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Farinha do mesmo saco Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Desafeto, em 23-09-2007 23:03
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Hoje fui às compras. Sem nada em vista para comprar, mas fui. Pra dar um passeio. Estava, enfim, animado. E nada que acontecesse tiraria o meu humor. Nada. Mas logo na entrada do supermercado, um triste (e infeliz) senhor, com seu chapéu e um saco nas costas, tentou extrair o sorriso de meu rosto.

— BOA NOITE, SENHOR!!! — desejei.

— Vai se ***, seu filho de uma ***, maldito, seu sem-vergonha... — desejou.

Gostaria de ficar ali ouvindo até o fim, mas fui entrando no mercado enquanto a voz rouca ia desaparecendo em fade-out.

Entrei no mercado. Entre uma promoção-relâmpago, anunciada pela voz mais irritante ali presente, e um calor desumano no ambiente, peguei-me pensando no que havia ocorrido. Sim, a pessoa que mais me xingou na vida foi um velho, e por eu desejar a ele uma boa noite.

E fui filosofando, esquecendo-me de onde eu estava e por que ali estava. O mundo de hoje não é como o de antigamente, embora eu só conheça o de hoje. Vivemos em um lugar em que pessoas decentes são cada vez mais raras. Quando se tem uma atitude digna de alguém honesto, vai logo aparecendo como destaque no jornal do horário nobre, na TV. O normal é ser mesmo um mau-caráter. É poder puxar o tapete de alguém e puxar, é poder roubar alguém e roubar, é poder bater em alguém e bater. É ouvir um “boa noite” e mandar o “sacana” à merda. É poder se vingar, e...

Isso foi longe. A promoção do leite, que era relâmpago, durou, no mínimo, meia hora. Tempo este que fiquei à toa. Olhando desde ração para cachorros até cachorros-quentes que eram servidos por ali, na hora. E pensando na cachorrada que me acontecera. Mas tudo bem, nada me tiraria o bom humor, e não me esqueci disso.

Fui embora. Com as mãos vazias de sacolinhas brancas. Sacolinhas que mais tarde estariam cheias de lixo, na rua, e à espera do lixeiro. Ou de, infelizmente, qualquer outra pessoa que não exerça esse ofício como uma profissão. Pois é. A duas casas da minha, lá estava ele. De chapéu e saco nas costas. No pequeno percurso que me restava, fiquei pensando no que fazer. Como me vingaria? De uma forma cristã ou como um vil morador deste mundo? Deveria dar uma ajuda financeira a ele ou dar uma lição naquele sem-vergonha? Se ele me tratou daquela forma após um simples “boa noite”, fiquei é com medo de me aproximar. E decidi que não daria dinheiro a ele. Obviamente, também não daria uma coça nele. Então me lembrei de novo do quanto estava animado antes daquilo tudo.

Fui me aproximando, quieto. E lá estava ele. Sacanearia o fanfarrão. Cheguei muito perto, sem que ele me notasse. E dei um grito que assustaria a qualquer um:

— BOA NOITEEEEE!!!

Esperando uma atitude inesperada do senhor, afastei-me um pouco. Mas não. Ele ficou imóvel, com um olhar sereno de quem certamente não me reconheceu. Foi então que, depois de olhar fixamente para ele, virei-me e continuei andando.

Errei o velho.

Publicado em : Crônicas, Crônicas
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