(Publicado no Jornal do Brasil em 1977)
(uma estrela)
O invasor alemão vai à Amazônia em busca de um Eldorado particular e realiza um filme óbvio, sem qualquer traço de originalidade. Herzog- Aguirre conduz aos tropeços, seu filme - expedição através da região hostil, arrastando seus companheiros numa aventura improvável, sob os olhares indiferentes dos nativos-figurantes, obrigados pelo conquistador a acompanhar os trabalhos. O monólogo enfiado na boca do índio é tão falso como o inglês em que é dito. Não é nada disso. A matéria-prima nos é, mais uma vez devolvida industrializada, sem gosto. Herzog até que torce pelo melhor lado e tem boas intenções, mas deveria saber que essa é uma batalha perdida já que nós, os índios, sabemos tudo sobre eles e eles não sabem nada de nós. Vê-se também que Herzog gostou dos filmes certos da década de 60, mas os travellings circulares, as câmaras na mão ou os diálogos ditos para a câmara não conseguem disfarçar a evidente limitação de idéias. O que era linguagem renovada, diluiu-se num roteiro (do próprio Aguirre, digo, Herzog) que apenas alinhava uma série de situações exaustivamente conhecidas e mal encenadas. Herzog é o aluno apenas esforçado da escola que Straub tirava de letra e é, no mínimo, triste verificar que o cinema alemão continua nas mãos dos menos talentosos enquanto Straub, provavelmente , perambula desempregado pela Europa. Rossellini, presidindo o júri do último Festival de Cannes e tendo que engolir sapos como Sauras e Altmans, prestou seu último grande serviço a todos nós denunciando aos gritos a crise em que o cinema dos anos 70 se meteu, e da qual ninguém se tocava. Herzog é a conexão alemã dessa crise e seus filmes, cheios de bons propósitos e boas ideologias, demonstram, quase matematicamente, que o importante no cinema não é ter razão, é ter talento.
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