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Escrito por Nicole Sigaud, em 11-08-2008 15:05
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Por perene que fosse sua tristeza, jamais deixava que esta lhe causasse mais dor do que o estritamente necessário para exercer sua tarefa de observar o céu dia após dia, procurando o sinal que anunciaria o fim do mundo. Sim, o cometa viria como bola de fogo purificadora, levaria as almas dos ímpios e deixaria reinando sobre a terra os puros de coração e os beatos. Acreditava tão firmemente nesse futuro que chegava a se perguntar se sua obstinação não era pecaminosa tanto quanto a lassidão da vontade.

Tendo seu quinhão de responsabilidade, estava satisfeito. Achava no íntimo de seu ser que sua tarefa, tão importante quanto monótona, era dulcíssima se comparada à do prior, incumbido de anotar em um livro de páginas imensas os nomes de todos nas aldeias vizinhas, para que não se perdessem quando chegassem os dias de escuridão.

A idéia desse homem de boa vontade mas de inacreditável tolice era de chamar pelo nome todos os habitantes dessas pequenas comunidades, arrebanhando essas almas simples para levá-las à catedral do ducado sem que se perdessem e ficassem expostas às artimanhas do demônio e seus exércitos. Nobre missão auto-imposta que lhe surgira como revelação em um sonho e festejada pelo bispo. Assim ocupado, esse franciscano de poucas luzes não faria oposição aos desmandos e medidas políticas do bispado de Rouen. Que os dominicanos o vigiassem: a disputa entre as duas ordens era acirrada o suficiente para que o abade aceitasse de bom grado ocupar seus dias na miserável tarefa de espionar e anotar com minúcias rebuscadas as vidas pequenas dos monges em vias de enlouquecer de medo perante o fim iminente do mundo anunciado pelo seu superior.

Homens, mulheres e crianças tinham seus nomes escritos com cuidado pelo prior, não sem certa dificuldade, já que todos os aldeãos eram analfabetos como soeria ao populacho e pronunciando seus sobrenomes de maneira deplorável aos ouvidos do clérigo. Depois de tantos anos naquela região ainda não se acostumara ao sotaque carregado da Provença, mas mesmo assim escrevia da maneira mais plausível aos seus olhos aqueles nomes que por vezes pareciam prenúncios de escarros ou passeios grosseiros de língua pela boca como o fazem os bêbados e os enforcados.

À noite, fechados em seus claustros, os pequenso franciscanos oravam e tremiam de frio e medo. Jamais as paredes de pedra lhes pareceram tão frágeis diante do hálito destrutivo do demônio. Os vapores exalados pelas suas bocas lhes assombravma como fantasmas; tudo era motivo de sobressalto durante a escuridão noturna. Que grande alívio eram os repiques do sino das orações da Matina! Viam-se vivos e ainda no seio de Deus, tendo sobrevivido a mais uma noite de horrores do inferno que se avizinhava.

Assim passaram os monges seus anos de claustro e absoluta e pia inação. Com braços e pernas de manteiga andavam pouco e muito rezavam da boca para fora, em movimentos labiais feitos por inércia enquanto o resto do corpo dormitava e o cérebro se ausentava em um vácuo reconfortante. Enquanto isso, o monge da torre observava, dando-se ao trabalho de auscultar o vento igualmente, possível portador de cheiros e sons alarmantes. Observava o céu tingir-se de matizes do azul ao branco purissimo do Outono; não se furtava igualmente a observar os céus furiosos nas tempestades do verão e a claridade impudica da primavera, com o céu despido de sua roupagem. Pensava por vezes no pecado da aeromancia e o agoureiros proscritos pelo Deuteronômio. Temia cair nesse equívoco insuflado pelos demônios da antiga Babilônia!

No dia de Santa Matilde viu no espaço celeste as luzes anunciando o fim. Maravilhara-se diante da profusão caprichosa de vultos coloridos, correndo a esmo pelo céu. Halos luminosos circundavam as poucas nuvens e pequenos vultos negros bailavam diante de seus olhos imensamente abertos. Mal conseguia lembrar-se de pegar a corda da pequena sineta que havia sido colocada a seu lado para ser usada no caso dessa emergência. Ainda olhando boquiaberto para o céu e suas revoluções irisadas, tateou com a mão até encontrar a corda da sineta e puxá-la quase frouxamente. Ao som do primeiro repique agudo deste arauto de bronze o mosteiro caiu de joelhos, chorando de medo e confessando em grupo seus pecadilhos insossos, sem ousar olhar o prodígio que o monge da torre via se desenrolar acima da terra.

A cada nova aparição de cores volantes um novo repique. Isso doía no peito do pequenos monges como dardos. Os sons começavam a se tornar cada vez mais freqüentes até a sucessão desabalada de sons da sineta santa. O bom monge da torre não ousava desviar seu olhar do céu. Sua curiosidade havia chegado aos níveis máximos e queria a todo custo ver o que viria no segundo seguinte. Por algumas horas teve a visão do fim dos tempos, belíssima, majestosa, tão bela que dava pena pelo que representava. Ao fim dessas horas o som da sineta se calou; o monge da torre nada mais via que não a escuridão densa de seus olhos já destituídos de função.

Os pequenos monges do monastério, perplexos, enterolhavam-se e tocavam-se mutuamente para certificarem-se de que ainda não haviam sido tragados pelo Juízo Final. Entre a desolação e a descrença de seus próprios sentidos, ao fim desse dia calaram-se quanto ao ocorrido, sentindo-se de certa forma traídos por ainda viverem. Desejavam ardentemente não sentir mais o frio cortante das manhãs nem a fome a que eram impostos pelos parcos recursos da despensa. Alguns julgaram-se condenados, uma vez que, chegada a hora do fim dos tempos, não havam sido levados, esquecidos talvez por seus pecados e suas poucas orações diárias.

Um clima de desesperança tomou conta do monastério. Estavam isolados, supunham. Se todos haviam morrido, não haveria quem cultivasse os campos para dar-lhes o dízimo. Abatidos e sem idéia do porvir, foram aconselhados pelo prior a descerem do monte onde estavam encarapitados e pegarem em ferramentas; teriam que lavrar a terra seguindo o exemplo de Adão. Horrorizados diante dessa idéia de trabalho braçal, resignaram-se e abriram as pesadas portas do mosteiro e saíram daquele perímetro que lhes servira de refúgio da alma por tantos anos. Lá fora estava tudo como sempre: os animais, os camponeses, as pedras e as árvores. Que fim de mundo era esse, afinal?

Não sem uma pontada de descrença, chegaram à conclusão de que houve um terrível engano. O prior, por sua vez, recolheu-se em seu claustro, coberto de vergonha. Os pequenos monges, crédulos cordeiros e de igual matéria que os camponeses, passaram do estupor à raiva. Correram para a torre daquele embusteiro e o emparedaram lá mesmo. Esse castigo era comum e bastante conveniente, por reter dentro daquela prisão os odores e os gritos dos supliciados. Em poucos dias esse monge da torre nada mais era que uma lembrança amarga que era enxotada das cabeças como uma mosca inconveniente.

Alheio à continuidade do mundo intacto e de seu emparedamento, sua fotopsia lhe bastava: havia terminado seu trabalho de tantos anos observando a chegada do fim do mundo. Poderia, finalmente, dar seu tempo sobre esse vale de lágrimas por terminado e morrer, ao que julgava, em odor de santidade. Mesmo cego, resignou-se a manter dentro de si as maravilhas que presenciara como tesouro.

No dia seguinte à sua morte, que deu-se aos 17 de abril de 1145, um outro monge, longe dali, descreveu em seu Livro de Salmos de Eadwine (Canterbury) com uma pequena ilustração, aos pés do salmo quinto, o que vira atravessando a abóbada celeste. O mesmo cometa que, anos antes, dava sopros de ânimo a William, o Conquistador, para sua empreitada em Hastings.


Publicado em : Literatura - Contos, Ficção
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Comentários (1)
Postado em bert, em 22-08-2008 14:28, , Membro Registado
Me evocou "O Nome da Rosa"...muito bom. Desculpe-me mas quando acessei teu site foi por tua foto, e agora vejo que o conteúdo corresponde.
 
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