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NA TOCA DO AMIGO URSO Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Carlos Henrique Gonçalves dos Santos, em 08-08-2008 21:53
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A molecada jogava sua pelada costumeira. Seu Mangabeira que da beira do campo sempre que podia observava as partidas e o jeito de cada menino jogar, esperou que ela terminasse para se aproximar chamando todos para perto dele. Queria comunicar uma coisa. Ele gostava muito dos garotos, a recíproca também era com carinho. Terminado o jogo, reuniu-os. Costumava arrumar jogos contra outros meninos, isso por si só estimulava-os. Havia feito três experiências em campos maiores do que o campinho que estavam acostumados e constatou que errou. Ficou claro que sentiam a diferença.

Começou dizendo que havia tido uma conversa com um amigo sobre futebol e mencionado a respeito de que uma vez ou outra, reunia um grupo de garotos que conhecia para jogar um time contra. Seu amigo então perguntou se ele não gostaria de levá-los até aonde ele morava, para uma partida contra os garotos de lá. Lá havia um campinho com excelente grama, as dimensões eram adequadas para as idades deles, não precisavam nem levar bola, apenas ir. Então acrescentou que para esta partida arrumaria até um jogo de camisas pra ficar mais bonito. Só faltava marcar a data. Agora, queria saber se eles topavam a parada? SIIIIIIMMMM!!!

No dia marcado. Um domingo com cara de domingo. Ensolarado. Céu azul limpinho. Todos reunidos. Chegaram antes da hora marcada, portanto tinham que esperar. Enquanto seu Mangabeira não chegava, discutiam quem iria começar jogando. Biruba e Jerônimo pediram calma para fazer a escalação do escrete: goleiro só havia o Piolho; para jogar atrás formariam com Luizinho Português, Caveirinha, Gaguinho e Edvaldo; do meio para frente jogariam então Flavio, Edinho, Jerônimo e Biruba e na reserva ficariam Beto e Zé Urubu.

Acertada a escalação, começou uma nova discussão com relação ao número estampado na parte de trás da camisa. Cada um tinha o seu número preferido. Idealizado e sonhado de acordo com o craque de bola que jogava no seu time do coração ou então, na seleção brasileira. Se fossem distribuídos conforme a preferência de cada um, o time teria vários jogadores com o mesmo número. Então, para acabar com a confusão, ficou combinado que a escolha ficaria por conta de quem arrumou o jogo. Assim, o grupo aquietou-se e aguardou ansiosamente a chegada daquele que sem saber teria essa missão - agradável ou não - de distribuí-lo, ante aos olhos arregalados que fariam quando recebessem a tão esperada vestimenta com a numeração estampada.

Não demorou muito para que se ouvisse os brados retumbantes: “Lá vem ele!”, “Olha só, é ele mesmo!”, ninguém sabe quem começou, mas todos corriam em sua direção, ao invés de esperá-lo. Eita ansiedade! Quase que o derrubaram quando juntos chegaram. Uma confusão de vozes ao mesmo tempo. Pelo menos dava para entender que queriam saber se já podiam ir para o jogo. Mangabeira levantou um braço com a mão espalmada pedindo calma, silêncio e falou: “Pelo que vejo estão todos prontos, então podemos ir”. Aí a gritaria foi geral e começaram a caminhada em direção ao local que só ele é quem sabia onde ficava.

Quis saber a formação do time, ao qual informaram-no imediatamente, um aceno de cabeça foi suficiente para saberem que aprovava. Todos queriam tocar no assunto do número da camisa, mas ninguém se atrevia a penetrar nesse terreno. Até que o afobado e linguarudo do Caveirinha findou com a agonia pedindo que lhe desse a camisa de número cinco. Ouviu como resposta que não poderia ser atendido em tal pedido, pois as camisas não possuíam números. Ouviu-se um som de decepção geral. Para levantar o moral dos meninos, explicou que imaginou que eles realmente não iriam gostar, mas se fosse como eles queriam, ficaria numa situação muito delicada na hora de distribuí-las. Sabendo que certamente haveria discussão no momento de recebê-las, optou por trazê-las sem nenhuma estampa numérica. Para animá-los, abriu a sacola que carregava e retirou uma para mostrá-los como era bonito o uniforme que iriam usar no campo. Dessa vez o som geral foi diferente; foi de contentamento ao ver aquela belezura toda azul com os contornos da gola e da manga em branco e, ainda tinha um desenho na parte superior esquerdo parecendo um brasão, que os deixaram eufóricos e ansiosos por jogarem pela primeira vez uniformizados.

“Agora, me digam com toda franqueza, com uma camisa bonita feito essa o time merecia até um nome, vocês não acham?”, perguntou esperando idéias. “Tem toda razão. Só não sei qual seria”, o entusiasmo veio, a idéia Jerônimo não tinha. “Ah! Bota fra...” “Cala a boca Zé Urubu. Além de começar errado, já ia falando besteira”, antecipou-se Português evitando o pior. “Peraí! Tive uma idéia. Quem trouxe a camisa?”, perguntou Biruba. “Seu Mangabeira”, responderam. “Sei. Agora tira o ‘seu’ e tira o ‘manga’, o que fica?” “Fica beira.” “Que cor é a camisa?” “Azul.” “Juntando as duas palavras como fica?” “Beira azul.” “Se juntarmos as palavras e tirarmos um a, teremos um nome e uma homenagem. Teremos Beirazul Futebol Clube. Futebol nós já temos, só falta o clube. E aí gostaram?”, claro que gostaram, só não conseguiam se expressar diante da surpresa que os pegara de supetão, conforme jorrava a explicação do raciocínio. “Biruba assim você me leva as lagrimas”, agradeceu Mangabeira.

A caminhada continuava em direção ao local do jogo. No meio do caminho cruzaram com o Fernando, um jovem adulto muito amigo dos garotos, que se surpreendeu ao ver todos reunidos acompanhando o Mangabeira. Diante da cena quis saber para onde iam, após a informação juntou-se ao grupo alegando que ia dar uma força. Como eles não possuíam torcida a adesão do amigo veio em boa hora.

Adentraram por uma estrada. Não era bem uma estrada, que fosse uma rua ou ainda apenas um caminho rasgado no meio do mato; da vegetação que parecia duas paredes ladeando os alegres e brincalhões jogadores. Não era larga. Puderam perceber quando uma carroça passou por eles, forçando-os a recuar o máximo que podiam evitando assim que a roda passasse sobre seus pés.


Curioso, não havia nenhuma casa à vista. Só mato e árvores. Diversos tipos e alturas. A paisagem não era feia, pelo contrário, só que a ansiedade de chegar estava aumentando de tal maneira que começava incomodar. Isso dava para notar no comportamento, antes euforia total e agora expressões apreensivas. Agonia misturada com a expectativa do por vir. Já que olhando para trás via-se um risco no meio do mato tal à distância percorrida e para frente ainda o desconhecido.

Demorou um pouco. Minutos que parecia uma eternidade, mas finalmente se descortinou diante de seus olhos incrédulos uma visão que ficaria guardada em suas memórias para o resto de suas vidas. Eram dezenas de casas, crianças, adultos, vacas, cavalos, cachorros, e por ai vai... Tudo ficava por ali mesmo, naquele pedaço largo de terra onde essas pessoas resolveram assentar suas vidas e criar seus filhos. Mas o mais importante para os garotos estava guardado bem no fundo ao lado direito de quem entra. É assim mesmo. Pois só existia essa maneira de se chegar até ali e também de sair. Igual a um portão do quintal de uma casa. Após o impacto visual na chegada, eles procuraram com os olhinhos espichados e finalmente encontraram o campinho. Que coisinha linda; todo verdinho; do tamanho perfeito para eles; o gol feito de tronco extraído de alguma árvore, coisa que não faltava por ali, mostrava uma perfeição no acabamento que dava gosto de ver. Haviam colocado rede de cor branca, que contrastando com o verde da grama, transformava o cenário num sonho que os garotos precisaram de um cutucão para despertar, tal o deslumbramento.

O amigo do Mangabeira apressou-se numa saudação: “Até que enfim chegaram! começava a ficar preocupado achando que o amigo havia desistido do desafio”. “Que nada rapaz, os garotos estão aqui como o combinado”. E sentenciou. “Podemos começar”. Depois dessa brincadeira entre eles, apertaram-se as mãos e se abraçaram. Só depois o anfitrião conduziu os garotos para a beira do campo a fim de se arrumarem para a partida, enquanto ia ter com os seus preparando-os para o início.

Após distribuir as camisas, as recomendações feitas por Mangabeira para o time foram as seguintes: “Joguem do jeito que estão acostumados, mas não abusem dos dribles desnecessários; procurem não esculachar o adversário caso percebam que são perebas; toquem a bola com o objetivo de fazer gol; todos devem marcar para recuperar a bola, quanto mais tivermos a posse dela maior serão as nossas chances de não levarmos gol, certo?” “Ta bom, já entendemos” a resposta veio de um ou dois, mas o consenso era geral.

Chamados para o centro do campo, os garotos ficaram frente a frente com seus adversários para as considerações iniciais que seriam transmitidas pelo anfitrião: “Faremos dois tempo de 35 minutos cada, com um intervalo para beber uma água e mudar de lado no campo. Não teremos juiz, mas estarei com um apito na mão. Espero que vocês tenham o bom senso para jogar um futebol limpo, na bola, sem agressões. Caso sem sombra de dúvida marcaremos falta. Jogada desleal, com intenção de ferir, o jogador será substituído. Agora tratem de apertarem as mãos. Os visitantes têm o direito de escolher de que lado quer começar a jogar e também de dar a saída. Um bom jogo para vocês e que vença o melhor. Esperem o meu sinal para começarem”.

Nesse exato momento, somente agora que estavam prestes a iniciar o jogo foi que perceberam a quantidade de pessoas que rodeavam o campo. “Caraca mané! Nesse lugar mora isso tudo de gente?” Era Caveirinha expressando toda sua perplexidade diante de tal visão, o que corroborava em número e grau o pensamento dos demais. “Qual que é Caveira? Time famoso é assim mesmo. Aonde chega, todo mundo quer assistir os craques. Se liga aí, que o cara já vai mandar a gente começar”. Rebateu o Jerônimo querendo distrair os companheiros e a si mesmo do nervosismo que por ora pairava sobre suas cabeças. Não faziam idéia, mas, realmente estavam todos os moradores daquele lugar na expectativa de assistirem seus filhos, netos, sobrinhos, irmãos, primos, sejam lá que parentesco tivesse, enfrentar um bando de garotos vindo de um outro lugar, com a esperança de que seus pimpolhos pudessem vencê-los.

Autorizado o início do jogo. Biruba bateu na bola passando para o Jerônimo, que de primeira mandou para trás para que o time se espalhasse arrumando a melhor maneira de tocar a bola com a intenção de chegar ao gol do adversário. Suas primeiras investidas foram sem sucesso. Assim puderam observar seus oponentes quando perderam a posse de bola. O bicho não era tão feio quanto esperavam. Eles não eram tão fracos, mas estavam longe de serem chamados de time. Eram uns amontoados de garotos chutando uma bola, vigorosos e cheios de disposição. Biruba e sua turma pareciam diante daqueles um bando de vira-latas passa fome. Só que com a bola no pé e tendo espaço para raciocinar, a diferença na sabedoria com a redonda dava para se notar. Foi uma questão de tempo. O primeiro gol surgiu numa trama do ataque que o Edinho finalizou abrindo o placar e também o caminho, pois não demorou muito e lá estava a segunda estufando a rede para alegria do Jerônimo e de seus companheiros.

Parecia que o jogo ia ser fácil, se não fosse pelo detalhe que toda atenção é pouco, pois numa bobeira que deram o time da casa diminuiu, encurtando o placar. Recuperados do susto e cientes de que não estavam jogando sozinhos, voltaram a jogar com seriedade. Como o objetivo era o gol, lá estava o terceiro sendo convertido pelo Flávio, dando números ao término do primeiro tempo.
No intervalo entre um gole de água e outro, estavam fazendo conta e dando como certo que podiam ampliar o placar. Só não esperavam que a torcida que até agora se mostrava isenta, se manifestasse tão hostil. Passando por eles, alguns garotos faziam recomendações ameaçadoras: “Se vocês ganharem, vão apanhar aqui fora quando acabar o jogo”. Ou “Se quiserem sair daqui inteiros, é melhor perderem o jogo”. Ou ainda “Se eu fosse vocês não ganhava esse jogo não. Quem avisa amigo é!”.

Voltaram para o segundo tempo meio atordoados com os últimos acontecimentos. Mangabeira ouviu as provocações, mas não fez nenhum comentário a respeito. Isso deixou o time inseguro quanto a sua veracidade. Notaram que seus adversários haviam feito mudanças colocando uns garotos maiores, se passavam da idade limites ou não, isso era difícil de saber, pois quase todos eram parrudos. Além dessas, haviam feito uma outra mudança que surpreendeu a todos, colocaram no gol um adulto. Mangabeira tentou argumentar alegando irregularidade, mas calou-se diante da resposta de que se tratava de um goleiro e não de jogador de linha, portanto era possível.

Reiniciada a partida em seu segundo tempo. O time tentou jogar do mesmo jeito que estava dando certo, mas seus novos adversários haviam entrado em campo com a nítida intenção de reverter o placar de qualquer maneira. De qualquer maneira mesmo, pois, o que acontecia agora era uma truculência só. Futebol eles não tinham. Trato com a bola nem pensar. Então partiram para a força. Parecia que a determinação era para quebrar o Biruba e a sua turma. Além disso, intimidá-los afrontando-os com o propósito de fazer-lhes medo. E a receita surtia efeito. O time murchou dentro de campo e foi cedendo. Rendiam-se aos “Golias” que parecia existir toda vez que tinham de dividir uma jogada. Não tinham confiança, então não ganhavam uma. Dessa forma aos trancos e barrancos eles conseguiram diminuir e até empatar o jogo. Nesse momento a partida teve que ser paralisada. Edvaldo se contorcia em dor, atingido por um dos brutamontes quando tentava evitar o empate. Todos estavam ao redor do amigo, preocupados, quando o Fernando que a tudo assistia sem se manifestar, chegou junto aos garotos como se fosse o técnico do time. Veio incentivá-los. Instigando-os. Acima de tudo, garantindo que ninguém ia apanhar de ninguém se eles ganhassem o jogo e que eles iam sair dali do mesmo jeito que haviam entrado.

Edvaldo não tinha mais condições, entrou Zé Urubu em seu lugar. Piolho foi retirado do gol a pedido do Fernando que ocupou o seu lugar, mas antes de irem para o centro do campo para reiniciarem, o Fernando fez mais uma recomendação: “Vocês não precisam ter medo deles, toquem a bola para evitar o choque, mas quando tiverem que marcá-los sejam duros também, vão lá e ganhem esse jogo que o resto eu garanto”.
Quando partiram ainda ouviram os gritos do Fernando se dirigindo ao amigo do Mangabeira que estava com o apito, mas não apitava nada. Que de agora em diante ele ia ajudá-lo a conduzir a partida, parando toda vez que houvesse uma jogada desleal, a fim de preservar a integridade física de cada jogador. E se alguém tinha alguma coisa para falar quanto ao resultado final da partida, que falasse com ele. Fernando era um homem alto e forte. Deu para todos notarem quando retirou a camisa, mostrando que seus músculos estavam em plena forma, além disso, era um excelente jogador, diferentemente do goleiro deles que só tinha estatura. Os garotos adoraram e se animaram com a demonstração de valentia do amigo.

Reiniciaram a partida tratando logo de colocar em prática as recomendações do Fernando. Quando dava tocavam a bola e tentavam marcar logo um gol, mas cadê que conseguiam, os grandões não davam espaço. No corpo a corpo era difícil de ganhar uma. Na dividida a coisa já se equilibrava devido à disposição que o grupo apresentava. Lá atrás a defesa se virava. Principalmente agora que contavam com o reforço do goleiro, que além de defender tudo, ainda se colocava como um último jogador na tarefa de inibir o ataque adversário. Impunha respeito e limites.

Sendo esperto e bom jogador, a reposição da bola em jogo era um passe que se transformava num contra ataque. Para isso bastava se deslocar da marcação. Foi exatamente o que Biruba fez. Correndo do meio para esquerda para receber livre, a bola viajou da mão do Fernando para a sua direção. Ele sentiu pelo barulho vindo do chão que não demoraria muito alguém estaria em cima dele para destruir a jogada. Só que o algoz se surpreenderia. Em vez de dominar a bola dando-lhe chance, Biruba se deslocou para o lado. Saiu da direção da bola, fazendo um cento e oitenta graus, deixando-a seguir. Passaram os dois pelo marcador, sem que ele conseguisse alcançar a ambos, que se encontrariam logo após o drible de corpo. Deu seqüência com um toque rasteiro no canto sem condições para qualquer tipo de reação do goleiro. Configurando um novo marcador para desespero e silêncio geral. Todos correram para comemorar com o Fernando, que após recebê-los, imediatamente recomendou garra com um gesto de punho fechado, antes deles se colocarem prontos para o novo início.

A partir desse momento o jogo ficou ainda mais duro. Os parrudos queriam o empate a qualquer custo, mas, respaldados pela atitude e garantia do seu goleiro, Biruba e seus companheiros jogavam também com vontade e determinação para pelo menos honrá-lo. Ninguém chiava. Ninguém sentia dor. Todos tentavam detê-los usando das mesmas armas. De vez em quando não conseguiam, aí eles esbarravam na muralha intransponível que havia se constituído a presença do Fernando.

À vontade deles se transformava em ansiedade; Que se transformava em desespero; Que se transformava em abatimento; Que se transformava em oportunidades oferecidas aos visitantes. Já que elas se apresentavam, aproveitaram e marcaram mais dois, fechando assim a tampa do caixão. Afastavam de vez qualquer chance de alguma reação - por mais que o amigo do Mangabeira tentasse retardar o término da partida. Com oito minutos de acréscimo, finalmente terminou o jogo. Grande vitória.

Agora era evitar hostilidades e tratar de sair dali ilesos. Para isso todos correram agrupando-se perto do Fernando, que se posicionou à frente se encaminhando para a saída andando normalmente, mostrando que nada temia e que aqueles meninos estavam sobre sua guarda. Mangabeira também veio se juntar ao grupo, seus olhos fitavam o anfitrião demonstrando lamentar a saia justa. Passavam bem no meio da rua retornando ao mesmo caminho que haviam tomado para ali chegar.

Alguns pequenos tinham em sua mão algo que certamente era para jogar quando esse momento chegasse. Não era pedra, parecia barro, mas olhando melhor puderam perceber que na verdade era uma bola feita de estrume. Ainda bem que os adultos não permitiram. Se fosse pela vontade deles, frustrados por ver aquele bando de esquálidos vencerem seus amigos e parentes, para reconfortá-los, seria ótimo se pudessem jogar aquele monte de estrume e fazê-los saírem dali sujos e fétidos.

Fernando foi puxando o grupo que ia se retirando em silêncio, assim como todos que os observavam. O momento era muito delicado, um ruído que fosse poderia desencadear uma catástrofe, podendo até provocar correria e aí, a chuva de bosta seria inevitável. Andavam colado um ao outro. Doidos para chegar na saída. Que a essa altura parecia que estava do outro lado do mundo, mas finalmente chegou.

Passados uns minutos de plena aflição para se ver longe daquele lugar, quando se encontravam a mais de meio caminho, já bem distante do local da partida, foi que puderam relaxar. Aí o falatório, a gritaria, as vibrações, as gozações começaram e parecia que não teria fim. Biruba provocando o amigo perguntou: “Gaguinho, é verdade que o Fernando sofreu pensando que estava sentindo o cheiro de bosta de vaca lá no gol, mas, o cheiro vinha de você que tinha borrado as calças com medo dos caras?” “ Que... que... que borrado coi... coisa ne... ne... nenhuma, pode oooolhar aqui atrás que... que... que eu to lim... limpinho, eu sou é...” “Ta bom Gaguinho a gente já entendeu, era só uma brincadeira, mas já o Zé Urubu tremia que nem vara verde de tanto medo quando teve que entrar no jogo” “ Medo é o cassete, eu tremia era de raiva! Eu tava doido pra dividir uma bola com um deles, pra mostrar o meu pé de ferro. Lembra daquele russo? deve de ta com o pé doendo até agora”.

Quando saiam finalmente do caminho podendo verdadeiramente se sentir em casa, daí para frente começaria a se dissipar o grupo, indo cada um para sua casa levando a lembrança inesquecível daquele dia, Fernando se posicionou à frente deles, pediu que o escutassem e falou: “Meninos, hoje vocês demonstraram nesse jogo, além do espírito guerreiro e da vontade de vencer, que truculência, covardia, armadilhas, intimidações, não fazem e nem podem fazer parte do jogo de futebol. O que deve prevalecer é a pratica do velho e bom futebol e a amizade; amizade que vocês tão brilhantemente mostraram e que eu espero que continue por longo tempo. Parabéns pela bela partida. Sempre que precisarem podem contar aqui com o amigo. Nos vemos lá no campinho, até mais então”. E partiu deixando umas sensações prazerosas, reconfortantes, uma mistura de paizão, tiozão, anjo da guarda, algo que os meninos experimentavam, mas não definiam e para que? Bastava saber que ele existia. Até Mangabeira sabia que foi preponderante sua presença junto aos moleques naquele dia. Guardou silencio quanto a qualquer comentário e apenas desculpou-se pelo sufoco que haviam passado, prometendo arrumar um outro jogo com melhores condições. Também se despediu avisando que depois passava lá no campinho para vê-los jogar.

Como estavam prestes a se separarem, uns já até haviam se cumprimentados para vazar, Jerônimo resolveu brincar: “Bola pro mato, que o jogo é de campeonato”, Edvaldo rebateu: “Se o campo for de grama bem verde, melhor mesmo é a gente enfiar bola na rede”, Luizinho emendou: “E se for no campo do adversário a jogada, um a zero é goleada”, então Biruba caprichou: “E se eles endurecerem mandando porrada, saem de perto do Gaguinho, que o cheiro forte é de sua calça borrada”. Mas não deram nem tempo – que com certeza demoraria se fosse uma resposta – cada um correu na direção de casa, com o Gaguinho falando, ou pelo menos tentando, um monte de palavrão, já com uma vareta na mão doido de raiva querendo acertar um, fosse quem fosse. Só que a molecada as gargalhadas já tinha passado sebo nas canelas e assim ficava muito difícil para ele.


Publicado em : Literatura Juvenil, Contos
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Comentários (3)
Postado em Aline Pottier, em 27-08-2008 18:09, , Membro Registado
Adorei a sua história! Li com prazer e temerosa de que acontecesse um massacre no final! Muito bem escrito, você faz a gente imaginar cada personagem, os mais engraçados então, me diverti muito com eles. Diverti-me mesmo lendo essa história sobre futebol de várzea. Você é um excelente escritor! 
Um abraço, 
Aline
 
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Postado em elianemuniz, em 26-08-2008 11:43, , Membro Registado
É sempre muito bom poder compartilhar as aventuras dessa garotada, ainda mais com uma maneira tão própria e tão intensa de escrita. Parabéns!
 
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Postado em Fátima, em 19-08-2008 23:06, , Membro Registado
Lindo! Joguei futebol junto com eles. É uma história e tanto. Bjim!
 
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