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Lágrimas de Prata - O Elenco Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Brunno, em 29-04-2008 00:37
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Edith Piaf entoava mais acorde anasalado enquanto parcas e mal feitas fotografias chegavam à imprenssa francesa. Os Estados Unidos haviam enviado um documento de cooperação tecnológica à Inglaterra, que por sua vez assinava com a invadida Polônia, um pacto de cooperação militar efetiva.

Enquanto em primeiro de Setembro Hitler avançava em território polonês pelo ocidente, a URSS cuidava para que o ganho de terras fosse contido invadindo o país vizinho pelo oriente. Duplamente conspurcada, a pequena nação erguia as mãos aos céus exclamando à Deus que lhe ajudasse.

A convocação francesa começara pelos oficiais de serviço, passando aos reservistas entre dezoito e trinta anos, terminando com uma seleção de pessoal de acordo com as profissões, portanto, jovens médicos recém saídos das faculdades ou chegados de outras terras com diplomas em engenharia eram retirados de suas casas e enviados aos Quartéis-Generais para inspeção, matrícula e envio do primeiro soldo.

Os portadores de um diploma eram imediatamente enviados para a École de Lieuteant, de onde saíam como segundos tenentes e dependendo de suas formações universitárias eram mandados às intendências ainda em construção ou direto para o treinamento de guerra.

Médicos, engenheiros, dentistas, enfermeiros, químicos e analistas de informações, eram os primeiros a ir para o treinamento de guerra. Advogados, administradores, datilógrafos, fotógrafos e jornalistas ficavam nos prédios da inteligência e começavam a trabalhar imediatamente.

Os próximos admitidos eram os voluntários, homens e mulheres entre vinte e trinta anos que tinham amor à pátria iam expontâneamente aos centros de convocação e eram inscritos nos setores mais deficientes de pessoal. Não lhes era exigidos documentos ou qualquer outro comprovante de nacionalidade. Praticamente a única coisa que tinham de fazer era falar com o sotaque francês praticamente irreprodutível para a época e pegar em armas.

Havia em Paris na década de 30 um grande número de pessoas sem qualquer documento. O país começava a engendrar algun desenvolvimento no início dos anos vinte e o emprego era o principal objetivo. Com a expanção da revolução industrial as fábricas precisavam de gente e essa gente percebeu rápido que salário era bastante importante.

Com isso desenas de pais e mães deixavam seus filhos com pessoas mais velhas e iam correr atrás da baguete de cada dia. Centenas de crianças atingiam a idade adulta sem qualquer documento ou mesmo escolaridade. Os hospitais, escolas e registros civís eram para os ricos, ou mesmo para os que tinham tempo e não precisavam da jornada de dezoito nas fábricas.

Com o advento da guerra esse turno exigiu mais tempo ainda.

Sentado num café elegante de um bairro emergente da cidade moderna, um jovem lia seu jornal calmamente enquanto degustava o resto de um café frio.

"Les amants de Paris vont changer de saison...En traînant par la main...Mon p'tit brin de chanson."

A trilha sonora era deliciosa. Ah, como ele gostaria de ter sua amante em Paris. Pensou isso em voz alta. Baixou o jornal e viu dois carros do exército cruzarem em direção a Champs Elysées provavelmente indo para o Ministério das Armas.

Emitiu um ruído de repreensão e voltou a ler seu jornal. De vezes muito aristocráticas o jovem mantinha um sorriso nos lábios por saber estar acima daquela guerra, daqueles homens e suas armas. Bastava dar alguns dias e esse tal Hitler desistiria e voltaria para sua nação de sansichas e cervejas.

Tragou o que terminava do cigarro sem tiltro, um Gauloises de embalagem azul roial e olhou com o canto do olho para a mocinha de avental que se aproximava.

__Pode, por obzéquio me trazer outro café, croissants de baunilha e biscoitos de avelã? E insisto para que estajam frescos, os últimos pareciam borracha.

A mocinha deixou a bandeja na mesa ao lado, olhou o céu nublado, inspirou fundo o ar frio e controlou-se para não dar-lhe um tapa na nuca. O que não adiantou muito, então, ela deu o tapa.

__Vai pegar você mesmo,dèbile! - e voltou com os passos firmes para dentro do café. Não sem antes ter a bunda inspecionada mais uma vez pelo rapaz.

__Gascoin! - emergiu um rugido de dentro do café, era o dono, um francês gordo e sanguíneo, de cabelos brancos e barba rala. Atarracado, mas rápido em dar golpes com a escumadeira, que levava enfiada na cinta do avental. Um Napoleão sujo de gordura - Eu não lhe pago para ficar tomando os restos dos cafés dos fregueses, seu pária!

__Levanta, rapaz! - dizia outro garçon, esse, mais amigo, americano mais velho - Se Dagod vem até aqui sabe o que acontece... - advertiu.

Com cara de enfado, monsieur Henri Gascoin levantou-se, juntou do chão uma caixa de tomates e foi entrando. As roupas mais sujas do mundo eram limpas para ele, o cabelo mais desarrumado era uma peruca de fidalgo e qualquer trabalho era extenuante no segundo dia.

Deixou a caixa onde deveria e virou-se para seu ferino chefe, dominando os tiros de óleo fervente de uma panela.

__Monsieur Dagod, quanto tempo acha que vai durar? O senhor está velho e sabe que esse hábito de comer e beber como um louco vai levá-lo ao túmulo rapidamente. Pra que se preocupar comigo?

Antes que o homem lhe desferisse um golpe na testa, o mandrião correra e escondera-se entre a garçonete e o chefe.

Era mandito ali para serviços gerais, mas principalmente porque era excepcional em promover a segurança da rua. Advindo das profundezas de um bairro de pungistas, sem pai nem mãe, morando na rua até pouco tempoa atrás, Gascoin mantinha além de bom relacionamento com os bandidos, que mantinha longe com alguma conversa, como um corpo belicoso e rápido com um faca, que espantava os mais afoitos.

Não sem antes usar sua velha estratégia de "inspetor de carteiras e bolsas". Mãos leves garantiam comida, cigarros e dinheiro para o recém adiquirido compromisso de pagar aluguel.

Um rapaz de vinte e dois tinha poucas esperanças e quase nenhum plano em 1940 na França, então, suas preocupações eram: o que iria comer, que vinho iria bebe e se iria fumar no dia seguine e se alguem ia operar o milagre para a garçonete sair com ele.

__Sair para onde, Gascoin? Por acaso vai me levar ao teatro, ou à ópera? Além do mais para "sair" de algum lugar, é preciso primeiro estar em algum lugar, e você não tem casa!

Gascoin era inteligente e de racioncínio rápido quanto exigido, era um investidor excelente, mas no momento estava trabalhando somente com investidas verbais e quando ninguém estava vendo, digitais no traseiro da garçonete.

Ela fazia que nao gostava, mas o achava atraente e atrevido, devia beijar como um francês autêntico, mas tinha de tomar jeito na vida. Periodicamente ela prococava, depois recuava, depois avançava novamente quando notava que alguma moça estava lhe sorrindo demais, e assim os dois iam.

Eram quatro trabalhando num espaço para duas pessoas. O café era pequeno e as mesas nas abastadas calçadas eram divididas entre vários estabelecimentos, então Gascoin funcionava como segurança e "inspetor de carteiras" em todos eles.

__Eu mesmo devia de pôr ao chão e deixá-lo na porta da junta militar! Assim te mandavam logo para a guerra e eu ficava livre dessa boca de monstro! - praguejava Dagod.

__Eu nao vou para a guerra! Eles não saberiam como interagir com meu ímpeto de liderança e minha capacidade motivacional seria desperdiçada...

__A capacidade motivacional dele é mandar os outro fazer seu trabalho... - resmungou Rick, o garçom com quem ele dividia apartamento.

__Por que você não sai comigo? Agora eu tenho casa!

__Você mora junto com o Rick! Eu tenho vergonha! E de qualquer modo madmoiselle Neve não nos deixa sair depois das nove da noite do pensionato.

Edith Piaf punha a prova a capacidade motivacional de Gascoin.

__Você devia mesmo se alistar - completava a moça - algumas moças do pensionato estão pensando em servir como auxiliares de enfermagem em Nice. Dizem que paga bem e que pode conseguir um bom emprego num hospital ao final da guerra - ela ficava linda lavando pratos, de saia cáqui grossa, sapatos pretos de salto baixo, blusa de lá cinza e avental.

Na cabeça de Gascoin os ingleses estavam fazendo tempetade em copo de água. Logo aquela briga iria acabar e todos votlariam para casa e seus afazeres de rotina. Nas havia motivo real para uma guerra e, se houvesse, tinham o melhor exército do mundo - bradava.

__O Nosso? Está brincando, não é?

__Ora... - encheu-se de orgulho -... Quem eles pensam que são? - batia no peito - Nós temos ninguém menos que o General Charles de Gaulle no comando de nossas tropas!

__Charles quem? - retrucou a bela - nunca ouvi falar.

Do dia 14 daquele mes de Outubro um submarino alemão torpedeava o couraçado britânico Royal Oark, ao largo da base naval de Scap Flow na baía das ilhas Orkney. Menos de um mes depois a brimeira brigada francesa era enviada para defender a linha de Maginot, fronteira com a Bélgica, deixando a região das Ardenas aberta à invasão nazista.


Publicado em : Literatura - Contos, Policial
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