| IGNIUS (8) - Aleathor |
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O Diário de Atlan – 7 A 4ª abordagem Se eu tivesse adoptado outra atitude ao escrever estes apontamentos neste “diário” de abordagens (ou tentativas) de consumar a minha própria transmutação física e espiritual possivelmente não incluiria aqui a descrição da 4ª abordagem. Talvez porque tivesse receio de que alguém as lesse e ficasse chocdor. Talvez porque nesta abordagem vieram à superfície as deformações escondidas na nossa psique. Aqui, com fenómenos de paranormal, misturam-se fenómenos provocados por perturbações psíquicas e a sua distinção nem sempre é evidente. Porém, como a atitude que adoptei é de inteira transparência, descrevo-a e faço-o com mais pormenor para permitir uma melhor análise. Penso que só com transparência é possível realizar um estudo sério, profundo e completo. Após a terceira abordagem, outra vez se estendeu um período depressivo e de pouca energia. Tudo voltava à normalidade ou, mais propriamente, a uma realidade ainda inferior à realidade comum. A frustração de ter caído do estado superior de ser e já não possuir as minhas capacidades paranormais nem a poderosa energia interior que estava aliada a uma grande lucidez, inteligência e sensação de bem-estar puxava-me, cada vez mais, para baixo. Ainda tentei resistir a esta tendência dedicando-me a actividades profissionais. Mas os meus esforços não eram bem sucedidos e os resultados eram desencorajadores. Por fim, a firma da qual eu era colaborador e onde trabalhava em informática, resolveu mudar de ramo. Propuseram-me sociedade no novo tipo de negócio a que se iriam dedicar porém, quando me apercebi que a nova actividade não estava de acordo com os meus princípios éticos, resolvi rejeitar a proposta. A partir daí criaram-me diversos problemas e acabei por me retirar sem nada ter ganho depois de tanto trabalho e tempo perdido. Passou-se um longo período de quase prostração e desânimo. Finalmente, comecei a tentar fazer algo para mudar a minha situação geral. Iniciei uma pequena actividade profissional que progredia muito lentamente. Apesar da sua dimensão e ganhos reduzidos foi importante para mim porque criou-me esperanças numa situação melhor e, ao manter-me entretido, começou a arrancar-me ao marasmo em que me encontrava. O trabalho livre, criativo e sossegado era uma coisa saudável e a pouco e pouco comecei a sentir que voltava a viver. Neste período, comprei um pequeno livro que fortaleceu a minha ténue esperança e a minha, ainda muito débil, autoconfiança. Chamava-se “As leis espirituais do sucesso” de Deepak Chopra. Um capítulo que chamou a minha particular atenção referia-se a que devemos estar atentos e prontos a identificar e aproveitar uma oportunidade para atingir os nossos fins porque essa oportunidade surgiria, mais cedo ou mais tarde. Por algum motivo acreditei que assim fosse e tornei-me vigilante e sensível a tudo o que pudesse representar uma oportunidade. Incrivelmente essa oportunidade surgiu. Não me bateu à porta mas entrou pela minha caixa de correio. O teor da carta que recebi, normalmente me teria passado despercebido e tê-la-ia rejeitado. Porém, como estava atento vi nela uma oportunidade ou transformei-a em tal. O resultado traduziu-se em ganhar uma quantia considerável de dinheiro que investi na criação de um escritório dedicado à prestação de serviços na Internet. Correspondia a uma ideia que me surgira há algum tempo atrás mas que não pudera pôr em prática por falta de capital. Tudo parecia estar a correr bem; pelo menos no plano profissional. “O resto se seguiria”, pensava eu. De facto, há muito que sentia a falta de amor na minha vida. A ausência de alguém por quem sentisse uma forte ligação já se estendia por longo tempo. Acredito que toda essa grande carência no plano afectivo tenha contribuído para um desequilíbrio interno cada vez maior. Para além de que, esta abordagem foi fortemente afectada pela perda de um companheiro inseparável de há vários anos – Prince, um lobo da Sibéria. Talvez por isso, este período foi caracterizado por grandes distúrbios psicológicos. Para permitir uma análise mais profunda relatarei esta abordagem com mais pormenor. Outra das razões para estas anomalias psíquicas poderá estar relacionada com a limpeza kundalínica, isto é, em estados de alta energia, todas as pequenas deformações e vicissitudes latentes do nosso ego tendem a vir à superfície, precisamente para poderem ser identificadas e, posteriormente, limpas. Kundalini é uma palavra sânscrita (antiga língua da Índia) que significa energia espiral. Esta é uma força evolutiva individual cujo reservatório se situa na base da coluna onde jaz enrolada. Através do despertar desta energia os iogues tântricos despertam os poderes de divindade adormecidos ou latentes dentro de si, personificados pela deusa adormecida Kundalini. A Kundalini é por vezes designada por shakti – centelha divina de força vital. Daí, a origem do Shakti Ioga, o ioga do controlo da energia. A sua libertação é, normalmente, pela coluna acima até ao alto da cabeça e para fora, através do que se designa por chakra coronário (ou da coroa). Chakra também é uma palavra sânscrita que significa “roda” e se refere aos diversos vórtices ou redemoinhos de energia existentes no nosso corpo etérico. Segundo Genevieve Paulson, especialista nesta matéria, um indivíduo que tenha desenvolvido a sua kundalini de uma forma integral poderá possuir dotes paranormais excepcionais, uma grande consciência espiritual e ser considerado um génio ou um quase-deus. Por outro lado, pessoas cuja Kundalini se manifestava sem o seu conhecimento e que relatavam os seus sintomas aos outros eram, geralmente, consideradas malucas. Se na sua subida, o fluxo kundalínico for impedido por padrões energéticos impróprios, por negatividade, ou por um corpo não preparado ou limpo, poderá abater-se alguns dias mais tarde, reiniciando, lenta e dolorosamente, a sua ascensão ao longo do corpo, limpando-o e purificando-o à medida que sobe. Este processo pode provocar perturbações físicas, emocionais ou mentais. Os bloqueios de energia são causados por atitudes ou sentimentos recalcados ou por antigas cicatrizes emocionais ou mentais. Havia vários nódulos na minha personalidade que nunca haviam sido dissolvidos porque eram quase imperceptíveis, principalmente para mim que estava acostumado a viver há muito com eles. Refiro-me a pequenos medos ou fobias, manias, complexos e, sobretudo, a certos conceitos míticos que criamos, por vezes, para darmos uma explicação, a nós próprios, para a ocorrência de determinados acontecimentos ou fenómenos que nos impressionaram. Um exemplo simples: quando muitas coisas seguidas correm mal pode, em muitos de nós, surgir a ideia de que “parece que está tudo contra nós” ou, ainda pior, de que “existe um complôt contra nós”. Numa situação agravada (como iremos ver) estas impressões subjacentes podem transformar-se em mania de perseguição ou paranóia. Outro exemplo: quando observamos, numa pessoa, determinados comportamentos que não compreendemos e reprovamos, podemos sofrer a tendência de a classificar como uma pessoa má, como se pertencesse a uma outra espécie diferente da nossa. Estes conceitos míticos não têm qualquer base lógica ou fundamentada e, no entanto, jazem fortemente enraizados debaixo da superfície da nossa mente e são preponderantes no mecanismo de criação e escolha dos nossos sistemas de crenças e convicções. São mais impressões do que conceitos porque têm uma forte carga emocional. Baseiam-se muitas vezes apenas no que se ouviu dizer, na mitologia ou em fragmentos da nossa cultura maniqueísta gravemente afectada pelo dualismo do bem e do mal (penso que também possam estar relacionadas com o funcionamento de estratos cerebrais mais primitivos, muito ligados ao instinto de sobrevivência, pautado pelo “aproxima-te ou afasta-te de algo, porque isso é bom ou mau para a tua preservação”). Essas pequenas deformações psíquicas que todos temos nunca se tinham evidenciado muito em mim e, desse modo, porque não pareciam prejudicar-me grandemente, eram um fardo que eu transportava ao longo dos anos. Mas, como mais tarde viria a constatar, essas pequenas anomalias psíquicas tornar-se-iam altamente prejudiciais em momentos de crise. Após a entrada em funcionamento do meu escritório a minha passagem a um nível de energia superior ocorreu de modo quase imperceptível. Possivelmente foi devido ao entusiasmo e à alegria que começava a sentir face às perspectivas animadoras da minha nova actividade. Assim, quando me apercebi, constatei que já tinha entrado num estado correspondente ao limiar, ou aos primeiros patamares do percurso ascendente: maior energia, maior lucidez e inteligência, sensação de poder e de bem-estar e pouca necessidade de sono e de descanso. Veio ainda potenciar este estado, aquilo que me pareceu ser o prenúncio de uma ligação afectiva. Yufku jantava tranquilamente no pequeno restaurante que eu recentemente frequentava. Foi a primeira vez que vi a jovem japonesa. Era atraente embora não fosse especialmente bonita. Senti uma grande curiosidade por conhecê-la. A fisionomia oriental sempre tinha exercido em mim um certo fascínio. A minha refeição tinha terminado. Após alguns momentos de hesitação e depois de pensar que provavelmente nunca mais a veria levantei-me e perguntei-lhe se lhe podia fazer um pouco de companhia enquanto terminava o jantar. Ela acedeu com simpatia. Conversamos muito. No fim ela disse que no dia seguinte partiria para Coimbra onde ficaria alguns dias. Dois dias depois telefonou-me. Como no dia seguinte começava o fim de semana resolvi ir passá-lo a Coimbra. Coimbra ficava a cerca de 120Km da cidade do Porto na qual eu vivia. Estava um lindo dia e almoçamos prolongadamente sob o sol de Março numa esplanada na praça central da cidade. Regressara a minha adoração pelo sol e eu sentia-me a absorver a sua energia durante as horas que passaram enquanto conversávamos e comíamos. Caiu-me como um bálsamo. Entretanto, também me apercebera de algo que por um lado me agradava e por outro me deixava interrogativo e com uma sensação de estranheza: a enorme profusão de jovens de outras nacionalidades na cidade. Pelo que eu sabia isso não era habitual; ainda estivera em Coimbra poucos anos antes e nunca tinha notado esse cosmopolitismo. De qualquer forma senti-me muito feliz durante essa tarde soalheira compartilhada com Yufku. Já era o fim da tarde quando me dirigi ao hotel para dormir apenas duas horas. Na noite anterior não dormira e sentia-me cansado. Depois que Yufku e uma sua amiga me acordaram, levantei-me sentindo que o meu sono fora insuficiente e que não estava completamente recuperado. Sentia necessidade de me recompor para estar fresco e com bom aspecto para a ceia que se iria seguir. Intuitivamente, enchi a banheira de água muito quente e deixei-me afundar encolhido numa posição fetal. Esqueci-me de respirar. Foi como se mergulhasse numa espécie de inconsciência enquanto a água e o calor regeneravam o meu corpo. Não sei estimar quanto tempo decorreu. A seguir, emergi e tomei um duche de água fria. Quando vi o meu reflexo no espelho fiquei admirado: estava rejuvenescido e com um aspecto radiante. Interiormente também me sentia cheio de frescura e vivacidade. Saltitei ao encontro das minhas amigas. Tivemos uma noite encantadora ceando e ouvindo lindas músicas de fado. O serão terminou num pequeno bar onde falei, a Yufku e a um jovem professor da universidade de Coimbra que conhecêramos na casa de fados, sobre alguns dos projectos, no domínio da tecnologia electrónica e da informática, que estava a desenvolver no meu escritório. No dia seguinte, iriam começar a emergir, do seu estado latente, as minhas pequenas fobias ainda não resolvidas e que vinha carregando há anos. Depois do pequeno almoço decidi dar um passeio, a pé, pelo centro da cidade. Sentado junto à fonte, na praça central, Eric soltava acordes maravilhosos do seu violino. Eu e Yufku tínhamos conhecido este músico escocês no dia anterior, ali naquela mesma praça. Ouvi-o durante um longo tempo. Quando terminou, Eric levantou-se e veio cumprimentar-me. Após alguns momentos de conversa eu reparei que a bateria do meu telemóvel estava descarregada e que esquecera o carregador no escritório, no Porto. Decidi ir lá buscá-lo e convidei Eric para me fazer companhia e conhecer o escritório da minha pequena firma de que eu tanto me orgulhava. Iniciamos a viagem pela auto-estrada que liga estas duas cidades. Eric pediu-me para conduzir com velocidade moderada porque as estradas estavam perigosas. Curiosamente, recordei-me de duas ocorrências estranhas quando fizera a viagem para Coimbra: era noite e enquanto conduzia tinha passado por mim uma fila de automóveis que, aparentemente, viajavam em conjunto. Algum tempo depois, mais à frente, aproximei-me de um novo conjunto de carros que talvez fosse o mesmo. Como o primeiro pareceu-me que se moviam em grupo. Eu seguia alguns metros atrás e tive a sensação de presenciar um acontecimento estranho. Quando o grupo de automóveis se acercou de um condutor solitário, alguns ultrapassaram-no, outros mantiveram-se a par e os restantes deixaram-se seguir atrás. Mas todos se aproximaram perigosamente desse condutor. Mantiveram-se nesse “jogo” durante algum tempo, cercando o automóvel. A dada altura pareceu-me que esse automóvel se movia de forma algo descontrolada e temi o seu despiste. Aproximei-me e fiz sinais de luzes. O suposto grupo de automóveis pareceu dispersar-se e, finalmente, ultrapassei-os julgando que tudo fora imaginação minha e esquecendo o incidente. Mal tinha terminado estas recordações e deparámos com um acidente na auto-estrada. Tudo indicava que acabara de ocorrer. Parecia ter sido um despiste pois via-se apenas um automóvel voltado ao contrário na borda da estrada. Sobre a relva, junto ao carro, estavam dois corpos. Mais à frente vi que dois automóveis encostavam e paravam. Também fiz o mesmo e dirigimo-nos, a correr, para o local do acidente. Um dos indivíduos estendidos sobre a relva estava morto e o outro parecia estar a morrer. Tinha espasmos muito débeis, parte do crânio estava ferido e a cara estava ensanguentada. Aparentemente, já tinha perdido a consciência. Havia um terceiro homem entalado dentro do carro que me pareceu não ter ferimentos tão graves. Assim, voltei a acercar-me daquele que me pareceu precisar de um auxílio mais imediato. Talvez por, nessa altura, me encontrar num estado de ser um pouco superior ao estado comum e um dos atributos desses estados ser a maior tendência para amar, não tive hesitações. Ignorei o sangue e outras secreções que escorriam do rosto do moribundo e fiz-lhe respiração boca a boca. Ele não reagia, tinha a faringe bloqueada impedindo-lhe a entrada de ar. Corri ao carro e vasculhei a mala à procura de algo que me pudesse servir de tubo. Finalmente encontrei um spray tapa furos e arranquei-lhe o tubo de plástico. Corri de novo para o ferido e entubei-o, desbloqueando-lhe a faringe. O ar já circulava, porém após várias insistências ele não dava sinais de recuperar a respiração e o seu coração parecia ter parado. Uma jovem médica aproximara-se e eu pedi-lhe que lhe continuasse a fazer respiração boca a boca enquanto eu lhe massajava o coração. Com uma expressão que traduzia alguma repugnância, o que agora compreendo devido ao estado do rosto do moribundo, respondeu-me que não se sentia capaz. De qualquer modo, fez-lhe massagens cardíacas enquanto eu lhe continuava a fazer respiração artificial. Os nossos esforços resultaram infrutíferos. Só haveria uma coisa a fazer: estimular o coração com choques eléctricos, usando um desfibrilizador, mas a ambulância nunca mais chegava. Quando finalmente chegou não trazia equipamento de reanimação cardíaca. Afastei-me frustrado e com uma triste sensação de impotência por não ter podido salvar aquela vida. Prosseguimos viagem. Paramos na próxima estação de serviço para irmos aos lavabos e tomar um café. Enquanto o tomava, pensei como era estranho que um automóvel se tivesse despistado numa auto-estrada, em plena recta e tive uma lembrança fugaz do episódio do dia anterior, quando viajara para Coimbra. Chegamos ao Porto ao fim da tarde. Quando abri a porta do edifício onde ficava o meu escritório saiu de lá um indivíduo que eu conhecia por trabalhar no café ao lado. Pareceu-me bêbedo e tinha um olho pisado. Não compreendi o que ele pudesse estar a fazer dentro do prédio. Ao abrir a porta do escritório senti um forte odor a fumo de cigarro como se tivesse acabado de lá estar alguém. Estranhei este facto e inspeccionei tudo à procura de algum indício que confirmasse a minha suspeita. Não me pareceu detectar nada de anormal mas fiquei na dúvida – “será que alguém teria lá estado?” – como não dei pela falta de nada, a única coisa que algum eventual intruso poderia ter feito, seria ter-se inteirado das actividades e projectos da firma. Passou-me pela cabeça que, como ela se dedicava às novas tecnologias, tudo era possível, mesmo a espionagem de alguma empresa concorrente. -- Maybe it’s paranoia my friend... however some people say that paranoia it’s the most accurate state of mind... very useful to survive in a crisis situation. – disse Eric. Talvez ele tivesse razão, talvez fosse mesmo paranóia minha. Por fim, acabei por pensar que tudo isso não passava da minha imaginação e fiz por esquecer as suspeitas. Pouco passava das 10 da noite quando regressamos a Coimbra. Dirigi-me à casa de fados onde tinha combinado encontrar-me com Yufku. Junto à entrada estava um cão com um aspecto horrível que nos rosnou. Subitamente, Prince, o meu lobo da Sibéria, avançou para ele e desataram os dois a correr até que desapareceram ao dobrar de uma esquina. Tentei encontrá-lo em vão. Resolvi entrar, preocupado, mas esperando que ele regressasse. Ao entrar senti o peso de uma estranha atmosfera. Foi uma sensação subliminar mas, de uma forma instintiva, pareceu-me que algo ameaçador pairava no ar. Yufku estava sentada numa mesa ao fundo com outras pessoas. Não sei se foi por ver a sua mesa cheia ou se por me sentir pouco à vontade que resolvi sentar-me com Eric numa mesa à entrada. -- Olha, chegaram os Vikings! – ouvi alguém dizer em tom zombeteiro. A voz viera de um ponto intermédio entre a nossa mesa e a mesa do fundo onde estava Yufku. Um indivíduo com aspecto de “yupie”, de cabelo curto, muito bem cortado, e envergando um fato dispendioso e de qualidade, aparentando cerca de vinte e sete ou vinte e oito anos, conversava de pé para outro indivíduo mais novo que estava sentado à mesa. Pelo tom de voz, fora ele que produzira a exclamação. Falava alto e descaradamente como se fosse o dono de tudo. E falava um pouco para todos. Existia uma certa cumplicidade entre ele e o pessoal da casa de fados, inclusive o gerente. Como se o temessem, deixavam-no falar. – O Atlan vai apanhar uma lição que não vai sair de casa durante um mês! E ria-se. – É do “Puorto”!... não é que eu tenha nada contra as pessoas do Porto... (só que não sei se gosto delas)... até é capaz de haver muito boa gente no Porto... Mas vai aprender a não se meter onde não é chamado! …
Aleathor saiu apressadamente do edifício e esbarrou em Íris. Ali, mesmo à porta do Instituto de Estudos Quânticos. — Íris! Que feliz coincidência. Ainda há pouco pensei em ti! — “Coincidência”?... que giro ouvir essa palavra da tua boca! Tu, um estudioso do aleatório e das coincidências... — É mesmo, Íris!... apanhaste-me em flagrante! — Não te preocupes... é claro que estamos todos ainda muito imbuídos da linguagem e da filosofia do velho mundo... — Sim, e ‘coincidência’ sempre foi uma palavra tão usada para definir acontecimentos... como era? ah, sim – “frutos de mero acaso”! — exclamou Aleathor em tom reflexivo. — E pelos vistos não há mesmo coincidências, não é Aleathor? — interrogou Íris fitando-o com um olhar maroto. — Sim, na verdade, cada vez me convenço mais de que está tudo interligado. — E tens avançado muito nas tuas investigações?
— Sim, bastante. Ainda hoje combinei passar a tarde com Kérík para estudar a sua forma de pintar o aleatório... Mas, já que estás aqui, porque não vamos tomar um chá? Conheço um local aqui perto que tem uns bolinhos de canela!... — disse Aleathor esfregando as mãos de prazer ao imaginar a iguaria. — Excelente ideia! Adoro bolos de canela! Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (6) A pequenina e acolhedora casa de chá ficava apenas a dois quarteirões, em frente ao frondoso jardim do lago verde. Tinha um nome pitoresco. Chamava-se “La Palissade”. “Oh, ainda por cima com música de ‘Oskorri’ a tocar!...”, pensava Íris enquanto entrava naquele ambiente forrado a cores pastéis, “divino! simplesmente inacreditável...” — E então, Íris, conta-me: como vai o teu “Princípio da Certeza”? — Ah, o princípio da certeza... cada vez com mais possibilidades, mas cada vez também com uma maior quantidade de hipóteses a testar... mas vai bem. Sabes, Aleathor, vou fazer um pequeno retiro para a minha cabana da floresta. Inspira-me trabalhar lá!... é lá que irei prosseguir a minha pesquisa. — Sentes uma conexão com a natureza cada vez maior, não é?
— Sim. Principalmente com algo que está subjacente à própria natureza... mas que é anterior a ela. E que emerge através dela. — O quê, Íris? — perguntou Aleathor com uma súbita curiosidade.
—
Não sei bem... sinto que é algo anterior a tudo. Até ao próprio Deus e
aos deuses... Sinto que é algo que tem uma natureza selvagem e indomada.
Primordial e antiquíssima. Mas que ainda existe!... — Alguma espécie de consciência? — Não será bem isso. Talvez antes uma espécie de “consciência” amorfa, ou uma “consciência inconsciente”. Algo que tem a ver com o Caos. Um Caos primordial, subjacente a todas as coisas... — Caos? — Sim... Bem, já vi que isso te “toca”!... — Claro que sim!... Poderá ser isso a fonte da aleatoriedade? Poderá ser isso que está na base da dinâmica aleatória presente no “ruído” do tecido da existência? Poderá ser essa a fonte de todos os fenómenos aleatórios?... que se processam por toda a parte e a todo o momento no universo? — o interesse de Aleathor tinha sido subitamente despoletado. Há vários anos que a sua maior ambição era descobrir o segredo que estava por detrás da aparente casualidade imanente a tudo. E vinha dedicando as suas pesquisas ao desvendar do “Como” e do “Porquê” do factor aleatório da existência. Para ele, o âmago de todas as coisas residia aí. — Talvez... talvez se relacione com o aleatório. Talvez isso seja a própria estrutura de um tipo de consciência bem diferente. Bem diferente daquilo que estamos habituados a considerar como consciência. — ...talvez uma consciência constituída por elementos aleatórios — completou Aleathor reflectindo — uma super estrutura consciente, constituída por estruturas inconscientes, aleatórias... O que é, de resto, concordante com certas inferências derivadas da Teoria do Caos: embora o Caos seja geralmente encarado em termos das limitações que implica – tais como a falta de previsibilidade de um sistema – a natureza, todavia, deve empregar o caos construtivamente... ...Através da amplificação de pequenas flutuações, a natureza pode proporcionar aos sistemas naturais o acesso à inovação. Uma presa escapando ao ataque de um predador poderá usar um controle de voo aleatório como elemento de surpresa para evitar a captura. Evolução biológica exige variação genética; o caos providencia um meio de estruturar as mudanças aleatórias, fornecendo com isso a possibilidade de colocar a variabilidade sob controle evolucionário. Mesmo o processo de progressão intelectual se baseia na injecção de novas ideias , e em novas formas de conectar ideias antigas. Os indivíduos que possuem grande criatividade inata devem possuir um processo caótico subjacente que amplifica, selectivamente, pequenas flutuações aleatórias e as molda em macroscópicos e coerentes esquemas mentais que são experimentados como pensamentos. Em certos casos, estes pensamentos podem ser decisões, ou aquilo que é percebido como o exercício da vontade, do querer, do arbítrio. Através deste prisma, é o Caos que fornece um mecanismo que permite o livre arbítrio dentro de um mundo governado por leis determinísticas... ...Mas, Íris, como obtiveste a ideia de que esse “algo”, que sentes ser subjacente e anterior à própria natureza, possa tratar-se de um tipo de consciência, ainda que muito diferente da nossa? — Não sei bem. Sinto-o intuitivamente. Principalmente depois de algumas experiências pessoais que me fizeram entrar em conexão com o âmago da natureza. — És fortemente intuitiva!... e sentiste mais alguma coisa? — Sim, senti que é como uma espécie de força. Algo com uma tonalidade acastanhada indefinida. Senti que é uma “consciência” pouco interventiva. Tem uma natureza mais passiva que activa... e, contudo, age. Possui uma dinâmica: actua, emerge. E, apesar de me parecer tratar-se de uma consciência amorfa, sinto que nada lhe “escapa”, que nada lhe é incompreensível. Mesmo consciências como a nossa. — Fala-me dessas experiências. — Bem, vou referir-te apenas uma: Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (6) Ocorreu numa fase em que eu estava num estado de alta energia pessoal. Apesar disso, naquele momento estava muito fatigada. E o sol já se tinha posto...
Como me encontrava na orla de uma pequena floresta, deixei-me conduzir por uma subtil intuição para o seu interior. O que me movia eram duas necessidades instintivas: a de me restaurar fisicamente e a de me fundir com a própria Terra. Eram não só uma necessidade, mas um desejo profundo, muito profundo. Quando me encontrei em frente a uma zona de ervas altas e densas, a minha empatia com a “alma” da terra era já muito grande e senti que, naquele momento único, eu seria capaz de me fundir, sem medos, com aquela essência obscura e misteriosa da qual toda a existência tinha surgido. Deixei-me cair... E afundei, de costas, na profundidade das longas ervas que pareceram engolir-me na escuridão. Uma poalha de chuva muito fina pousava suavemente acariciando-me a face. Vislumbrei ainda algumas estrelas no céu distante que desapareceram rapidamente nas trevas que me envolveram... E mergulhei na inconsciência total. Tão total quanto tranquila. O vazio de tempo decorrido seria impossível de determinar. Era um tempo sem Tempo. ... Regressei à realidade de uma forma instantânea, imediata: senti, junto a cada um dos meus ouvidos, o sibilar de uma serpente — e levantei-me de um salto automático e assustado. Em dois ou três passos rápidos afastei-me do local. Olhei para lá, mas tudo parecia estar envolto na mesma tranquilidade. Era noite profunda. Sentia-me estranhamente revigorada e detentora de algo diferente dentro de mim. Algo muito poderoso, mas incognoscível. Não consigo saber o que se passou nesse “entretempo”. Mas sentia-o. Sentia que mergulhara no âmago de algo inimaginável. Algo anterior ao próprio tempo. Anterior a tudo. Mas que tudo permeava... Estava, ou continuava a estar, imperceptivelmente em todas as coisas. Tão indefinida e suavemente como uma sombra invisível. E senti a sua natureza amorfa, indomada, selvagem. Não era uma natureza “má”. Era apenas selvagem, agreste... ...eu é que me assustei com aquele sibilar. Talvez porque senti que a minha natureza era mais frágil do que aquele “gear”, do que aquele “movimento” lento, imperceptível, mas poderoso e indomado... — “Gear”? — Foi a palavra que me surgiu para descrever, de algum modo, a sensação que obtive daquele tipo de “vida”... “gear”, como se fosse o movimento lento, mas poderoso e imparável da lava vulcânica... Assim como me surgiram as palavras “Geo”, “Geos” e “Geus”, para designar aquela “natureza”. Tinha realmente algo a ver com ‘caos’, mas com um caos de alguma forma “consciente”... é muito difícil tentar definir o indefinível! — concluiu Íris.
E poderá ser a fonte daquilo a que chamo a Linguagem Aleatória da Existência. Talvez seja o aleatório, esse factor de imprevisibilidade, que possibilita a vida > ao conferir-lhe uma dinâmica de liberdade. Sem a qual, de resto, creio que tudo seria determinista. E portanto, não existiria vida, pelo menos tal como a entendemos... Talvez existissem apenas “máquinas” ou “peças de relógio”. Mas vamos recapitular um pouco sobre as origens, na física, do comportamento Aleatório:
Pensava-se que somente uma teia constituída por uma enorme quantidade de sub-unidades ou elementos causais poderia originar comportamentos deste tipo. Porém, este ponto de vista foi alterado recentemente: descobriu-se que sistemas simples e deterministas, com apenas alguns elementos, podem gerar comportamento aleatório! A aleatoriedade é imanente e fundamental – e não é a acumulação de uma maior quantidade de informação que a faz desaparecer. A aleatoriedade gerada por esta forma – como por exemplo através dos atractores e fractais – começou a ser designada por caos. Um aparente paradoxo é que este caos é determinista, gerado por regras fixas que não envolvem em si quaisquer elementos de acaso. Em princípio o futuro deveria ser completamente determinado pelo passado, mas na prática acontece que pequenas incertezas são amplificadas, e assim, não obstante o comportamento ser previsível a curto prazo, ele torna-se imprevisível a longo prazo.
Mas existe alguma ordem neste Caos: Subjacente ao comportamento caótico surgem elegantes formas geométricas que criam aleatoriedade do mesmo modo que o faz um “croupier” ao baralhar um jogo de cartas ou um pasteleiro ao misturar a massa dos bolos. A descoberta deste caos originou um novo paradigma na criação de modelos científicos. Por um lado, implica novos e fundamentais limites na aptidão de fazer previsões. Por outro lado, o determinismo inerente ao caos implica que muitos dos fenómenos aleatórios são mais previsíveis do que já alguma vez se pensou. Muita da Informação aparentemente aleatória colhida no passado – e posta de lado por ser considerada demasiado complicada – pode ser agora explicada em termos de leis simples. O caos permitiu encontrar ordem em sistemas tão diversos como a atmosfera e a meteorologia, o gotejar de uma torneira, e o coração. Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (6) Deixa-me mostrar-te a análise que fiz a um trabalho realizado por um grupo de investigadores constituído por Crutchfield, Farmer, Packard e Shaw e que está relacionado com as minhas pesquisas, apesar de não coincidir completamente com o objecto da minha procura... Mas como o trabalho que te vou mostrar se baseia na Teoria do Caos e no seu desenvolvimento fundamental — os atractores, é melhor fazermos aqui um pequena revisão para melhor compreendermos o alcance desse trabalho e, principalmente, para atingirmos o significado dos resultados do meu próprio trabalho de pesquisa que te mostrarei a seguir. A Teoria do Caos faz parte de um recentíssimo ramo da ciência que se chama Ciência da Complexidade. Ou seja, o estudo da complexidade constituiu-se, finalmente, como uma ciência em si mesma. É claro que a teoria do caos está também relacionada com a área da matemática que estuda as probabilidades, as variáveis aleatórias e os processos estocásticos.
E observemos agora a análise sobre o tal trabalho de que te falei:
Por vezes acontece que alguns dos pontos regressam à proximidade das suas localizações iniciais, causando um breve ressurgir da imagem original (48 e 241)!... É claro que a transformação exibida aqui é especial já que o fenómeno da “recorrência de Poincaré” (como é designado em mecânica estatística) ocorre com muito mais frequência do que é usual na realidade. Numa típica transformação caótica a recorrência – o retorno à origem – é muitíssimo rara, ocorrendo talvez uma única vez no tempo de vida do universo. Na presença de quaisquer flutuações de fundo o intervalo de tempo entre recorrências é geralmente tão longo que (se supõe) que toda a informação acerca da imagem original é perdida. ... E neste ponto eu não concordo inteiramente > como consequência do trabalho de pesquisa que eu próprio realizei e que te vou agora mostrar:
Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (6)
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