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| ESA #21 - Sem nenhuma explicação |
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Erick não conseguiu dormir, portanto pegou sua câmera e deixou o quarto no meio da noite, dirigindo-se para a área externa do saguão do hotel. Até que estava uma noite agradável, mesmo sem estrelas no céu. A brisa fria gelava a ponta de seu nariz.
Fotografou as luzes do pequeno caminho de pedras que marcava a praça de alimentação e que naquela noite, vazio como estava, tinha um ar triste de solidão. Não demorou muito para se cansar, porque não estava em clima para fotografar nada. Sentou-se em um dos bancos próximos ao quiosque da sorveteria do hotel. Dali podia ver o lago vazio e escuro. O horizonte perdia-se em meio às montanhas, e havia um pouco de neblina ao longe, cercando todo o lago. Tinha ficado trancado no quarto até então e nem tivera oportunidade de ver como o local era até que bonito e agradável. Talvez se esperasse amanhecer, pudesse tirar boas fotos do lago e das montanhas... não que quisesse ficar parado tendo que lidar com seus pensamentos. Sentia-se a pior pessoa do mundo, aliás, sabia que era algo próximo disso, porque como André mesmo dissera, era um perdedor e passava longe de ser a pessoa mais correta do universo... mas aquilo era um martírio! Normalmente, não sabia muito o que queria, mas tinha certeza das coisas que não queria... só que agora não sabia mais, e isso estava consumindo-o por dentro. Esses pensamentos nada tinham a ver com o episódio que acontecera dentro do quarto horas antes, mas sim, com o que vinha acontecendo em sua vida. Desde que sua mãe entrou em estado de coma persistente, só conseguia pensar uma coisa: queria fazer com que o relógio andasse para trás e tudo voltasse a ser como era antes. Essa sensação piorava a cada dia... cada dia que passava, era mais um dia que o relógio tinha andado pra frente. Um sinal de que não ia voltar para trás nunca. Droga. Talvez André tivesse razão e ele fosse só um boyzinho mimado procurando chamar atenção. Mas se fosse realmente isso, porque tinha sempre vontade de desaparecer? De explodir e nunca mais precisar existir... seria bem mais fácil do que ter que assumir os fatos. Estava preso, encurralado... e tudo o que queria era voltar para sua casa, para sua vida... a vida que tinha antes disso tudo. Mas nunca mais teria aquela vida de volta. Estava tudo diferente e era irreversível: sua mãe estava morta, Gregory o havia mandado para bem longe e, como se não bastasse, seus amigos desapareceram do mapa. Nem um e-mail recebera deles. Todo mundo seguia adiante em sua vida, por que ele não conseguia? Certo... não ia mais pensar nisso porque não adiantava nada e não levava a lugar nenhum. Ia fazer como prometera para Sueli: ficar longe de confusão. Na verdade não ia para lugar nenhum e nem levantaria daquele banco enquanto não amanhecesse e tirasse boas fotos. Era isso e ponto final. Tinha que aceitar a merda de vida que fora reservada a ele. Sem essa de ficar olhando para trás, querendo voltar no tempo. Apertou a mão direita, onde usava a aliança que fora de sua mãe no polegar. Não dava mesmo pra voltar no tempo... Joyce acordou bem disposta e com um bom-humor surreal aquela manhã. Nem sabia como havia dormido tão bem, mas estava se sentindo ótima. Antes de sair do quarto, tomou um belo banho, colocou uma calça jeans azul clara, sandálias de salto e uma blusinha verde queimado. Passou batom rosado e contornou os olhos com lápis e rímel. Puxou um moletom cor-de-rosa de dentro de sua mochila e colocou-se no corredor do hotel. Suspirou, sentindo-se livre! Não sabia de onde vinha essa sensação maluca, mas tinha certeza que foi porque expulsou todos os sentimentos ruins e sensações horríveis de seu corpo ontem a noite, chorando que nem uma condenada. Seu rosto ainda estava um pouco inchado, mas nem se importou. Queria tomar um gostoso café-da-manhã e olhar o lago cheio de patinhos antes de irem embora daquele local maravilhoso. Era uma pena que nem pôde conhecer as cachoeiras da cidade, que Márcio havia dito que eram lindas. Quem sabe conseguiria dar sorte de antes de irem embora, passarem em algum desses locais belos e turísticos! Animada com a idéia, cruzou todo o pátio do hotel, dirigindo-se para a área externa. O hotel estava todo em silêncio e podia ouvir os pássaros cantando, maravilha! Ainda era bem cedo, sete horas da manhã, mas Joyce acordava cedo todo dia para ir para a escola e no domingo não seria diferente. Abaixou-se quando chegou ao caminho de pedra da praça para pegar três pedrinhas brancas e redondinhas. Queria levá-las para casa de lembrança. Foi bem nessa hora que alguém tropeçou nela, dando um encontrão que a fez cair sentada no chão, por cima das pedras. - Ai, caramba! - reclamou. - Putz. - era Erick, que segurava a câmera com uma mão e o braço de Joyce com a outra, tentando ajudá-la a se erguer. - Desculpe, não te vi. Foi estranho para ambos se encontrarem sozinhos de novo. Ficou um silêncio esquisito entre eles, mas Joyce o quebrou com um sorriso caloroso. - Tirando fotos? - É... acabei dormindo e perdi o nascer do sol. - Você tá aqui desde ontem? - Joyce ergueu as sobrancelhas definidas. - Dormiu no sereno? - É... - deu de ombros. - Rendeu boas fotos e uma dor de garganta chata... - Oh. - Joyce fez, sem saber o que mais dizer. Queria dizer muitas coisas, mas sabia que era melhor ficar calada. Silêncio esquisito voltou a pairar entre eles. Essa estranheza incomodou Erick de imediato: não dava pra ser assim sempre, né? Parecia que estava pisando em tomates e pra onde quer que fosse, ia acabar com molho de macarrão nos pés. - Desculpe por ontem. - foi direto ao assunto que estavam tentando evitar. Joyce virou-se para ele meio assustada, com a boca entreaberta, segurando o que tinha para dizer. - Sei lá o que me deu e... - Deixa pra lá. - Joyce o interrompeu. Sorriu meio sem graça. - Deixa pra lá. - Certo... - Quer tomar café? Estou faminta. - abaixou-se e largou as pedrinhas de volta no chão, para não ter que ficar olhando para aqueles olhos azuis intensos de Erick. - Tá bem. - desligou a câmera. Dirigiram-se para o saguão onde o café da manhã colonial estava sendo servido. Comeram bolo, frutas e pão com geléia, acompanhado de chocolate quente. Aos poucos os outros hóspedes foram aparecendo. Durante o café, Erick não conseguia evitar em olhar para os lábios de Joyce. Era uma droga, mas a bem da verdade era que estava doido para beijá-la de novo. - Eu queria que desse tempo de ver uma cachoeira. - Joyce comentou chateada, dando um gole em seu chocolate quente. - Mas daqui a pouco vamos embora... não vou ver nada! - Por que você quer ver uma cachoeira?! Só tem água fria! - Ah, é besteira... quando eu era pequena minha mãe dizia que haviam fadinhas nas gotas de água da cachoeira e quando elas batiam contra a pedra dava pra vê-las. Uma vez fiquei um dia inteiro tentando ver uma... acho que fico tentando até hoje. - e riu, sem graça da história bobinha que tinha para contar. Erick largou a torrada com manteiga e ficou em pé: - Vem, eu sei onde dá pra ver uma cachoeira! - pegou sua câmera de cima da mesa. - Tá doido? - Quer ou não quer ver uma antes de ir embora? - Eu quero! - e ficou em pé também, ainda meio sem saber onde estava se metendo. - Então vamos. - segurou na mão da garota e a guiou para fora do saguão. Os dois atravessaram o caminho de pedras até que chegaram a um portão de ferro comprido e enferrujado. Bem ali havia uma escada de madeira, eles desceram por ela, cruzaram o jardim que contornava o lago do hotel e quando Joyce achou que Erick estava tirando onda com sua história boba, pararam bem em frente a uma cachoeira. - Tá, não é bem uma cachoeira. - Erick riu. Era uma pequena cachoeira, que mais parecia uma fonte artificial de piscina e que mal tinha força. Desaguava no lago, alimentando-o. Vinha por cima de pedras quadradas e não tinha nem dois metros de queda, fina, da largura de uma caixa de sapatos. - Ah, é linda. - Joyce riu e tirou as sandálias, pisando no jardim indo até a ponta do lago, ficando próxima a cachoeira filhote. Havia uma pequena parede de concreto contornando o lago, onde subiu. - Como você achou? - Tava andando por aí ontem... tem uma placa ali perto dos quiosques, avisando do jardim. - Não reparei. - Joyce parecia uma criança, brincando de pisar bem onde a borda da água se encontrava com a pequena parede de concreto que contornava o lago, equilibrando-se em uma perna só. - Acha que tem fadas? - Certeza. - riram juntos. Mas Erick achava tudo isso uma bobagem. - Mas eu se fosse você não ficava muito aí na borda, pode ser fundo... - Ah, é mesmo... mas parece ser raso... - e continuou onde estava em cima do concreto, com um pé na água. - Só parece, por causa da refração da luz. - O Sr. Fotógrafo entende de luz. - Joyce debochou e depois, distraiu-se, endireitando-se no concreto. - Será que tem peixe? - Sei lá... - ver Joyce andando na borda estava deixando-o impaciente. - Vai desce daí, Joyce. Se você cair não vou te pegar nessa água gelada, não! - Não vou cair, Erick. - riu. - Olha, um peixe, vem ver! Rápido. Erick até se aproximou, mas foi para puxar Joyce do concreto. - Você pode ver do chão, né? - Tá com medo do lago? - debochou. - Não, tô com medo de você cair aí. - É raso. - Não é. - Vou entrar lá e provar pra você. - ela subiu mais uma vez no parapeito, largando as sandálias no chão. - Joyce, tá doida? - ele a segurou de novo, pelo braço. - Deixa de ser bobo, Erick, larga a câmera e vem aqui em cima, você vai ver que é raso. - Joyce colocou as duas mãos na cintura. - Anda! - Ai, ai. - Erick deixou a câmera perto das sandálias de Joyce e subiu no parapeito, ficando do lado dela, olhou para o lago, que era translúcido, era possível ver as pedras no chão e os peixes. Por causa da ondulação causada pela pequena cachoeira, não dava para medir a distância. - Eu ainda acho que é fundo. Vai, desce. - ele foi descer, mas Joyce o segurou. - Não! Espera! - mas assim que o segurou, Joyce perdeu o equilíbrio. - Ai, socorro! E não precisou de mais. Os dois caíram para dentro do lago, formando uma onda enorme que assustou os peixes para longe. Ficaram encharcados no meio do lago, a água batia na cintura. - Viu eu disse que era raso, teimoso! - jogou água nele. - Olha só o que você fez! - reclamou. - Eu não fiz nada, você que me derrubou. - Joyce respondeu. A água era incrivelmente gelada. - Que frio! - aproximou-se da borda do lago, mas não conseguia sair. Erick adiantou-se e saiu primeiro, depois puxou Joyce para fora do lago, ajudando-a a subir no parapeito de concreto novamente, segurando-a na cintura. Joyce segurou-se a ele, para não cair de novo. Encararam-se, um bem perto do outro. Erick a beijou. Joyce amoleceu o corpo e se entregou mais uma vez aos lábios dele. Dessa vez o beijo veio gelado da água do lago, devagar e carinhoso. Todas as sensações vieram de uma vez. O gosto de suas bocas, o calor de seus corpos, a textura de suas línguas. Estavam completamente envoltos àquele momento, que era familiar até demais. Joyce não sabia por que continuava fazendo aquilo, achava até então que ninguém poderia ser melhor que André... mas Erick era sufocante... tudo nele era sufocante, como se preenchesse o que havia dentro dela. Uma vez lera em uma revista de comportamento que o beijo perfeito tinha que encaixar de forma a fazer o tempo parar... e aquele era o beijo perfeito. Erick percebeu que estava encrencado. Não era que não gostava de Sofia, até então achava que estava apaixonado por ela... mas desde ontem Joyce não saía da sua cabeça, tudo o que queria era mais um beijo... e cada vez que beijava a boca de Joyce, mais queria... tinha certeza que podia fazer isso por horas sem se cansar... E fizeram. - Ai Erick, não acredito em você! - Guta disse, sentada em sua cama, de conjunto de moletom azul claro com bordado de flores no casaco de zíper que usava por cima de uma camiseta amarela. Os cabelos presos em um rabo de cavalo. Segurando sua almofada. - Nem me fala... - Erick estava sentado de frente para ela. Calça jeans, all-star e moletom preto. Colocou as duas mãos no rosto. - Não acredito que fiz isso. - Mas e aí? O que houve depois? - Nada... eu fui tomar banho e ela também... - Juntos?! - Guta arregalou os olhos. - Não! - Erick quis morrer com a suposição de Guta. Já bastava o que estava sentindo, que não era nada agradável. - O que foi que eu fiz?! - Traiu a Sofia! - Não fala isso! - E traiu o André. - Que droga! - Mas e depois? - Guta inda queria saber, estava curiosa e dava para ver isso em seus olhos castanhos. - O que vocês fizeram? - Fingimos que nada aconteceu. Ainda fiquei de castigo de novo por causa da garrafa de vinho... e a Sueli me olhou com aquela cara horrível de desapontamento. - Mas aposto que valeu a pena! - Guta! - Valeu ou não? - Eu não sei! - Erick estava confuso. - Eu estou com a Sofia. - E a Joyce namora o André. - Que traiu a Joyce transando com você. - E a Joyce também traiu o André, ficando com você. E você traiu a Sofia. Encare os fatos! Pra quem tava me dando lição de moral dizendo que isso era horrível e que nunca ia fazer com alguém, se saiu bem, hein! - Nem brinca... eu não sei o que fazer... - Você gosta da Joyce? - Eu não sei! - Você gosta da Sofia? - Guta, eu não sei! Pare com essas perguntas toscas! - Não são toscas, são importantes. Se você gostar da Joyce, ela gostar de você é fácil... e ainda o André fica livre pra mim. - deu língua, divertindo-se com a situação. - Merda... o pior de tudo é que estou mais irritado porque depois de tudo ela ficou abraçadinha com o André a viagem toda. - O que você queria? - Menos falsidade da parte dela, né? Tava do meu lado, ainda... - Você tá com ciúmes! - Guta divertiu-se. - Não é ciúmes... - Você teve ciúmes daquele amigo da Sofia também. - Eu não! - Erick, para de negar as coisas. Você ta com ciúmes da Joyce da mesma forma que sentiu da Sofia antes, que mal tem nisso? - Não existe esse negócio de se gostar de duas pessoas ao mesmo tempo. - Por isso você vai ter que descobrir de quem você gosta e decidir com quem vai ficar! - Já está decidido, eu estou com a Sofia. - Pensando na Joyce... - Guta fez o papel de advogada do diabo. - Certo, pensando na Joyce. - Erick admitiu. - Mas eu não vou me meter com a Joyce. - Essa eu quero só ver. - Guta desafiou.
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