Aqui, o tempo e as horas estão parados. Os ponteiros do relógio de parede pararam exatamente às três da tarde. Quando da hora em que calara o som do coração. Ouvem-se as rezas; o pêndulo de aço da igreja a marcar o referido horário; o mar enfurecido quebrar-se num salto de braço; sente-se o calor da tarde prosseguir eternamente, e o vidro do esquife embaçado. Horas se deram antes que viesse o vôo noturno; toda a calmaria do fim estava estampada em seu rosto..
A festa corria pela rua afora, adentrando em parte no recinto triste, onde pais, irmãos, primos e amigos já choravam. Os apitos, os sons, os uivos, as músicas. O carnaval barulhento se dava em ruídos que alcançavam toda a extensão da rua.
O médico a desenganava; as amigas torciam toalhas encharcadas sobre sua testa suada e limpavam-na do sangue que brotava de seus orifícios. O relógio avançava mais para as três da tarde. Ninguém sabia ao certo em que horário o fato se daria. Era o inevitável. O inevitável que acontece na vida de todos nós.
A febre que ardia sobre a sombra do que era uma mulher era a prova disso; bem como o sangue, o suor, o visgo, o pêndulo na igreja e o tempo; a marcha tardia ou acelerada dos ponteiros do relógio de aço. O vidro agora está embaçado, permitindo a visão turva do seu rosto recluso no esquife.
É o mesmo carnaval que corre pela rua afora; são os mesmos prantos que choram por dentro do recinto às três da tarde; é o mesmo mar agitado, os mesmos alaridos. Para ela, vestida de negro, no esquife luxuoso, o mundo fora interrompido às três da tarde, eternamente.
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