O Barbear Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Fábio Paschoal, em 10-08-2008 16:29
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Caras amigas, as mulheres. Resolvi escrever este texto para esclarecer alguns pontos em relação à vida de nós, os homens. Não quero com isso criar polêmica alguma, principalmente em relação a essa história de machistas ou feministas. Não, pelo contrário. Faço isso para unir, mesmo que de modo irônico, universos tão diferentes e tão complementares, valorizando as pequenas questões do nosso dia-a-dia. Então, lá vai:

- Vamos lá...agora a água fria...- chuá.

- Brrrrr...que frio....Isso tem de valer a pena - pobre coitado tentando se convencer de que vai ser notado, elogiado, ou até mesmo paquerado.

Agora, a segunda parte do ritual de auto-flagelação que os homens se impõem toda a manhã: a temível loção pós-barba.

Lá estava ela, naquele vidrinho azul transparente em cima da pia do banheiro. Terrível. Até parece que tinha vida própria. Era como se olhasse pra gente, e soubesse direitinho que a sua vez estava chegando... Aquele vidro chegava até a sorrir... Mais uma vez, terrível.

- É como dizia um amigo meu: mulher só reclama de se depilar porque não tem de passar loção pós-barba! Todo dia de manhã isso vinha à minha cabeça.

E eu ficava ali, pressionado pelo relógio, claro. Afinal de contas que chefe aceitaria a desculpa: chefe, atrasei porque fiquei tentando me acertar com a loção pós-barba... Sabe como é, né? Com certeza ele também sabia. Quer dizer, o meu chefe não! Ele tinha barba! Cara esperto. Talvez fosse por isso que ele era chefe e eu não!

- Então vamos lá! Força. Não pode ser tão ruim assim... - e engrossando a voz - Deixa de ser mole!

Não é questão de ser mole. Vocês mulheres se lembram de uma novela que passou há alguns anos em que um fazendeiro ficava pendurado numa árvore enquanto ia sendo despelado? Pois é... É mais ou menos assim que o negócio funciona... Tá certo que não é o corpo inteiro, mas é todo dia!

Não adiantava ficar me enganando. Eu conhecia as minhas fraquezas. E aquele vidrinho também... Nós sabíamos que mesmo eu usando "creme para peles sensíveis", "barbeador para peles sensíveis" e "sabonete hidratante para o rosto" (que coisa mais metrossexual. "Metro", hein! Prestem atenção, por favor!) eu não tinha como escapar daquela loção...

- Eu sei... eu sei...A minha loção era daquelas "sem álcool". Chega até a ser engraçado (isto é, pros outros). "Sem álcool" coisa nenhuma! Quando aquilo caía no rosto era como se todos os seus poros começassem a enrugar por dentro, todos de uma vez...

"Sem álcool"... sei... tenho certeza que aquele negócio tinha mais álcool que uísque paraguaio...

Relógio: 07:10h.

- Droga! Atrasei de novo... Tá vendo o que dá ficar aqui filosofando! Devia ter criado coragem logo!

E assim ele criou coragem, abriu o frasco sarcástico que agora já gargalhava, olhou bem fundo pra ele até se ver no reflexo daquele inimigo mortal.

Rangeu os dentes e segurou forte o vidro! E o vidro sorria. Ria. Gargalhava. E até pensava: "como são fracos os homens... me criaram, me fizeram essencial... uma obrigação para todos, todos os dias...e agora vivem subordinados à sua criação, aos hábitos e regras que eles mesmos criaram!"

E foi assim, nesse momento de confronto direto que nosso herói foi tomando uma decisão. Na verdade, uma decisão vinda de não sei onde foi tomando conta dele... E ele foi deixando... foi até gostando...

E agora era a vez dele começar a sorrir. E foi abrindo o sorriso.

E o vidro de loção foi vendo aquilo. Aquele sorriso. E foi percebendo. Foi percebendo o que estava acontecendo. E foi diminuindo o seu sorriso. Até que não sorria mais, tinha o cenho franzido.

E nosso soldado agora ria. E gargalhou. E gargalhando, virou o frasco na pia. E foi olhando de perto aquele líquido azul, carrasco vil e cruel, escorrer pro esgoto. E virou até a última gota. Abriu a torneira e lavou a pia. E ainda encheu o frasco com água até a boca. E gargalhando, jogou o vidro no lixo.

Feliz da vida, foi para o trabalho, aliviado como há muito tempo não se sentia. Pobre do seu chefe se reclamasse do atraso...

Antes de sair, profetizou, de peito estufado: "de amanhã em diante, só usarei Leite de Aveia!".

Pobre coitado. Ainda vai descobrir que esse negócio não faz tanto sucesso com as mulheres e que também arde pra caramba...


Publicado em : Crônicas, Crônicas
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