seu contrário (centelha-cinza), o que torna seu uso difícil. A palavra é freqüente na literatura desde priscas eras, mais como nome próprio masculino ou feminino, quando tem origem germânica, [3] que Cândido Jucá registra Fávila. Usou-a Gonçalves Dias, [3] Ser por um raio abrasado Ou por ignóbil favila? É sempre ardor, sempre fogo, Sempre d'incêndio o clarão, Sempre o amor que estua e ferve como um gigante vulcão”, e, recentemente, Mansueto Bernardi, [4] “a morte o consagrou de um inocente, – pássaro implume, efêmera favila, em que o campo semântico se cruza com o de morte, perda do fogo da vida. Manuel de Oliveira Paiva [5] mostra como uma palavra deslocada de seu campo semântico dificulta a recuperação de um sentido presente na Língua, ao mesmo tempo em que demonstra como o uso pode modificar este sentido: quem edifica é o pequeno burguês. O grande possui a favila do capital. Não constrói, nem planta. Abocanha depois com a hipoteca. O contexto faz favila circular levemente no campo de fome, apetite, mas esta frase de Manuel de Oliveira Paiva [5] demonstra a capacidade sintética da mente. A idéia de fogo está imbricada nas palavras usadas, o grande abocanha o que o pequeno constrói por meio de uma hipoteca, da mesma forma como um incêndio o faria, sugerindo um capitalismo selvagem, nada restando ao pequeno. Os todos significados possíveis das palavras se juntam na mente de forma maravilhosa, pois incêndio, no final das contas, é causado por um fogo com grande apetite, muita fome. Pode o autor da frase tê-la trabalhado a partir de outra de menor valor literário por ele emitida em contraposição a poder tê-la escrito já em sua forma final, o que tudo na mesma conta dá: só se pode retirar o material que guardamos na mente mediante a internalização de regras de como usá-lo, que se tornam “inconscientes”. O exemplo mais simples é a língua do pê: se não treinar não se consegue entender nem falar, e quanto mais treino, mais fácil com ela se comunicar, e quanto mais rapidamente falada, menos entendida por não usuários ou mesmo por usuários mais lentos, p-en-p-ten-p-de-p-ram?
Como se vê, “favila” está jogada às traças, encontradas que foram poucas citações de uso. Seria fácilmente achada se, por exemplo, na poesia que se tornou de versos livres, o poeta precisasse encontar palavras que expressassem sua emoção em métrica, embora ainda seja útil pesquisar palavras para se conseguir um ritmo almejado. Contudo, reciclar palavras de tão pouco uso deve ser de forma a ajudar o leitor a construir um sentido em sua mente, para depois o ler com facilidade, sem necessidade de consultar dicionários, significando, portanto, não haver necessidade de se ter um sentido claro e definido, sendo uma forma positiva de se usar o encantamento pela palavra. Esta construção de sentido na mente do leitor está acima feita, mas de forma não literária, e, no texto com que se ilustra a coluna, esta construção está no título, a partir de fátuo, cujo sentido aqui não se debulha, pois não se conta final de filme a quem vai assisti-lo. Apareceu no texto priscas. Merece um estudo particular, pois quase que se registra apenas referência aos primórdios da história da humanidade, podendo ter outros usos interessantes. Gonçalves Dias usou uma palavra pouco freqüente “estuar”: estar muito quente, efervescente; ferver; fervilhar; agitar-se em ondas (o mar). [6] A pesquisa de estuar produz 612 citações, das quais, entre as 100 primeiras, 59 são de textos não literários, embora relacionados (dicionários, teses, etc.), indicando um uso médio. Encantamento fátuo Vejo-te e teus olhos aos meus se prendem. Fascinados, nossos olhos escondemos, vagando-os no ar musicado do ambiente e os pousamos, olhos nos olhos, nova mente. Será minha a tristeza que te encanta? Percebes. As favilas de teu olhar me ascendem e beijo o sorriso de teus lábios com o sorriso dos meus. 1. António de Morais Silva, Grande dicionário da língua portuguesa, 1949 2. Antenor Nascentes, Dicionário etimológico da língua portuguesa, 1932 3. Antônio Gonçalves Dias, Poesia completa e prosa escolhida, 1959 4. Mansueto Bernardi, 1 Terra convalescente, 1980 5. Manuel de Oliveira Paiva A afilhada, in Obra Completa. Rio de Janeiro: Graphia, 1993. 6. Joaquim Garcia, Grande enciclopédia portuguesa e brasileira, 1936. (referências de Google Pesquisa de livros)
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