Esta aberta a temporada de caça a talentos, seja um colunista do site Autores.com.br| Outra digressão, outro sonho anormal |
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A escuridão despencou subitamente abreugrafando minhas retinas e neologizando minhas percepções. Seria talvez o final de outro dia, talvez uma comoção cósmica, quiçá um enteroclisma lunar. Sei apenas que esperei na cegueira, alguns décimos de sanidade enquanto a noite me penetrava ossos e cavidades. Estranhei o silêncio, a sensação abafada de submergir no escuro, vácuos intronizados em meus pensamentos perdidos. Pensei em levantar-me da cadeira mas meus pés, estes infelizes, dormiam placidamente no torpor do formigamento. Aguardei paciente que acordassem. Tanto tempo. Pus então um pé e depois o outro sobre a superfície laminada, firmei o peso nos tornozelos e plantas, escorreguei pelo assoalho molhado. Debaixo da cadeira e em torno da escrivaninha, percebi um líquido viscoso e suarento. Talvez vermelho, ou azul, ou talvez purulento, o líquido escorria das têmporas e encharcava os ventos, ventanas, escorreguei sem tempo. Teria quebrado a bacia? Ando obsecada por fraturas e imagens descontentes de meus suicídios irrefletidos. Queria apenas dormir novamente.
Entrei de vez no delírio, alisei os cabelos líquidos, escovei os dentes, arranquei-me suspiros. Havia esta voz hedionda gritando initerruptamente, odiosa recepcionista que cuspia meu nome e cargo, aos maus instintos e exprobações populínicas. Irritou-me profundamente o fato de estar subjugada por efeitos colaterais. Chovia. Outra vez. E eles continuavam a vir aos borbotões, me pediam que lhes acolhesse a podridão, que lhes resguardasse as partes pudendas. Talvez os fios aquosos que me nasciam do crânio, fossem pensamentos melífluos que já não encontravam espaço, minha exígua calota já não suportava amenidades e meu útero incandescente não parava de se esvair em bolotas vermelhas; é sangue que sempre me preenche os vácuos, vacúolos, estradas errantes que me cruzam o corpo sem caminho. Não encontrei fratura, dor nos quartos, quintos dos infernos, encontrei apenas. Reuni as pernas embaralhadas, minhas? líquidas pernas intempestivas que não me obedeciam. A minha espera um individuo, um ogro esquecido na esquina de um olhar desatento, um homem gigantesco segurando firmemente o lado esquerdo da mandíbula. Olhamo-nos desconfiados como humanos mesquinhos, inquiri sobre seus sintomas, identidades, doenças e flatulências diurnas. Dizia-me da dor súbita que lhe acometeu o peito e da voz de Deus lhe sussurrando boas vindas nos ouvidos. Sentia a sensação ambígua de estar e não estar, a passagem por dois pontos no mesmo orifício de tempo e espaço. Dissertou sobre a beatitude de não se temer mais a morte, sobre a singela alegria que respirava, outra vez, ainda mais. Disse-me sobre as pastagens e praias distantes, embeveceu-me com seu conto de fadas , sua vitória heróica sobre a morte astuta. Ao final de tudo, afrouxou o aperto na mandíbula e sorriu . Caiu aos pés do enfermeiro como uma montanha, vítima de uma síncope transformada em convulsão generalizada, sua aura pós vida se esvaindo no frio consultório e eu, feito demente, segurando a cabeça ígnea, e oferecendo meus ossos pra Cérbero do inferno. Outra vez a voz incandescente e acordo babando, mordendo o travesseiro . Ainda outra vez estes sonhos e vozes. Penso: é quase uma eternidade viver um segundo pleno. Ainda refletirei sobre isto. Mais tarde.
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